domingo, 29 de novembro de 2009

De palmitos e lições de vida

DE BAR EM BAR - Otto

Sou daqueles que quando vai a uma churrascaria rodízio praticamente come mais palmito do que carne. Por isso, já fazia um tempo que estava para conhecer o bar e restaurante Otto. Lá é o verdadeiro paraíso do palmito. E justamente agora está rolando na casa o 5. Festival do Palmito Assado. Portanto, aqui estou na Tijuca. (Um amigo meu defende a tese de que todo carioca tem ou teve uma namorada tijucana. De fato, sou um carioca típico.)

Mas voltando ao palmito. Posso assegurar que o Otto não se esgota aí. Para começar, tem uma característica de que gosto muito: é um bar de esquina. E esquina poderosa: Conde de Bonfim com Uruguai. Pode-se sentar na varanda, pedir um chopinho e ver a vida passar em profusão. (A essa hora, meio da tarde, imperam os velhinhos. Mas há também crianças, passeadores de cachorro, marombeiros e meninas em flor.) A varanda é muito simpática. No trecho que dá para a rua Uruguai, que é onde fico, são duas fileiras de mesas de madeira com cadeiras com estofado preto. Há também uma parte interna, refrigerada e isolada com vidro fumê.

Perto de mim, há outras duas mesas ocupadas. Numa delas, um casal de seus 60 e poucos anos almoça costelinha com palmito e batata rostie. Para beber, chope. Na outra mesa, são duas meninas e um cara. Elas tomam mate e ele chope. Uma delas come um croquete do tipo alemão. As duas falam sem parar enquanto o rapaz apenas sorri, dá uns goles e, de vez em quando, atende o celular. Apesar do calor, bate um ventinho agradável.

- Quer passar um mês lá?... Quero! Passear, ir à praia, beleza. Mas prefiro essa área aqui. Queria sair do Grajaú e vir para essa região.

Se você acha que quem falou foi uma das meninas está muito enganado. Foi a senhora que está almoçando. Ela e seu companheiro são calmos e conversam articuladamente. Ela é morena, veste camiseta e saia jeans; ele, camisa pólo, calça de ginástica e sapato sem meia. Logo percebo que não formam um casal, mas que são muito amigos. Ao responder a algo que ele questiona, ela diz: “Cada um sabe daquilo que viveu.” Lembro-me de uma bela canção de Arnaldo Antunes, presente em seu novo disco, chamada Envelhecer: “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer.” Sensacional.

Bem, vamos ao palmito. Apesar de constarem no cardápio petiscos como esbein, bolo de carne e salsicha alemã, e também pratos como picanha de cordeiro, bacalhau fresco e picanha Wessel, todos acompanhados de palmito, hoje só quero saber da estrela da casa. Peço um palmito assado na casca com molho de manteiga e alcaparras. Vem magnífico. Tão bom que peço outro, agora com molho de mel (“receita primitiva dos índios guaranis”), junto com um chope preto. Ó, Deus.

Para comprovar que não basta ficar velho, mas que é preciso “dizer venha pra o que vai acontecer”, assim que os dois coroas se retiram, sentam-se outros dois, irmão e irmã, que só reclamam da vida. A prova cabal de que é preciso uma forcinha para bem viver. E também para ainda aproveitar, amigo leitor, esse festival que vai até o final do mês. Saúde e até a próxima.

Otto – Rua Uruguai, 380, Tijuca (2268-1579)

sábado, 21 de novembro de 2009

God´s praxis

1.

Os prazeres dos seres

humanos

são articulados por

memória e jogo.



2.

O esquecimento das regras

é fundamental de tempos

em tempos.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sem beijos ousados, por favor

DE BAR EM BAR - Adega flor de Coimbra


Quarta-feira à tarde. Chove. Há, nesse momento, só uma pessoa almoçando, um negão rasta com pinta de músico. Ele bate o maior papo com o garçom. Termina de traçar seu peito de frango e de beber uma taça do vinho Pérola Gaúcho, engarrafado pela própria casa, e pede a conta. Mas, antes de sair, ao ouvirmos no rádio uma notícia relacionada ao assassinato do coordenador do Afroreggae, iniciamos um inevitável diálogo. Não há como não lamentar um fato desse, entre todos os absurdos de violência do cotidiano carioca.

O negão com pinta de músico é na verdade o contramestre Urubu, que dá aula de capoeira na Fundição Progresso – e que, por ofício e alma de artista, já desviou muitos adolescentes e jovens do crime. E o bar é a Adega Flor de Coimbra, pertinho de uma lateral da Sala Cecília Meireles. Sem dúvida, é muito agradável estar aqui, uma casa portuguesa, com certeza, fundada por seu José Lourenço, em 1938, no prédio onde morou Cândido Portinari. Inicialmente como uma mercearia que vendia laranjada, sopa caseira e bolinho de bacalhau – além do vinho, naturalmente. Daí nasceu a Adega Flor de Coimbra.

Peço um chope e o garçom me explica que agora estão apenas com cerveja (“o chope tem prazo de validade, aqui a saída não é tanta, estava dando problema...”). Peço então uma Original e um bolinho de bacalhau. A casa tem dois andares. No térreo são umas 12, 15 mesas com toalhas brancas e paninhos verdes, vermelhos e amarelos por cima. Há bandeiras da terrinha, dois barris, uma adega climatizada, vinhos expostos na horizontal, quadros do Rio antigo, um painel de Nilton Bravo, o “Michelangelo dos botequins”, uma Santa Ceia lá no alto, matérias emolduradas sobre a casa, e, ainda, em total destaque, uma plaquinha vermelha que diz: “Proibido beijo ousado”.

Pergunto ao garçom José Antônio o porquê do aviso, se já houve muitos exageros. Ele diz, com toda a calma e elegância do mundo, que não, “isso virou uma marca da casa mesmo.” Bem, há tradição para tudo. O bolinho de bacalhau, por exemplo, é campeão e também trunfo do bar; comprido e fino nas pontas, é impossível comer um só. Mas além dele há outros petiscos como cabrito aperitivo, lula à doré, iscas de peixe e sardinhas portuguesas. Entre os pratos, truta com molho de alcaparras, posta de namorado com pirão e arroz e feijoada portuguesa (com feijão manteiga e carnes nobres).

Tomo um caldinho desse feijão e converso com os garçons, o citado José Antônio e o Leandro, quando reparo que já há outros frequentadores: um casal, pelo visto, discutindo a relação. Sentados lado a lado, cada um olha para o seu infinito particular, através da janela em frente. Ela, loura de cabelo encaracolado, chora. Ele, de óculos e com a frieza de um cirurgião, bebe vinho. Parece o fim. Peço uma sardinha portuguesa grelhada e a saideira. A sardinha vem ótima e com um molho delicioso. Outros casais começam a chegar. Mas, antes de partir, observo uma reviravolta: o primeiro casal está agora aos beijos. Bem que mereciam um beijo ousado. Saúde e até a próxima.

Adega Flor de Coimbra – Rua Teotônio Regadas, 34, Lapa (2224-4582)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Balada da precária solidão

(para Sylvia)

Agora faltou luz
É como se caísse um braço
Ou se faltasse água.
Em casos como esse
Espera-se que sejam dez minutos
Mas já se vão duas horas e meia.
O computador estava ligado
O som, claro, permanecia ligado
(Escutava música clássica – Chopin
Por Nelson Freire. Sublime. Ideal para transcender)
A desconexão com as tomadas do mundo agora
É total
(Só não é total porque ainda há os
Telefones não elétricos).
Parece que o blecaute atingiu vários estados
E o Brasil não é tão moderno quanto parece.
Agora há vários solitários desesperados
Porque não podem ligar a TV.
As horas são baleadas
Sem que se possa fazer nada.
Escrevo à luz de velas.
Penso em minha mulher
Que agora mora noutra casa
E tenho achado melhor assim
- Agora nos amamos mais
Com a volta de algum mistério.
Essa falta de luz
(Já que não posso tê-la)
É dedicada a ela.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

As meninas de bicicleta

(Um poema de Vinícius pra refrescar:)


BALADA DAS MENINAS DE BICICLETA

Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninadaA
os ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.


VINÍCIUS DE MORAES

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Xangô e o monstro marinho

DE BAR EM BAR - O Caranguejo

- Xangô é rei! – dispara a mulher sentada à mesa na minha frente.

Mal chegamos e algo já está rolando. Este é um bar tradicional, inaugurado em 1982, pelo qual sempre passo, mas, curiosamente, onde não vim muitas vezes (embora tenha até morado, por alguns meses, ali perto, na Xavier da Silveira). Para mim isso é um mistério. Porque aqui você pode tomar um chopinho na calçada, traçar uma empada no balcão, ou ainda comer um belo prato no salão interno – tudo na maior categoria e no clima de botequim. Estou me referindo a O Caranguejo, discreto baluarte no coração de Copa.

Decidimos, eu e S., fazer o circuito completo no salão: chope, empadinhas de entrada e mais tarde o prato. As paredes são azulejadas na cor bege, há samambaias por todo canto, vinhos nas prateleiras e alguns garçons antigos circulando pelas 10, 12 mesas. Do lado de fora, além das mesinhas de plástico com boa ocupação, junta gente em pé para ver o futebol de domingo na TV (até o distinto PM, que seguia de passagem mas agora parece estar ali ancorado, feliz com a volta do Imperador e a ressurreição de Pet).

No salão interno, há mais umas quatro mesas ocupadas além da nossa. O garçom traz as consagradas empadinhas de camarão – e, confiante, volta logo com um prato contendo quatro. As empadas fazem realmente jus à fama. São simples, leves, perfeitas. (O prato, obviamente, voltou vazio para a cozinha.)Vemos o mesmo garçom levar uma casquinha de siri, muito bem servida, para a mesa da mulher filha de Xangô. Deu vontade de pedir uma igual, mas permanecemos fiéis ao plano de comer um prato mais para a frente. Além das empadas e casquinhas, no quesito aperitivos, há outras tentações, como sopa de siri na caneca, sardinha portuguesa e anchova frita em postas.

- Ih, olha o monstro do fundo do mar!

Era um garotinho entrando com a mãe para ir ao banheiro. Só então notei – pois o meu ângulo de visão não era favorável – que há numa das paredes uma escultura de caranguejo, gigantesca, cinematográfica. Pedimos outro chope e o cardápio para escolher, enfim, a comida. Tarefa difícil. Quer ver? A preços, bem, um tanto oceânicos pode-se desfrutar de uma “sinfonia de frutos do mar”, mariscada, caldeirada, moquecas de lagosta, bacalhau ou cherne, entre outras opções. Ficamos com um proverbial mas incrível risoto de camarão. Os camarões eram graúdos, saborosos e substanciais – e ainda levamos parte numa quentinha. O caro às vezes sai barato.

Por fim, volto à mesa da mulher filha de Xangô. Antes gostaria de assinalar que havia outras possíveis personagens, como a chinesa que devorou um peixão, ou as duas velhinhas tomando chope e comendo pastel. Mas a mulher, orgulhosa de sua espiritualidade, chamava mais a atenção do que todos. Acompanhada de dois homens e duas crianças, ela discursava longamente. Porém se zangou quando se sentiu observada. Levantou-se para ir ao banheiro e fuzilou a senhora de um casal noutra mesa: “adoro quando ficam me olhando!” A senhora riu amarelo. Ainda bem que a coluna já estava pronta. Saúde e até a próxima.

O Caranguejo – Rua Barata Ribeiro 771, Copacabana (2235-1249)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma pequena teoria sobre a falta de tempo

“Deveria cortar minhas unhas dos pés. Meus pés estão me machucando há umas duas semanas. Sei que são as unhas dos pés, mas não consigo achar tempo para cortá-las. Estou sempre atrasado, não tenho tempo para nada. Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo.”

(Charles Bukowski, trecho de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Mureta, aqui me tens de regresso

DE BAR EM BAR - Bar Urca

Depois de um hiato de algumas semanas (e durante o qual, mesmo com toda a minha hipocondria, enfrentei uma estranha e potente gripe), volto, enfim, ao bar doce bar. Nada melhor para comemorar a recuperação da saúde do que um sábado de sol, uma vista deslumbrante e... uma cervejinha gelada com uns tira-gostos. Pois foi o que fiz, indo ao famoso Bar Urca.

Minha preocupação inicial era chegar lá e a mureta que separa a calçada do mar estar completamente lotada. Isto porque a “extensão” do bar, a mureta, dá de cara para o cenário cinematográfico da Baía de Guanabara e, mais ao longe, do Cristo Redentor. Então ir ao Bar Urca num fim de semana ensolarado é um programa legal, tipicamente carioca, e, por isso, inevitavelmente sujeito a uma superlotação à la Baixo Gávea. Mas dei sorte e consegui cavar meu espaço bem em frente ao estabelecimento, perto da laje onde meninos, numa algazarra total, mergulham na água como se não houvesse amanhã.

Peço logo uma cerveja Original e um pastel de camarão para abrir os trabalhos. Devo esclarecer que, se a grande cartada do bar é estar localizado num local paradisíaco e bastante seguro (pois fica colado no Forte São João), este não é seu único trunfo. Muito pelo contrário. A cozinha do Bar Urca é reconhecidamente de qualidade. Na loja, que fica no térreo, pode-se degustar acepipes fresquinhos como o pastel, a empadinha, bolinho de bacalhau, gurjão de peixe, casquinha e caldinho de frutos do mar. E, no segundo andar, há o restaurante com pratos como bobó de camarão e polvo com arroz de brocólis que fazem a felicidade do mais empedernido mortal.

O clima é de relaxamento até a chegada da polícia, que dá uma passada para dar um confere no cumprimento das posturas municipais. Até aí tudo certo. O problema é que uma certa teatralidade na execução do dever irrita os pacatos cidadãos curtindo o seu sábado à tarde. Ouve-se, à surdina, aqui e acolá: “Em vez de pegar bandido, estão aqui, cheios de marra!” “Cadê o alcaguete?” Bem, os policiais se retiram e peço meu passaporte para o êxtase gustativo: o caldinho de frutos do mar. Como que em transe, sou atiçado pela propaganda gratuita de uma bela menina que ao meu lado no balcão recomenda o quibe de peixe (“É ótimo. Quase ganhou um prêmio.”). Ainda bem que não resisti.

Eis que aparece o artista plástico Raul Mourão com o amigo Piu. Morador da área, Raul já foi mencionado numa das colunas, em Santa Teresa, como um “ilustre ausente”, e não sei por que ainda acho que ele mora lá. Falamos sobre seu atual bairro e também sobre Os Paralamas do Sucesso. Raul, que fez a capa do último CD da banda, é, como eu, um grande fã do trabalho de Herbert Vianna, Bi e Barone. Pergunto-lhe se já viu o filme sobre Herbert e ele diz que sim, e que é, de fato, comovente. Não tenho dúvida disso. Como também comove, amigo leitor, uma transcendente tarde de sol no Bar Urca.

PS: Agradeço aos que deram pela falta da coluna e informo a todos que agora ela será quinzenal. Continuará, claro, sendo um grande prazer. Saúde e até a próxima.

Bar Urca – Rua Cândido Gaffrée, 205, Urca (2295-8744)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A eterna falta de tempo

“Deveria cortar minhas unhas dos pés. Meus pés estão me machucando há umas duas semanas. Sei que são as unhas dos pés, mas não consigo achar tempo para cortá-las. Estou sempre atrasado, não tenho tempo para nada. Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo.”

(Bukowski, trecho de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ela e o passado

“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranquilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: ‘moça linda...’; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”

(Rubem Braga, trecho de A mulher e o seu passado)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Uma pequena teoria do riso

"Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba o efeito que o seu riso provoca. Tal como não sabe (ninguém sabe, aliás) a cara que faz quando dorme. Há quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros há que, embora inteligentes, fazem uma cara tão estúpida a dormir que se torna ridícula. Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso caráter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos. Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas ser alegres? A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos o caráter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de caráter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as idéias mais nobres, olhai antes para ela quando ri. Ri bem – é boa pessoa. Observai depois todos os matizes: por exemplo, é preciso que o riso não pareça estúpido, por mais alegre e ingênuo que seja. Mal decteteis a mais pequena nota de estupidez num riso, ficai sabendo que a pessoa que assim ri é intelectualmente limitada, apesar de nos expor um sem fim de idéias. Mesmo que o riso não seja estúpido, se vos parecer ridículo, nem que seja um pouquinho, ficai sabendo que não há na pessoa que o ri uma verdadeira dignidade, pelo menos a dignidade suficiente. Por último, notai que, mesmo que um riso seja contagioso mas por qualquer razão vos pareça vulgar, também a natureza dessa pessoa é vulgar, que toda a nobreza e espírito sublime que tínheis visto nela ou são fingidos ou imitados inconscientemente, e que essa pessoa, no futuro, mudará inevitavelmente para pior, se dedicará ao ‘útil’, abandonando sem pena as idéias nobres como sendo erros da juventude.”

(Fiódor Dostoiévski - 1821-1881)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

De volta ao pé-limpo original

DE BAR EM BAR - Belmonte

Fui outro dia ao Belmonte Flamengo, o original de série, com o amigo Luciano Cian. (Já há quem diga, caro leitor, que tenho um milhão de amigos. Nem tanto.) Bem, Luciano é multimídia. Ele é artista plástico, webdesigner, diretor de videoclipes e também um dos diretores do programa Fora de casa, que estreou recentemente no GNT. Ficamos de nos encontrar lá.

De longe, vejo que está cheio. Consigo pegar uma última mesa vazia, no fim do pequeno salão, à esquerda de quem entra. Há um grande movimento de pessoas, a maioria engravatada, tanto na parte interna, nas mesas, quanto em pé do lado de fora, tomando um chope depois do trabalho, às 19:30 de uma terça-feira. Peço o meu também e dou uma esquadrinhada no bar.

Parede verde-limão, quadros do Rio antigo, alguns pôsteres de cerveja, garrafas nas prateleiras, um balcão onde se pode beber ali encostado. Apesar da estética comum às filiais da rede, a matriz, menor e mais aconchegante, tem a verdadeira cara (e a alma) do Belmonte. Quando este bar foi comprado por Antonio Rodrigues, rapidamente se transformou numa febre. Isto aconteceu cinquenta anos depois da sua inauguração em 1952. Antes era um pé-sujo tradicional do bairro e depois virou aquele que é o protótipo do botequim pé-limpo.

Eis que aparece o Luciano Cian. Acaba de voltar de uma temporada de três meses viajando a trabalho pelo mundo todo. Sim, eu disse pelo mundo todo – ou quase. Para gravar os episódios do programa Fora de casa, Luciano foi a Nova Iorque, Cidade do México, Montreal, Paris, Barcelona, Johanesburgo, Windhoek, Nairóbi, Berlim, Estocolmo, Gotemburgo, Londres, Capadócia, Veneza, Cote D’Azur e Santiago. Só não foi a Moscou porque não tinha o visto. Como se não bastasse, só para nos humilhar, a mim e a você, amigo leitor, ele ainda tirou três dias de férias em Olimpus, na Turquia, com direito a volta a Paris.

- Paris é um Baixo Gávea. É lindo, mas é um zero a zero danado!

Enquanto me conta as suas impressões (“Barcelona é adolescente”; “Na cidade do México, todos usavam máscara”; “Em Nova Iorque, vi duas meninas de 12 anos sozinhas no metrô às quatro da manhã, segurança total”), pedimos pastéis de camarão e em seguida a casquinha de siri. Vieram ótimos. O único senão vem dos garçons. São muito ávidos em servir logo o próximo chope, antes mesmo que o anterior tenha acabado. Depois de umas três ou quatro vezes, com o copo ainda com três dedos, chamei o garçom jovem e moreno, mas ele, pressentindo uma bronca, escapuliu. Não tive dúvida: fui ao gerente. Tudo esclarecido, o tal garçom não mais nos serviu e o respeito ao final do chope foi observado.

Pedimos, então, uma porção de pernil acebolado com farofa. Veio excelente e bem servido. Penso no poder de uma ideia. Pois foi exatamente uma boa sacação (entrevistar brasileiras que moram pelo mundo) o que permitiu ao meu amigo Luciano Cian fazer a viagem de uma vida toda. E também com uma boa ideia, este bar matriz foi um dos que inaugurou o formato de botequim pé-limpo no Rio de Janeiro. Saúde e até a próxima.

Bar Belmonte – Praia do Flamengo, 300-D, Flamengo (2552-3349)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Blues e amendoim às segundas

DE BAR EM BAR - Bar do B


Fui numa segunda-feira dessas ao Mercadinho São José, ali no começo de Laranjeiras. Às segundas os bares do lugar não costumam abrir, a não ser o botequim que toca blues. Fui lá dar uma checada, por sugestão do meu primo Sérgio. Estou falando do Bar do B. Convidei para ir comigo o baixista do Barão Vermelho e grande amigo Rodrigo Santos.

Ao chegar, sou recebido por Bebel e Bernard – e logo fico em dúvida quem é o “B” do nome da casa. Cheguei cedo, por volta de 19:30, e o show só começaria quase uma hora depois. Enquanto os músicos ainda dão uma passada no som, tomo uma cerveja Skol long neck (a única à disposição). Como explicarei o diminuto espaço, caro leitor? Bernard, o dono, me conta com grande orgulho que se trata da “menor casa de shows do planeta.” Bar lotado seriam não mais do que 30 pessoas. Ao lado de um minibalcão, encostados na parede azul, tocam os músicos. No lado oposto fica o público, entre mesas e cadeiras coladas na banda e cadeiras altas e mesinhas redondas encostadas na outra parede. Escolho este último local.

Chega então o Rodrigo Santos, animado como sempre, eletricamente concentrado na batalha de sua carreira solo. Acabou de lançar seu segundo CD, Diário do homem invisível. Como se sabe, o Barão Vermelho está de férias por tempo indeterminado, portanto todos da banda têm de se virar. E ele está conseguindo isso de forma muito bonita. Rodrigo Santos era aquele companheiro (quase) perfeito para uma esbórnia: para ele a noite nunca tinha fim (o que depois virava um problema). Até que num estalo parou com tudo. Nem mesmo um chope. Desde então, e já se vão quatro anos, Rodrigo tornou-se um artista mais completo. Neste seu novo trabalho, há muitas músicas próprias e também algumas parcerias com Leoni, Humberto Barros, Dado Villa-Lobos e ainda este colunista (na faixa Longe perto de você, com Fernando Magalhães). Entre as participações especiais, Ney Matogrosso, Cidade Negra e Autoramas.

Músico fominha que é, fico a matutar quanto tempo Rodrigo Santos levaria para combinar uma canja com o pessoal da banda. Não mais do que cinco minutos. Músicos que se conhecem, camaradagem estabelecida, escolhem a stoneana Jumpin´Jack Flash. Peço mais uma cerveja e pergunto a Bebel o que tem para comer. Como não há espaço para preparar alimentos, às segundas o bar só oferece amendoins ou sanduíche natural. Nos outros dias, os clientes pedem comida dos bares ao redor.

Eis que surge meu primo Sérgio. Não o encontrava fazia uns dez anos, quando nos esbarramos recentemente num desses bares da vida (e da coluna). Ele me conta que aqui acontece essa noite do blues desde novembro e que se formou um público fiel. Também pudera. Os músicos Claudio Bedran, baixo, e Pedro Strasser, bateria (a cozinha do Blues Etílicos) mais Maurício Saad, vocais e guitarra, são excelentes e tudo é tocado baixinho, meio cool – mas sem perder a intensidade. Certamente, agradaria platéias de qualquer lugar. O Bar do B, que apresenta outras atrações ao longo da semana, bem poderia ser B de Blues. Saúde e até a próxima.

Bar do B – Rua das Laranjeiras, 90, Laranjeiras

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Fanfarrão faz valer a visita

DE BAR EM BAR - Choperia Vila Rica


De passagem para o centro, muitas vezes me chamou a atenção o enorme letreiro (que pode ser avistado da janela do carro ou do ônibus): “Choperia XYZ” e, principalmente, em letras menores, o desfecho da publicidade: “o melhor chope do bairro”. Pois bem. Fui lá conferir. Estou falando da Choperia Vila Rica, que fica na movimentadíssima esquina da rua da Glória com Cândido Mendes, portanto na subida para Santa Teresa.
A Choperia Vila Rica, além de bar, é também lanchonete, restaurante e pizzaria. Pelo menos é o que se promete. Na parte externa, há algumas mesinhas com cadeiras de plástico. No balcão pode-se comer um salgado ou doce. Na parte interna, tem-se o salão onde funciona o restaurante com certo clima de casa portuguesa (e, de fato, um senhor come um cozido e toma uma taça de vinho). Sento-me do lado de fora, para ver o vai e vem alucinado de transeuntes. Por enquanto, apenas uma outra mesa ocupada, ao meu lado esquerdo. São duas meninas com cortes de cabelo modernos, que tomam um mate e parecem entediadas na quinta-feira à tarde.

Peço um chope na meia pressão. O garçom grita lá para dentro: “Sai um na pressão!” E vem um chope absolutamente normal, com o colarinho ralo de sempre. Tomo mesmo assim. Para comer há porções de bolinhos de aipim com catupiry, pastéis, linguiça, picanha fatiada, carne de sol, mas prefiro não beliscar nada. Logo em seguida, chegam dois coroas e sentam-se ao meu lado. Sentam-se é modo de dizer. Eles simplesmente aterrissam no local, que não volta mais a ser o mesmo. Cada um senta numa mesa; os dois, como eu, de frente para o movimento da rua. Um, o vizinho mais próximo, pede um chope garotinho “sem colarinho” e o outro, na segunda mesa à minha direita, uma água de coco.

- Quando há uma queda de um lado, aumenta do outro, você sabe disso...

- Você não vale nada! (Pausa.) Viu o peitão?

- O teu gosto é completamente diferente do meu.

- Namorei mulher bonita, casei com mulher bonita e depois que enviuvei tudo continuou igual.

Este que falou agora é quem comanda o show. Ele, de camisa social e blazer azul, é, com todo o respeito, um velho feio, careca, e narigudo. Mas tira a maior onda. E é irritadiço. Não tive como não prestar atenção, uma vez que eles não demonstravam falsos pudores em comemorar a amizade xingando-se mutuamente em altos brados. O outro, todo de branco, faz “escada” para o velho sátiro arrematar a piada.

- Eu amo esse cara...! – diz o “escada” referindo-se com emoção ao amigo.

- Sai pra lá, bichona – corta o d. Juan. – Você tem é trauma de infância.

- Você hoje está inspirado!

- É que voltei às boas com o meu amor.

De certa forma, como acontece com a própria Choperia Vila Rica, até simpática, mas que apregoa mais do que apresenta (o nome “choperia” dá a ideia de uma especialização que não há), quem visse o tal senhor, no fundo um bom malandro, jamais associaria o seu discurso de sedutor irresistível à estampa – embora talvez ele consiga todas aquelas mulheres, nunca se sabe. Autoestima às vezes é tudo. Saúde e até a próxima.

Choperia Vila Rica – Rua Cândido Mendes, 16A, Glória (2221-2372)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Aquela tarde soteropolitana

DE BAR EM BAR - Toca do Siri


Recentemente fui ao bar cujo “dono” é o cão Miojo, no Leme. Desta vez, fui à outra ponta de Copacabana, enfiar-me na Toca do Siri. Trata-se de um bar anexo ao Restaurante Siri Mole e Cia, no finzinho do bairro (“anexo” em termos, entre eles existe uma portaria de prédio: as pessoas praticamente moram no bar). A Toca do Siri tem, portanto, a grande vantagem de oferecer iguarias de um bom restaurante com algum clima de botequim – e a preços que não chegam a ser proibitivos.

A decoração é despojada ao extremo. Na varanda, são 21 lugares distribuídos em pequenas mesas redondas com tampo de alumínio, mesmo material das cadeiras (nada confortáveis). Mas pouco importa. Aqui você pode desfrutar de belas porções de acarajé, abará, casquinha de siri, biju, tapioca, polvo, caldinhos de peixe com camarão, siri ou sururu. Para abrir os trabalhos, peço uma porção de pastéis de camarão e uma Bohemia. A cerveja vem geladíssima e os pastéis, fumegantes, sequinhos e saborosos.

Sento-me a uma mesa colada no cercado que separa o bar da rua. O movimento de ônibus neste pálido trecho de Copa é enorme, mas o de transeuntes é meio fraco. Na Toca, a esta altura, há outras duas mesas ocupadas: ao meu lado uma mesa com três senhores, e atrás de mim, um jovem casal. Trouxe comigo o roteiro de um filme para o qual fui convidado a fazer a música-tema com o parceiro Frejat. Minha intenção é ler o texto, enquanto passo, digamos, uma tarde baiana no bar.

- Não gostei de Salvador! Aquela malemolência toda! Aquilo me irrita um pouco... – dispara a moça do casal. – Veja bem: nada contra os baianos; adoro Caetano, Gil, Bethânia, Carlinhos Brown... até a dona Canô, que eu acho linda! Mas tenha paciência!

Opa. Um olho no peixe, outro no gato, como se diz. Peço ao garçom para dar mais uma conferida no cardápio enxuto da casa. Além dos petiscos, a Toca oferece pratos como arrumadinho, bobó, vatapá e risoto de frutos do mar ou camarão. Dilema cruel... Escolho um acarajé da Toca. A porção vem com dois bolinhos, mais um recheio dos deuses à parte, para ser preenchido – em êxtase – pelo próprio freguês.

- Você acha que vale a pena fazer faculdade de cinema, tia?

- A minha experiência foi ótima. O problema é que não adianta só ter bons professores se o nível dos alunos for muito fraco. Mas é sempre legal estudar e ainda tem os contatos que você pode fazer.

Viro-me para ver o que pensei que fossem namorados. Para a minha surpresa é a amiga (e ex-cunhada) Malu Schroeder com um sobrinho. Para uma surpresa maior ainda, ela acaba de fazer a assistência de direção de Papai doidão, uma “comédia psicodélica”, que é exatamente o mesmo filme para o qual farei a música. O sobrinho se despede e Malu senta-se comigo para tomarmos um caldinho de peixe com camarão. Conta-me animada sobre o filme, feito com baixíssimo orçamento.

- Acho que vai dar o que falar – opina.

O caldinho veio excelente, como todo o resto – para confirmar que o pior do bar é, sem dúvida, a vista. Mas está tudo bem, meu rei. Saúde e até a próxima.

Toca do Siri – Rua Raul Pompéia, 6, Copacabana (2267-0894)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

É impossível tomar um só

DE BAR EM BAR - Bar Brasil


Parafraseando mestre Fernando Sabino, dei continuidade à eterna busca de errar à toa pelos bares certos, indo numa sexta-feira dessas a um local que não dá margem à dúvida. É daquele tipo de estabelecimento que se você, amigo leitor, fechar os olhos ao entrar e imaginar que está em 1997, tudo bem; se pensar 1986, ok, também. No caso, o bar tem mais de um século e passou apenas por quatro reformas. Ele é o mesmo desde que eu o conheço, e posso garantir que não foi ontem. Estou falando do célebre Bar Brasil, na Lapa.

Chego num horário em que ainda predominam as turmas de trabalho e os mais experientes (vejo dois colegas rindo muito, ao meu lado; noutra mesa, na diagonal, um senhor de suspensórios com pinta de velho lobo da arquitetura traça um kassler, acompanhado por um amigo; noutra, um casal cinqüentão namora e, ainda, à minha frente, observando tudo e a todos, há um velhinho empertigado de camisa social e bermuda, solitário). Por volta dez da noite começa a surgir a galera mais jovem, que veio agitar na Lapa fervilhante e passa antes aqui para tomar um chope, já que a casa fecha à meia-noite, sem choro nem vela.

O chope do Bar Brasil merece um parágrafo à parte. Porém o que dizer, quando sobre ele quase tudo já foi dito? O que sei é que é impossível tomar um só. Vem na temperatura e pressão ideais. Um primeiro gole é um bálsamo para as pupilas gustativas e logo me faz lembrar de Tom Jobim e sua expressão “o chope dourado da felicidade”. Para beliscar, peço um ótimo patê de fígado de vitela com pão francês.

Pelo salão em formato de bumerangue, de repente ecoa um espirro. Algum gaiato não perde tempo: “Olha a gripe suína...” As pessoas riem amarelo. O temor generalizado naturalmente já se evidencia nos bares. Por exemplo, um rapaz que chega numa mesa perto da porta, com quatro mulheres e um homem, abraça-as de mão fechada e não aperta a mão do outro homem, dá-lhe o braço; feito isso, vai ao banheiro lavar as mãos – que também foi a primeira coisa que fiz, hipocondríaco que sou, quando aqui cheguei. É ou não é o fim da picada?

Mas vamos falar do bar, que ele merece. Aqui você pode comer sem susto porções de bife à milanesa (por mais estranho que isso possa parecer), salsichas variadas, rosbife, kassler-rippen, ossobuco de vitela. Ou os pratos de kassler defumado com vários acompanhamentos, dobradinha, língua ao molho de páprica, salsichão suíço com chucrute. Peço mais um chope e o joelho de porco (eisben) frito e crocante, cortado para petisco. Bem... não penso mais nos problemas.

Antes de finalizar, gostaria de me referir ao casal de cinquentões em pleno namoro. Passo a observá-los, enquanto degusto a lentilha amiga para rebater a saideira. A senhora loura faz o tipo que malha, bracinhos fortes e ares de menina; ele é um senhor moreno, meio gordinho. Ela fala sem parar. Ele procura demonstrar interesse, mas por um instante desvia o olhar para a bandeja do garçom e a acompanha, ávido, até o destino final. Como bom gordinho. Ela nem notou que ele não a ouvia mais. Saúde e até a próxima.

Bar Brasil – Rua Mem de Sá, 90, Lapa (2509-5943)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Não tem Ted Boy, mas vale

DE BAR EM BAR - Xodó da Moça


Foi com muita alegria que, numa tarde modorrenta de segunda-feira, fui ao Leme encontrar um velho amigo. Combinamos de tomar uma cerveja e comer uma rabada no bar do Ted Boy Marino. Ted foi um ídolo para a molecada de algumas (muitas) décadas passadas. Ele era o mocinho do popular Telecatch Montilla, o louro com pinta de galã que ganhava todas as lutas (tinha também o Verdugo, a Múmia, o Fantomas...). E o meu amigo é o músico Luciano Maurício de Oliveira, o Luce.

Ousaria dizer, caro leitor, que Luce é um guitarrista incomum. Um dia ele poderá contar para seu filho Lui, de seis anos, e depois para os netos, que tocou, em momentos fundamentais, com três ícones do rock brasileiro – ou melhor, da música brasileira: Cazuza, Cássia Eller e Lobão. Não é pouca coisa. Como se não bastasse, Luce ainda tem um vozeirão black.

Depois dos cumprimentos emocionados, rumamos para o bar – e a conversa foi totalmente outra. Primeiro, erramos o botequim e fomos no do lado. Depois, já no pretenso local correto, segunda não era o dia de rabada. E, por fim, o tal bar, Xodó da Moça, não é mais do Ted Boy Marino, que o vendeu já faz um tempo. Que beleza... Sendo assim, o estabelecimento passaria a ser um pé-sujo normal. Bom, já que estávamos lá, melhor tomar uma cerveja. Mas qual não foi a minha surpresa ao constatar que tinha, além das marcas de praxe, Serra Malte e Therezópolis. Já ganhou ponto o Xodó da Moça.

Luce, que é da área, mas que, como se viu, não está atualizado quanto às atividades de compra e venda de botequins, me conta que nos finais de semana, o bar enche. Agora está quase vazio. A dona do Xodó da Moça coloca para nós umas cadeiras de plástico na calçada em frente ao balcão. Na impossibilidade de nos atracarmos com a rabada, perguntamos o que poderíamos comer. Angu à baiana? Não. Queijo prato? Não. Moela? Também não. Apesar de todas estas opções estarem apregoadas em cartazes espalhados pela casa, a dona nos explica que “quase tudo acabou”, inclusive o frango com quiabo e o prato do dia. As compras só serão feitas amanhã. Mas poderia sair um sanduíche de carne assada. Decidimos deixar para depois.

- Reparei que você deu uma envelhecida, hein, rapaz... – disse o meu querido amigo desde os tempos de Colégio Andrews.

Pois é. Intimidade dá nisso. Luce me conta que atualmente, além de estar tocando na banda de Arnaldo Brandão, prepara um show solo, chamado Gala Rara Guanabara. Já ouvi parte do trabalho no myspace e tem tudo para dar certo. Pedimos a carne assada aperitivo. Veio assim, assim. Mas considero que ter vindo ao Xodó foi uma experiência transcendente. Por dois motivos: também estava lá o Nelson Rodrigues Filho, com sua longa barba de profeta. Tive vontade de lhe dizer que sou fã incondicional de seu pai, mas fiquei tímido. O segundo: em frente ao balcão, reina deitado um cachorro vira-lata, o Miojo. No melhor lugar, há um colchãozinho, uma tigela com água e outra para comida. Saí de casa para conhecer o boteco do Ted Boy e conheci o bar do Miojo. Saúde e até a próxima.

Xodó da Moça – Rua Gustavo Sampaio 410, Leme (2295-0674)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Onde estão os cariocas?

DE BAR EM BAR - Devassa


- Levando em conta que você é o azarado da turma, boa coisa não é! – disse o barbudo em tom de gozação.

- Mas eu não fiz nada!... – berrou o amigo.

Logo pude perceber, na primeira frase, que o tal amigo estava numa água daquelas. Era uma mesa com três homens e uma mulher. Embora fosse ainda cedo, já estavam no final da jornada etílica. Pedem a conta. São jovens paulistas, talvez ricos, de férias. Vem o garçom com a nota e todos sofrem:

- Duzentos e tantos contos!

Passa na rua um ambulante que vende camisas de futebol. O amigo azarado fala para o vendedor em linguagem enrolada: “Adrfiano... Adrwfjiano...”. O homem não entende (ainda há um toldo de plástico entre os dois), então ele corre para dar a volta e entra no bar, na dúvida, já com a camisa do Flamengo de prontidão. O engraçadinho se adianta: “Não quero comprar nada não, meu. Sou Curíntia...”. E cai na gargalhada com os amigos. Lamentável. Regra de ouro do bar: se quiser beber, beba; mas não encha o saco de ninguém. Mudo-me de lugar, já que eles decidiram recomeçar, e a coluna, enfim, ganha outros ares.

Fui para a varanda que dá para a Prudente de Morais. Estamos na esquina desta com a Farme de Amoedo, no Bar Devassa. Sexta-feira à tarde, chove e faz frio. Um dia ideal para beber um chope mais encorpado. Peço ao garçom uma Devassa Índia (índia pale ale, coloração escura, de teor alcoólico 6%). Excelente. Dá logo uma onda. Para acompanhar, peço uma porção de croquetes de carne apimentados. Na mesa à minha frente, agora está um grupo de cinco meninas e um rapaz gordinho de barbicha e piercing. Uma delas é alemã e se esforça para falar português.

A esta altura, umas seis da tarde, há ocupação apenas no entorno do bar, com os fregueses, como eu, encostados na varanda de vista preciosa. A parte interna está vazia – o que torna o salão, imponente e iluminado, muito bonito de se ver (passo os olhos por suas paredes de cor mostarda, mesas de madeira, piso em branco e preto formando mosaicos, um grande pôster de fábrica de cerveja e, em destaque, um balcão espelhado atrás). É, sem dúvida, um lugar que tem seus trunfos.

Mas o trunfo maior aqui é realmente o chope, criação da própria casa. A bebida vem nas espécimes loura, ruiva, negra, índia e mulata (que mistura loura, ruiva e negra). Há também as cervejas, com uma linha de produção que abrange diversos tipos. Hoje decido ficar apenas no chope. Vario entre as índias e uma negra (nada mal, hein.) Peço o cardápio para escolher outro petisco. Há opções como anéis de lula, queijo coalho, kassler, escondidinhos, camarões. Peço o creme de abóbora e gorgonzola. Vem absolutamente sensacional.

Na mesa das cinco meninas e do barbicha, o papo já começa a morrer. A mais bonita dá um bocejo. Daqui a pouco vão embora a fim de dar uma descansada para a night. Excetuando-se a gringa, são mineiros também de férias no Rio de Janeiro. Aliás, na mesa atrás de mim e em volta, noto a presença de mais turistas. Está certo que faz um dia pouco carioca, mas cadê os nativos? Saúde e até a próxima.

Devassa Bar – Rua Prudente de Moraes, 416, Ipanema (2522-0627)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

No pé limpo, suco de melão

DE BAR EM BAR - Odorico


“O mundo é recheado de queijo”, me revela a escritora Ana Paula Maia, lendo o cardápio. Combinamos outro dia de ir a um bar em Botafogo. Levei-a primeiro num pé-sujo disfarçado, perto da área dos cinemas. Ela reclamou: “Passei minha vida toda nessa, não preciso mais.” Note-se que ela tem só 31 anos, e é considerada uma revelação das letras nacionais. Alguém já disse que é uma mulher que escreve como homem. Uma bobagem. O que sei é que Ana Paula Maia saiu de Nova Iguaçu para inscrever seu nome na literatura brasileira. E que agora estamos aqui, no Odorico.

O bar, cujo símbolo é o desenho de um homem parecidíssimo com Barack Obama (quem será, meu Deus?), tem um salão e uma área externa com mesinhas e cadeiras dobráveis de madeira. Apesar do calor atípico para esta época, preferimos a parte interna, o salão iluminado, mesa na lateral, boa vista do bar. Chegamos um pouco antes do movimento de pessoas rumo à lotação da casa. Passo os olhos pelas caras, muitas delas saídas agora do trabalho, Mas, na verdade, hoje o que interessa é esse papo com a amiga escritora, minha personagem da vez. Como temos fome, pedimos logo uma porção de croquetes de carne do tipo alemão. Eu tomo um chope, Ana um Ice-T (ela só bebe saquê – e muito esporadicamente).

Além de falar de filmes e livros, conversamos também sobre outras coisas familiares, como a hipocondria nossa de cada dia, sustentada por uma farmácia em cada esquina, e os trajes quando se trabalha em casa – alguns bizarros (estes só meus; atualmente ela se veste como se fosse trabalhar fora). Ana Paula Maia tem cara de brasileira. Bocão, cabelo encaracolado, pele da cor tropical, magra – depois que parou de consumir leite e derivados por alergia tem pesado 51 quilos. Mas é uma voraz consumidora e crítica do mundo pop. Suas admirações passam por The Kills, Johnny Cash, Chingon (guitarrista mexicano), Quentin Tarantino, novela das oito, Lost, Law & Order, John Fante, Steinbeck e Campos de Carvalho. Acaba de lançar seu terceiro livro, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, por uma editora top. E trocou a noite de autógrafos por um trailer do livro no cinema, narrado pelo Peréio. Bravo, Ana!

Peço aos solícitos garçons de novo o cardápio, mais um chope e para ela um suco de melão. O Odorico faz a linha do pé-limpo ajeitado. Tem como especialidades pratos como a picanha nobre na chapa e “costeletas Primo Basílio”. Oferece também escondidinhos e caldinhos, moela, nachos mexicanos, chips de berinjela, carne seca com farofa, sanduíches e sopas. Pedimos iscas de filé mignon e uma porção de batatas fritas. Vieram corretas, assim como os croquetes, anteriormente. Se não chegaram a emocionar, também não fizeram feio.

Por falar nisso, ciente de sua condição, ao discorrer sobre uma adversária em potencial numa atitude bastante reprovável, ela dispara: “mulher feia é f...!” Mas o faz com absoluta graça e hilaridade. É uma menina desabusada. Ana Paula Maia não está para brincadeira. Ela sabe o que quer e vai chegar lá. Saúde e até a próxima.

Odorico Bar – Rua Voluntários da Pátria, 31C-D, Botafogo, (2266-3773)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A nissei, a gordinha e a mulata

DE BAR EM BAR - Antigamente


Fui tarde dessas ao Centro com a intenção de ver a exposição de arte russa do início do século passado e depois mergulhar no bar. Mas como me atrasei bastante, a exposição, que é imperdível, teve de ficar para uma outra ocasião. Rumei então, com alguma culpa, para o bar Antigamente, ali na rua do Ouvidor. Mas só até o primeiro chope. (Até porque não existe a menor possibilidade de eu perder novamente a visita às obras revolucionárias dos grandes pintores russos). É a tal história: não vi, mas recomendo sem medo de errar, com total fervor dostoievskiano.

Entro no boteco pé-limpo e ele ainda está meio vazio. Lá fora, as mesinhas de madeira começam a ser dispostas no trecho de pedestres da rua centenária, à espera dos fregueses que ao sair do trabalho irão lotar o bar a céu aberto. Aliás, faz um belo início de noite. Na parte interna do bar, sento-me no canto à esquerda, na mesa perto da enorme TV. Como estou quase abaixo do aparelho, apenas ouço o excelente sambista Arlindo Cruz. Peço o primeiro chope e um pastel de costela (iguaria que parece ser a bola da vez na chamada baixa gastronomia. Ainda bem. Uma costela tenra é coisa de outro planeta). Veio ótimo o pastel, sequinho, com recheio farto e carne macia.

O Antigamente tem pratos como o bom filé de linguado com batatas, o polvo à provençal e a carne assada com talharim. Mas a grande saída são os petiscos: pastéis, frango à passarinho, tortillas, carne-seca com aipim, gurjão de badejo. Como tenho fome, peço mais um acepipe: meia porção de bolinhos de bacalhau. Tudo ok. Chamam-me a atenção dois cidadãos em mesas separadas. Um dos homens toma cerveja e lê calmamente o Diário Oficial. O outro, também bebendo cerveja, fala sobriamente ao celular. Naquele exato momento, o clima mudou. O bar repentinamente começou a encher. Os dois solitários à minha frente, assim como eu, fomos rapidamente levados a um mundo de alegria (fim do expediente!) e muitas risadas em volta.

Eis que entram três amigas e sentam-se próximo à minha mesa. Uma delas era uma nissei de óculos e sorriso tímido, outra uma morena gorda e, por fim, uma escultural mulata. Trabalham na mesma empresa, ou firma, sei lá. A japeta de óculos toma um mate, a gordinha uma cerveja sem álcool e a mulata uma caipivodca de limão. Riem muito, a malícia rola solta sem homem reprimindo. Mulheres sozinhas riem muito – e dizem tudo aquilo que talvez não gostássemos de ouvir.

- Mas se eu falar isso, ele vai se achar importante... – contorceu-se a gordinha.

- E se acontecer um milagre?! – interrompeu toda esperançosa a japinha.

- Que situação... – disse a mulata.

- Safada! Filha da mãe! – Não se aguentou a gordinha.

- Você falou isso? Você está namorando quem? – resumiu com sabedoria a mulata cavala.

E o Arlindão no DVD: “Madureira lá lá lá iá...” A mulata era nota dez. Senti vontade de escrever na toalha de mesa uma letra de samba. Título: Mulata cavala. Que me perdoe mestre Aurélio. Que me perdoe Machado. Drummond... Mas a moça era realmente uma mulata cavala. Saúde e até a próxima.

Antigamente – Rua do Ouvidor, 43, Centro (2507-5040)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Carnavalizaram o botequim

DE BAR EM BAR - Garrafeiro Informal


- Você tá maluco, rapaz?!

Virei-me de leve para olhar.

- Onde já se viu uma coisa dessas! – continuou em sua estupefação o homem pálido com cara de fuinha, de camisa e calça sociais e cabelo impecavelmente repartido do lado.

Uma trama eclodiu mal cheguei ao Garrafeiro Informal (naquela rua em que muitas vezes cruzara de passagem, vindo do ônibus, para ir ao Piraquê jogar voleibol. Bons tempos). Por indicação de meu amigo Humberto Effe, que mora ali perto, fui conferir o relativamente novo bar da rede Informal, cuja filial do Jardim Botânico que lá existia entrou em obras e pouco depois virou Garrafeiro Informal. Como o nome modificado propõe, um bar dedicado às cervejas de garrafa – são mais de 20 rótulos.

Logo ao adentrar o boteco se percebe a intenção em dar um ar diferente em relação ao formato da bem sucedida rede de bares (que muito já frequentei, aliás). Há trechos de dizeres na estética do Profeta Gentileza, engradados de cerveja cenograficamente dispostos no salão, canecas no teto, um imenso São Jorge. Nas paredes azulejadas em branco e azul, pôsteres de algumas cervejas e prateleiras com inúmeras garrafas expostas. Se me pedissem uma interpretação pseudointelectualizada, arriscaria afirmar que rolou certa carnavalização do botequim, mas já que a decoração é assinada justamente por um carnavalesco, Mario Boriello, diria, como Benito di Paula, que “tudo está no seu lugar, graças a Deus”.

Peço uma cerveja Serra Malte ao garçom, mas logo aparece o gerente, que educadamente me explica que ainda não está bem gelada. Peço então uma Original e um balde com gelo com outras duas garrafas da minha escolha inicial. Eis que vejo passando na rua justamente o cantor e compositor Humberto Effe. Tinha ido dar uma corrida na Lagoa. Ele, que é da minha geração e também parceiro em duas ou três canções de que gosto muito, corre invejáveis nove quilômetros como se estivesse a passeio. Quando me vê, relaxando na varanda e tomando uma cervejinha, diz que está “com inveja”. Já eu penso com um travo de melancolia que a época em que cheguei a correr uma maratona está no museu das minhas memórias.

Humberto se despede e vai para casa. Ele será pai pela segunda vez e a sua mulher Tininha está grávida de primeira viagem. Sinto fome e peço um miniescondidinho de camarão, que vem excelente. É um dos pratos exclusivos do cardápio Garrafeiro (assim como o arroz com camarão, o espaguete com carne assada e o picadinho de carne). Estava tão bom que pedi em seguida uma porção de camarões empanados. Também muito boa.

O leitor a esta altura deve estar se perguntando: e a história do começo da coluna? Não esqueci, não. Guardei-a para o final. Aconteceu o seguinte: o homem pálido ficou indignado com o amigo porque este não via problema nenhum na própria mulher viajar de férias com o ex-marido e o filho adolescente dos dois. E ele, o amigo, enquanto isso, ficará no apartamento do tal ex-marido. Entendeu? São as múltiplas configurações da família nos dias de hoje. Saúde e até a próxima.

Garrafeiro Informal – Rua Saturnino de Brito, 64, Jardim Botânico (3874-0016)

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Feijão ou galinha à cabidela?

DE BAR EM BAR - Bar do Mineiro


Numa tarde dessas, de frio e azul intensos, peguei o bondinho e fui ao Bar do Mineiro, em Santa Teresa. Ao chegar lá, o espanto: estava plenamente cheio às 16:30 de uma quarta-feira. Mesas com a rapaziada local, gringos ali e acolá, uma equipe de produção de uma filmagem, várias meninas bonitas. O bar, cuja frequência no fim de semana é enorme (e a espera, inevitável), tem a cara de um dos bairros mais simples e charmosos do Rio de Janeiro.

As paredes são azulejadas em branco com diversas informações visuais. Quer ver? Cartazes de cursos e shows, matérias de jornal, pôsteres de filmes, fotos de estrelas da MPB, bondinhos, grandes panelas, quadros de pintura naif e, em destaque absoluto, no final do salão, uma placa vermelha do tipo “Pare”, mas escrito no lugar “PIRE” . Como nunca se sabe, para garantir, sob o balcão há imagens de variados santos. Numa prateleira, títeres de Gilberto Gil, Bob Marley, Cartola, Hendrix, Elvis, Carmem Miranda, Piaf. E nas prateleiras ao redor, naturalmente, as cachaças, um elogiável estoque delas. O Mineiro vai para o trono ou não vai?

Sim, e ainda tem a comida. O carro-chefe é a feijoada – prato dividido pela morena de olhos azuis com mais duas amigas igualmente belas. O cardápio apresenta também feijão tropeiro, tutu à mineira, rabada, frango com quiabo e polenta, leitão à pururuca, fígado acebolado. E para estômagos mais sensíveis, o prato “Mineiro light”. Mas hoje já almocei. Peço apenas uma cerveja Original e uma porção de pastéis de galinha à cabidela. Vieram sensacionais, sequinhos, deliciosos. É a mais nova invenção do bar e por mim terá vida duradoura.

Subitamente, toca o celular. Fico sabendo que meus amigos, o roteirista Péricles Barros e o artista plástico Raul Mourão, infelizmente não poderão vir mais. Péricles, o Pequinho, me liga para dizer que imprevistos rolaram. Ok. Isso acontece. (O Raul Mourão, de alguma forma, é que está presente: seu nome está escrito em azul numa das paredes.) Por sorte, o bar é divertido. E a observação ao que se passa no ambiente torna-se mais aguda. Ou, talvez, mais voyeurística. As meninas da feijoada já terminaram, agora contam casos e tomam uma cerveja. Há uma mesa de argentinos comendo arroz carreteiro e, estranhamente, falando baixo – será efeito da seleção do Maradona?

Eis que chega o meu consultor para bares no Centro e arredores, Marcos André, o vulgo Dudu, acompanhado da mulher Moema e do pequeno Vítor. Aos seis anos, o moleque parece que tem oito ou nove. Com a agitação característica da idade, ele dispara pelo bar. Moema tenta lhe oferecer um pastel, mas ele quer chiclete. Mesmo assim, pedimos uma porção dos famosos pastéis de feijão. Eu e Dudu tomamos uma cachacinha Previdência. Meu amigo, com um orgulho transatlântico, diz que o filho é fã de Tim Maia. “Como é que é, Vítor, a música de que você gosta?... Só não vale dançar homem com homem, nem mulher com mulher...” Ao que o pequeno completa, com um sorriso esperto: “... O resto vale!” Esse garoto vai longe. Saúde e até a próxima.


Bar do Mineiro – Rua Pascoal Carlos Magno, 99, SantaTeresa (2221-9227)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Noel e Cartola dão a bênção

DE BAR EM BAR - Beco do Rato


Nas paredes de azulejos em preto e branco estão os bambas eternizados em tinta a óleo abençoando a casa. Pixinguinha, Noel Rosa e Cartola de um lado. Beth Carvalho, Walter Alfaiate, Dona Ivone Lara e João Nogueira de outro. No cardápio, preciosidades como caldos de ervilha, mocotó e feijão; sanduíches de calabresa e pernil com abacaxi; jiló, moela, maxixe e quiabo. E o famoso pastel de angu. Estou falando do Beco do Rato, bar que não poderia estar em outro local que não a Lapa (e fica numa rua nas entranhas do início do bairro – se é que isso é possível).

Fui lá uma noite dessas. A chegada é como que uma inspiração. Na confluência de ruas outrora perigosas, o bar resplandece no escuro. O público era, curiosamente, bem eclético: duplas de amigos, pessoal do trabalho, uma família inteira com as crianças correndo pelo salão, casais e uma mesa com três meninas lindas. O astral é alto. Peço uma cervejinha e infelizmente não tem nem Original, nem a ótima Serra Malte; já acabaram, como me explicam os solícitos garçons. Vou então de Antarctica, que chega geladíssima. Para acompanhar, um dos carros-chefes: o pastel de angu – que é realmente tudo aquilo que dele comentam.

Muito frequentado pela rapaziada do samba, não é raro esbarrar por aqui com Moacyr Luz, Paulão Sete Cordas e Marquinhos PQD, entre outros grandes nomes do gênero. Situado exatamente na mesma área em que moraram Chiquinha Gonzaga e Madame Satã (e por onde também circularam Manuel Bandeira, Portinari, Sinhô e o já citado Noel), o Beco do Rato respira música. E tem, com efeito, bons shows que se revezam durante a semana, com o próprio grupo da casa, o Grupo do Beco, com o conjunto Receita de Choro e com o Samba Di Beco (este com direito a apresentação e versos de improviso de Fábio Bananada).

Fico sabendo que recentemente, no dia de São Jorge, o bar ofereceu feijoada de graça aos moradores de rua. Passo a gostar mais ainda do local. Até que apareceu o Márcio Pacheco, dono do Beco do Rato. Com sua fala macia de bom malandro e uma leve semelhança com o ex-jogador de futebol Paulo César Caju, Márcio sentou-se à mesa, dissertou com indisfarçável orgulho sobre seus músicos e em pouquíssimo tempo tornou-se um velho amigo. Trouxe até a sua cachacinha Germana de estimação, que segundo ele não faz mal nenhum e “não dá nada”. Sei. (Aliás, o meu dia seguinte é que sabe). Para garantir ainda um resto de sobriedade, peço o intrigante escondidinho de jiló com linguiça mineira, novo petisco do Beco e um dos concorrentes do Festival Comida Di Buteco.

Por fim, faltou falar de uma característica muito particular do Beco do Rato. Trata-se de um bar que não abre aos sábados. Sim, é isso mesmo, caro leitor. Talvez seja o único no mundo. Diversos botecos não funcionam às segundas-feiras. Conheço até quem não abra aos domingos. Mas aos sábados? Tinha tudo para dar errado. O bar, porém, é um sucesso. Pela ousadia, pela criatividade e pelos banheiros limpos e cheirosos como bumbum de bebê, palmas para o Beco que ele merece. Saúde e até a próxima.

Beco do Rato – Rua Joaquim Silva, 11, Lapa (2508-5600)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Getúlio e Machado, eu e você

DE BAR EM BAR - Lamas


Vamos convir, amigo leitor, que não é qualquer um que faz 135 anos sem transformar-se numa autêntica múmia empalhada. Ou sem antes desaparecer de forma indelével. Pois essa dourada longevidade é precisamente atributo do Café Lamas, fundado em 4 de abril de 1874. Um lugar que, nesse tempo todo, foi frequentado por personalidades de A a Z. Quer um exemplo? Getúlio Vargas costumava tomar seu chá das cinco na casa, que fica perto do Palácio do Catete. E mais: Machado de Assis, Monteiro Lobato, Epitácio Pessoa, Osvaldo Aranha, João do Rio. E eu e você e todo mundo.

Fui dia desses ao Lamas, numa terça-feira à noite. Dei a sorte de ter uma mesa vagando na hora em que cheguei, justamente no meu lugar preferido: no canto principal, à direita de quem, ao atravessar o estreito e baixo corredor, entra no salão e descortina todo um ambiente de Rio antigo. Aliás, houve alguma reforma mais recente que deixou suas paredes numa cor mais avermelhada, porém os espelhos em suas laterais continuam lá. Seus velhos garçons também; e, principalmente, seu incrível cardápio (onde mais se poderia desfrutar um mingau maizena com duas gemas? Gemada? Guisadinho de filé?).

Mas, por ora, peço apenas um chope. Estou esperando meu amigo Eduardo Coelho, jovem doutor em Literatura e editor de meu primeiro romance (digo “primeiro” porque estou começando a escrever agora um segundo, e mais uma vez meto-me de cabeça numa viagem sem destino assegurado). Enquanto o amigo não vem, lembro-me dos tempos em que frequentava assiduamente o Lamas. Trabalhava no Consulado Geral do Japão e vinha aqui almoçar. Sempre aproveitava para escrever algo, como a peça que planejei (e não consegui concluir) sobre um pequeno funcionário que atravessava toda a história da cidade. Até que um dia pedi demissão do emprego para tentar escrever não apenas no almoço.

Eis que chega o Eduardo Coelho. Vem um pouco combalido por uma alergia. Foi nomeado recentemente diretor do Arquivo-Museu de Literatura da Casa de Rui Barbosa (que contém o acervo de Drummond, Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, entre outros autores; é o mais importante arquivo de escritores brasileiros). Em contato com a papelada histórica, Eduardo tem enfrentado problemas de ordem médica. Mas nada que empane a alegria desse trabalho para um aficionado pela literatura. Brindamos então: eu com chope e ele com guaraná. Pedimos uns pastéis de entrada. Curioso: nunca havia comido pastéis no Lamas. E não é que são muito bons?

Conversamos, naturalmente, sobre a importância fundamental dessa preservação de nossa memória literária, como também, dando um salto no escuro, sobre o futuro do livro, e-book e essas modernidades que, dizem, tal como aconteceu na música, vai mudar a forma de se ler. Não sei; afinal, com o livro já aconteceram outras mortes anunciadas, mas nunca levadas a cabo. Ao contrário de nossa fome aqui no Lamas. O bife à milanesa com guarnição à francesa estava ótimo. Como sempre. Deu até saudade de trabalhar com os japoneses. Saúde e até a próxima.


Café Lamas – Rua Marquês de Abrantes, 19, Flamengo (2556-0799)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Costela dispensa garfo e faca

DE BAR EM BAR - Cachambeer


Fui dia desses ao Cachambi conhecer o bar que possui “a maior variedade e os melhores petiscos da região”, segundo apregoa o colorido cartãozinho de apresentação do Cachambeer – e que eu não sei exatamente como veio parar em minhas mãos. Bom, fui lá para conferir. Confesso que não conheço bem o bairro, então não posso falar comparativamente com os outros bares da área. Mas que o Cachembeer é isso tudo, é.

Picanha na macaxeira, Palmito in natura com camarão e catupiry, Joelhão do Cachambeer, Infarto completo (coração, linguiça, torresmo, carne-seca, carne-de-sol, aipim frito, cebola, salsinha e manteiga de garrafa) e a famosa Costela no bafo são algumas das estrelas da casa, que vende substanciais 180 kg de carne por semana. Outras são o próprio cozinheiro do bar, o Pança, e o dono, o figuraça Marcelo Novaes (não é o ator, que é com dois “Ls”; é o Marcelo Novaes do Cachambeer mesmo, já devidamente entrevistado pela nossa Domingo).

Cheguei por volta das 21:30 de quinta-feira e o lugar estava bombando. De cara, vê-se que não é um bar qualquer. O Cachambeer tem DNA. As paredes são azulejadas em amarelo e vermelho. Nelas, há pôsteres ultracoloridos de alguns pratos da casa. Perto do balcão, há um pequeno altar para São Jorge, protegendo-nos a todos. Na TV passa um DVD com show do Zeca Pagodinho. O clima é o melhor possível. Casais namorando, turmas de amigos, felicidade no ar. “Cai dentro, mermão, cai dentro que é dinossauro. E vai no susto! Se for no susto o osso cai para um lado do prato e a carne para o outro”, ensina o simpático e carioca até a medula Marcelo Novaes. E, por incrível que pareça, não é exagero.

A costela no bafo do Cachambeer é realmente sensacional. Trata-se de uma costela adormecida por 12 horas em banho de ervas, assada por cinco horas em churrasqueira. Vem servida na chapa, acompanhada com farofa e molho a campanha, aipim frito na manteiga ou arroz e batata frita. Como diz o outro, é para comer rezando. A rigor, para se cortar não é preciso nem faca, e a carne ainda desmancha na boca, causando um prazer difícil de ser esquecido. Por falar nisso, já ia cometendo uma injustiça. De entrada, comi um bolinho de carne seca, que embora não tão perfeito como a costela no bafo, também vale a pedida.

Um capítulo à parte na história do Cachembeer, esse bar que obviamente fica aberto até o último bebum, é o seu cardápio. O que é o cardápio do Cacheember? Vou tentar descrevê-lo, caro leitor. Antes, um pequeno comentário: poderia perfeitamente estar numa exposição de arte kitsch contemporânea. O cardápio, com ilustrações multicoloridas em alto relevo que praticamente saltam do papel, é um achado. São duas páginas, em frente e verso, de muitos sabores e informações visuais para comunicador nenhum botar defeito. Ao me despedir de Marcelo Novaes, fico sabendo que ele tem uma filha – sua paixão – que é “uma princesinha de 12 anos”. Comento que tenho um filho adolescente. Ao que ele retruca: “Então ele é um inimigo em potencial!” Grande Marcelo. Saúde e até a próxima.


Cachambeer – Rua Cachambi, 475-A, Cachambi (2501-8465)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O legionário e a Cristalina

DE BAR EM BAR - Academia da Cachaça


Fui outro dia com o Dado Villa-Lobos ao bar: pedi-lhe que indicasse um. Ele, sem pestanejar, escolheu a Academia da Cachaça, ali no Leblon, naquela rua que enfileira botecos em sequência. E a Academia é, com efeito, o decano da turma: existe desde 1985. Enquanto dou uma folheada no cardápio e penso num chope, Dado cumprimenta os garçons, puxa seu cartão de fidelidade do bar e faz logo o pedido: uma porção de linguiça, caldinho de feijão e uma cachacinha Cristalina. Já que ele foi infinitamente mais rápido no gatilho, peço igual.

Sempre achei ser o Dado brasiliense (pois a Legião Urbana veio da capital federal). Com tal pedido, imaginei-o um autêntico mineirinho. Mas enganei-me redondamente. O homem é muito chique, caro leitor. Nasceu em Bruxelas (seu pai é diplomata e por isso já viajou bastante pelo mundo). Mas, na verdade, ele é carioca há 24 anos. Conversamos sobre diversas coisas. Dado Villa-Lobos é inteligente e espirituoso, fomos de Dostoiévski a nosso amigo em comum Fausto Fawcett (que parou de beber), passando pelo futebol. Do fenomenal autor russo, ele citou O idiota – que é como muitas vezes me sinto ao lidar com meu filho adolescente e é o livro que estou lendo no momento.

Pedimos mais uma cachacinha (agora a Asa Branca), acompanhada de um chope. O cardápio da Academia, claro, é pródigo nas marcas de aguardente. Aqui tem: Lua Cheia, Magnífica, Marimbondo, Salinas, Souza Leão, Tambaba, Triumpho, Germana. E também: Coqueiro Azulada, Milagre de Minas, Musa, Recordações (como assim?). E muitas outras. O cardápio, porém, não é só interessante no quesito água que passarinho não bebe (e suas derivações, como caipirinhas, capeta e que tais). Além dos tradicionais petiscos e algumas criações curiosas (como escondidinho light), há pratos famosos como o vatapá carioquinha, o filé da casa e a feijoada.

Dado não pode ficar mais muito tempo, pois precisa voltar para seu estúdio, que tem funcionado a pleno vapor. Hoje recebe músicos até da Europa e do Japão, que querem gravar em alto nível, mas sem gastar em euros ou ienes. Pergunto-lhe quando vai gravar um segundo disco solo e aproveito para elogiá-lo pelo primeiro, que além de boas composições tem uma ótima versão de Luz e mistério, do Beto Guedes. Dado me diz que no primeiro botou todas as suas referências e parceiros (Fausto, Paralamas, Humberto Effe, Paula Toller), como que a pautar a sua trajetória. Para um segundo disco, já tem uma ideia, mas não quer fazer a qualquer custo – ele sabe que o mercado atualmente está muito complicado e em transição para um outro modelo.

Antes de se despedir, Dado Villa-Lobos acena com uma possível parceria musical, o que para mim será uma honra. Ele sai e fico a pensar que o eterno guitarrista da Legião Urbana é um cara de bem com a vida. Ouso dizer que uma das suas raras preocupações é o seu Fluminense. Mas, como meu time também não vai lá muito bem das pernas, essa já outra história. Com a conta, ainda peço uma empadinha de costela. Sensacional. Saúde e até a próxima.

Academia da Cachaça – Rua Conde Bernardotte, 26, Leblon (2529-2680)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Aquele flagra no boteco-pub

DE BAR EM BAR - Mud Bug


O Mud Bug é um boteco-pub que existe desde 2003 (há um novo na rua Rodolfo Dantas), num trecho relativamente calmo da Paula Freitas, apesar da proximidade da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Foi possível pegar uma mesa de cara para o gol, ou melhor, de cara para a rua. De cara para o gol, aliás, é de qualquer lugar da casa. São várias TVs passando ininterruptamente o futebol. Graças ao bom Deus (e ao Sportv e ao ESPN), aqui você, irmão amante do futebol, estará bem servido (ainda que torcer em público, hoje em dia, possa até – neuroticamente – dar em tiro. Mas, de qualquer forma, o jogo que passa agora é um jogo sem times cariocas pela Taça Libertadores).

Nas paredes cobertas de madeira há alguns pôsteres de cerveja, e ainda mais: quadros – quadros de palhaço, de um casal estilizado na mesa do bar, de um lagarto enorme – e reproduções de instrumentos musicais. Tudo isso dá o tom do lugar. Sento-me na parte interna, quase no limite com a calçada, e fico encostado numa pilastra. As mesas são redondas de madeira e os bancos revestidos de couro. Não há muito espaço, mas é tudo bem aproveitado, as mesas são coladas. Na decoração, há também um gravador de rolo (a tecnologia pode avançar rumo ao infinito, mas nada é tão belo quanto um gravador de rolo). Um som alto ecoa.

No cardápio, há uma variação bem razoável de cervejas long neck (Stella Artois, Brahma Extra, Devassa, Colorado, Guiness e outras). Mas decido ficar no chope da Brahma. O primeiro veio meio quente, apesar da descontração e simpatia do garçom. Quando peço o segundo, quem vem me atender agora é uma garçonete, uma mulata de óculos e peitos proeminentes. Pergunto-lhe se pode sair mais gelado. Ela diz que sim, que agora trocaram o barril. Sei. Não entendi bem, mas realmente do segundo em diante ficou melhor. Olho em volta; ao meu lado esquerdo, dois gringos, pai e filho, bebem chope escuro e comem asas de frango. À direita, dois casais de copacabanenses de praia bebem chope na jarra, que vem num balde com gelo (está aí uma coisa estranha, chope na jarra.).

Faltou falar sobre o jovem casal nos fundos. Quando cheguei, a menina estava sozinha. Depois de um tempo, ao voltar-lhe novamente os olhos, vejo-a acompanhada de um gringo no maior dos amassos. Bebiam uma cerveja atrás da outra, variando as marcas. Peço o hambúrguer da casa, muito bom, com queijo, alface, tomate, champignon e fritas. Eis que começa a chover violentamente. Os casais copacabanenses pedem outra jarra. De repente, ouço alguém me chamar. Era o gringo, que não era nada gringo. É o sobrinho de um amigo meu, irreconhecível. Pede-me para não botar seu nome na coluna “de jeito nenhum!”. E volta para os seus beijos e abraços proibidões. Já que vou ter que esperar a chuva passar, acabo, quem diria, pedindo também uma jarra à mulata de óculos e dos peitos, bem, você já sabe. Viva a mulata-tá-tá. Saúde e até a próxima.

PS: Está em andamento o segundo Comida di Buteco. Na disputa, 31 bares cujas criações são para se comer em êxtase e dar pleno orgulho ao carioca. Não perca.

Mud Bug – Rua Paula Freitas, 55-A, Copacabana (2235-6847)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Não é moderno e sim eterno

DE BAR EM BAR - Nova Capela


O tempo mudou radicalmente hoje. De dias bonitos e iluminados (a luz de maio é deslumbrante) passamos à chuva e ao frio (sim, você que é de fora: faz frio também no Rio, apesar da propaganda). Um bom pretexto para tomar um conhaque. Eis que fomos eu e S. ao Nova Capela: estava mais do que na hora de fazer uma coluna na Lapa. E o escolhido para a inauguração não poderia ser outro. Chegamos já de noite, mas num horário ainda tranquilo em se tratando do Capela, que vara as madrugadas aberto – e cheio. Hoje é sexta-feira e daqui a pouco vai fervilhar até o dia amanhecer.

O bar tem aquela aura de lugar eminentemente carioca. É, pois, o lugar do “carioca essencial”, conforme um senhor lê numa das muitas matérias de jornal emolduradas na parede (que também exibe quadros de mulheres louras, morenas, negras; há, ainda, algumas gravuras, quadros de esportes, prêmios recebidos pela casa e cartazes de cursos e shows. De um tudo). “E o Caetano, você viu?”, quer saber o mesmo senhor. “Cadê?”, sua acompanhante, excitada, já o procura com os olhos. Não, ele não está no bar. O senhor explica que, por uma força estranha, Caetano Veloso caiu do palco, em Brasília. Mas foi só um susto. (Como lhe fez bem a banda de garotos modernos e, obviamente, talentosos. Fui ver o ótimo show de lançamento do CD Zii e Zie. Caetano está leve e mais eterno do que nunca.)

Por falar em modernos, adentra o bar uma horda deles. Até então havia apenas alguns casais mais velhos e algumas duplas de amigos. Os “modernos” sentam-se numa mesa atravessada, próxima à minha bem no canto à direita. É possível identificar logo três sósias no grupo. Há o do Marcelo Tas; há um do Mike (o gordinho louro de cabelo encaracolado e óculos, filho mais jovem do Paul do programa American chopper) e, supra-sumo dos modernos, um sósia do grande Frank Zappa. Mas o que faz alguém ser “moderno” (com aspas)? Seria só o visual incomum, pretensamente criativo? Não só, caro leitor. É também a afetação, o compromisso de ser “moderno”, antenado, up-to-date. O “moderno” é o antimoderno.

Para abrir os trabalhos, eu e S. pedimos um chope e bolinhos de bacalhau. Estes vêm sensacionais: saborosos, crocantes. Para prolongar mais a estada, antes do transcendente cabrito com arroz de brócolis, cogitamos pedir umas fatias de presunto cru. Mas o preço da porção nos fez abrir pequeno debate sobre o que é felicidade. Acabamos por optar pela satisfação do singelo prazer. E Deus foi testemunha: apesar do preço salgado (ou por causa dele), estavam incrivelmente tenras e viçosas.

- Ah, Fulano é um cara maneiro. Gente fina! – diz o Mike.

- Gente fina mesmo! – e o outro estica o dedo mindinho, como que a dizer: “macérrimo”.

Como Irene, Frank Zappa ri. Fiquei na expectativa de uma boa frase, quiçá um gesto, algo que justificasse a coluna. Foi em vão. Desse mato não saiu download. Pedimos então a meia porção de cabrito, que dá perfeitamente para duas pessoas. Veio magnífica, como sempre. O Nova Capela, como o poeta, não é moderno, também é eterno. Saúde e até a próxima.


Nova Capela – Rua Mem de Sá, 96, Lapa (2252-6228)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Lotado para o turno da tarde

DE BAR EM BAR - B.G. Bar


Hoje, uma sexta-feira de maio, de azul cristalino, faz uma daquelas tardes em que se tem vontade de pedir ao compromisso licença para dar um pulinho na esquina e não mais voltar. Sendo assim, é o que faço e vou ao Baixo Gávea, mais precisamente ao B.G. Bar. Se você não está ligando o nome ao boteco, é aquele que fica quase ao lado da Casa da Gávea (para quem está de frente para esta, o Braseiro está colado à direita e o B.G., próximo à esquerda). Localizou-se?

Chego no bar com a aposta furada de que ainda teria mesa livre às 15:30. Ledo engano. São apenas quatro ou cinco mesas e estão todas ocupadas pelo pessoal que trabalha ali perto e ainda almoça, ou populares que estão de bobeira mesmo. O B.G. é essencialmente um bar popular, é o mais povão entre os bares do Baixo Gávea. Mas a classe média também bate ponto, mesmo de dia, e sempre tem uma mesa da rapaziada local, juventude dourada. E hoje não é diferente: é uma mesa em constante mutação pelo entra-e-sai à direita do balcão. Aliás, aqui muito se pratica o hábito carioca do “como é que tá, tudo bem? senta aí...” Nesse trecho da Gávea é fácil encontrar conhecidos.

O bar, embora não tenha nada de mais, é um pé-sujo ajeitado. Há porções de linguiça, batata frita, bolinho de bacalhau. Nas prateleiras do balcão, sanduíches naturais já embalados. Encosto-me no balcão e fico bebendo uma Original, atento se alguma das mesas está prestes a ser desocupada. Sem chance. Olho lá para fora e até o banco público em frente está ocupado, por duas moças que trabalham no salão ali do lado, pelo vendedor de frutas ambulante e por um sósia do bom jogador João, perdão, Juan (o que virou bicho só porque levara um drible) lendo jornal. Volto-me para a mesa da rapaziada e, de lá, ouve-se essa:

- Meu irmão foi morar em São Paulo. Antes ele ficava por aqui e a gente nem se encontrava quase. Agora, tem duas semanas e já rola até saudade do moleque. Coitado, logo São Paulo! Mas trabalho é trabalho...

Certa vez, ao ser perguntado sobre o lugar mais estranho onde fizera amor, o humorista Bussunda respondeu na lata: “São Paulo.” Nelson Rodrigues (quem tem lido a coluna pode perceber ultimamente seu lugar quase cativo por aqui) escrevia que “a pior solidão é a companhia de um paulista” (magnífico. O humor não pode ter limites – se não, não é humor). Mas, preferências à parte (e eu sou carioca, pô!), trata-se, claro, de brincadeiras com o preconceito (ou com a rivalidade entre Rio e São Paulo).

Começa a escurecer. Consigo, enfim, um espaço – mas no banquinho público em frente. De lá posso observar melhor o B.G. Decido não comer nada, vou só na cervejinha e logo dá vontade de você sabe o quê (o reservado, posso garantir, é surpreendentemente limpo, ganha até de outros mais famosos). Quando volto ao meu lugar no banco, vejo a cena de duas belíssimas negonas se beijando na rua justo em frente ao bar. O povo só falta aplaudir. A noite de sexta-feira pede passagem. Daqui a pouco o Baixo Gávea será outro. O B.G. Bar também. Saúde e até a próxima.


B.G. Bar – Praça Santos Dumont 126-B, Gávea (2512-0761)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Holandesas e belgas na varanda

DE BAR EM BAR - Buena Vida Social Clube


Fui numa tarde ensolarada ao bar num shopping a céu aberto. Pensei que estaria vazio (um bar de cervejas importadas às quatro da tarde de uma segunda-feira?). Que nada. Havia, sim, um bom movimento na aprazível varanda do Buena Vida Social Clube. Não sou muito acostumado com o peculiar público da Barra, portanto tudo é uma festa para os olhos. Pego logo uma mesa encostada na janela, de onde se pode ver um pequeno jardim. Na parte interna do bar, um balcão, algumas mesas, e nas paredes os tradicionais pôsteres de cervejas, mas em número e diversidade muito interessantes. Dá para ficar um tempo viajando nas marcas, rótulos, nacionalidades.

Para começar os trabalhos, peço uma caldereta de Stella Artois. Vem num copo de tamanho normal. Quando chamo o garçom ele me explica que saiu errado no cardápio. Só tem chope na tulipa, tanto o da Stella quanto o da Brahma. Sei. Observo uma mesa ao lado e noto que dois homens bebem cervejas diferentes, num balde com gelo. Antes de entrar nesse terreno, peço uma meia porção de croquetes de carne. Vêm assim, assim, sem muita emoção, quase pálidos (mas a mostarda estava ótima).

Vamos, então, ao que interessa: o cardápio de cervejas. É realmente especial. Tem cervejas holandesas, belgas, alemãs, japonesas e outras, todas com as respectivas descrições de coloração, sabores, teores alcoólicos. Uma alegria para os cada vez mais numerosos bebedores de cervejas diferentes, que curtem as variações, apreciando mais qualidade do que quantidades cavalares (mas, dependendo da ocasião, esta hipótese pode ter um inestimável valor...) O fato é que se pode beber muito bem no Buena Vida Social Clube. Basta ter dindim. Uma Duvel, por exemplo, uma de minhas favoritas, custa R$ 24, 50. Há também cervejas de 98 reais, a holandesa La Trappe Quadrupel, com seus 10 % de teor alcoólico.

Como o meu orçamento é mais modesto, arranjo-me com uma das promoções da casa. Um balde, em torno de 38 reais, contendo três marcas: a Lowembrau, a Franziskaner Weiss, e duas Leffe, a Blonde e a Brune. Sou atendido pelo mesmo garçom que trouxe a caldereta que é tulipa. Sem mais nem menos, ele escolhe a que vou tomar primeiro, a Lowembrau. Pergunto-lhe, como quem não quer nada, se há uma ordem certa para a degustação (em copos especiais). Ele diz que sim, o sabichão, mas sem muita simpatia. É boa a Lowembrau. Melhor ainda a Franz Weiss, a segunda na sequência. As outras duas, da Leffe, já conhecia e também gosto.

Peço o cardápio para comer outra coisa e agora vem um outro garçom. Constrangido, ele pede desculpas e explica que a cozinha está com problemas e não pode sair o espetinho misto (carne, frango e linguiça). Já gostei dele. Peço em seguida os mexilhões com fritas. Ele, muito tímido, se contorce todo, pois também não pode ser. Fechamos então nos anéis de lula, que vieram sem nada de mais. Ainda tomei uma última caldereta que é tulipa. Entre o garçom sabichão e o constrangido, este ganhou longe. Saúde e até a próxima.

Buena Vida Social Clube – Downtown, Av. das Américas, 500, bloco 9, loja 119, Barra da Tijuca (3251-5424)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Cachacinha, rock e blues

DE BAR EM BAR - OsBar



Primeiro foi meu consultor para bares no Centro e arredores, Marcus André, o vulgo Dudu. Depois foi o amigo ecologista (e emérito contador de casos) Ivan Sá Earp Silva. Bem, ambos me indicaram o lugar. Dudu me falou de um boteco perto de seu trabalho que serve pratos do dia como frango ensopado, dobradinha e rabada excelentes, ao som de rock e blues. O dono e cozinheiro, “um velho hippie de bandana” também atende no balcão. Sempre cheio para almoço, com engravatados ouvindo Janis Joplin; de noitinha, bar com cerveja Serra Malte e tudo. Eu queria ver isso. Até que fui esses dias com ele ao OsBar. OsBar porque é o bar do gaúcho Osmar, uma figura – parece de fato saído de algum filme, Easy Rider talvez (como que Osmar fosse o companheiro de viagem de Peter Fonda).

Mesmo com o tal trocadilho ou quem sabe também por causa dele (aliás, referendado numa pesquisa entre os frequentadores), OsBar é sensacional. Diria até que depois de 15 minutos rola a certeza de que o nome está perfeito. Pequeno, acolhedor, bem cuidado. O bar se limita a um grande balcão verde e banquinhos ao seu redor de um lado. Do outro, o Osmar e alguns poucos funcionários. No fundo, a cozinha. Nas prateleiras, uísque e cachaça de qualidade. Cachaças como Germana, Bento Velho, Providência, Salinas, Lua Cheia. Entre as cervejas, a ótima (e ainda difícil de ser encontrada) Serra Malte, Brahma Extra, Original. Nas caixas de som, um rock & blues realmente de primeira. E o melhor: nada óbvio. Tomamos cerveja e vibramos com o som. E já não estávamos sozinhos. Cinco e pouco da tarde, muito em pouco tempo o bar iria encher.

Como nas últimas semanas não se falou em outra coisa na cidade, dois amigos botafoguenses conversam sobre o futebol. “Aquele lance no primeiro jogo da final contra o Flamengo em que os nossos dois melhores jogadores, Reinaldo e Maicosuel, se machucaram na mesma jogada e, mais, sem nenhuma falta, aquilo ali acabou com a gente. Pareceu até coisa do Sobrenatural de Almeida.” O outro, naturalmente, concorda. Depois de alguns comentários – que endosso por completo – sobre a falta que Nelson Rodrigues faz para o futebol, para a literatura, e para a consciência crítica do brasileiro, os amigos se dedicam, ainda no tema futebol, a uma deliciosa e inútil questão: teria Ronaldo Fenômeno lugar na seleção de 70? (A meu ver, claro. Mas talvez no banco. Quem ia sair: o Tostão?).

Sabe-se perfeitamente que tais questões filosóficas e insolúveis dão fome. Peço um sanduíche de carne assada e tenho a confirmação de por que o bar está muito bem na foto. Não satisfeito, observo nas prateleiras vidros com belos palmitos, amazônicos, abundantes. Pergunto ao Osbar, perdão, ao Osmar se são para comer como aperitivo. “Pode ser também. É pra já.” Eu e meu consultor passamos então para a cachacinha. Sem dúvida, o OsBar é um botequim com a alma leve. Seu dono, que já abriu filial, também no Centro, imprimiu sua personalidade e aí está o resultado. Voltarei em breve para provar da refeição. Saúde e até a próxima.


OsBar – Rua Senador Dantas, 75-D, Centro (2220-5910)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Referências de sorrisos largos

DE BAR EM BAR - Chico & Alaíde


Alguns dias atrás, fui conhecer o Bar Chico & Alaíde, a nova sensação do Leblon. Tive a ilusão de que chegando naquele meu horário, no fim de tarde, seria tranquilo pegar uma mesa e observar tudo em volta. Que nada. O bar já estava bombando. Encontro logo o Chico, atrás do balcão, comandando a serpentina de chope. Como se sabe, o Chico foi garçom do Bracarense por mais de uma década. Lá, era aquele tipo simpático que atrai frequentadores para a casa, é citado nos jornais e fica famoso. Daí vira referência (com a Alaíde deu-se a mesma coisa).

Chico me recebe com seu sorriso largo. Depois ele me apresenta a Alaíde, que vem da cozinha toda paramentada. Deliciei-me durante muitos anos com os bolinhos de aipim com camarão, a carne-seca com farofa e o caldinho de feijão feitos pela Alaíde no Braca, mas nunca a tinha visto. Ela tem presença, é calma, elegante. A dupla realmente está bem formada.

Enquanto não consigo mesa, fico bebendo um primeiro chope em pé na pequena parte interna em frente ao balcão. Ali faz muito calor, mas já posso ir esquadrinhando o bar. Sem esforço localizo logo pessoas conhecidas: a Luciana, amiga do meu parceiro Roberto Frejat, o compositor Fernando Brant (com seus óculos característicos, um Ray-Ban com lente de grau) e até o Cambraia Neto, personagem de uma coluna anterior. Vejam vocês.

É interessante notar que o Chico & Alaíde possui uma semelhança estrutural com o Jobi – não por acaso, o projeto arquitetônico foi feito pelo mesmo Chicô Gouveia. Confesso que não me incomodou o fato, pelo contrário, há um lado aconchegante neste formato de bar. Mas principalmente porque a decoração é outra, a iluminação e – apesar do pouco tempo – o clima também. Essa é que é a graça dos bares do Leblon. Cada um (dos que valem a pena e não são poucos) tem a sua onda específica. Consigo, enfim, uma mesa de canto e me aboleto com o cotovelo no cercado do bar.

- Era um eterno encaixe. Mas tudo bem. Meses depois, Deus chegou pra mim e disse: “Vai!...” e me liberou de ficar sofrendo daquele jeito.

- Ah, eu não! Tem horas em que eu fico descontrolada! Eu preciso muito daquilo, entendeu? Mas passa rápido.

As duas amigas, trinta e poucos anos, não tão belas, estão animadíssimas. Falam alto, riem, o álcool já bateu. Estão se divertindo muito. Aproveito o garçom por perto e peço mais um chope e a novidade da casa: o totivendo de camarão, uma espécie de escondidinho mais explícito, digamos assim. É sensacional, saboroso, consistente. Olho para o lado e observo um casal de velhos traçando um prato cinematográfico. Pergunto ao mesmo garçom do que se trata: é a fritada de camarão. No embalo, pedi três acepipes que ainda não estavam, infelizmente, em fase de produção: o croquete de palmito, a trouxinha de salmão e o caldinho de frutos do mar. Contento-me com a maravilha de camarão. Maravilhosa. Ouvi dizer que aqui é o Braca do B. Bobagem. Não é preciso ser vidente para prever que o Chico & Alaíde terá sucesso a longo prazo. Não se esgotará na novidade. Saúde e até a próxima.


Chico & Alaíde – Rua Dias Ferreira 179, Leblon (2512-0028)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Quarentão que ainda se cuida

DE BAR EM BAR - Petisco da Vila


Fica num bairro pelo qual tenho a maior simpatia: o bairro de Noel, do Martinho, da Martn’ália. O boteco comemorou recentemente 40 anos. (É engraçado; trata-se de um bar tradicional, bastante conhecido – por isso pensei que tivesse idade mais avançada. Quem diria, é mais jovem que eu). Estou falando, naturalmente, do Petisco da Vila, na 28 de Setembro, via que tem, em suas calçadas de pedras portuguesas, desenhos de notas musicais. Isso é bonito.

Faz uma tarde chuvosa. O que não é motivo para que as calçadas do boulevard não estejam apinhadas. Vila Isabel é célebre por suas belas mulheres. Brancas, amarelas, mulatas, negras, azuis... Pude comprovar, sentado na varanda do Petisco, numa mesinha de frente para a rua Visconde de Abaeté, que faz esquina com a 28 de Setembro. Há uma TV passando um sonolento Fluminense X Boavista para ninguém. Na parte interna do bar, algumas pessoas ainda almoçam o buffet a quilo. Na continuação do salão, indo em direção aos banheiros, há uma entrevista sendo gravada naquele momento. Por deficiência minha, não reconheço de início quem responde, mas fico logo sabendo que é a Fátima Guedes, cantora e compositora importante da chamada MPB.

Peço ao simpático garçom, um senhor baixinho de cabelos bem pretos, um chopinho na meia pressão para começar. Chega um casal e senta-se à mesa na minha frente. É uma loura e um negão. Ela, feia e irritada, fala alto e pede (manda) que o negão vá comprar cigarros no pé-sujo em frente. Parecem casados. Ela bebe chope e o negão, suco de laranja. A loura marrenta acalmou. A conversa deles decididamente não é interessante. Apenas providências práticas. Mudo para a cerveja Bohemia e peço um caldinho de siri.

Observo no cardápio que por conta da comemoração de 40 anos foram resgatados acepipes que fizeram a história da casa: moela de faisão, paio no feijão manteiga, ovo colorido, joelho de porco, fígado de galinha. Fica até difícil decidir o que pedir depois do caldinho, que veio excelente. Eis que surge no bar, por coincidência, um outro casal loura & negão. Ela, de vestido florido de alça, é uma mulher bonita e enigmática, e o negão, pura simpatia. Conversam a uma certa distância; beijo nem pensar. Ele pede logo um balde com várias cervejas.

- Eu começo a me sentir culpado. Será que eu não tentei?

A loura enigmática nada responde. Apenas toma um gole de seu drinque, um dry martini. Ele continua:

- A nossa última vez em Arraial foi doideira! Mas naquele lance eu que dei mole. Na hora da crise, me falaram: não se afasta da família. Eu disse pra ela: “Não vai haver próxima vez... Não vai... Pode acreditar em mim.”

- Você é uma pessoa suspeita.

A amante, quer dizer... a loura, ela come a azeitona do seu drinque. Da minha parte, decido-me pelo paio cozido com feijão manteiga. Estava sensacional. Peço a saideira antes de tomar o caminho de casa. O Petisco da Vila, repaginado aos 40, não é dos que se fiam na tradição e acabam relaxando no corpinho, no serviço ou na qualidade dos produtos. Ainda bem. Saúde e até a próxima.

Petisco da Vila – Rua 28 de Setembro 238, Vila Isabel (2576-5652)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Chope novo no Luiz de sempre

DE BAR EM BAR - Bar Luiz


Uma leitora reclama que tenho me esquecido do lirismo e só fico ouvindo a conversa alheia. (Verdade, eu confesso. Aliás, nem tanto.) É a vida no bar que pulsa, e ao cronista cabe observar o que se passa ao redor. Diálogos e fragmentos entrecortados são a minha matéria-prima. Daí que tiro meus quase personagens, como Cambraia Neto, Sílvio Tornado, Clarice do Jóia e outros. Mas prometo na coluna de hoje não prestar atenção às mesas que gritam à minha vista como golfinhos de Miami – mas só dessa vez. Também, eu vim hoje acompanhado do Frejat. E, além do mais, estou num bar de alma exuberante. Estou falando do tradicional Bar Luiz, na rua da carioca, no centro do Rio de Janeiro, desde o ano de 1887.

Mas, antes de falar deste bar fundamental, abro um parêntese: Na ida ao centro, vale também uma visita à exposição dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como OSGEMEOS, no CCBB. É deslumbrante. Não é preciso entender – e nem mesmo frequentar – artes plásticas para curtir o trabalho. É grandioso e simples, inventivo, bom de se ver, pop na melhor acepção do termo. Ainda aproveitamos para ver um pouco da mostra do Filme Livre. Assistimos ao hilariante Como fazer um curta-metragem experimental, cult e pseudointelectual e ao belo filme da artista plástica Cláudia Hersz, Lifebuoy. Fechado o enorme parêntese cultural, vamos ao bar.

Entrar no Bar Luiz é voltar no tempo. Permanece tal como era em minha época de estudante de Direito, quando estagiava, ou enrolava, ali por perto – e já lá se vão duas décadas. Mas este bar, que é referência no estilo art-deco, não foi sempre o mesmo. O Bar Luiz já se localizou na rua da Assembléia, e já se chamou Adolfo (o nome mudou por ocasião do nazismo, e com a salvadora intervenção de Ary Barroso para conter uma turba furiosa de estudantes em protesto contra o “bar alemão”). Mas, na verdade, há uma alteração recente significativa. O chope deixou de ser da Brahma e passou a ser da Heineken e Sol (o claro) e Xingu (escuro). Sou fã do chope da Brahma, mas a troca não fez feio. Provei das três marcas e está tudo bem – como diz a música do meu parceiro Roberto Frejat, o funk Tudo de bom (com Maurício Barros e Bruno Levinson).

Frejat bebe água mineral. Como ele não encara carne vermelha, apenas eu comi do excelente salsichão com salada de batata, um clássico do Bar Luiz. Pedimos depois uma salada de bacalhau que veio divina. Leve e muito saborosa. Conversamos sobre insônia e, principalmente, sobre a importância específica da presença paterna na criação de filhos meninos, o dele, Rafael, o meu, Júlio (os dois, inclusive, já tocam guitarra juntos). Frejat pede uma torta de maçã de sobremesa. Ele precisa ir e eu fico mais um pouco.

Quero curtir um bocadinho ainda deste lugar. Tenho perto de casa uma filial do Bar Luiz, o quiosque na praia de Copacabana, que é legal, mas definitivamente nem larga com o clima da matriz no centro da cidade. É impossível sentar-se no Bar Luiz e não se sentir um carioca típico, com crachá e tudo. Peço então a saideira. Saúde e até a próxima.

Bar Luiz – Rua da Carioca, 39, Centro (2262-6900)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Fim de tarde no paraíso dos pastéis

DE BAR EM BAR - Bar do Adão


Fui dessa vez não à matriz, no Grajaú, porém à filial, em Botafogo, num casarão bonito e bem cuidado. Caía uma chuvinha fina no fim de tarde e o bar ainda estava meio vazio, esquentando para a noite. Uma ou outra mesa ocupada na parte externa, deu para escolher, tranquilamente, meu lugar no salão do pavimento térreo, perto da janela. Mas o “meio vazio” foi ledo engano. Em pouco tempo o bar lotaria. Estou falando do Bar do Adão, na rua Dona Mariana.

A primeira impressão logo é favorável. Na parte interna, há mesas e cadeiras de madeira. No térreo, em destaque, um enorme lustre art-déco. Nas paredes, onde muitas vezes está a identidade e, portanto, a alma de um bar, há pôsteres de LPs clássicos da MPB. Como “Sentinela”, de Milton Nascimento, Meus caros amigos, de Chico Buarque, Luar, de Gilberto Gil, Como dizia o poeta, de Vinícius, Toquinho e Marília Medalha, e muitos outros. Ah, tem também o Fagner de Eu canto...

Lembro-me das centenas de LPs que colecionava e me desfiz, sem espaço em casa e já sob o império do CD. Lembro-me também de uma crônica recente de Nelson Motta em que ele, como um Fukuyama pop, falou do “Fim da música”. É verdade que há uma saturação e que a maioria esmagadora do que se produz hoje, incessantemente, é lixo. Mas “Fim da música”? Continuamos a ter ótimos nomes “novos” para o mercado: Junio Barreto, Céu, Edu Krieger, Roberta Sá, Vanguart, Qinho & Os Cara, Rodrigo Maranhão, Rodrigo Bittencourt, Rodrigo Santos, são alguns deles. Mas o que interessa aqui, no Bar do Adão, é que os grandes mestres são cultuados e isto é bem agradável de se ver.

Como já disse, o bar encheu rápido. É que hoje, uma terça-feira, acontece a promoção de pastéis, o forte da casa. Qualquer um por R$ 2,30. Aliás, o Bar do Adão é o paraíso dos pastéis. (tem até o pastel “Pressão alta”, que leva aliche e alguns outros ingredientes explosivos). A casa enche de jovens e do pessoal que trabalha ali perto e vai depois do expediente. Mas um pouco antes disso, enquanto tomava o primeiro chope e pedia o primeiro pastel, de cogumelo (shitake, shimeji, e funghi secci), pude observar uma mesa de duas senhoras à minha frente. Eram duas velhas cultas, modernas, despachadas.

- A mulher não atura mais aquele homem desagradável. Isso já era. Mas ele é muito interessante.

- Eu agora peguei a mania de não depender de ninguém. Levo sempre meu jornal para a loja. Quando não é mais preciso, saio mais cedo e vou ao cinema. Aqui em Botafogo tem sempre filme bom passando.

Fico a me deliciar com a conversa das duas senhoras. Mas não dura muito. Logo elas têm que sair pois precisam pegar a oficina mecânica ainda aberta. É uma pena. São mulheres esclarecidas, abertas para o mundo, com a vantagem da experiência. Depois que elas saem, enfileiro os pastéis de palmito, o de queijo brie com damasco e o francês (camarão, alho poró e catupiry). São todos muito bons, sequinhos, com recheio generoso. E se me perguntassem: “Qual você preferiu?”. Diria sem pestanejar: “O de cogumelo.” Saúde e até a próxima.

Bar do Adão – Rua Dona Mariana, 81, Botafogo (2535-4572)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O recanto onde sempre é noite

DE BAR EM BAR - Gibeer


Por indicação de amigos, fui com S. ao Gibeer, na rua Lopes Quintas. O pequenino bar, de fato, é bem interessante. Abre só no fim da tarde e por isso lá é sempre noite. Em suas paredes, cartazes e bolachas de cervejas do mundo inteiro, e ainda pôsteres de histórias em quadrinhos como Asterix, Tintim e Mickey. Há, também, um reservado, uma saleta com um grande sofá de couro. O salão propriamente possui umas oito ou nove mesas e alguns banquinhos redondos em volta do balcão. A decoração é simples, despojada, elegante.

Mas acho que não dei muita sorte. Na véspera, houve uma festa na casa e, apesar da extensa carta de cervejas, o estoque disponível estava bem limitado – e um pouco salgado, digamos a verdade. Fui então de chope. Aliás, excelente, de fabricação artesanal. Bem, o bar estava, por volta de nove da noite, com apenas uma mesa ocupada, além da minha. Mas não pensem que o local estava silencioso. Pelo contrário. O som ambiente alto e o alarido da mesa ocupada por seis marmanjos impediam a paz.

- Tá de saco cheio da sua mulher? Pega a Ponte Aérea. Passa uma noite em São Paulo. Você não vai se arrepender. No dia seguinte, pega um avião de novo. E tudo certo.

A gargalhada que veio após o plano estratégico me lembrou do Bambam, grande Rodrigo Bandeira. Virei para olhar a peça e chego a levar um susto. De costas, era praticamente o meu amigo Bandeira. Gordo, baixinho, debochado. E, pelo visto, bem nascido. Essa pequena fuga para espantar o tédio conjugal, independentemente de ser machista ou não, não é para as massas, obviamente. Ao redor do gordinho sátiro, o único que estava de gravata, como a denunciar que veio direto do trabalho, espalhavam-se os amigos de camisa pólo e feições semelhantes. No que trabalharia o gordinho sátiro? Eu apostaria no mercado financeiro. De qualquer forma, ele era o comandante da mesa.

Já que nos era impossível conversar, a mim e a S., ainda que um desconfiado garçom tenha abaixado o som ambiente, peço ao mesmo e único garçom uma porção de croquete de carne para melhor acompanhar as aventuras do gordinho.

- Aquela fase foi braba. Separei pra dar um tempo à madame e aí fui morar logo com quem?... Eu chegava do trabalho e ele: “pra onde a gente vai?” A gente voltava de madrugada, bêbado, completamente louco, e eu tinha que acordar às sete. Ele, ao meio dia. Na noite seguinte era a mesma história: “pra onde a gente vai?” Meu irmão, eu até emagreci.

Todos caem na risada. O gordinho sátiro pede mais uma cerveja Norteña grande. Agora, só long neck, informa o garçom. O gordinho faz uma cara de meter medo. Eis que surgem no bar duas amigas dos rapazes, que até então estavam relaxados, na galhofa, e se transformam ao vê-las. Uma delas chega na animação total:

- E aí, vocês não vão assistir ao jogo do Flamengo? Não acredito!

Como se tivessem recebido uma ordem superior, em pouco tempo todos os seis marmanjos estavam do lado de fora já rumando para outro local. A mim e a S. só restou terminar os ótimos croquetes. Saúde e até a próxima.

Gibeer – Rua Lopes Quintas, 158, Jardim Botânico (2279-4161)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Brinde ao amor entre amigos

DE BAR EM BAR - Pavão Azul


O bar é pequenino (do balcão pode-se ver a cozinha, alguns palmos à frente, funcionando sem trégua), mas seu coração é enorme, quase tão vasto quanto o verso de Drummond. Chego, naquele horário de sempre, pelo fim de tarde. Por incrível que pareça – estamos num dia de semana – o bar já está cheio. Sento-me numa mesinha do lado de fora, diante da delegacia, a 12. DP. Qualquer coisa, eu já tenho onde passar a noite. Mas no bar Pavão Azul é só alegria.

Chego morto de fome. Aqui abro parênteses: não pude almoçar por conta de uma entrevista que atrasou, para a TV Brasil (antiga TVE), na qual pediram para que eu falasse sobre o amor. Passei a noite pensando o que dizer e saí com essa: “O amor verdadeiro é hoje produto em baixa no mercado das almas”. Bem, peço logo um pastel de camarão para acompanhar a cerveja gelada. Vejo à minha volta as mesas ocupadas e chama-me a atenção uma mesa com dois amigos em estado de euforia.

- Cara, há quanto tempo... Dá um abraço aqui de novo!

- Você está igualzinho.

- Já eu não posso dizer o mesmo. Tá totalmente grisalho, hein.

- Também, eu sou mais velho.

- Não é tanto assim. Mas, rapaz, que prazer! Ainda bem que a gente marcou logo esse encontro.

- Pois é, e eu achei que a gente ia ficar na troca de e-mails, adiando, adiando...

- Como é que está sua mulher?

- Tá ótima. A essa hora, no trabalho ou saindo com o cachorro. E você tá casado ou solteiro?

- Solteirão de novo.

- Era o segundo ou terceiro?

- Terceiro. Acredite se quiser.

- E quantos filhos?

- Um só, do primeiro. Graças a Deus! Imagina ter que negociar visita de filho com várias ex-mulheres?

- Vamos brindar a esse encontro. Mermão, sempre me lembro de você! Você não tem idéia como foi importante pra mim nossa convivência naquela época de estagiário. Aprender a beber, ir a botequim vagabundo, e mais do que tudo a máxima: com maluco de rua não se pode olhar no olho senão o cara gruda.

- É, essa aí eu aprendi aqui em Copa. E serve também pra bebuns chatos e malas em geral. Tim tim!

Aproveito para pedir mais uma cerveja e as famosas pataniscas (uma espécie de bolinho de bacalhau, sem o batatalhau). Vêm sequinhas, saborosas, como também estava o pastel de camarão. Agora já dá até para pensar um pouco. Penso, então, observando os dois homens agora brindando com uma cachacinha, no amor entre amigos. Tão imprescindível, ou até mais, que o amor romântico, porque, salvo desvios de rota, é sem cobranças excessivas e sem exclusividade. E é em parte como o amor paternal – pra vida toda. Admiro a relação carinhosa de amigos que, independentemente de terem se encontrado pela última vez no dia anterior ou há seis anos, são seguros da amizade verdadeira e de que há inteira reciprocidade no afeto do outro.

Pois há bares que também nos despertam este sentimento de serem benquistos e de fazer-nos sentir da mesma forma – como se estivéssemos em casa. O bar Pavão Azul é assim. Antes da conta, ainda peço o honestíssimo risoto de camarão pra viagem. E viva a amizade. Saúde e até a próxima.

Pavão Azul – Rua Hilário de Gouveia, 71 A e B, Copacabana (2236-2381)

sexta-feira, 20 de março de 2009

A alma ainda é a do Antonio's

DE BAR EM BAR - Rex


É um bom nome: Rex. E dá vontade de continuar dizendo: “Rex... Rex!... Aqui, Rex!”. Bem, fui ao Bar Rex, cujo símbolo é o célebre cachorro criado pelo Angelo de Aquino, e que fica quase na esquina das ruas Vinícius de Moraes (ex-Montenegro) e Barão da Torre, em frente à banca de jornal. Por lá, passam algumas das mais belas cariocas, deusas em trânsito, relaxadamente, indo para a praia, voltando, fazendo qualquer coisa. E o ipanemense em geral. Por isso, o ponto do bar é magnífico.

Mas, infelizmente, não posso dizer que tudo são flores. O bar antes era o “Antônio´s”, Antônio de um dos donos do Belmonte. Parece-me que o gerente ou sócio o comprou e virou Rex. Só que, pelo visto, o bar continuou, mesmo com nome diverso, um filhote do Belmonte. Na decoração, nos espelhos, nos ventiladores. Para o bem e para o mal, lembra muito a rede de bares que começou na praia do Flamengo.

Sento-me perto da rua e reparo nas poucas mesas ocupadas. Chamam-me a atenção, na minha diagonal, dois amigos. Eles conversam, fumam e tomam chope. Um deles é o típico malandro de praia, todo tatuado, cara de brabo, um James Dean da Montenegro entrado nos anos, mas bem. Continua queimadão de sol. O outro, mais acabado, um pouco gordinho, quase parece comigo. Na mesa colada à minha há um senhor moreno, de óculos, bebendo e lendo uma apostila.

Peço uma caldereta. O chope vem no ponto. Mas James e o amigo falam baixo e não é possível compreender nada. O que deu para ver é que surgiam na mesa deles, o tempo todo, figuras de passagem. Como a moça linda e a filha pequena, ou o negão simpatia pura, ou a mulher loura de meia idade com um cachorrinho na cesta da bicicleta. Nisso, eis que a mesa ao meu lado ganha outro colorido. Como um furacão, entra no bar uma velha senhora e senta-se na mesa do professor universitário (ou coisa parecida).

- Você viu o Zeca Pagodinho internado? Adoro esse rapaz. Da sua idade, hein!

- Tem que parar é de fumar. Acaba a resistência.

- Você deu aula hoje?

- Teve reunião. A trabalheira vai começar semana que vem.

De repente toca o celular. “Eu quero que você conheça meu filho. É... A gente passa de carro para te pegar... estamos aqui, no ex-Antônio´s, mas eu estou querendo ir a Copacabana comprar um presente... Olha, me ligou ontem um rapaz querendo alugar o apartamento, mas não deixou o número do telefone no recado. Um burro!”

A mãe só fala gritando. O filho é contido, calmo. Ela mora em cima do bar, brinca com o garçom, pega no braço. Ontem, bebeu muito. A música ambiente toca um rockabilly anos 50, a velha se balança, é animada à beça. Até que pedem a conta e saem.

Sinto fome ainda, mesmo depois da empada de palmito recheada com fartura. Peço um pastel de salmão, nessa onda de pastel de tudo. Não tem. Vou no popular pastel de camarão e um chope antes da conta. Há uma divergência quanto ao número de chopes tomados, e o garçom me pergunta se quero beber o cobrado a mais para acertar o valor. Sem chance. Ainda falta algo fundamental ao Rex – a sua alma. Saúde e até a próxima.

Rex – Rua Vinícius de Moraes, 146, Ipanema (2267-0710)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Restaurante ou boteco? Ambos

DE BAR EM BAR - La Fiorentina


Certa vez fui recebido, no início de uma noite abrasadora de verão, por um simpático e eterno Ary Barroso – prenunciando o elenco estelar do estabelecimento. Vêem-se, sem muito esforço, as assinaturas, na toalha de papel da mesa, de nomes como Marília Pêra, Caetano Veloso, Braguinha, Ziraldo. Pode-se dizer que a casa sempre foi assim com as estrelas. Mas seria o La Fiorentina um restaurante ou um bar?

Acho que a Fiorentina é uma coisa e outra. O leitor pode, por exemplo, tomar vinho e jantar a dois, romanticamente, um risoto de funghi no salão, olhando para os quadros e os garranchos nas paredes de artistas famosos, como também pode pedir chope e comer camarão ao alho e óleo, na calçada, olhando para o mar de Copacabana. Fica ao seu critério. E os dois programas valem.

Sentei-me na parte externa, sob o toldo branco padronizado. As mesas são de plástico com pé de metal e cadeiras com assento imitando palhinha. Na falta ainda de público, dois garçons brincam de se zoar mutuamente. À distância, o maitre ri e apóia-se, destemido, na cabeça de um leão (assim como na entrada do bar há a estátua do compositor de “Aquarela do Brasil”, na entrada para o salão, há dois leões, em posição de guarda, um em cada lado da porta).

- Por que não reserva a escuna? Tô falando sério. Vai ser legal.

- Claro que não.. Vai ser péssimo!

O casal afinado tinha seus 50 anos. Ela comia salada verde com frutos do mar, ele bife com batata frita. Ela era animada, ele soturno. Estavam esportivos, se é que boné, camisa social, bermuda e tênis podem ser considerados assim. A senhora vestia camiseta e malha de ginástica. Os dois bebendo chope.

- Você é ótima na teoria! Mas prova que eu estou errado... aquilo vai virar um chiqueiro.

Ela se limita a tentar tirar com a unha, depois com um palito, o pedaço de alface preso entre os dentes. Ele não se incomoda. Conversam sobre trabalho e, à medida que os chopes vão se sucedendo, o tom aumenta. Será que recebem turistas? O que sei é que, subitamente, o ritmo de chegada de pessoas ao bar virou uma verdadeira loucura. E logo deixei de me interessar por aquele casal.

Duas mesas prenderam minha atenção, enquanto pedia ao garçom uma porção de camarão no vinho branco – uma delícia. A primeira mesa era comandada por uma autêntica vovó garota. Vestido preto matador, sandália de salto, a pele bronzeada. Ao lado, as netas e a namorada do filho. (Ah, as múltiplas configurações da família moderna...) Pelo vaivém, pude perceber que moram perto e são chapas dos garçons. Daria uma outra coluna.

A segunda mesa que observo reúne três mulheres. Trabalham juntas, são maduras, independentes e solteironas. Nem bonitas, nem feias, desinteressantes. Por isso mesmo, botei fé no que tinham a dizer.

- Por que você tem pena dela?

- Ela é muito solitária.

Bem, com essa, resolvi fechar a tampa. Mas, antes, pedi uma porção de mariscos, também uma maravilha – inclusive, vieram a caráter, com as respectivas cascas. Rosados, pareciam até frutos do mar de férias no Leme. Saúde e até a próxima.

La Fiorentina – Av. Atlântica, 458 A, Leme (2543-8395)

sexta-feira, 6 de março de 2009

"O lance é tipo assim, sacou?"

DE BAR EM BAR - Botecotaco


Daqui vejo o trânsito escoar lentamente, como é comum a qualquer hora do dia neste trecho de passagem. Observo também, do outro lado da rua, os muitos cartazes lambe-lambe de shows no tapume que cobre a extensa área ao lado da Casa de Saúde São José. Mas vamos ao que interessa: estou num estabelecimento que existe desde os anos 40, templo de várias tribos e de uma malandragem Zona Sul que, entre um gole e outro, joga sinuca e aposta nos cavalos (hoje apenas no jirau). Estou falando do Botecotaco, que foi reformado mais recentemente e ganhou banho de loja.

Há o primeiro salão, apresentando mesas com tampo de mármore, quatro ou cinco mesinhas redondas com bancos altos perto da entrada, um grande balcão com assentos em volta, uma TV de plasma enorme e uma jukebox – graças a Deus, desligadas neste fim de tarde. Depois há o segundo salão, vazio e escuro ainda, com cinco mesas de bilhar perfiladas em paralelo, imponentes, absolutas. Lembro-me do Maracanã, que ao apagar dos refletores nos jogos noturnos, virava, no dizer dos antigos locutores de rádio, o gigante adormecido.

Sento-me na primeira mesinha alta, perto da calçada, e peço uma cerveja. Há mais três mesas ocupadas: numa um casal, noutra dois amigos jovens e na última dois senhores da velha guarda. De cara chama a minha atenção a mesa dos amigos jovens porque um deles, de óculos, cabelo comprido, barba por fazer, calça jeans e camisa de manga comprida no calorão que está fazendo, quase grita ao celular. O amigo ao lado, de camiseta e bermuda, só faz tomar seu chope (a casa tem chope da Brahma e cerveja de garrafa). O barbudinho fica horas ao telefone falando um assunto de trabalho, pude perceber que ele é videomaker ou coisa parecida. Mas sou atraído por um certo linguajar BBB:

- Eles fazem tudo para a pessoa, tipo assim, se sentir à vontade. Tudo! Tipo assim... estávamos eu e a Mári de BH... a boite lotada, lotada! Aí, não sei como, ele parou na minha frente. A gente começou a conversar, papo vai papo vem...

- Já entendi tudo.

Achei que era um casal, mas o rapaz é só um amigo da moça, a típica menina, animada à beça, que sonha entrar no Big Brother Brasil. Bebem cerveja e ela fuma, sob os protestos dele. Começam a chegar os primeiros freqüentadores do segundo salão. Peço outra cerveja e o cheeseburguer da casa, correto e bem servido. O amigo da Tipo assim se levanta para ir ao banheiro e, enquanto isso, ela puxa conversa com o garçom. Ela pergunta onde ele mora e em seguida entra com seu assunto preferido: azaração. O garçom até arrisca um palpite:

- É... com mulher é mais difícil.

- Comigo não tem isso não. Quando eu tô a fim, tipo assim, não tem parada. Eu chego junto.

Eis que surge no bar o grande jogador de sinuca, o Carne Frita do pedaço. Elegante, ele traz seu próprio estojo com taco e tudo mais. Ocupa, discretamente, a segunda mesa. Deixo de lado a (futura?) BBB e suas questões metafísicas, peço a conta, mas antes de sair vou até lá admirar um pouco a arte de, tipo assim, matar a bola sete. Saúde e até a próxima.

Botecotaco – Rua Humaitá 122, Humaitá (2539-5109)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O fanfarrão do boteco ao lado

DE BAR EM BAR – Adega da Praça


A Adega é praticamente um pé-sujo. Onde está escrito “Adega” poderia estar cravado um “Bar” – e não que ache isso exatamente um demérito. Mas a Adega da Praça é um pé-sujo simpático. O espaço é pequeno do lado de fora, apenas cinco ou seis mesas. A vista da calçada dá para a Praça São Salvador, típica praça dos velhos tempos, com seu chafariz, suas árvores, seus aposentados, suas crianças correndo.

Chego esfomeado ao local, nessa tarde de muito calor. Dou uma geral nas mesas em volta, vejo uma família almoçando PF, duas mulheres comendo pastel, um casal, bastante curioso, bebendo cerveja. Peço ao solícito garçom uma Brahma Extra e, seguindo as mulheres, um pastel de queijo minas. O casal é curioso porque ela parece a Marge Simpson e ele, um hippie velho.

- Eu preparei a casa, fiz comida. Aí quando eles chegam ficam me criticando.

- Você não quer ter trabalho?

- Não é isso!

Irritados um com o outro, Marge e o Homer psicodélico ficam um tempo calados. Depois de devorar o pastel – consistente, sequinho –, eu pude descobrir que o problema era com os filhos, que têm vergonha dos pais meio hippies. O eterno e necessário conflito de gerações. Antes que eu pegasse no sono com o silêncio, observo um senhor de bigode que mudou de mesa e pede para o atendente, o mesmo garçom solícito que me serviu, limpar o local. Mas com certa aspereza.

- Seu primeiro dia hoje?

- É, sim senhor.

- Você vai gostar. Aqui é bom.

O bigode diz o “aqui é bom” cheio de marra. Em seguida, assoa o nariz, dá uma tragada no cigarro e um gole na cerveja. Os trajes são humildes, a arrogância vem de sua personalidade. Olho para dentro do bar. Nas paredes de azulejo, cartazes de cerveja, plaquetas com ditos populares, como “A inveja é igual a sapo: tem olho grande e vive na lama”. Eis então que surge o meu personagem.

Ele sequer estava no mesmo boteco. Fronteiriço à Adega da Praça fica a Casa Brasil, um bar mais sofisticado. Mas eu ia dizendo que o meu personagem adentrava o bar vizinho. De forma barulhenta, cumprimentando a todos de uma mesa de locais. Lembra um pouco o Ernesto Neto, talentoso artista plástico, ou o Cambraia, também talentoso, baixista de Nando Reis.

(Mas se o leitor não conhece nenhum dos dois, nem sabe como são, explico que o personagem é gordinho, simpático, cabelo comprido encaracolado e inteligente. Sobretudo inteligente.) Vamos chamá-lo, por justiça, de Cambraia Neto. Imediatamente, Cambraia Neto centralizou todas as atenções na mesa da rapaziada da área:

- Entendeu? Você tá numa roubada e ele é o cara que vai ajudar. A malandragem está na ajuda!...

Camisa social, calça jeans e bolsa de couro, Cambraia Neto toma um chope com os amigos e conta em detalhes a sua viagem à Espanha. Ele conheceu Madri, Barcelona, Granada, Galícia. Todos riem muito. Fico a me deliciar com as histórias do fanfarrão. Peço, na minha Adega, um sanduíche de salaminho e mais uma cerveja, enquanto o olhar está todo voltado para o bar do lado. Culpa do Cambraia Neto. Saúde e até a próxima.

Adega da Praça – Rua São Salvador, 75, Flamengo (2558-3285)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sobre empadas e odontologia

DE BAR EM BAR – Salete


Dia desses, fui ao Salete com meu irmão Maurício (pensei em botar “M.”, mas o outro irmão também é “M.” de Marcelo). Ele, dentista e professor universitário, dá aula ali perto e está prestes a mudar o pouso acadêmico para outras paragens. Aproveitei, enquanto há tempo, a companhia de quem conhece bem o local. Para quem não sabe, o bar Salete é uma instituição na Tijuca, fundado pelo espanhol Manolo, em 1957.

Chego antes de meu irmão e posso observar com calma o ambiente. Bar das antigas, e também restaurante, com risoto de camarão, filé e tudo mais. Paredes com azulejos brancos e azuis, chão com tacos alvinegros, quadros naturalistas de paisagens remotas. Há, além de mim, mais algumas pessoas em três ou quatro mesas. Lá fora, as mesinhas redondas com banco alto estão todas ocupadas.

- O que o técnico disse? É pra você ir treinar ou não?...

O homem que conversa ao celular toma um chope e está diante de outro que bebe uma coca. Desliga o aparelho e fala com seu acompanhante.

- Nós jogávamos contra o Flamengo de Zico e Júnior, tomávamos de seis, sete, oito... E quando alguém se destacava, vinha o clube grande e se entendia com a gente, não tinha essa de empresário.

- Pra você, que jogou muito, mesmo não tendo conseguido um time de expressão...

- As contusões nos dois joelhos acabaram comigo.

- ... pra você deve ser mole lidar com esses garotos, falar a língua deles...

- Hum! O moleque hoje faz uma partida boa, no dia seguinte já quer um contrato com o Milan, o Real Madri.

Da cozinha sai uma fornada de empadas. Rapidamente surgem dois interessados e levam embalagens com os acepipes. O garçom pega algumas para servir as mesas da calçada. Nisso, desce as escadas do salão refrigerado, no andar de cima, uma mulher loura com ar de poderosa. Ela fala com um funcionário no balcão, senta-se na mesa perto da cozinha e come singelamente uma empadinha.

- Tá faltando coração. Ninguém quer mais jogar no mesmo clube duas, três temporadas. Só se for no Flamengo.

- Lá vem você com essa mania de achar que o Flamengo...

- É o maior do mundo mesmo, só que o mundo agora é outro.

Eis que chega o meu irmão. Ele também é flamenguista e devoto da religião segundo a qual todos são flamenguistas, mesmo que alguns não o reconheçam – obviamente que já brigamos muito por futebol. E a loura poderosa, que já estava sentada com outras pessoas na mesa ao lado da minha, se levanta e se dirige a ele:

- Como é que você entra aqui e não vem falar comigo?

Ela é a Sílvia, que toca o negócio depois da morte do pai, há quatro anos. Para isso, teve que largar a vida de dentista para dedicar-se ao Salete, mantendo-o como sempre foi. Aliás, com algumas pequenas modificações, como botar no cardápio as empadas de palmito e frango. O pai achava que devia restringir-se à perfeição da de camarão. Mas comprovei que aquelas também são excelentes. Pude experimentá-las enquanto ouvia algumas histórias engraçadas do Manolo. Graças a Deus, meu irmão e sua ex-aluna não falaram sobre odontologia. Saúde e até a próxima.


Salete – Rua Afonso Pena 189, Tijuca (2264-5163)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O meu momento Gisele Bündchen

DE BAR EM BAR - Pizzaria Guanabara


Outro dia tive meu momento Gisele Bündchen. Aliás, não só eu, como também o amigo e colunista vizinho Alexandre Lalas. Fomos fazer uma foto para a capa desta nossa Revista em pleno Baixo Leblon. Apresso-me em dizer que estávamos lá apenas para indicar um punhado de bares e lugares de vinho (desculpe, Lalas). Enfim, eu nem acreditei quando, no meio da tarde, adentrei a Pizzaria Guanabara e um miniestúdio havia sido montado para nos receber. Foi, sem dúvida, o meu ápice como modelo fotográfico.

A Pizzaria Guanabara é um bastião da boemia carioca, imune a modismos e horários. Se eu fosse dizer quantas madrugadas já passei por aqui, desde meus vinte e poucos anos, quando a rua parava e as pessoas ficavam bebendo na rua, mais ou menos como é hoje no Baixo Gávea, não vou conseguir. E provavelmente como alguns de vocês também não. (Hoje há também uma Guanabara na Lapa e na Barra, mas estou me referindo, naturalmente, à original).

A varanda está com duas ou três mesas ocupadas. Ainda é muito cedo para o movimento normal. Eu e Lalas ficamos na parte interna, absolutos, onde foi improvisado o cenário para a foto. Bem, vamos encurtar esta parte. Depois de umas duzentas fotos “não tão boas”, segundo o paciente Fernando Souza, o fotógrafo, e vários chopes e taças de vinho para que um simples brinde ficasse ao menos razoável, conseguimos finalizar. Ser canastrão dá muito trabalho.

Eis que surge no bar a jovem cantora Marília Bessy. Eu e Marília sentamos na varanda. Ela me conta que vai lançar disco com a produção de Rodrigo Santos, baixista do Barão Vermelho, que também vai lançar CD em breve, o seu segundo (O Rodrigo vale uma coluna à parte: era um sujeito desgovernado quando bebia, capaz de fazer barbaridades de comédia pastelão, parou com tudo e hoje está bem assim, criativo e produzindo bastante – e, graças a Deus, não perdeu o humor).

Bebemos chope e comemos um couvert básico, com pão de queijo, picles, torrada, manteiga e azeitonas. Marília Bessy me conta detalhes do seu repertório, de como, envergonhada, conheceu Ney Matogrosso, dos elogios que recebeu. Marília é uma baixinha vulcânica. Já ouvi alguém dizer que será a nova Cássia Eller. Eu acho isso de uma injustiça cruel. Com a Cássia, obviamente, porque ela era fabulosa, uma artista incomparável. E com a Marília também, porque isso seria peso demais sobre sua cabeça. Melhor deixar Marília Bessy ser Marília Bessy.

- Eu nem ligo mais. Agora com a minissérie da Globo até a Maysa já disseram que tem a ver comigo.

A noite vai caindo e a Pizzaria começa a encher. Lembro das muitas noites em que dava uma passada rápida e comia um pedaço de pizza no balcão. Ou de quando comecei a vir aqui e sempre dividia um medalhão com arroz à piamontesa com meu amigo Ricardo Coelho, um natalense carioca. Eu e Marília pedimos uma pizza portuguesa, apesar de seus protestos por estar de regime. Mas ela não se arrependeu. A Pizzaria Guanabara continua sendo única. Até o dia amanhecer. Saúde e até a próxima.

Pizzaria Guanabara – Avenida Ataulfo de Paiva, 1.228, Leblon (2294-0797)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Primor de concisão

Gosto muito de poemas curtos, conforme o nobre preceito do menos é mais. Este, de Francisco Alvim, é sensacional:

Argumento


Mas se todos fazem


(In: Elefante. S.Paulo, Companhia das Letras, 2000)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

DE BAR EM BAR - Casa Paladino


O espaço do bar, no antigo estabelecimento situado na esquina da rua Uruguaiana com a avenida Marechal Floriano, é dividido com uma mercearia de secos e molhados. E posso lhes garantir, só por esta singela descrição, que vale a visita. Trata-se da Casa Paladino, presente entre nós há 102 anos. (um detalhe: a entrada é exclusivamente pela tal mercearia.)

Faz um dia chuvoso no verão do Rio de Janeiro. Que novidade. Não tanto como no dia anterior, de alagamentos, trânsito infernal, transtornos absurdos. Chego no meio da tarde, há duas mesas ocupadas: na primeira, um rapaz come um sanduíche de salame; na outra, está um senhor gordinho, cabelo liso escuro, camisa social listada de vermelho e branco, calça social bege e pulseira de ouro no pulso. Ele conversa animadamente com o garçom, toma um chope e um Steinhager.

- Já reclamei que vocês estão perdendo cliente. Sabe o que é que ele me falou?

- Posso imaginar.

- “Estou preservando sua saúde.” Ora!...

Peço um chope e meia porção de azeitonas calabresas para abrir os trabalhos. O salão tem em torno de 25 mesas, todas com toalhas azuis, e cadeiras boas, experientes, como quase tudo aqui (olho para o teto e vejo-o descascando; enquanto não começar a esguichar água tudo bem). O garçom que conversa com o fumante agoniado é o Mário, o mais antigo dentre os garçons do local. Mas, mesmo assim, não vão pensar que o coroa é a uma múmia.

- Eu vou me aposentar esse ano. Agora aposenta até pela internet. Depois vou viajar.

- Você que é feliz, Mário. Eu com a minha aposentadoria dá para ir até o Méier. E de van, não é de ônibus com ar condicionado não.

E continua a reclamar que não pode fumar ali, porém mais por costume do que por alguma chance de vingar a demanda. Até que vem o dono, mais de 70 anos, português legítimo, sotaque original e tudo. Tapinha nas costas para cá e para lá, sorrisos, brincadeiras, e, sem nada mais a fazer, o dono se volta para seus afazeres no armazém.

O senhor gordinho da pulseira de ouro ainda pede mais um chope e um Steinhager. O rapaz que comia sanduíche já havia se retirado. O gordinho, depois de virar suas bebidas, confidenciou-me, tocado, com a intimidade de quem era o único além dele no bar: “Não sei se você sabe, mas eu mudei o escritório para a Rio Branco. Vai ficar mais longe daqui. Assim eu paro de beber”. Deu um risinho e saiu. E eu retribuí, fingindo que acreditei.

Fiquei sozinho no salão. Aliás sozinho, não: eu, Mario e outro garçom jovem, raridade no pedaço. Eles comentam que ontem, devido à chuva, só conseguiram pegar trem depois das dez. Eu, na minha ingenuidade, digo que deve ter ficado vazio o bar por causa do temporal.

- Pelo contrário, o bar lotou do pessoal esperando a água baixar.

Só me resta comer uma omelete. Fico na dúvida e peço ao Mario uma sugestão. Ele me recomenda a de sardinha portuguesa. Eu aceito. Ele pergunta: salsa e cebola? Certamente. Não ouso contrariá-lo. A omelete vem divina. Acompanho com um chope escuro, muito bem tirado. Saúde e até a próxima.

Casa Paladino – Rua Uruguaiana 226, Centro (2263-2094)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

(Passo hoje a lançar regularmente neste blog a coluna De Bar em Bar, publicada também na Revista Programa do JB)

DE BAR EM BAR - Hipódromo


Falei aqui outro dia sobre o Braseiro da Gávea. Dessa vez, atravessei a rua e fui ao rival. Não por uma questão de comodidade – até porque, claro, não fui no mesmo dia -, mas por uma questão de inteira justiça. Invocar o nome do Baixo Gávea em coluna e não discorrer sobre o Hipódromo depois, não pode. Simplesmente não dá, o leitor sabe disso. (ainda tem o Bar do Alemão, O B. G... Mas a gente chega lá.)

O Hipódromo era quem dava as cartas no princípio. Em suas mesas, sempre mil coisas, muitos filmes, canções, teatro, futebol, sexo verbal. Houve nos anos 90 a ascensão do Braseiro (um amigo o chama de Galeto) e de repente o velho Hipódromo ficou às moscas. A picanha com arroz de brócolis do boteco do sósia do Mário Covas, o Galeto (ou Braseiro), era considerado um prato irresistível. De noite, azaração, gente louca, esquina fatal.

Bem, mas o que importa é o seguinte: fui no fim de tarde de sábado nublado, aquele calorão, encontrar-me com S. e J. depois do cinema. Eu fui ver o filme Juventude, do Domingos de Oliveira, filmaço, uma pequena obra-prima. Eles foram debulhar lágrimas com Marley e eu – chegaram extenuados à Praça da Gávea. O Braseiro estava bombando com fila na porta. Impraticável. Atravessamos a rua de mão dupla.

No Hipódromo, agradavelmente semi-cheio, a primeira coisa que reparei, ao entrar na varanda e desviar de um carrinho de bebê, foi que na mesa ao lado comia-se uma suculenta picanha com arroz de brócolis e batata frita. Antes que pudesse arrematar a idéia de que se não dá para combater o inimigo é melhor fazer igual a ele, eis que surge o garçom e lembro que o conheço de algum lugar. Sim! Ele era do Braseiro...

- Se eu fosse dizer tudo que sei, ele ia botar meu nome na encruzilhada! Ia beijar meus pés!

Mesmo que fosse algo besta, seria impossível não notar porque foi lançado aos gritos pela mulher da mesa na diagonal, com mais três amigos, todos homens. Era morena, não era bonita, mas tinha uma jovialidade que atraía os marmanjos, que só faziam ouvi-la fascinados. Quando começamos a nos acostumar com a gralha, da mesa atrás vem outro ataque de alta potência:

- Como ele era bonito! Um gostoso!... um, ai... tudo de bom!

Mesa de quatro amigas. Não deviam ser cariocas. A que falou certamente não. Uma gauchinha, de seus 20 anos, gordinha, cabelos lisos. Peitos fartos, decote profundo, auto-estima ok. Também falava aos berros. O que deu nessas mulheres? Curiosamente, a primeira mulher, a morena na mesa da diagonal, passou a conversar mais baixo depois que passaram do chope para o uísque. Não era para ser o contrário?

Pedimos primeiro a linguiça sem trema. Veio excelente. Depois o coração de galinha no espeto. Dos melhores que já comi, misturado no alho. Em seguida, galeto na brasa com fritas. Ótimo. E chope gelado na meia pressão. Nesse início de noite o Hipódromo não apenas fez parecido como fez melhor – o que é bom para todos. Nada como a concorrência respirando no cangote para não haver acomodação. Saúde e até a próxima.

Hipódromo – Praça Santos Dumont, 108, Gávea (2274-9720)

domingo, 25 de janeiro de 2009

DE BAR EM BAR - Allegro Bistrô (Modern Sound)


Tenho uma alegria especial em vir a este bar que fica dentro da loja que está na minha história. Já gastei, feliz, rios de cartão de crédito por aqui – e, por conta disso, levei para casa alguns dos objetos que mais amo na vida. São os discos, os LPs, os CDs – a música, enfim. É verdade que a crise do mercado fonográfico, sem precedentes, transformou o CD no próximo dinossauro – caríssimos, eu mesmo deixei de comprar tanto. (Diante da crise, passaram até a ter outras funções: outro dia, vi um mendigo, sentado num banco da Avenida Atlântica, pentear-se usando um CD como espelho).

Mas bem antes da queda brusca nas vendagens do CD, os donos da loja (os Pedros, pai e filho) sabiamente passaram a investir no bar, que já existe há oito anos. Portanto, o bar, que oferece também boa música, cresceu, ganhou espaço e tornou-se um lugar de referência de shows e até de comes e bebes. Estou falando do Allegro Bistrô, o bar da Modern Sound, na Barata Ribeiro, pertinho da Santa Clara, todos sabem onde fica.

Cheguei cedo para ver o show do Hyldon, um dos fundadores do soul brasileiro, junto com o síndico Tim Maia e Cassiano. Para quem não lembra, é o autor do clássico “Na rua, na chuva, na fazenda”. Hyldon está lançando disco de inéditas, depois de mais de 15 anos, e tenho o orgulho de ter uma parceria com ele no CD. No Allegro Bistrô, são lançados mais de 100 discos por ano. E são 600 shows anuais. Por aqui já passaram nomes como Francis Hime, Marisa Monte, Yamandu Costa, Erasmo Carlos, João Carlos Assis Brasil, Paulo Moura...

Além disso, o Allegro é elegante. Duas ou três fileiras de mesas de tampo de mármore e cadeiras de madeira, como devem ser, e um palco soberano. Ao fundo, na direção do banheiro, um balcão com bancos altos em volta. Obviamente que o lugar respira música. Em suas paredes, pôsteres de artistas. Peço um balde com três cervejas diferentes: Cerpa, Bohemia e Heineken.

O movimento do bar vai crescendo à medida que se aproxima a hora do show. Garçons passam apressados para lá e para cá. Peço logo uma porção de queijo prato e uma Caponata. Há as mesas de freqüentadores habituais, como a das saltitantes senhoras tomando chá e comendo sanduíches. Ou a do senhor à minha frente, bebendo um Chivas Regal. Chega em sua mesa um casal de amigos e, de imediato, o senhor solicita ao garçom, a cara do jogador Obina, um balde de Bohemia e uma tábua de frios.

- É fácil. Eu abro o Clarín, vejo o que está se passando, os shows... e pronto!

Falam de Puerto Madero, Hotel Faena, crise, alta do dólar. São bons vivants que adiaram uma viagem a Londres e, até segunda ordem, se divertirão em Buenos Aires. O homem é alto, atlético, tem uma barbicha branca. A mulher é loura e a idade ainda não afetou a sua beleza. Sobre eles mais não falo porque vai começar o show.

E também porque hoje o meu personagem não é ninguém de carne e osso – mas o próprio palco, soberano, razão maior da existência deste bar. Ah, sim, o show é de graça. Saúde e até a próxima.

Allegro Bistrô – Rua Barata Ribeiro 502, Copacabana (2548-5005)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

DE BAR EM BAR - Braseiro da Gávea

Quem nunca se apaixonou perdidamente, ao menos por cinco minutos, no Braseiro? Lá pelos anos 80, havia no lugar um pé-sujo que vendia cerveja Malt 90 (argh) e o pessoal bebia em pé na calçada. Mais para o final da década, o Baixo Gávea passou a ser o principal point da Zona Sul com a decadência do Baixo Leblon. Mas para ser Baixo não adianta só juntar gente, multidão, é preciso ter história. E sobre o BG daria para escrever um livro volumoso, dividido em vários tomos.

No início era o verbo. E o Hipódromo do outro lado da rua. Talvez no limiar dos 90, a coisa tenha se invertido e o Braseiro da Gávea é quem começou a dar as cartas. Tanto que conseguir mesa no fim-de-semana à tarde, especialmente no domingo, depois da praia, é tarefa dificílima. As filas são quilométricas. Mas para quem quer ver e ser visto não há lugar melhor. (Atualmente o movimento voltou a ser mais equilibrado entre os dois bares.)

Mas estou agora no Braseiro da Gávea, num dia de semana de verão. Começo com um chope e a tradicional lingüicinha na brasa. Eis que chega Seu Jorge. De cara dou-lhe os parabéns pelo sucesso todo e pergunto-lhe se ainda pensa em montar um bar com Ed Motta e Marcelo D2. Um bar com ovo colorido e tudo. Seu Jorge responde que agora não dá, “mas a idéia tá viva”. Então ele me pergunta como é que foi “O rei dos escombros”, uma peça minha (sim, me aventurei na co-autoria), em que ele cantou numa das músicas. Isso já tem um tempão. A peça não foi lá nada bem, mas a música ficou ótima.

Seu Jorge me dá um abraço e se adianta para um compromisso. Poucos minutos depois, chega o Otto, de bicicleta. Ele tomara um tombo, felizmente sem gravidade, e passou ali para dar uma relaxada. Depois que esvazia um copo, pergunto-lhe do disco novo. O título é: “Certa manhã eu acordei de sonhos intranqüilos”, inspirado no Kafka de “A metamorfose”. Não tem prazo ainda, é independente. Otto, além de imprevisível, é um poeta. Ou não é, quem escreve coisas como: “Esse amor me derreteu / Ajoelha-te esquece / A quem te machuca / Agradece, meu Deus / Dói demais / Tanta história de fogo / Que se passa / É melhor se queimar / Que viver na solidão” (“História de Fogo”, com música dele e Alessandra Negrini).

Falamos ainda sobre cães, e Otto também se foi. Aqui no Baixo Gávea é sempre assim. Os artistas vão se alternando numa velocidade espantosa. Um amigo jornalista chegou a passar, certa vez, 12 horas seguidas no Braseiro ouvindo histórias. E há, claro, os queridos personagens anônimos, como os da mesa ao meu lado. Primeiro só a filha, de seus 7 anos, e o pai, já de meia-idade. De repente, chega a namorada jovem do pai. Pouco tempo depois, aparece o pai da moça, da idade do namorado (a família moderna tem incontáveis combinações). Batem um papo animadíssimo. Mas, a esta altura, a fome já é grande. Só me resta pedir a picanha fatiada com arroz de brócolis, farofa de ovo e batatas portuguesas – um clássico do cardápio. E mais um chope para acompanhar e lavar a alma. Saúde e até a próxima.

Braseiro da Gávea – Praça Santos Dumont, 116, Gávea (2239-7494)