sexta-feira, 17 de maio de 2013

segunda-feira, 13 de maio de 2013

ARGOS

É com muito prazer que informo: meu novo romance, Argos (Móbile Editorial) agora se encontra disponível no site da Livraria Cultura ( http://www.livrariacultura.com.br/Produto/LIVRO/ARGOS/42111787 )



Segue o texto da escritora Andréa Del Fuego (Prêmio José Saramago 2011) sobre o livro:


Argos Micael se desabrocha na cara do leitor, com aquela entrega possível porque um personagem não se sabe lido, e porque é escrito por mãos seguras. Esse percurso nos é entregue em prosa fluida, percorremos uma trança feita de afetos e desafetos, ornando as costas de uma trama urbana, mas poderia ser em qualquer outro lugar onde haja alteridade e amadurecimento. Argos Micael coloca para si a tarefa de fazer-se, consciente da própria plasticidade, da matéria ainda moldável da juventude. Mas o embate com o mundo é inalienável, “Argos Micael só temia ter vontade de ser aceito”. É justamente nesse combate interno que assistimos ao desejo seminal do homem, o de sua emancipação.



sábado, 9 de março de 2013

Amor à música

É com muito prazer que informo: meu CD "Vou à Vila" agora está à venda no site Superlativa Store (http://superlativastore.com.br/94-cd-vou-a-vila-mauro-sta-cecilia.html). O interessado também pode adquiri-lo fazendo contato direto através do meu site: www.maurosantacecilia.com.br. O CD, produzido pelo barão Rodrigo Santos, traz 5 canções inéditas e 6 regravações, entre elas versões de "Por você" e "Amor pra recomeçar". É um disco para celebrar parcerias (com nomes como Frejat, Maurício Barros, Fernando Magalhães, Rodrigo, Humberto Effe, Hyldon, Jards Macalé, Omar Salomão, George Israel, Sideral, Rafael Frejat e Júlio Santa Cecília) e a amizade de grandes músicos (Nilo Romero, Serginho Serra, Luce, Humberto Barros, Cláudio Bedran, Leoni, Maurício Negão, Qinho, Marília Bessy, Guto Goffi, Peninha, Maurício Sahady, Bruno Migliari, Marcelinho da Costa, Pedro Strasser, Cesinha e Nani Dias) que me deram a honra de participar desse projeto. É um disco para celebrar meu amor à música.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Vou à Vila + Argos

Aos interessados em comprar o meu CD "Vou à Vila", fazer contato pelo site ou pelo e-mail maurostcecilia@gmail.com. O romance "Argos" (Móbile Editorial) estará disponível nas livrarias.

Clipe Oficial de "Vou à Vila"

Segue o link para o clipe da faixa-título (masterizada) de meu CD "Vou à Vila".

http://www.youtube.com/watch?v=6SWUhHtsLns&feature=share

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Nunca fui a Paris


É com a maior alegria que apresento o segundo clipe de meu disco “Vou à Vila”, que será lançado em janeiro. Verdadeiro luxo ter um clipe tão bacana para um disco independente, feito na raça e na persistência. Imagina então ter dois... Só mesmo com o auxílio de grandes amigos. A canção se chama “Nunca fui a Paris”, como a faixa título, também em parceria com Humberto Effe. Participaram da gravação da música: meu produtor Rodrigo Santos (baixo e violão), Luce (guitarra slide), Maurício Barros (teclados), Júlio Santa Cecília (guitarra base e solo), Marília Bessy (bateria) e Qinho (vocal e arranjos vocais). Só fera! O videoclipe foi criado, dirigido e editado pelo argentino/carioca Federico Bardini, câmera de Lucas Margutti e Federico e teve no elenco Ricardo Petraglia, Aline Winagraski e os meninos Geovani e João Pedro. Meus agradecimentos a todos vocês. Então lá vai. Luz, câmera, ação:

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Vou à Vila (2)


Vou à Vila


Amigos,

É com a maior alegria que apresento a primeira música de meu disco, “Vou à vila”, produzido no capricho pelo polivalente parceiro Rodrigo Santos (Barão Vermelho). Não é um disco de alguém se lançando como cantor. É um disco autoral, de letrista, que começou a ser sonhado lá atrás, em 98, quando compus, com Frejat e Maurício Barros, minha primeira música gravada: “Por você”. Trata-se de uma produção independente que contou com a generosidade e o talento de quase trinta músicos e o apoio de minha editora Warner Chappell. A faixa-título (composta com o nobre Humberto Effe) foi produzida por Rodrigo e Nilo Romero, outro craque, produtor de Cazuza e outros grandes nomes, e amigo da época de colégio, que entrou aos 44 do segundo tempo e acrescentou muito ao trabalho. “Vou à vila” chega com direito a clipe e tudo! O clipe foi dirigido pelo sagaz Luciano Cian e teve a participação especial da atriz Virgínia Castellões. É isso. Divirtam-se. Até breve com mais novidades. Beijos e abraços.

terça-feira, 27 de março de 2012

estúdio (5)

Nos últimos quatro meses fui quase todos os dias ao estúdio. Agora o meu disco autoral está mixado e a batalha é outra. Volto também à rotina sem rotina com as palavras. (Finalizo o segundo romance, com a ajuda do editor Eduardo Coelho.) Mas queria fazer aqui uma breve homenagem ao produtor do meu disco, o amigo e parceiro Rodrigo Santos. Rodrigo mandou muito bem, fez belíssimos arranjos para as canções, tanto as inéditas quanto as já gravadas (um desafio), como as conhecidas "Por você" e "Amor pra recomeçar". (Ele até me fez crer que eu poderia cantar...). Muito obrigado, parceiraço! Essa experiência mudou completamente a minha forma de ouvir música. Já sinto saudades do estúdio.

quinta-feira, 22 de março de 2012

estúdio (4)


Na foto, Rodrigo Santos, Serginho Serra, eu e Nani Dias. Um dia inesquecível das gravações de meu disco "Mais perto do sol".

estúdio (3)

Nos últimos quatro meses tenho andado ausente deste espaço, envolvido com as gravações de meu disco autoral. Nesta semana aconteceu o último dia das mixagens. Para ele virar quase realidade, três grandes figuras foram fundamentais: meu talentoso produtor, Rodrigo Santos (Barão Vermelho), meu capitão na Warner Chappell, Décio Cruz, e o coprodutor, mestre Cezar Delano. Outra pessoa também foi imprescindível. Júlio Santa Cecília. Antes do começo das gravações, ele tirou praticamente todas as minhas músicas no violão e me ajudou a aprender a cantá-las, tocou (bem) em três faixas e é coautor de uma das músicas, na qual também canta comigo. (Na foto, quando ele tinha 12 anos. Hoje está com 17 pra 18, idade tortuosa, e nem sempre é fácil a convivência. Normal...). Muito obrigado, meu menino. Amo você demais.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

No estúdio (2)

Quase terminando as gravações do meu disco autoral, com produção do Rodrigo Santos (Barão Vermelho). Mas eis que surge uma parceria com um futuro que já é presente (Rafael Frejat e Júlio Sta. Cecília)... A música ("Sob os olhos um oceano") ficou demais e acabou entrando.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

No estúdio

Gravando meu próprio disco (produzido por Rodrigo Santos, do Barão Vermelho), com o auxílio de grandes músicos e amigos. Aqui com Júlio Santa Cecília, que tocou guitarra em duas faixas. Felicidade é isso aí.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Tristeza botafoguense

(A SOMBRA DO FAQUIR 20)




         Ando meio sumido deste espaço, mas por um motivo até certo ponto nobre: o de remar contra a corrente, num momento de crise do mercado fonográfico em que não se vendem mais discos. Estou nesse momento em estúdio gravando um CD meu, autoral. Depois de quase 15 anos como letrista, resolvi me arriscar a (tentar) cantar e cometer minhas próprias interpretações de minhas músicas, sempre compostas com um ou mais parceiros que são músicos e entendem do riscado. A produção é do Rodrigo Santos, baixista do Barão, meu parceiro e grande amigo.

         Por conta desse trabalho, não tenho conseguido escrever nem ler nada. Costumo ler alguns livros ao mesmo tempo, mas nem jornal está rolando (fico sabendo das coisas vez ou outra pela tevê), exceção feita à parte dos esportes. Mais especificamente, à cobertura do meu Botafogo, que vasculho, em qualquer brecha, até na internet. Não que fique internado 24h dentro do estúdio, mas para botar o projeto em pé é preciso estar envolvido completamente, ainda mais que o meu produtor anda às voltas com mil e uma atividades. Felizmente ele sabe o que faz e está sendo uma grande experiência entender como se constroem as canções, instrumento a instrumento, com o auxílio luxuoso do co-produtor Cezar Delano e a estrutura de minha editora musical, gerenciada pelo vascaíno Décio Cruz.

         O motivo de eu ter aberto uma exceção e voltado aqui antes de finalizar as gravações foi a profunda tristeza que se abateu sobre mim com o descaminho de meu time de coração. A menos que exista Papai Noel, o ano acabou ontem para o Botafogo. Depois de perder do Internacional em casa, somando a quarta derrota consecutiva, o Botafogo deixou escapar uma situação em que tinha boas chances de título e 86% de probabilidade de estar na Libertadores em 2012. O clube conseguiu montar um bom time, bem melhor do que em anos anteriores, tem uma estrutura razoável para os times cariocas, paga salário em dia, e chegou a fazer algumas apresentações bastante convincentes, como ao ganhar de 4 a 0 do Vasco no primeiro turno do Brasileiro e de 2 a 0 do Corinthians no segundo turno, não por acaso os dois times favoritos para ganhar a competição.

         Mas há uma frase que em momentos como esse ronda a cabeça de todos os alvinegros – e também daqueles que aproveitam a ocasião para dar uma tripudiada na gente. “Há coisas que só acontecem ao Botafogo”. Como é que estando em terceiro lugar, jogando bem, com um elenco mesclado de jogadores experientes e de nível de Seleção, como Jéferson, Renato e o ídolo Loco Abreu, e algumas revelações como Elkeson e Cortês, o time se descontrolou e desceu ladeira abaixo? Como é que o clube foi demitir o técnico Caio Júnior faltando três jogos para o fim do certame? Por que a torcida nutria profunda antipatia pelo técnico que pôs o Botafogo novamente para jogar para a frente, com um estilo de jogo que certamente era mais agradável de se ver do que a eterna retranca do mestre Papai Joel Santana?

         Mais do que procurar respostas ou possíveis culpados, acho que o mais importante agora é continuar o trabalho sério de aparelhar o clube, valorizar as categorias de base, manter a parte do time que deu certo, fazer contratações pontuais (inclusive de um novo técnico para funcionar a longo prazo), e acima de tudo entender que o Botafogo é maior do que churumelas, chororôs e superstições. Para voltar um dia a ser o Glorioso que sempre foi. 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tudo é pequeno

Tudo é pequeno
A fama
A lama
O lince hipnotizando a iguana

O que é grande
É a arte
Há vida em marte

(Rodrigo de Souza Leão)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A água e o vinho

“A finança se assemelha à poesia, naquilo de requerer e exigir doador e recebedor a fim de perdurar; cantor e ouvinte, banqueiro e tomador de empréstimo, comprador e vendedor, cada qual com sua ética própria, ambos insuspeitáveis, ambos imaculados no seu devotamento e sua fé.”
(William Faulkner, Uma fábula)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

COMMUNICATION BREAKDOWN




Preciso agora reinventar
                                    o cotidiano
Meu plano B foi para o espaço
                                   (plano foi feito para não dar certo)
Agora sinto a coceira
do fracasso
            rondar a sombra
                        do que já fui (antes desse verso)
Preciso não precisar agora
                                   me perder de novo com o inalcançável
                        para florir o instante inflexível
Preciso agora apenas reinventar
            o que não é preciso

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sobre nós 2 e o resto do mundo

(Conto inspirado na música homônima, de Frejat, Maurício Barros e Mauro Sta. Cecília)

         Marcelo olha para o relógio e tem um pequeno sobressalto com o toque do celular quase ao mesmo tempo. Quem seria justo agora? Pelo bina viu que era Fred. Agora não. Deixou cair na secretária eletrônica. Desviou-se da cama em seu quarto apertado e ligou o computador. Em seguida tocou o celular mais uma vez. Era Fred de novo. Marcelo, com impaciência, atendeu e andou até a mínima sala do conjugado dividido em dois ambientes. “Fala, cara.”

         – Deixei um recado pra você... Temos uma noitada pela frente!

         – Hoje não vai dar.

– Que foi, está me dispensando?

– Não, não é isso...

– Rapaz, hoje é terça-feira! Dia perfeito pra cair na night.

– Vou ter uma reunião importantíssima amanhã.

– Que papo de reunião o quê! Pra cima de mim? Deve estar aprontando alguma coisa.

– Que nada. Estou devagar quase parando.

– Já vi tudo. Teve uma recaída da Bruna.

– Não. Ela nunca mais.

– Vai me dizer que é aquela mulher da internet?

         – É.. quer dizer não. Ainda não. É que está quase na hora...

         – Não acredito que você está perdendo seu tempo com...

– Por favor, Fred, sermão não.

         – Isso não existe, rapaz! Essa mulher deve ser de mentira.

– Ok. Eu já estou bem crescido.

– Então vamos, seu Mané. Um pit-stop antes na casa do Paulão. A namorada dele vai levar umas amigas. Depois a gente sai pra algum lugar.

– Fica pra próxima, Fred. Hoje não estou a fim.

– Então, tá, Marcelo...  Tá muito baixo astral, hein! Fica curtindo a sua solidão e depois eu te falo da gata maravilhosa que eu vou pegar.

Janice está sentada no sofá com a tevê ligada e o laptop em seu colo. Olha para o relógio e em seguida nota o recebimento de uma mensagem no Facebook. É sua amiga Ana. Olha de novo para o relógio de pulso e parece ansiosa, mas não resiste à curiosidade de ver a mensagem. “Você vai ao jantar da Flávia?” Ela solta um muxoxo e faz uma cara de quem havia se esquecido completamente. Olha mais uma vez o relógio e resolve escrever logo uma resposta. “Ana, não sei se vou poder ir ao jantar hoje. O Pedro ainda não chegou do trabalho e ele anda muito chato.”

Quase que instantaneamente, Janice recebe um retorno: “E o tal cara do MSN?”

“Vou falar com ele agora.”

“Você não acha que essa conversa já foi longe demais?”

“Talvez. Acho que vou terminar tudo hoje.”

“Ih... Sai logo dessa! Essa história de romance no computador é roubada. Você já não está cansada de ouvir coisas escabrosas que aconteceram a partir de um papinho inocente?”

“Lógico que sim. Mas está rolando algo... Olha tenho que ir. Amiga, por favor, só você sabe disso!” De repente ela olha em volta da sala como se alguém a espiasse, respira fundo, se ajeita no sofá e entra no MSN.

Diante da tela do computador, Marcelo se concentra e escreve: “Você está aí?” Espera alguns segundos e, enquanto isso, olha pela janela e quando volta o olhar para o interior do ambiente se depara com Janice na porta de seu quarto.

– Posso entrar? – pergunta Janice com um sorriso matreiro.

– Oi... – num impulso, ele se levanta da frente do computador. Pensa em beijá-la, mas desiste e procura ser hospitaleiro, um pouco desconcertado por não haver outra opção: – Senta aqui – e dá duas batidinhas com a ponta dos dedos na colcha da cama, que não era trocada havia quase uma semana e meia, por conta da falta da faxineira na véspera.

– Não foi pra isso que eu vim aqui... – diz Janice já se sentando na cama.

– Desculpe. Eu não queria...

– Sabe que você é igualzinho à foto? Aliás parece até melhor pessoalmente.

– Não era pra ser assim, igual à foto? – diz ele, meio nervoso e ignorando o elogio, voltando para seu lugar à mesa do computador.

– Claro que não. As pessoas se escondem na internet. Eu mesma...

– Mas você é casada. Aí é diferente. Ou não é casada?

– Sou. Eu não menti pra você.

– De qualquer forma, eu adorei sua foto com o desenho da lagartixa na pedra.

– Hahaha... aquela também sou eu.

– Você é tão linda.

– Você também não é de se jogar fora, Marcelo. É esse seu nome mesmo?

– Sim. Eu também não menti pra você. Mas posso supor que seu nome não seja “lagartixanapedra@...”

– Não... é Janice.

– Bonito nome. Combina com você.

– Mas pode continuar a me chamar de Tixa. Eu gostei.

– Tá bom. Eu estou adorando te conhecer – arrisca Marcelo.

– Eu também. A gente até que se diverte.

– Mas confesso que tem uma coisa que ainda não entendi...

– Deixa eu adivinhar. Por que eu entrei num site de relacionamento? – se antecipa ela.

– Exato!

– Até parece que você nunca foi casado! Ou não foi? A Bruna existe mesmo?...

– Sim, infelizmente.

– E você? Livre, morando sozinho, bem apresentável... Por que entrou num site desses? Não devia precisar!

– Mas é que sou tímido... Vem cá, isso não é justamente pra quem está solteiro?!

– Ih... – interrompe Janice. – Sujou. Nos falamos depois – e vai se levantando da cama de Marcelo.

– Espera...

– Ah, me diz uma coisa: você não contou pra ninguém, não é?

– Não, eu...

– Então, tá – interrompe mais uma vez Janice, dando-lhe um beijo de leve na boca. – Deixa o computador ligado, Marcelo. A gente se fala mais tarde.

Subitamente Janice some. Marcelo vai até a cama e apalpa o vazio como se não acreditasse. Acaba se deitando um pouco e adormece. Quando acorda, quase duas horas depois, lembra-se do combinado e pula em cima do computador. “Você ainda está aí?”, escreve ele. Janice está recostada em sua cama, com o laptop no colo, e o marido, Pedro, ao seu lado, dorme profundamente. “Estou, seu furão!”, responde ela. Marcelo então aparece na cama do casal, entre os dois.

– Eu dormi um pouquinho... – diz ele, olhando com estranhamento em volta.

– Shh... Fala baixo! Se o Pedro acordar, ele me mata! E estou muito nova pra morrer...

– Do jeito que ele está roncando... – sussurra Marcelo, tirando o braço do outro de cima de sua perna – Você está tão sensual...

– De roupa de dormir? Assim a gente vai cortar todo o romantismo!

– Isso não é problema. Pra mim você está nua... O problema é ele.

– A gente não pode continuar a se encontrar desse jeito... – diz ela, deixando o laptop na mesinha de cabeceira.

– Também acho. Me dá um beijo?

– Toma, vai – Janice dá um selinho rápido, parecido com o outro da casa de Marcelo.

– Assim não... – ele tenta abraçá-la.

– Para com isso... agora não!

Nesse momento, Pedro tosse e se mexe na cama.

– Vamos nos encontrar amanhã, mas de verdade – diz Marcelo baixinho.

– Amanhã?

– É... Vamos nos encontrar na rua, num lugar público.

– Mas tem que ser em segredo.

– Deixa eu terminar. Um encontro sem aproximação... Depois a gente vai, separado, para um lugar tranquilo, só nós dois... e sem internet.

– Até que não é má ideia. Mas você não pode ir com essa camisa velha, por favor.

– Eu estava agora em casa, esqueceu?

De repente, o marido abre os olhos. Janice pega o laptop de novo. Marcelo fica petrificado.

– Você disse alguma coisa? – pergunta Pedro, sem notar a presença do outro.

– Não... Dorme – diz Janice fingindo digitar algo. – Você precisa descansar. Daqui a pouco eu vou também.

– Tenho uma reunião importantíssima amanhã. – Pedro vira para o lado e dorme de novo.

– Como é que ele não me viu?! – fica sem entender Marcelo.

– Acho que o Pedro não consegue enxergar mais coisa nenhuma!

– Você tem que ir! Eu vou. Você topa?

– Então você vai. Se eu aparecer, é porque topei.

– Ótimo. Amanhã de manhã te mando uma mensagem com o endereço... Tixa... – Marcelo dá em Janice um beijo longo, espaçoso, empurrando o marido mais para a beirada da cama. No início ela resiste, mas retribui um pouco constrangida. Depois fica emburrada (“de tímido não tem nada...”) e fecha o laptop. Marcelo desaparece. Janice desliga a luz do abajur e dorme.

No dia seguinte, Marcelo se veste com esmero, bota perfume e chega cedo ao local combinado. Anda em ziguezague pela calçada, apreensivo. Procura por Janice por todo o quarteirão e não a encontra. Faz o mesmo trajeto duas vezes, caminhando devagar e reparando em cada rosto que passa. Vem à sua mente que talvez tenha forçado a barra no final. Quem é tímido não deve fazer certas coisas. Desanimado, pensa em desistir. Até que ela surge, sorrindo, do outro lado da rua.


sábado, 24 de setembro de 2011

2 poemas de Gullar

INSETO

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelétrica

Também mais complexo
que uma hidrelérica
é um poema
(menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
(o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
ou quem sabe
uma vida


NEM AÍ...

Indiferente
           ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
         à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
         o gatinho
         se espreguiça
         e deita-se e
         adormece
                 em cima do poema


(Ferreira Gullar)

sábado, 10 de setembro de 2011

Ad infinitum

“A frase para sempre é uma das baixas de nossa época.”
(Luís Fernando Verissimo)


Olhando para dentro do domingo
não vejo a praia, a parede
nem poeira onde possa me agarrar.
Estou sozinho no meio do azul
sem nenhum cobertor ou trago.
As lembranças afloram úmidas:
situações que supunha
hoje pouco
evidenciam o nosso impasse.
Entro no cinema para ver fantasmas.
Leio poemas de uma amiga stradivarius
e mastigo mágoas até amanhecer.
Não devia, mas
sinto como um navio
a tua falta.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Oficina de Poesia e Letra de Música

O Projeto Estação Pensamento e Arte ocupa a Biblioteca Municipal de Botafogo (R. Farani 53) entre agosto e dezembro com diversos cursos e palestras bacanas. Segue a programação dos próximos cursos, entre eles minha Oficina de Poesia e Letra de Música. Todos os cursos são gratuitos.






terça-feira, 9 de agosto de 2011

É campeão!

DE BAR EM BAR (88) – Da Gema


         Esta crônica tem uma trilha sonora específica, o disco “Viva Muddy Waters”, do Blues Etílicos, apesar de aqui ser um lugar do samba: na porta do banheiro em vez de M e F há fotos de Donga e Chiquinha Gonzaga. (Mas, como se sabe, blues e samba são irmãos; e botequim bom não precisa ter fronteira etílico-gastronômica nem musical.) Porém o que importa é o seguinte: até que enfim pude vir ao Da Gema, o bar vencedor do último Comida di Buteco, evento que se tornou fundamental por revelar a nós, cariocas e agregados, ótimos bares que talvez deixássemos de ir sem a boa visibilidade que os concorrentes recebem. Parabéns Eulália, Ronaldo, Flávia e toda a turma por nos fazer sair de vez em quando do querido bar da esquina. Isso é cultura. Dito isto, vamos ao boteco que ele merece.

         Sem nenhum rodeio, é importante reconhecer logo: o Da Gema é um bar sensacional. Mas por quê? Por que dá para se sentir em casa logo na chegada, o bar é arejado, o clima é relax, a aura é boa. E fica numa esquina. Sento-me numa mesa de frente para a rua Barão de Mesquita e, olhando para dentro do bar, para um desenho do Cristo Redentor, com os braços abertos, fazendo sinal de positivo. Chega o garçom Pedro, um gigante com cara de vilão, que me conquista de cara nas primeiras intervenções. Peço uma Brahma Extra e observo ao redor. As paredes, menos a que tem uma reprodução dos ditos do Profeta Gentileza, são da cor do cabelo da namorada de Chico Buarque (embora este seja um assunto mais para os paparazzi e para os que querem ler as canções do recente disco do mestre ao pé da letra; pra mim basta saber que ela é bela e que pode vir a ser uma das nossas grandes cantoras, sobretudo pela simplicidade e sofisticação do repertório).  As paredes são cor de abóbora.

         Eis que chega o meu convidado. Ele é um cara que eu admiro há muito tempo. Lembro-me de ver um show impressionante de sua banda no final dos anos 80, no Sérgio Porto, e eu, na plateia lotada, boquiaberto, me sentir no Mississipi pela primeira vez, ao vivo, com músicos brasileiros. Este foi o primeiro de uma série de shows a que eu assisti do Blues Etílicos, sempre me encantando com o blues verdadeiro, na veia, sem frescura e muito bem tocado. Bedran é o baixista da banda e meu companheiro de copo nesta tarde-noite. Pedimos mais uma cerveja e uma porção de polentinha frita com rabada, por indicação do garçom Pedro. Aliás, ele aproveita e já dá também a dica de que quando quiser mais cerveja, não precisa nem chamar, é só tirar a garrafa da camisinha térmica. “Pra não interromper o papo de vocês.” Grande Pedro.

         A polenta com rabada veio maravilhosa, em cubinhos delicados e saborosos. Poderia ser um bate-entope danado, mas tinha leveza e só fez atiçar a vontade de provar outras delícias. Sempre com a discreta e certeira orientação do nosso garçom, enfileiramos o pastel de feijão, o bolinho de vagem e a lasanha de jiló. Qual o melhor? Impossível dizer. Outras opções do cardápio: nachos cariocas (com batatas portuguesas no lugar das tortilas), parmegiana de carne e frango, fondue Da Gema (linguicinha e costelinha com creme de milharina, milho branco, temperos e mozarela), bolinho de gorgonzola, moela, empadas e caldos de batata baroa com minas curado, de abóbora com camarão e o clássico mocotó. Entre as cervejas, a citada e nem sempre fácil de encontrar Brahma Extra, Therezópolis, Bohemia, Norteña, Patrícia, Quilmes, Stella Artois, Leffe e Franzizkaner. Quanto às cachacinhas, todas da melhor estirpe.

         Eu e Bedran, além do êxtase gastronômico, estamos felizes com uma parceria que fizemos. Este é sempre um dos momentos mais prazerosos da hoje difícil carreira de compositor (em tempos de pirataria e download gratuito desenfreados): quando a letra e a música, que existiam separadamente, viram uma terceira coisa. Em poucos minutos a música encaixou perfeitamente com a letra. O problema é que não registramos a composição... (ele jura que depois vai lembrar). A comemoração pede que tomemos uma cerva diferente. Escolhemos a Franziskaner, uma das cervejas de trigo mais conhecidas do mundo. E é o momento para o garçom Pedro mostrar o porquê de estar numa lista de votação dos melhores garçons do Rio. Dá um show à parte ao colocar a cerveja dourada e opaca no copo alto, variando a altura da queda do líquido no copo e atingindo um resultado espetacular. A cerveja desceu refrescante e o brinde foi de pura satisfação.

         Depois disso, o que faltou dizer, amigo leitor? Apenas duas coisas muito importantes. A primeira foi que ainda continuamos a saga dos tira-gostos pedindo o famoso “Doce subsolo do boteco”, que vem a ser o vencedor do Comida di Buteco, e para fechar um caldo de abóbora com camarão. Show. Mais uma vez fomos surpreendidos pelos sabores e no caso do petisco campeão (creme de feijão, creme de aipim com laranja, couve, carne seca desfiada, com casca de laranja e pétala de rosa por cima) tivemos a linda apresentação visual do acepipe num quadradinho de vidro. Para finalizar, não posso deixar de mencionar o casal de simpáticos gordinhos que estavam numa mesa perto da nossa. Eles estraçalhavam o que viam pela frente numa rapidez de concurso e com o sorriso estampado no rosto como se não houvesse amanhã nem colesterol. Felicidade é isso aí. Saúde e até a próxima.
        
Da Gema – Rua Barão de Mesquita, 615, C e D, Tijuca (2208-9414)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Oficina de Letra de Música

Vou dar uma Oficina de  Letra de Música na Estação das Letras em agosto e setembro. A quem se interessar, segue o flyer com as informações:       

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dois poemas de Cacaso

LAR DOCE LAR


Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio

(Cacaso)

         *          *          *

HORA DO RECREIO


O coração em frangalhos o poeta é
levado a optar entre dois amores.

As duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só é impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema

Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste problema

(Cacaso)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O amigo de kerouac

(A SOMBRA DO FAQUIR 19)


                            


         A quem tanto poderia interessar os dramas e as peculiaridades neurastênicas de um sujeito meio perdedor meio ganhador, não exatamente bonito, mas sempre cercado narcisicamente das mais belas mulheres, por quase 50 filmes? Se for Woody Allen o personagem/autor em questão, a muita gente mesmo. Pouquíssimos cineastas podem hoje se dar ao luxo de ter um trabalho estritamente autoral e se manter ao mesmo tempo no mainstream. Como o primeiro Woody Allen a gente nunca mais esquece, o meu foi “A última noite de Boris Grushenko”. Desde então virei fã de toda sua atividade artística (menos tocar jazz).

         Woody Allen faz parte daquele seleto naipe de artistas que se repetem a cada trabalho e ficam melhores. (Há quem diga, por exemplo, que o grande escritor reescreve sempre o mesmo livro). Claro que há os que não gostam, ou até os que acham que é um cineasta menor, como declarou Caetano em entrevista (apesar da ressalva de que seria um cara legal, com frases brilhantes e algumas cenas espetaculares). Se o critério para esta consideração for o caráter inovador da obra do artista, talvez sim; mas o fato é que poucos trataram exaustivamente de suas obsessões com sucesso de crítica e público na segunda metade do século vinte como Woody Allen, em âmbito planetário, e, no quintal tupiniquim, como Nelson Rodrigues, que brilhou sempre mais alto. (Embora, entre nós, o trabalho de Woody Allen talvez possa, sob certos aspectos, ser mais identificado com o do também grande cineasta e dramaturgo Domingos de Oliveira).

         Meu amigo Maurício Barros me telefonou para recomendar que não perdesse o novo filme. Outro grande amigo, Ricardo Coelho, de Natal, depois de ler pela internet matérias elogiosas disse que se demorasse muito a chegar por lá iria gastar algumas milhas vindo ao Rio. O Dapieve revelou que gostou tanto que não conseguiu (ainda) escrever a respeito. Várias outras pessoas comentaram que o filme é incrível. Pois fui ver “Meia-noite em Paris” com esta alta expectativa – o que gera o pendor a se ter um nível de exigência tão elevado que costuma desaguar em decepção. Mas ainda bem que não foi o caso. Quando a expectativa lá em cima é plenamente satisfeita, ou até superada, o prazer é transcendente. Achei que é um dos melhores e mais marcantes filmes de Allen.

         Muito se tem especulado sobre um dos dois grandes temas do filme, que vem a ser aquele que decorre da sensação de se estar vivendo na época errada. Ou, talvez, do desejo demasiado humano de se viver numa época diferente da que se está. Mas o outro grande tema é o que mais me mobiliza: o poder e o fascínio da arte e a entrega que é necessária para exercê-la. Para dar o salto mortal sem rede embaixo muitas vezes é preciso fazer sacrifícios existenciais (e financeiros) imensos. É um dilema que todo artista em algum momento precisa passar. Quanto ao período em que eu gostaria de viver, diria que tenho bem mais curiosidade pelo futuro do que pelo passado. Mas, para não ficar alheio à enquete que se tem feito por aí, não seria nada mal ser amigo de Jack Kerouac e viver tomando todas com os beatniks on the road.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

(Um poema nada aleatório)

A CHAVE SHUFFLE

  não há
  alento
aqui no restaurante
                        a quilo
eu tento
            quebrar
                        a casca
de meu filho
                        adolescente
enquanto vivo
            meu próprio dilema
estacionado
  num
     não-lugar

como meu sushi
                                   tomo meu chope
           penso
que tenho que ser forte
                                   e preciso mudar
   em um monte de coisas

quando chegam
                                   à mesa da frente
   um velho bem velho
                                   que poderia ser
                                                           meu avô
e a namorada
                        pelo menos
                                   40 anos mais jovem
ele está íntegro,
            em êxtase
                                   ela sorri 
                                               – parece ser compreendida
                 com discrição e tranquilidade
logo me desinteresso
                        no entanto o velho
                                   diz
                        peremptoriamente:
há dois níveis de pessoas
os que levam a cabo
                        a tarefa
e os que vão pagar por isso
sei que não diz tal coisa
                                   para mim
(nem o cobertor curto o que
você é o que você tem)
mas é como
se
fosse
       a cabala
            um biscoito da sorte
    que me coube
            (randomicamente)
                        no afã
da
verdade 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Assim foi se lhe parece

Era uma vez um esporte jogado com os pés que foi inventado na Inglaterra (embora haja registros do jogo, numa forma bem rudimentar, que remontam à China de antes de Cristo) e foi trazido para o Brasil por um paulista chamado Charles Miller, no fim do século 19. Convencionou-se estipular que este foi o início de tudo para nós brasileiros: as bolas que Miller trouxe da Inglaterra em sua mala no ano de 1894. O esporte, porém, não se disseminou de imediato, uma vez que seus praticantes iniciais eram apenas os filhos da alta burguesia. Os esportes mais populares até então na capital do país, o Rio de Janeiro, eram o remo e o turfe.

Por conta dessa origem elitista somente a partir da década de 1910 é que o esporte, com a realização de torneios organizados e os primeiros amistosos entre as cidades, passou a ter mais relevância, inclusive na imprensa. No limiar do século 20, os jornais praticamente ignoravam as atividades esportivas, dedicando-lhes pouco ou nenhum espaço. Mas tiveram que se render à força e ao fascínio do jogo que, num primeiro momento, era disputado com material importado: bola de couro, uniformes de linho e algodão e sapatos especiais. É considerado um marco no sentido da sua popularização a incorporação de atletas negros por parte do Vasco da Gama em 1923; embora o Bangu já os tivesse aceitado antes, o Vasco foi o primeiro grande clube a aderir ao óbvio: o crescimento do esporte dependia de sua penetração nas classes trabalhadoras.

Passado algo em torno de 100 anos, o esporte está, indiscutivelmente, consolidado não só como a paixão nacional, mas também como o mais querido em todo o planeta. Qualquer criança que já chutou uma bola sabe disso. Pegue, por exemplo, dez adolescentes de 15 anos, de qualquer lugar do mundo, e mostre fotos de Pelé, Maradona, Ronaldo Fenômeno, Kaká, Messi, Cristiano Ronaldo. Mostre a camisa do Barcelona. Provavelmente serão todos, ou quase todos, reconhecidos e considerados familiares. Mas naturalmente não foi sempre assim.

Imaginemos as dúvidas e o receio do jornalista que foi escalado pela primeira vez para cobrir um evento do esporte nos seus primórdios. Como escrever sobre algo que a maioria das pessoas não tinha a menor ideia do que se tratava? Como contar o que é uma partida de futebol, se isto nunca havia sido contado? Tarefa bastante difícil inventar um cânone. Vejamos um pequeno trecho de um jornalista desbravador, cronista do Correio do Povo, a quem foi atribuída a função de escrever sobre o primeiro Gre-Nal da História, realizado em 1909:

Lindíssimo era o aspecto que apresentava anteontem o ‘ground’ dos Moinhos de Vento, quer pela sua ornamentação como pela concorrência. Lá estavam cerca de 2.000 pessoas ansiosas por assistir ao encontro dos primeiros teams do Grêmio F. Ball P. Alegrense e do Sport Club Internacional. O belo sexo, representado por grande número, apresentou-se ostentando finíssimas ‘toilettes’ entre as quais muitas adaptadas aos jogos ao ar livre. Ao projetado torneio, por várias vezes nos tínhamos referido, pois prometia ele ser renhidíssimo, como de fato o foi.

As referências à “ornamentação” e ao “belo sexo” (“ostentando finíssimas ‘toilettes’”), ao aspecto “lindíssimo” do “ground” poderiam fazer supor que se tratasse de alguma atividade cara ao colunismo social e à vida mundana portoalegrense. O emprego de estrangeirismos (como o “ground” referido) na época era comum e até bastante compreensível, principalmente no caso da língua inglesa, devido à origem do esporte e, em alguns casos, pela própria ascendência dos jogadores. Como pode ser também observado nas linhas a seguir:

Entremos a descrever em ligeiras linhas as peripécias do jogo, o qual foi além da expectativa. Às 3.25 pelo respectivo ‘referee’, sr. Waldemar Bromberg, foi dado signal de ‘kick-off’, cabendo este ao center forward Booth, do team azul. Nos primeiros minutos, o jogo esteve indeciso, pois o team azul, que era constituído de excelentes elementos, pretendia conhecer a força do seu rival. Pelo primeiro lance, verificou-se que a linha de forward do Grêmio F. B. era bem combinada e com bizarria atacava os seus adversários sendo rechaçados, por várias vezes, pelos ‘halfbacks’ do team encarnado.

Uma característica marcante do modo narrativo presente nos dois trechos e que cabe ressaltar aqui é o tipo de construção sintática utilizada pelo nosso jornalista. Para os padrões atuais, há muita pompa e prolixidade, com largo uso de expressões pretensamente poéticas. (Embora, para os defensores da norma culta, talvez seja um importante legado estético.) Para contar que no início da partida os times estavam ainda se estudando, ele afirma que o jogo “esteve indeciso”, pois o Grêmio “pretendia conhecer a força do seu rival”. Depois relata que o Grêmio “com bizarria atacava os seus adversários sendo rechaçados, por várias vezes” pelos defensores do Inter (grifo meu). Tudo isso leva a crer que a disputa estaria sendo bastante acirrada, inaugurando, portanto, em grande estilo a famosa rivalidade entre tricolores e colorados do Rio Grande do Sul. Mas não. Na verdade, o Grêmio aplicou uma surra de 10 a 0 no então recém-formado Internacional.

Em relação à linguagem propriamente literária, o escritor Nelson Rodrigues, grande fã do esporte, algumas décadas mais tarde, nos deu fartas e preciosas mostras de seu talento nas crônicas sobre o futebol. Alguns outros grandes nomes da literatura (e do jornalismo) também se aventuraram na crônica esportiva, como José Lins do Rego, Vinícius de Moraes, Roberto Drummond e Armando Nogueira, mas ninguém brilhou mais do que Nelson. Ele tinha a fértil capacidade de transformar uma peleja chinfrim numa épica jornada. Como, de certa forma, também se utilizavam da imaginação os eletrizantes locutores que ao narrar uma partida abusavam das hipérboles para prender a atenção dos ouvintes na chamada era do rádio (cujo poder com o passar do tempo e a chegada da televisão foi enfraquecido, naturalmente, mas não deixou de existir). Com a força de seu entusiasmo, os radialistas-narradores tinham que dar a ver a partida em todas as suas nuances apenas com o recurso do áudio. E – a menos que estivesse presente no estádio, e talvez vendo um outro jogo – ao aficionado só restava acreditar.

Situação completamente diferente desta é a que se vive hoje. Com a evolução e a utilização simultânea de várias tecnologias, com a transmissão dos jogos pela tevê em alta definição e o auxílio de cada vez mais câmeras, com a incorporação da internet à cobertura jornalística, tudo que é dito (e escrito) pode (deve) ser devidamente comprovado – como que num louvor e numa busca olímpica da mais pura objetividade. O próprio jornal tem hoje o seu espaço redefinido na cobertura esportiva, pois a rapidez das mídias eletrônicas pode transformar em questão de horas, ou até de minutos, uma informação quente numa notícia velha. Ao jornal caberia agora, mais do que “contar” o jogo, esmiuçar os fatos e fazer a análise das notícias.

Um bom exemplo da relação entre mídia e futebol atualmente pôde ser dado na recente final da Liga dos Campeões 2011, entre Barcelona e Manchester United. Este jogo foi assistido por mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo. Na cobertura, os jornais e as tevês forneceram incessantemente, durante os dias que antecederam ao jogo, diversos dados e informações (como faturamento, patrocínio e números de sócios dos respectivos times, além daqueles específicos da preparação e retrospecto das equipes), para forjar onde quer que fosse a ambiência da decisão. No dia seguinte, o jornal O Globo exibia a seguinte manchete: “Um futebol de outro mundo”. No corpo do texto, o jornalista Fernando Duarte afirma que “os catalães jogam, hoje, algo bem acima de tudo que se pratica no futebol mundial. E reforçam os argumentos dos que os colocam em listas dos melhores times de todos os tempos.” Claro, sintético e objetivo.

Os colunistas Renato Maurício Prado e Fernando Calazans, do mesmo jornal, e a quem cabe a função de analisar os fatos, também não deixaram dúvidas sobre o que aconteceu em campo. Escreveu Renato, com perspicácia: “Esse timaço do Barcelona é tão bom, mas tão bom que por mais forte que sejam seus adversários, na maioria das vezes, acabam parecendo medíocres – todos colocados na roda e assistindo, impotentes, ao exuberante toque de bola da equipe catalã.” Já Calazans, também lançando mão do texto ágil e da mesma entusiástica coloquialidade, foi mais preciso em seu comentário:

O Barcelona foi mais Barcelona do que nunca (67 por cento de posse de bola), impôs seu jogo, seu estilo, seu ataque, e sapecou 3 a 1 no Manchester, sem se importar com o nome do adversário, e com direito a tudo que tem de bom: jogadas e finalizações de Messi, passes de Xavi e Iniesta, e ainda um chute esplendidamente colocado de Villa. O Barcelona reservou para a final um show completo, show de melhor time do mundo.

Por mais que os tempos atuais nos levem a privilegiar a objetividade dos fatos em detrimento da capacidade imaginativa, o futebol como nenhum outro esporte mexe com a alegria e a paixão do torcedor. Poucas coisas nessa vida são tão inesquecíveis como passar de pai para filho a emoção de torcer pelo mesmo time e vibrar junto com o futebol. Porque, entre outros trunfos, e além da beleza do jogo em si, ele é imprevisível (lembre-se, por exemplo, da desclassificação em massa dos “fortes” clubes brasileiros na Taça Libertadores 2011, na mesma semana, à exceção do Santos). O brasileiro gosta do jogo bem jogado, do futebol-arte. Somos todos técnicos e entendidos no assunto. Porém, muitas vezes, o torcedor vê e ouve o jogo que bem entende – ainda que haja argumentos cristalinos e um aparato tecnológico indiscutível apontando para outro lado. E por mais que os competentes recitadores de estatísticas e os meros idiotas da objetividade (como diria Nelson Rodrigues) queiram tratá-lo – e entendê-lo – como se fosse uma ciência exata. A despeito de ser só um jogo, o futebol é muito mais do que um jogo.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Quem manda é o Russo

DE BAR EM BAR (87) – A Polonesa



Havia planejado ir ao bar vencedor do recente Comida di Buteco, o Da Gema. Mas o tempo virou, choveu e passei pro Real Chopp aqui do lado. Na hora H, já caminhando pela Toneleros, o vento frio batendo na nuca, mudamos mais uma vez, para um lugar mais perto e fechado, para a boa e velha Polonesa. (Alguém poderia objetar que A Polonesa não é um bar e sim um restaurante. Em termos ortodoxos, sim; não é. Mas eu poderia também retrucar: Não é para você, seu ingrato... peça uma pasta de repolho, uma cerveja, um steak tartare...). Depois de tantos bares goela abaixo, penso que o conceito de bar é uma questão mais do que tudo afetiva. Portanto, fomos ao bar Polonesa...

Frequento aqui há quase duas décadas e é impressionante a regularidade. A pasta de repolho e o steak tartare são imbatíveis. Como também é imbatível a dupla de garçons: Russo e Silvano. Fazia tempo que não vinha e cheguei a pensar que os dois poderiam cumprimentar-me de forma protocolar. Mas não teve disso. Quando o Russo me viu, veio pro abraço. Cumprimentou a Sylvia também com alegria. Sentamos numa mesa encostada na parede à direita de quem entra, mais para o fundo.

A iluminação baixa, as tábuas de madeira no teto, os pôsteres e as matérias sobre a casa compõem o ambiente aconchegante, me fazem sentir saudades da Polônia que ainda não conheci e, nesse momento, também ajudam a me lembrar do poeta Paulo Leminski, descendente de polonês (“Uma mosca pouse no mapa / e me pouse em Narájow, / e a aldeia donde veio / o pai do meu pai, / o que veio fazer a América, / o que vai fazer o contrário, / a Polônia na memória, / o Atlântico na frente, / o Vístula na veia”). Por enquanto há apenas outras duas mesas ocupadas em Narájow. Em vez da cerveja habitual, peço uma garrafa de vinho.

Quando o Russo traz a garrafa de Periquita e o couvert, com pão preto e francês, manteiga, azeitonas verdes e a referida pasta de repolho, pergunto pelo rubro-negro Silvano. Russo, a alegria em pessoa, momentaneamente fica cabisbaixo. “Viajou para ver o pai. O pai dele estava mal fazia tempo. Só foi o Silvano chegar que o velho morreu em seguida.” Russo fala de seu pai, que também não anda bem, já tem 86 anos. Mas a tristeza logo passa. Enche as taças até bem mais da metade. A vida tem que seguir em frente. Diz que rico só vai ficar se ganhar na loto, mas que não pode reclamar, pois já tem tudo do que precisa. Casa, carro, filhos criados. Aí começa o show.

Ansioso, ele traz logo a magnífica sopa de beterraba enquanto ainda me entretenho com a pasta de repolho que está no finzinho. Pergunto se ele não poderia trazer mais um pouco da pasta para comermos com o resto dos pãezinhos que sobraram. Russo diz que é pra já e traz uma quantidade até maior do que a inicial. Elétrico, por um instante ele vai até a cafeteira automática para fazer uma xícara para ele mesmo. “Para espantar o sono, né...”

O cearense avermelhado, de estatura mediana, gordinho, de óculos, se empolga e fala do filme em que fez uma ponta (é do diretor de “Central do Brasil”...a Camila Pitanga me adora...), vai lá dentro e mostra o jornal com foto e uma matéria sobre ele, conta da sua comemoração, na véspera, de 28 anos de casado. Ainda estamos tomando a sopa de beterraba quando o inacreditável Russo já aparece com o prato de steak tartare. Vem todo feliz, alardeando que veio no capricho e comenta que agora aprendeu um novo método para misturar o prato. Com todo o cuidado para não contrariar a estrela, observo que ainda quero aproveitar a sopa com calma. Mas ele não se faz de rogado: “já vou preparando que é pra não esfriar...” e ri. Então rio também, mesmo que não faça o menor sentido.

O steak tartare estava bem cremoso e absolutamente extraordinário. É o melhor da cidade, sempre foi. Porém, com o novo método (e a porção no capricho), a experiência gustativa dessa vez foi ainda mais transcendente, se é que isso é possível. E para dar um toque de pura anarquia ao momento sublime, Russo, depois de preparar o prato, tirou, sem nenhuma cerimônia, uma colherada com um pouquinho da porção para ele mesmo. Orgulhoso, ainda mostrou para a bela polonesa do caixa e foi degustá-la assistindo singelamente a tevê com a dona/gerente. É preciso muito moral para fazer isso.

Outros pratos que também podem ser apreciados por aqui: estrogonofe de carne, frango ou camarão, goulash, badejo grelhado com raiz-forte, sopa de palmito ou de cerveja. No quesito sobremesa, a grande pedida é o suflê de chocolate, fumegante perdição, ainda mais no friozinho. Um detalhe importante: deve ser encomendado junto com o prato principal. Mas que não foi necessário – a felicidade já estava completa. Só faltou dizer que o Russo, além de mandachuva do pedaço, ainda por cima é botafoguense. Saúde e até a próxima.

A Polonesa – Rua Hilário de Gouveia, 116, Copacabana (2547-7378)