LAR DOCE LAR
Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio
(Cacaso)
* * *
HORA DO RECREIO
O coração em frangalhos o poeta é
levado a optar entre dois amores.
As duas não pode ser pois ambas não deixariam
uma só é impossível pois há os olhos da outra
e nenhuma é um verso que não é deste poema
Por hoje basta. Amanhã volto a pensar neste problema
(Cacaso)
sexta-feira, 15 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
O amigo de kerouac
(A SOMBRA DO FAQUIR 19)
A quem tanto poderia interessar os dramas e as peculiaridades neurastênicas de um sujeito meio perdedor meio ganhador, não exatamente bonito, mas sempre cercado narcisicamente das mais belas mulheres, por quase 50 filmes? Se for Woody Allen o personagem/autor em questão, a muita gente mesmo. Pouquíssimos cineastas podem hoje se dar ao luxo de ter um trabalho estritamente autoral e se manter ao mesmo tempo no mainstream. Como o primeiro Woody Allen a gente nunca mais esquece, o meu foi “A última noite de Boris Grushenko”. Desde então virei fã de toda sua atividade artística (menos tocar jazz).
Woody Allen faz parte daquele seleto naipe de artistas que se repetem a cada trabalho e ficam melhores. (Há quem diga, por exemplo, que o grande escritor reescreve sempre o mesmo livro). Claro que há os que não gostam, ou até os que acham que é um cineasta menor, como declarou Caetano em entrevista (apesar da ressalva de que seria um cara legal, com frases brilhantes e algumas cenas espetaculares). Se o critério para esta consideração for o caráter inovador da obra do artista, talvez sim; mas o fato é que poucos trataram exaustivamente de suas obsessões com sucesso de crítica e público na segunda metade do século vinte como Woody Allen, em âmbito planetário, e, no quintal tupiniquim, como Nelson Rodrigues, que brilhou sempre mais alto. (Embora, entre nós, o trabalho de Woody Allen talvez possa, sob certos aspectos, ser mais identificado com o do também grande cineasta e dramaturgo Domingos de Oliveira).
Meu amigo Maurício Barros me telefonou para recomendar que não perdesse o novo filme. Outro grande amigo, Ricardo Coelho, de Natal, depois de ler pela internet matérias elogiosas disse que se demorasse muito a chegar por lá iria gastar algumas milhas vindo ao Rio. O Dapieve revelou que gostou tanto que não conseguiu (ainda) escrever a respeito. Várias outras pessoas comentaram que o filme é incrível. Pois fui ver “Meia-noite em Paris” com esta alta expectativa – o que gera o pendor a se ter um nível de exigência tão elevado que costuma desaguar em decepção. Mas ainda bem que não foi o caso. Quando a expectativa lá em cima é plenamente satisfeita, ou até superada, o prazer é transcendente. Achei que é um dos melhores e mais marcantes filmes de Allen.
Muito se tem especulado sobre um dos dois grandes temas do filme, que vem a ser aquele que decorre da sensação de se estar vivendo na época errada. Ou, talvez, do desejo demasiado humano de se viver numa época diferente da que se está. Mas o outro grande tema é o que mais me mobiliza: o poder e o fascínio da arte e a entrega que é necessária para exercê-la. Para dar o salto mortal sem rede embaixo muitas vezes é preciso fazer sacrifícios existenciais (e financeiros) imensos. É um dilema que todo artista em algum momento precisa passar. Quanto ao período em que eu gostaria de viver, diria que tenho bem mais curiosidade pelo futuro do que pelo passado. Mas, para não ficar alheio à enquete que se tem feito por aí, não seria nada mal ser amigo de Jack Kerouac e viver tomando todas com os beatniks on the road.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
(Um poema nada aleatório)
A CHAVE SHUFFLE
não há
alento
aqui no restaurante
a quilo
eu tento
quebrar
a casca
de meu filho
adolescente
enquanto vivo
meu próprio dilema
estacionado
num
não-lugar
como meu sushi
tomo meu chope
penso
que tenho que ser forte
e preciso mudar
em um monte de coisas
quando chegam
à mesa da frente
um velho bem velho
que poderia ser
meu avô
e a namorada
pelo menos
40 anos mais jovem
ele está íntegro,
em êxtase
ela sorri
– parece ser compreendida
com discrição e tranquilidade
logo me desinteresso
no entanto o velho
diz
peremptoriamente:
há dois níveis de pessoas
os que levam a cabo
a tarefa
e os que vão pagar por isso
sei que não diz tal coisa
para mim
(nem o cobertor curto o que
você é o que você tem)
mas é como
se
fosse
a cabala
um biscoito da sorte
que me coube
(randomicamente)
no afã
da
verdade
terça-feira, 21 de junho de 2011
Assim foi se lhe parece
Era uma vez um esporte jogado com os pés que foi inventado na Inglaterra (embora haja registros do jogo, numa forma bem rudimentar, que remontam à China de antes de Cristo) e foi trazido para o Brasil por um paulista chamado Charles Miller, no fim do século 19. Convencionou-se estipular que este foi o início de tudo para nós brasileiros: as bolas que Miller trouxe da Inglaterra em sua mala no ano de 1894. O esporte, porém, não se disseminou de imediato, uma vez que seus praticantes iniciais eram apenas os filhos da alta burguesia. Os esportes mais populares até então na capital do país, o Rio de Janeiro, eram o remo e o turfe.
Por conta dessa origem elitista somente a partir da década de 1910 é que o esporte, com a realização de torneios organizados e os primeiros amistosos entre as cidades, passou a ter mais relevância, inclusive na imprensa. No limiar do século 20, os jornais praticamente ignoravam as atividades esportivas, dedicando-lhes pouco ou nenhum espaço. Mas tiveram que se render à força e ao fascínio do jogo que, num primeiro momento, era disputado com material importado: bola de couro, uniformes de linho e algodão e sapatos especiais. É considerado um marco no sentido da sua popularização a incorporação de atletas negros por parte do Vasco da Gama em 1923; embora o Bangu já os tivesse aceitado antes, o Vasco foi o primeiro grande clube a aderir ao óbvio: o crescimento do esporte dependia de sua penetração nas classes trabalhadoras.
Passado algo em torno de 100 anos, o esporte está, indiscutivelmente, consolidado não só como a paixão nacional, mas também como o mais querido em todo o planeta. Qualquer criança que já chutou uma bola sabe disso. Pegue, por exemplo, dez adolescentes de 15 anos, de qualquer lugar do mundo, e mostre fotos de Pelé, Maradona, Ronaldo Fenômeno, Kaká, Messi, Cristiano Ronaldo. Mostre a camisa do Barcelona. Provavelmente serão todos, ou quase todos, reconhecidos e considerados familiares. Mas naturalmente não foi sempre assim.
Imaginemos as dúvidas e o receio do jornalista que foi escalado pela primeira vez para cobrir um evento do esporte nos seus primórdios. Como escrever sobre algo que a maioria das pessoas não tinha a menor ideia do que se tratava? Como contar o que é uma partida de futebol, se isto nunca havia sido contado? Tarefa bastante difícil inventar um cânone. Vejamos um pequeno trecho de um jornalista desbravador, cronista do Correio do Povo, a quem foi atribuída a função de escrever sobre o primeiro Gre-Nal da História, realizado em 1909:
Lindíssimo era o aspecto que apresentava anteontem o ‘ground’ dos Moinhos de Vento, quer pela sua ornamentação como pela concorrência. Lá estavam cerca de 2.000 pessoas ansiosas por assistir ao encontro dos primeiros teams do Grêmio F. Ball P. Alegrense e do Sport Club Internacional. O belo sexo, representado por grande número, apresentou-se ostentando finíssimas ‘toilettes’ entre as quais muitas adaptadas aos jogos ao ar livre. Ao projetado torneio, por várias vezes nos tínhamos referido, pois prometia ele ser renhidíssimo, como de fato o foi.
As referências à “ornamentação” e ao “belo sexo” (“ostentando finíssimas ‘toilettes’”), ao aspecto “lindíssimo” do “ground” poderiam fazer supor que se tratasse de alguma atividade cara ao colunismo social e à vida mundana portoalegrense. O emprego de estrangeirismos (como o “ground” referido) na época era comum e até bastante compreensível, principalmente no caso da língua inglesa, devido à origem do esporte e, em alguns casos, pela própria ascendência dos jogadores. Como pode ser também observado nas linhas a seguir:
Entremos a descrever em ligeiras linhas as peripécias do jogo, o qual foi além da expectativa. Às 3.25 pelo respectivo ‘referee’, sr. Waldemar Bromberg, foi dado signal de ‘kick-off’, cabendo este ao center forward Booth, do team azul. Nos primeiros minutos, o jogo esteve indeciso, pois o team azul, que era constituído de excelentes elementos, pretendia conhecer a força do seu rival. Pelo primeiro lance, verificou-se que a linha de forward do Grêmio F. B. era bem combinada e com bizarria atacava os seus adversários sendo rechaçados, por várias vezes, pelos ‘halfbacks’ do team encarnado.
Uma característica marcante do modo narrativo presente nos dois trechos e que cabe ressaltar aqui é o tipo de construção sintática utilizada pelo nosso jornalista. Para os padrões atuais, há muita pompa e prolixidade, com largo uso de expressões pretensamente poéticas. (Embora, para os defensores da norma culta, talvez seja um importante legado estético.) Para contar que no início da partida os times estavam ainda se estudando, ele afirma que o jogo “esteve indeciso”, pois o Grêmio “pretendia conhecer a força do seu rival”. Depois relata que o Grêmio “com bizarria atacava os seus adversários sendo rechaçados, por várias vezes” pelos defensores do Inter (grifo meu). Tudo isso leva a crer que a disputa estaria sendo bastante acirrada, inaugurando, portanto, em grande estilo a famosa rivalidade entre tricolores e colorados do Rio Grande do Sul. Mas não. Na verdade, o Grêmio aplicou uma surra de 10 a 0 no então recém-formado Internacional.
Em relação à linguagem propriamente literária, o escritor Nelson Rodrigues, grande fã do esporte, algumas décadas mais tarde, nos deu fartas e preciosas mostras de seu talento nas crônicas sobre o futebol. Alguns outros grandes nomes da literatura (e do jornalismo) também se aventuraram na crônica esportiva, como José Lins do Rego, Vinícius de Moraes, Roberto Drummond e Armando Nogueira, mas ninguém brilhou mais do que Nelson. Ele tinha a fértil capacidade de transformar uma peleja chinfrim numa épica jornada. Como, de certa forma, também se utilizavam da imaginação os eletrizantes locutores que ao narrar uma partida abusavam das hipérboles para prender a atenção dos ouvintes na chamada era do rádio (cujo poder com o passar do tempo e a chegada da televisão foi enfraquecido, naturalmente, mas não deixou de existir). Com a força de seu entusiasmo, os radialistas-narradores tinham que dar a ver a partida em todas as suas nuances apenas com o recurso do áudio. E – a menos que estivesse presente no estádio, e talvez vendo um outro jogo – ao aficionado só restava acreditar.
Situação completamente diferente desta é a que se vive hoje. Com a evolução e a utilização simultânea de várias tecnologias, com a transmissão dos jogos pela tevê em alta definição e o auxílio de cada vez mais câmeras, com a incorporação da internet à cobertura jornalística, tudo que é dito (e escrito) pode (deve) ser devidamente comprovado – como que num louvor e numa busca olímpica da mais pura objetividade. O próprio jornal tem hoje o seu espaço redefinido na cobertura esportiva, pois a rapidez das mídias eletrônicas pode transformar em questão de horas, ou até de minutos, uma informação quente numa notícia velha. Ao jornal caberia agora, mais do que “contar” o jogo, esmiuçar os fatos e fazer a análise das notícias.
Um bom exemplo da relação entre mídia e futebol atualmente pôde ser dado na recente final da Liga dos Campeões 2011, entre Barcelona e Manchester United. Este jogo foi assistido por mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo. Na cobertura, os jornais e as tevês forneceram incessantemente, durante os dias que antecederam ao jogo, diversos dados e informações (como faturamento, patrocínio e números de sócios dos respectivos times, além daqueles específicos da preparação e retrospecto das equipes), para forjar onde quer que fosse a ambiência da decisão. No dia seguinte, o jornal O Globo exibia a seguinte manchete: “Um futebol de outro mundo”. No corpo do texto, o jornalista Fernando Duarte afirma que “os catalães jogam, hoje, algo bem acima de tudo que se pratica no futebol mundial. E reforçam os argumentos dos que os colocam em listas dos melhores times de todos os tempos.” Claro, sintético e objetivo.
Os colunistas Renato Maurício Prado e Fernando Calazans, do mesmo jornal, e a quem cabe a função de analisar os fatos, também não deixaram dúvidas sobre o que aconteceu em campo. Escreveu Renato, com perspicácia: “Esse timaço do Barcelona é tão bom, mas tão bom que por mais forte que sejam seus adversários, na maioria das vezes, acabam parecendo medíocres – todos colocados na roda e assistindo, impotentes, ao exuberante toque de bola da equipe catalã.” Já Calazans, também lançando mão do texto ágil e da mesma entusiástica coloquialidade, foi mais preciso em seu comentário:
O Barcelona foi mais Barcelona do que nunca (67 por cento de posse de bola), impôs seu jogo, seu estilo, seu ataque, e sapecou 3 a 1 no Manchester, sem se importar com o nome do adversário, e com direito a tudo que tem de bom: jogadas e finalizações de Messi, passes de Xavi e Iniesta, e ainda um chute esplendidamente colocado de Villa. O Barcelona reservou para a final um show completo, show de melhor time do mundo.
Por mais que os tempos atuais nos levem a privilegiar a objetividade dos fatos em detrimento da capacidade imaginativa, o futebol como nenhum outro esporte mexe com a alegria e a paixão do torcedor. Poucas coisas nessa vida são tão inesquecíveis como passar de pai para filho a emoção de torcer pelo mesmo time e vibrar junto com o futebol. Porque, entre outros trunfos, e além da beleza do jogo em si, ele é imprevisível (lembre-se, por exemplo, da desclassificação em massa dos “fortes” clubes brasileiros na Taça Libertadores 2011, na mesma semana, à exceção do Santos). O brasileiro gosta do jogo bem jogado, do futebol-arte. Somos todos técnicos e entendidos no assunto. Porém, muitas vezes, o torcedor vê e ouve o jogo que bem entende – ainda que haja argumentos cristalinos e um aparato tecnológico indiscutível apontando para outro lado. E por mais que os competentes recitadores de estatísticas e os meros idiotas da objetividade (como diria Nelson Rodrigues) queiram tratá-lo – e entendê-lo – como se fosse uma ciência exata. A despeito de ser só um jogo, o futebol é muito mais do que um jogo.
Por conta dessa origem elitista somente a partir da década de 1910 é que o esporte, com a realização de torneios organizados e os primeiros amistosos entre as cidades, passou a ter mais relevância, inclusive na imprensa. No limiar do século 20, os jornais praticamente ignoravam as atividades esportivas, dedicando-lhes pouco ou nenhum espaço. Mas tiveram que se render à força e ao fascínio do jogo que, num primeiro momento, era disputado com material importado: bola de couro, uniformes de linho e algodão e sapatos especiais. É considerado um marco no sentido da sua popularização a incorporação de atletas negros por parte do Vasco da Gama em 1923; embora o Bangu já os tivesse aceitado antes, o Vasco foi o primeiro grande clube a aderir ao óbvio: o crescimento do esporte dependia de sua penetração nas classes trabalhadoras.
Passado algo em torno de 100 anos, o esporte está, indiscutivelmente, consolidado não só como a paixão nacional, mas também como o mais querido em todo o planeta. Qualquer criança que já chutou uma bola sabe disso. Pegue, por exemplo, dez adolescentes de 15 anos, de qualquer lugar do mundo, e mostre fotos de Pelé, Maradona, Ronaldo Fenômeno, Kaká, Messi, Cristiano Ronaldo. Mostre a camisa do Barcelona. Provavelmente serão todos, ou quase todos, reconhecidos e considerados familiares. Mas naturalmente não foi sempre assim.
Imaginemos as dúvidas e o receio do jornalista que foi escalado pela primeira vez para cobrir um evento do esporte nos seus primórdios. Como escrever sobre algo que a maioria das pessoas não tinha a menor ideia do que se tratava? Como contar o que é uma partida de futebol, se isto nunca havia sido contado? Tarefa bastante difícil inventar um cânone. Vejamos um pequeno trecho de um jornalista desbravador, cronista do Correio do Povo, a quem foi atribuída a função de escrever sobre o primeiro Gre-Nal da História, realizado em 1909:
Lindíssimo era o aspecto que apresentava anteontem o ‘ground’ dos Moinhos de Vento, quer pela sua ornamentação como pela concorrência. Lá estavam cerca de 2.000 pessoas ansiosas por assistir ao encontro dos primeiros teams do Grêmio F. Ball P. Alegrense e do Sport Club Internacional. O belo sexo, representado por grande número, apresentou-se ostentando finíssimas ‘toilettes’ entre as quais muitas adaptadas aos jogos ao ar livre. Ao projetado torneio, por várias vezes nos tínhamos referido, pois prometia ele ser renhidíssimo, como de fato o foi.
As referências à “ornamentação” e ao “belo sexo” (“ostentando finíssimas ‘toilettes’”), ao aspecto “lindíssimo” do “ground” poderiam fazer supor que se tratasse de alguma atividade cara ao colunismo social e à vida mundana portoalegrense. O emprego de estrangeirismos (como o “ground” referido) na época era comum e até bastante compreensível, principalmente no caso da língua inglesa, devido à origem do esporte e, em alguns casos, pela própria ascendência dos jogadores. Como pode ser também observado nas linhas a seguir:
Entremos a descrever em ligeiras linhas as peripécias do jogo, o qual foi além da expectativa. Às 3.25 pelo respectivo ‘referee’, sr. Waldemar Bromberg, foi dado signal de ‘kick-off’, cabendo este ao center forward Booth, do team azul. Nos primeiros minutos, o jogo esteve indeciso, pois o team azul, que era constituído de excelentes elementos, pretendia conhecer a força do seu rival. Pelo primeiro lance, verificou-se que a linha de forward do Grêmio F. B. era bem combinada e com bizarria atacava os seus adversários sendo rechaçados, por várias vezes, pelos ‘halfbacks’ do team encarnado.
Uma característica marcante do modo narrativo presente nos dois trechos e que cabe ressaltar aqui é o tipo de construção sintática utilizada pelo nosso jornalista. Para os padrões atuais, há muita pompa e prolixidade, com largo uso de expressões pretensamente poéticas. (Embora, para os defensores da norma culta, talvez seja um importante legado estético.) Para contar que no início da partida os times estavam ainda se estudando, ele afirma que o jogo “esteve indeciso”, pois o Grêmio “pretendia conhecer a força do seu rival”. Depois relata que o Grêmio “com bizarria atacava os seus adversários sendo rechaçados, por várias vezes” pelos defensores do Inter (grifo meu). Tudo isso leva a crer que a disputa estaria sendo bastante acirrada, inaugurando, portanto, em grande estilo a famosa rivalidade entre tricolores e colorados do Rio Grande do Sul. Mas não. Na verdade, o Grêmio aplicou uma surra de 10 a 0 no então recém-formado Internacional.
Em relação à linguagem propriamente literária, o escritor Nelson Rodrigues, grande fã do esporte, algumas décadas mais tarde, nos deu fartas e preciosas mostras de seu talento nas crônicas sobre o futebol. Alguns outros grandes nomes da literatura (e do jornalismo) também se aventuraram na crônica esportiva, como José Lins do Rego, Vinícius de Moraes, Roberto Drummond e Armando Nogueira, mas ninguém brilhou mais do que Nelson. Ele tinha a fértil capacidade de transformar uma peleja chinfrim numa épica jornada. Como, de certa forma, também se utilizavam da imaginação os eletrizantes locutores que ao narrar uma partida abusavam das hipérboles para prender a atenção dos ouvintes na chamada era do rádio (cujo poder com o passar do tempo e a chegada da televisão foi enfraquecido, naturalmente, mas não deixou de existir). Com a força de seu entusiasmo, os radialistas-narradores tinham que dar a ver a partida em todas as suas nuances apenas com o recurso do áudio. E – a menos que estivesse presente no estádio, e talvez vendo um outro jogo – ao aficionado só restava acreditar.
Situação completamente diferente desta é a que se vive hoje. Com a evolução e a utilização simultânea de várias tecnologias, com a transmissão dos jogos pela tevê em alta definição e o auxílio de cada vez mais câmeras, com a incorporação da internet à cobertura jornalística, tudo que é dito (e escrito) pode (deve) ser devidamente comprovado – como que num louvor e numa busca olímpica da mais pura objetividade. O próprio jornal tem hoje o seu espaço redefinido na cobertura esportiva, pois a rapidez das mídias eletrônicas pode transformar em questão de horas, ou até de minutos, uma informação quente numa notícia velha. Ao jornal caberia agora, mais do que “contar” o jogo, esmiuçar os fatos e fazer a análise das notícias.
Um bom exemplo da relação entre mídia e futebol atualmente pôde ser dado na recente final da Liga dos Campeões 2011, entre Barcelona e Manchester United. Este jogo foi assistido por mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo. Na cobertura, os jornais e as tevês forneceram incessantemente, durante os dias que antecederam ao jogo, diversos dados e informações (como faturamento, patrocínio e números de sócios dos respectivos times, além daqueles específicos da preparação e retrospecto das equipes), para forjar onde quer que fosse a ambiência da decisão. No dia seguinte, o jornal O Globo exibia a seguinte manchete: “Um futebol de outro mundo”. No corpo do texto, o jornalista Fernando Duarte afirma que “os catalães jogam, hoje, algo bem acima de tudo que se pratica no futebol mundial. E reforçam os argumentos dos que os colocam em listas dos melhores times de todos os tempos.” Claro, sintético e objetivo.
Os colunistas Renato Maurício Prado e Fernando Calazans, do mesmo jornal, e a quem cabe a função de analisar os fatos, também não deixaram dúvidas sobre o que aconteceu em campo. Escreveu Renato, com perspicácia: “Esse timaço do Barcelona é tão bom, mas tão bom que por mais forte que sejam seus adversários, na maioria das vezes, acabam parecendo medíocres – todos colocados na roda e assistindo, impotentes, ao exuberante toque de bola da equipe catalã.” Já Calazans, também lançando mão do texto ágil e da mesma entusiástica coloquialidade, foi mais preciso em seu comentário:
O Barcelona foi mais Barcelona do que nunca (67 por cento de posse de bola), impôs seu jogo, seu estilo, seu ataque, e sapecou 3 a 1 no Manchester, sem se importar com o nome do adversário, e com direito a tudo que tem de bom: jogadas e finalizações de Messi, passes de Xavi e Iniesta, e ainda um chute esplendidamente colocado de Villa. O Barcelona reservou para a final um show completo, show de melhor time do mundo.
Por mais que os tempos atuais nos levem a privilegiar a objetividade dos fatos em detrimento da capacidade imaginativa, o futebol como nenhum outro esporte mexe com a alegria e a paixão do torcedor. Poucas coisas nessa vida são tão inesquecíveis como passar de pai para filho a emoção de torcer pelo mesmo time e vibrar junto com o futebol. Porque, entre outros trunfos, e além da beleza do jogo em si, ele é imprevisível (lembre-se, por exemplo, da desclassificação em massa dos “fortes” clubes brasileiros na Taça Libertadores 2011, na mesma semana, à exceção do Santos). O brasileiro gosta do jogo bem jogado, do futebol-arte. Somos todos técnicos e entendidos no assunto. Porém, muitas vezes, o torcedor vê e ouve o jogo que bem entende – ainda que haja argumentos cristalinos e um aparato tecnológico indiscutível apontando para outro lado. E por mais que os competentes recitadores de estatísticas e os meros idiotas da objetividade (como diria Nelson Rodrigues) queiram tratá-lo – e entendê-lo – como se fosse uma ciência exata. A despeito de ser só um jogo, o futebol é muito mais do que um jogo.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Quem manda é o Russo
DE BAR EM BAR (87) – A Polonesa
Havia planejado ir ao bar vencedor do recente Comida di Buteco, o Da Gema. Mas o tempo virou, choveu e passei pro Real Chopp aqui do lado. Na hora H, já caminhando pela Toneleros, o vento frio batendo na nuca, mudamos mais uma vez, para um lugar mais perto e fechado, para a boa e velha Polonesa. (Alguém poderia objetar que A Polonesa não é um bar e sim um restaurante. Em termos ortodoxos, sim; não é. Mas eu poderia também retrucar: Não é para você, seu ingrato... peça uma pasta de repolho, uma cerveja, um steak tartare...). Depois de tantos bares goela abaixo, penso que o conceito de bar é uma questão mais do que tudo afetiva. Portanto, fomos ao bar Polonesa...
Frequento aqui há quase duas décadas e é impressionante a regularidade. A pasta de repolho e o steak tartare são imbatíveis. Como também é imbatível a dupla de garçons: Russo e Silvano. Fazia tempo que não vinha e cheguei a pensar que os dois poderiam cumprimentar-me de forma protocolar. Mas não teve disso. Quando o Russo me viu, veio pro abraço. Cumprimentou a Sylvia também com alegria. Sentamos numa mesa encostada na parede à direita de quem entra, mais para o fundo.
A iluminação baixa, as tábuas de madeira no teto, os pôsteres e as matérias sobre a casa compõem o ambiente aconchegante, me fazem sentir saudades da Polônia que ainda não conheci e, nesse momento, também ajudam a me lembrar do poeta Paulo Leminski, descendente de polonês (“Uma mosca pouse no mapa / e me pouse em Narájow, / e a aldeia donde veio / o pai do meu pai, / o que veio fazer a América, / o que vai fazer o contrário, / a Polônia na memória, / o Atlântico na frente, / o Vístula na veia”). Por enquanto há apenas outras duas mesas ocupadas em Narájow. Em vez da cerveja habitual, peço uma garrafa de vinho.
Quando o Russo traz a garrafa de Periquita e o couvert, com pão preto e francês, manteiga, azeitonas verdes e a referida pasta de repolho, pergunto pelo rubro-negro Silvano. Russo, a alegria em pessoa, momentaneamente fica cabisbaixo. “Viajou para ver o pai. O pai dele estava mal fazia tempo. Só foi o Silvano chegar que o velho morreu em seguida.” Russo fala de seu pai, que também não anda bem, já tem 86 anos. Mas a tristeza logo passa. Enche as taças até bem mais da metade. A vida tem que seguir em frente. Diz que rico só vai ficar se ganhar na loto, mas que não pode reclamar, pois já tem tudo do que precisa. Casa, carro, filhos criados. Aí começa o show.
Ansioso, ele traz logo a magnífica sopa de beterraba enquanto ainda me entretenho com a pasta de repolho que está no finzinho. Pergunto se ele não poderia trazer mais um pouco da pasta para comermos com o resto dos pãezinhos que sobraram. Russo diz que é pra já e traz uma quantidade até maior do que a inicial. Elétrico, por um instante ele vai até a cafeteira automática para fazer uma xícara para ele mesmo. “Para espantar o sono, né...”
O cearense avermelhado, de estatura mediana, gordinho, de óculos, se empolga e fala do filme em que fez uma ponta (é do diretor de “Central do Brasil”...a Camila Pitanga me adora...), vai lá dentro e mostra o jornal com foto e uma matéria sobre ele, conta da sua comemoração, na véspera, de 28 anos de casado. Ainda estamos tomando a sopa de beterraba quando o inacreditável Russo já aparece com o prato de steak tartare. Vem todo feliz, alardeando que veio no capricho e comenta que agora aprendeu um novo método para misturar o prato. Com todo o cuidado para não contrariar a estrela, observo que ainda quero aproveitar a sopa com calma. Mas ele não se faz de rogado: “já vou preparando que é pra não esfriar...” e ri. Então rio também, mesmo que não faça o menor sentido.
O steak tartare estava bem cremoso e absolutamente extraordinário. É o melhor da cidade, sempre foi. Porém, com o novo método (e a porção no capricho), a experiência gustativa dessa vez foi ainda mais transcendente, se é que isso é possível. E para dar um toque de pura anarquia ao momento sublime, Russo, depois de preparar o prato, tirou, sem nenhuma cerimônia, uma colherada com um pouquinho da porção para ele mesmo. Orgulhoso, ainda mostrou para a bela polonesa do caixa e foi degustá-la assistindo singelamente a tevê com a dona/gerente. É preciso muito moral para fazer isso.
Outros pratos que também podem ser apreciados por aqui: estrogonofe de carne, frango ou camarão, goulash, badejo grelhado com raiz-forte, sopa de palmito ou de cerveja. No quesito sobremesa, a grande pedida é o suflê de chocolate, fumegante perdição, ainda mais no friozinho. Um detalhe importante: deve ser encomendado junto com o prato principal. Mas que não foi necessário – a felicidade já estava completa. Só faltou dizer que o Russo, além de mandachuva do pedaço, ainda por cima é botafoguense. Saúde e até a próxima.
A Polonesa – Rua Hilário de Gouveia, 116, Copacabana (2547-7378)
Havia planejado ir ao bar vencedor do recente Comida di Buteco, o Da Gema. Mas o tempo virou, choveu e passei pro Real Chopp aqui do lado. Na hora H, já caminhando pela Toneleros, o vento frio batendo na nuca, mudamos mais uma vez, para um lugar mais perto e fechado, para a boa e velha Polonesa. (Alguém poderia objetar que A Polonesa não é um bar e sim um restaurante. Em termos ortodoxos, sim; não é. Mas eu poderia também retrucar: Não é para você, seu ingrato... peça uma pasta de repolho, uma cerveja, um steak tartare...). Depois de tantos bares goela abaixo, penso que o conceito de bar é uma questão mais do que tudo afetiva. Portanto, fomos ao bar Polonesa...
Frequento aqui há quase duas décadas e é impressionante a regularidade. A pasta de repolho e o steak tartare são imbatíveis. Como também é imbatível a dupla de garçons: Russo e Silvano. Fazia tempo que não vinha e cheguei a pensar que os dois poderiam cumprimentar-me de forma protocolar. Mas não teve disso. Quando o Russo me viu, veio pro abraço. Cumprimentou a Sylvia também com alegria. Sentamos numa mesa encostada na parede à direita de quem entra, mais para o fundo.
A iluminação baixa, as tábuas de madeira no teto, os pôsteres e as matérias sobre a casa compõem o ambiente aconchegante, me fazem sentir saudades da Polônia que ainda não conheci e, nesse momento, também ajudam a me lembrar do poeta Paulo Leminski, descendente de polonês (“Uma mosca pouse no mapa / e me pouse em Narájow, / e a aldeia donde veio / o pai do meu pai, / o que veio fazer a América, / o que vai fazer o contrário, / a Polônia na memória, / o Atlântico na frente, / o Vístula na veia”). Por enquanto há apenas outras duas mesas ocupadas em Narájow. Em vez da cerveja habitual, peço uma garrafa de vinho.
Quando o Russo traz a garrafa de Periquita e o couvert, com pão preto e francês, manteiga, azeitonas verdes e a referida pasta de repolho, pergunto pelo rubro-negro Silvano. Russo, a alegria em pessoa, momentaneamente fica cabisbaixo. “Viajou para ver o pai. O pai dele estava mal fazia tempo. Só foi o Silvano chegar que o velho morreu em seguida.” Russo fala de seu pai, que também não anda bem, já tem 86 anos. Mas a tristeza logo passa. Enche as taças até bem mais da metade. A vida tem que seguir em frente. Diz que rico só vai ficar se ganhar na loto, mas que não pode reclamar, pois já tem tudo do que precisa. Casa, carro, filhos criados. Aí começa o show.
Ansioso, ele traz logo a magnífica sopa de beterraba enquanto ainda me entretenho com a pasta de repolho que está no finzinho. Pergunto se ele não poderia trazer mais um pouco da pasta para comermos com o resto dos pãezinhos que sobraram. Russo diz que é pra já e traz uma quantidade até maior do que a inicial. Elétrico, por um instante ele vai até a cafeteira automática para fazer uma xícara para ele mesmo. “Para espantar o sono, né...”
O cearense avermelhado, de estatura mediana, gordinho, de óculos, se empolga e fala do filme em que fez uma ponta (é do diretor de “Central do Brasil”...a Camila Pitanga me adora...), vai lá dentro e mostra o jornal com foto e uma matéria sobre ele, conta da sua comemoração, na véspera, de 28 anos de casado. Ainda estamos tomando a sopa de beterraba quando o inacreditável Russo já aparece com o prato de steak tartare. Vem todo feliz, alardeando que veio no capricho e comenta que agora aprendeu um novo método para misturar o prato. Com todo o cuidado para não contrariar a estrela, observo que ainda quero aproveitar a sopa com calma. Mas ele não se faz de rogado: “já vou preparando que é pra não esfriar...” e ri. Então rio também, mesmo que não faça o menor sentido.
O steak tartare estava bem cremoso e absolutamente extraordinário. É o melhor da cidade, sempre foi. Porém, com o novo método (e a porção no capricho), a experiência gustativa dessa vez foi ainda mais transcendente, se é que isso é possível. E para dar um toque de pura anarquia ao momento sublime, Russo, depois de preparar o prato, tirou, sem nenhuma cerimônia, uma colherada com um pouquinho da porção para ele mesmo. Orgulhoso, ainda mostrou para a bela polonesa do caixa e foi degustá-la assistindo singelamente a tevê com a dona/gerente. É preciso muito moral para fazer isso.
Outros pratos que também podem ser apreciados por aqui: estrogonofe de carne, frango ou camarão, goulash, badejo grelhado com raiz-forte, sopa de palmito ou de cerveja. No quesito sobremesa, a grande pedida é o suflê de chocolate, fumegante perdição, ainda mais no friozinho. Um detalhe importante: deve ser encomendado junto com o prato principal. Mas que não foi necessário – a felicidade já estava completa. Só faltou dizer que o Russo, além de mandachuva do pedaço, ainda por cima é botafoguense. Saúde e até a próxima.
A Polonesa – Rua Hilário de Gouveia, 116, Copacabana (2547-7378)
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Dois poemas de Ana C.
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana Cristina Cesar)
* * *
FLORES DO MAIS
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
(Ana Cristina Cesar)
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana Cristina Cesar)
* * *
FLORES DO MAIS
devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
(Ana Cristina Cesar)
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Inda renascerei do pó de Hipócrates
(A SOMBRA DO FAQUIR 17)
Após quase meio século de praia, só hoje aprendi a dormir de barriga para cima (quando era bebê não conta). Pode parecer uma bobagem, mas é um recurso extremamente útil quando não se consegue respirar direito. É verdade que dormi mal, volta e meia me lembrava de que estava engessado naquela posição engessada, fazendo com que o sono fosse bem rasteiro. O máximo que me era permitido pelo nariz em erupção era uma viradinha de lado. Mas foi muito melhor do que não ter dormido coisa nenhuma – que foi o que aconteceu nas duas noites anteriores.
Se pudesse tomar uma injeção, com agulha grossa e tudo, na testa ou na costela, para ficar bom logo, no ato, toda vez que caísse doente, eu o faria feliz. Sempre fui muito impaciente com doença. Acredito que parte considerável dos homens também é assim. (O que só comprova a nossa eterna imaturidade perante as mulheres). Como se sabe, elas toleram melhor a dor, e ainda assim vão mais ao médico, vivem mais. (Logo penso: viver mais para quê?... – mas estou doente, deixa para lá.)
Neste sentido, este 2011 – que já chega à sua metade – tem sido uma provação para mim. Depois de iniciá-lo com mergulhos e hábitos mais saudáveis, retomando uma empolgação esportiva que julgara abandonada no tempo, tive dores e uma temporária surdez num dos ouvidos (já tinha ouvido falar disso para músico, nunca para letrista). Depois fraturei a perna, por excesso de carga (já faz três meses e a situação ainda não voltou completamente ao normal). Tive também uma gripe forte há um mês e agora veio uma recaída. Deixo claro que não sou vítima de nada, mas fico pensando no que virá depois.
Além das conclusões apressadas (e óbvias) de que preciso me benzer e a velhice é fogo (é a mãe), fui levado a me adaptar às limitações em série. Mas pude também me dar ao luxo de dispensar da agenda o que não é essencial e tentar botar em prática a noção de que o corpo doente precisa da força da mente sã – ou de ao menos algo perto disso. E até usufruir de certo afinamento da sensibilidade que a dor e a restrição oferecem. Quando era criança, por um lado, gostava de ficar doente para não ter de ir ao colégio; depois, já adulto, para não ir ao trabalho. Só que o mal-estar geralmente não compensava. Hoje trabalho (na corda bamba) em casa fazendo o que mais gosto e de bem com a relativa solidão. Como ler e escrever estão liberados, já é alguma coisa. De qualquer forma, acho que vou procurar um Preto Velho.
(
Após quase meio século de praia, só hoje aprendi a dormir de barriga para cima (quando era bebê não conta). Pode parecer uma bobagem, mas é um recurso extremamente útil quando não se consegue respirar direito. É verdade que dormi mal, volta e meia me lembrava de que estava engessado naquela posição engessada, fazendo com que o sono fosse bem rasteiro. O máximo que me era permitido pelo nariz em erupção era uma viradinha de lado. Mas foi muito melhor do que não ter dormido coisa nenhuma – que foi o que aconteceu nas duas noites anteriores.
Se pudesse tomar uma injeção, com agulha grossa e tudo, na testa ou na costela, para ficar bom logo, no ato, toda vez que caísse doente, eu o faria feliz. Sempre fui muito impaciente com doença. Acredito que parte considerável dos homens também é assim. (O que só comprova a nossa eterna imaturidade perante as mulheres). Como se sabe, elas toleram melhor a dor, e ainda assim vão mais ao médico, vivem mais. (Logo penso: viver mais para quê?... – mas estou doente, deixa para lá.)
Neste sentido, este 2011 – que já chega à sua metade – tem sido uma provação para mim. Depois de iniciá-lo com mergulhos e hábitos mais saudáveis, retomando uma empolgação esportiva que julgara abandonada no tempo, tive dores e uma temporária surdez num dos ouvidos (já tinha ouvido falar disso para músico, nunca para letrista). Depois fraturei a perna, por excesso de carga (já faz três meses e a situação ainda não voltou completamente ao normal). Tive também uma gripe forte há um mês e agora veio uma recaída. Deixo claro que não sou vítima de nada, mas fico pensando no que virá depois.
Além das conclusões apressadas (e óbvias) de que preciso me benzer e a velhice é fogo (é a mãe), fui levado a me adaptar às limitações em série. Mas pude também me dar ao luxo de dispensar da agenda o que não é essencial e tentar botar em prática a noção de que o corpo doente precisa da força da mente sã – ou de ao menos algo perto disso. E até usufruir de certo afinamento da sensibilidade que a dor e a restrição oferecem. Quando era criança, por um lado, gostava de ficar doente para não ter de ir ao colégio; depois, já adulto, para não ir ao trabalho. Só que o mal-estar geralmente não compensava. Hoje trabalho (na corda bamba) em casa fazendo o que mais gosto e de bem com a relativa solidão. Como ler e escrever estão liberados, já é alguma coisa. De qualquer forma, acho que vou procurar um Preto Velho.
(
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Panaceia
para durarmos, digamos, cem anos
eu não sei muito bem o que fazer,
mas para manter duríssimo o cano
basta continuares a me enlouquecer.
nada do que provei se compara,
ou pelo menos chega perto,
ao teu ávido manjar infindo -
só ele me extingue por completo.
já não posso te amar com geléia
sem ter na língua e na tez o instinto
de que teus pés, teus seios e teu sexo
trazem à tona o mais puro absinto.
eu não sei muito bem o que fazer,
mas para manter duríssimo o cano
basta continuares a me enlouquecer.
nada do que provei se compara,
ou pelo menos chega perto,
ao teu ávido manjar infindo -
só ele me extingue por completo.
já não posso te amar com geléia
sem ter na língua e na tez o instinto
de que teus pés, teus seios e teu sexo
trazem à tona o mais puro absinto.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
A mosca de Pessoa
(A SOMBRA DO FAQUIR 16)
Abriguei-me da chuva forte que caía no meio da tarde no bar Casual Retrô, na rua do Rosário. O tempo esfriou muito e ouço espirros e tosses por todos os lugares. Tento me desviar deles. Mas como sou hipocondríaco e amigo de Murphy, eles me procuram obstinadamente, seja no metrô, na sala de aula (estou fazendo um curso na UERJ com o apresentador e editor do Sportv Marcelo Barreto e com o sociólogo Ronaldo Helal) ou na bela exposição de Laurie Anderson no CCBB. Menos aqui, ainda bem, no boteco do conhecido chef Santos.
Como ainda não teve início o movimento vespertino do bar, a televisão mostra o jogo do aguado e milionário campeonato inglês apenas para um ou outro garçom. Há nesse momento uma única mesa ocupada, com duas pessoas, no fundo do salão. Peço uma taça de vinho e uma mineral sem gás. Percebo que os dois sujeitos, ostensivamente diferentes, enquanto conversam, bebem da garrafa de cachaça mineira Meia Lua Prata e fumam charuto. Como o bar estava vazio e ninguém disse nada preferi não protestar e sim esticar os ouvidos.
– Quem diria, Fernando, você com essa cara de caretão é muito mais louco do que eu!
– Que nada, meu caro artista! Está aí um quesito em que dificilmente algum outro ser humano irá suplantá-lo. Isto sem falarmos do seu talento musical, naturalmente, que também é fora do comum.
– Porra, você não, véio!... Já chega eu ter que ouvir, do além, o tempo todo... Toca Raul... Toca Raul... Não vem puxar meu saco! Aliás, com qual de vocês estou falando?
– Ora, com qual... Você não está me vendo?
– Sim, estou, mas e daí?... Você é tantos. E não vai me dizer que estou me referindo à sua metamorfose ambulante por causa desta bendita cachaça.
– Gostei da expressão... Aceita mais um gole?
– Claro, meu poeta. Mas não foge do assunto.
– Todos, exceto nunca terem levado porrada na vida, são múltiplos por definição, como eu.
– Ah, já sei! Nem mesmo você sabe qual é a pessoa da vez... ou o Pessoa... de agora. Pode me chamar de louco ou estúpido, mas dessa vez alguém te pegou.
– Quem me pegou, ó pá?
– Eu, Raulzito, seu criado.
– Tu me pegaste, como assim? Preferia que fosse Ofélia, minha antiga namorada.
– Não foge do assunto!
– De jeito nenhum. Só quem puder obter a estupidez ou a loucura pode ser feliz. Buscar, querer, amar... tudo isto diz: perder, chorar, sofrer vez após vez em busca da beleza!
– Ih, rapaz, com todo o respeito... Acho que a tal da Ofélia despirocou sua cabeça. Seus olhos ficaram até vermelhos e mareados. Se você não tem colírio nem óculos escuros, bebe mais uma dose.
– Talvez seja melhor mesmo. Você é uma grande figura.
– Você acha? Ninguém tem o direito de me julgar a não ser eu mesmo. Eu me pertenço e de mim faço o que bem entender.
– Bravo! Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para pessoas como nós, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
– É isso! Grande pessoa és tu... Nada é mais coerente se virar de trás pra frente, tanto fez como tanto faz... Homem, quero mais um brinde, por favor: viva a sociedade alternativa!
– E vivamos nós, já que o próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
Quando tentava entender a última frase, eis que chega meu parceiro Roberto Frejat, com quem havia combinado de almoçar e ver a exposição sobre o Poeta dos heterônimos. Comemos o ótimo Bacalhau Retrô, com batatas portuguesas e molho de mostarda, conhaque e vinho do Porto. De súbito, os dois sujeitos ostensivamente diferentes que bebiam aguardente e fumavam charutos somem do fundo do salão. Aperto os olhos e vejo duas moscas sobrevoarem a travessa vazia de bacalhau. Saciados e sem ter pesado muito no estômago, fomos flutuando com a insistente chuva para a exposição ali perto. Deslumbrante seria até econômico para definir o material que é posto à exibição pelo Centro Cultural dos Correios para nós, simples mortais privilegiados. Eu e meu querido amigo nos emocionamos e aprendemos mais um pouco sobre a biografia do poeta lusitano mais brasileiro que existe, que arriscou muitas empreitadas estapafúrdias e que transforma definitivamente quem o lê.
Quase ao final da exposição, chama a nossa atenção o seguinte texto de Fernando Pessoa, em destaque numa das paredes da sala escura: “Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia.” Frejat sorri e comenta que é totalmente metamorfose ambulante. Logo pego um pedaço de papel qualquer para anotar o trecho e, enquanto rabisco no breu, disparo a recitar mentalmente o mantra: Toca Raul... Toca Raul... Ao sair do prédio, sinto um zumbido alarmante, tão egoísta como um beijo, rasgo imediatamente o papel e o jogo no lixo; em seguida despeço-me do parceiro e sigo meu caminho, mas com o mantra (e o zumbido) ainda na cabeça.
Abriguei-me da chuva forte que caía no meio da tarde no bar Casual Retrô, na rua do Rosário. O tempo esfriou muito e ouço espirros e tosses por todos os lugares. Tento me desviar deles. Mas como sou hipocondríaco e amigo de Murphy, eles me procuram obstinadamente, seja no metrô, na sala de aula (estou fazendo um curso na UERJ com o apresentador e editor do Sportv Marcelo Barreto e com o sociólogo Ronaldo Helal) ou na bela exposição de Laurie Anderson no CCBB. Menos aqui, ainda bem, no boteco do conhecido chef Santos.
Como ainda não teve início o movimento vespertino do bar, a televisão mostra o jogo do aguado e milionário campeonato inglês apenas para um ou outro garçom. Há nesse momento uma única mesa ocupada, com duas pessoas, no fundo do salão. Peço uma taça de vinho e uma mineral sem gás. Percebo que os dois sujeitos, ostensivamente diferentes, enquanto conversam, bebem da garrafa de cachaça mineira Meia Lua Prata e fumam charuto. Como o bar estava vazio e ninguém disse nada preferi não protestar e sim esticar os ouvidos.
– Quem diria, Fernando, você com essa cara de caretão é muito mais louco do que eu!
– Que nada, meu caro artista! Está aí um quesito em que dificilmente algum outro ser humano irá suplantá-lo. Isto sem falarmos do seu talento musical, naturalmente, que também é fora do comum.
– Porra, você não, véio!... Já chega eu ter que ouvir, do além, o tempo todo... Toca Raul... Toca Raul... Não vem puxar meu saco! Aliás, com qual de vocês estou falando?
– Ora, com qual... Você não está me vendo?
– Sim, estou, mas e daí?... Você é tantos. E não vai me dizer que estou me referindo à sua metamorfose ambulante por causa desta bendita cachaça.
– Gostei da expressão... Aceita mais um gole?
– Claro, meu poeta. Mas não foge do assunto.
– Todos, exceto nunca terem levado porrada na vida, são múltiplos por definição, como eu.
– Ah, já sei! Nem mesmo você sabe qual é a pessoa da vez... ou o Pessoa... de agora. Pode me chamar de louco ou estúpido, mas dessa vez alguém te pegou.
– Quem me pegou, ó pá?
– Eu, Raulzito, seu criado.
– Tu me pegaste, como assim? Preferia que fosse Ofélia, minha antiga namorada.
– Não foge do assunto!
– De jeito nenhum. Só quem puder obter a estupidez ou a loucura pode ser feliz. Buscar, querer, amar... tudo isto diz: perder, chorar, sofrer vez após vez em busca da beleza!
– Ih, rapaz, com todo o respeito... Acho que a tal da Ofélia despirocou sua cabeça. Seus olhos ficaram até vermelhos e mareados. Se você não tem colírio nem óculos escuros, bebe mais uma dose.
– Talvez seja melhor mesmo. Você é uma grande figura.
– Você acha? Ninguém tem o direito de me julgar a não ser eu mesmo. Eu me pertenço e de mim faço o que bem entender.
– Bravo! Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para pessoas como nós, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
– É isso! Grande pessoa és tu... Nada é mais coerente se virar de trás pra frente, tanto fez como tanto faz... Homem, quero mais um brinde, por favor: viva a sociedade alternativa!
– E vivamos nós, já que o próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
Quando tentava entender a última frase, eis que chega meu parceiro Roberto Frejat, com quem havia combinado de almoçar e ver a exposição sobre o Poeta dos heterônimos. Comemos o ótimo Bacalhau Retrô, com batatas portuguesas e molho de mostarda, conhaque e vinho do Porto. De súbito, os dois sujeitos ostensivamente diferentes que bebiam aguardente e fumavam charutos somem do fundo do salão. Aperto os olhos e vejo duas moscas sobrevoarem a travessa vazia de bacalhau. Saciados e sem ter pesado muito no estômago, fomos flutuando com a insistente chuva para a exposição ali perto. Deslumbrante seria até econômico para definir o material que é posto à exibição pelo Centro Cultural dos Correios para nós, simples mortais privilegiados. Eu e meu querido amigo nos emocionamos e aprendemos mais um pouco sobre a biografia do poeta lusitano mais brasileiro que existe, que arriscou muitas empreitadas estapafúrdias e que transforma definitivamente quem o lê.
Quase ao final da exposição, chama a nossa atenção o seguinte texto de Fernando Pessoa, em destaque numa das paredes da sala escura: “Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia.” Frejat sorri e comenta que é totalmente metamorfose ambulante. Logo pego um pedaço de papel qualquer para anotar o trecho e, enquanto rabisco no breu, disparo a recitar mentalmente o mantra: Toca Raul... Toca Raul... Ao sair do prédio, sinto um zumbido alarmante, tão egoísta como um beijo, rasgo imediatamente o papel e o jogo no lixo; em seguida despeço-me do parceiro e sigo meu caminho, mas com o mantra (e o zumbido) ainda na cabeça.
terça-feira, 10 de maio de 2011
Lexotan
no auge do meu sofrimento, o telefone
toca e uma voz de criança pergunta:
aí é do baú da felicidade?
toca e uma voz de criança pergunta:
aí é do baú da felicidade?
quarta-feira, 4 de maio de 2011
O lado mais sombrio do Leblon
DE BAR EM BAR (86) – Bar do Ferreira
Esta semana chega ao fim mais uma edição do Comida di Buteco. É a terceira vez que bato ponto e embarco no prazer de conhecer novos botequins, e revisitar outros velhos conhecidos, via a mineirada boa de copo que comanda esse evento (e que entende do traçado), mas dessa vez procurei ir aos bares mais perto de meu lar, pois ainda me recupero da infantil estripulia de uma fratura por estresse. Fui, entre outros, ao Bar do Ferreira, ali na Dias Ferreira esquina com João Lira, no Leblon. É um bar que há tempos eu queria conhecer. Num bairro onde já morei em vários endereços e situações.
O Bar do Ferreira era um pé-sujo frequentado pela rapaziada. Geralmente você via por lá, em pé na área externa em frente ao bar, algumas das maiores gatas e os maiores malandros e vagabundos do Leblon. Tinha aquele tipo inesquecível de garota, a que possui uma beleza selvagem e é a bad girl da escola. Sempre o observei com bons olhos. Tinha o charme e a sobriedade de se localizar numa rua interna do bairro, com acesso menos óbvio aos forasteiros. Longe do brilho fácil e carismático dos bons (ótimos) bares dos locais mais badalados. (Como Jobi, Bracarense, Clipper, o atual Chico & Alaíde...) Até que, de repente, passou por uma reforma e o Bar do Ferreira virou um pé-limpo. É o que fui conferir.
Na verdade a reforma nem é tão recente assim (2009). Mas isso não importa. Cheguei num sábado à tarde e, de longe, já vi as bandeirolas do festival. Havia um movimento moderado, mas a parte da janela, que dá o intercâmbio do interior com a rua, com cadeiras de ambos os lados, e também as poucas cadeiras na calçada estavam ocupadas. Sentei-me com Sylvia na parte interna e fomos direto ao ponto. Pedimos logo o petisco que era apregoado no cartazinho sobre a mesa. Hot roll de carne-seca. A fome era grande. Para acompanhar, dois chopes.
Esqueci de dizer que o salão a esta altura estava tranquilo. Pai e filha almoçando, um coroa tomando uísque, o garotão vendo o futebol. O espaço não é muito grande, mas é simpático. Um bom balcão, bebidas de qualidade nas prateleiras em volta das paredes. E um razoável trunfo – chope da Brahma e cerveja grande de garrafa no cardápio – para um boteco agradar gregos e troianos (como não sou nem um nem outro, comecei no chope e depois passei para a cerveja). Mas e o petisco? Veio sem graça. A apresentação era ok, a idéia de inspiração na culinária japonesa interessante (desde que você não seja um purista radical, o que não é o meu caso – sou partidário da arte acima de tudo), só que não foi o suficiente. O enroladinho de couve com aipim, recheado de carne-seca realmente não decolou. Mas isso não foi o fim do mundo.
Uma nova olhada no cardápio, e cravamos o bolinho de feijoada, uma criação do Aconchego Carioca, que ganhou fama e também o seu lugar em outros bares e versões. Fiquei curioso. Aliás o cardápio tem um elenco de opções que desperta curiosidade pela mistura de pé-sujo com pé-limpo. Aqui tem Perdidinho do Ferreira (camarão, carne-seca), espetinhos de queijo, frango, misto e filé mignon, coxinha, croquete de carne assada, risole, pasteis de bobó de camarão e de pizza, sanduíches de pernil, linguiça acebolada, salaminho e lombinho, e os pratos na chapa: camarão à paulista, picanha fatiada, calabresa acebolada, carne-seca com aipim e farofa. O bolinho de feijoada veio correto e com o bom senso de não ser uma cópia do original, mas uma variação.
O melhor mesmo veio para o final. A casa oferece de caldos o seguinte: batata baroa com gorgonzola, feijão e bobozinho. Pedimos o bobozinho. Este sim veio saboroso e consistente. Um bom motivo para descer uma Bohemia de saideira e solicitar ao discreto e eficiente garçom la contita. A esta altura está se processando a troca de turnos, o pessoal que veio tomar uma depois da praia já se foi, o velhinho solitário que espia tudo com olhos de menino travesso também e agora são casais e grupos de mulheres que se aboletam no local. Noto que, em geral, não são necessariamente da área. O público, portanto, do Bar do Ferreira cresceu. Mas, com todo o respeito, a pergunta que não quer calar é: e as lindas gatas da pá-virada, as que gostam do lado mais sombrio do Leblon, continuam frequentando? Saúde e até a próxima.
Bar do Ferreira – Rua João Lira 148, Leblon (2540-7014)
Esta semana chega ao fim mais uma edição do Comida di Buteco. É a terceira vez que bato ponto e embarco no prazer de conhecer novos botequins, e revisitar outros velhos conhecidos, via a mineirada boa de copo que comanda esse evento (e que entende do traçado), mas dessa vez procurei ir aos bares mais perto de meu lar, pois ainda me recupero da infantil estripulia de uma fratura por estresse. Fui, entre outros, ao Bar do Ferreira, ali na Dias Ferreira esquina com João Lira, no Leblon. É um bar que há tempos eu queria conhecer. Num bairro onde já morei em vários endereços e situações.
O Bar do Ferreira era um pé-sujo frequentado pela rapaziada. Geralmente você via por lá, em pé na área externa em frente ao bar, algumas das maiores gatas e os maiores malandros e vagabundos do Leblon. Tinha aquele tipo inesquecível de garota, a que possui uma beleza selvagem e é a bad girl da escola. Sempre o observei com bons olhos. Tinha o charme e a sobriedade de se localizar numa rua interna do bairro, com acesso menos óbvio aos forasteiros. Longe do brilho fácil e carismático dos bons (ótimos) bares dos locais mais badalados. (Como Jobi, Bracarense, Clipper, o atual Chico & Alaíde...) Até que, de repente, passou por uma reforma e o Bar do Ferreira virou um pé-limpo. É o que fui conferir.
Na verdade a reforma nem é tão recente assim (2009). Mas isso não importa. Cheguei num sábado à tarde e, de longe, já vi as bandeirolas do festival. Havia um movimento moderado, mas a parte da janela, que dá o intercâmbio do interior com a rua, com cadeiras de ambos os lados, e também as poucas cadeiras na calçada estavam ocupadas. Sentei-me com Sylvia na parte interna e fomos direto ao ponto. Pedimos logo o petisco que era apregoado no cartazinho sobre a mesa. Hot roll de carne-seca. A fome era grande. Para acompanhar, dois chopes.
Esqueci de dizer que o salão a esta altura estava tranquilo. Pai e filha almoçando, um coroa tomando uísque, o garotão vendo o futebol. O espaço não é muito grande, mas é simpático. Um bom balcão, bebidas de qualidade nas prateleiras em volta das paredes. E um razoável trunfo – chope da Brahma e cerveja grande de garrafa no cardápio – para um boteco agradar gregos e troianos (como não sou nem um nem outro, comecei no chope e depois passei para a cerveja). Mas e o petisco? Veio sem graça. A apresentação era ok, a idéia de inspiração na culinária japonesa interessante (desde que você não seja um purista radical, o que não é o meu caso – sou partidário da arte acima de tudo), só que não foi o suficiente. O enroladinho de couve com aipim, recheado de carne-seca realmente não decolou. Mas isso não foi o fim do mundo.
Uma nova olhada no cardápio, e cravamos o bolinho de feijoada, uma criação do Aconchego Carioca, que ganhou fama e também o seu lugar em outros bares e versões. Fiquei curioso. Aliás o cardápio tem um elenco de opções que desperta curiosidade pela mistura de pé-sujo com pé-limpo. Aqui tem Perdidinho do Ferreira (camarão, carne-seca), espetinhos de queijo, frango, misto e filé mignon, coxinha, croquete de carne assada, risole, pasteis de bobó de camarão e de pizza, sanduíches de pernil, linguiça acebolada, salaminho e lombinho, e os pratos na chapa: camarão à paulista, picanha fatiada, calabresa acebolada, carne-seca com aipim e farofa. O bolinho de feijoada veio correto e com o bom senso de não ser uma cópia do original, mas uma variação.
O melhor mesmo veio para o final. A casa oferece de caldos o seguinte: batata baroa com gorgonzola, feijão e bobozinho. Pedimos o bobozinho. Este sim veio saboroso e consistente. Um bom motivo para descer uma Bohemia de saideira e solicitar ao discreto e eficiente garçom la contita. A esta altura está se processando a troca de turnos, o pessoal que veio tomar uma depois da praia já se foi, o velhinho solitário que espia tudo com olhos de menino travesso também e agora são casais e grupos de mulheres que se aboletam no local. Noto que, em geral, não são necessariamente da área. O público, portanto, do Bar do Ferreira cresceu. Mas, com todo o respeito, a pergunta que não quer calar é: e as lindas gatas da pá-virada, as que gostam do lado mais sombrio do Leblon, continuam frequentando? Saúde e até a próxima.
Bar do Ferreira – Rua João Lira 148, Leblon (2540-7014)
terça-feira, 26 de abril de 2011
A Suíça do Brasil
(A SOMBRA DO FAQUIR 15)
No mundo de hoje do vôlei masculino, alguém com 1,80 m como eu (que fui nada mais do que um razoável levantador em peladas do Piraquê), é um anão. (E pensar que um nome fundamental para o estágio atual do voleibol brasileiro, o ex-jogador Bernard, um dos melhores do mundo em sua época, tinha – tem – 1,87 m). O fato impiedoso é auto-explicável ao se assistir a um jogo de Liga Mundial ou de Olimpíadas, por exemplo, entre Rússia e Sérvia, ou Cuba e Holanda. Só tem gigante altamente vitaminado. Até os levantadores já possuem bem mais de dois metros.
Quando o Brasil começou a se destacar no cenário internacional, nos anos 80, a partir da geração que contava com Moreno, Bebeto e Luís Eymard para a seguinte com Fernandão (que na verdade veio da anterior), Bernard, Bernardinho, Montanaro, Amauri, Xandó, Badá e Renan, um atacante de, digamos, 1,95 m era considerado bem alto. Xandó, com um centímetro a menos, era um que estraçalhava qualquer defesa e abria um buraco na quadra adversária. Isso com a cara e a atitude de quem estava ouvindo rock´n´roll. Renan, com apenas 1,90 m, era um supercraque que fazia tudo bem – do ataque rápido e certeiro (um dos primeiros a bater a bola chutada na ponta) à recepção de líbero e até o levantamento de quem sabe. Além de ter sido objeto de desejo da platéia feminina – tão logo o esporte começou a lotar ginásios grandes como o Maracanãzinho e o Mineirinho.
Por falar em levantamento, esse quesito merece o destaque de um voo solo, já que solitário (taticamente) é o levantador, pois é ele quem pensa o jogo. O Brasil sempre se notabilizou por excelentes levantadores. Vitinho, lenda do Fluminense, e Bebeto de Freitas são algumas referências até se chegar ao capitão William da geração de prata. William Carvalho da Silva era um maestro, muito habilidoso, mestre da finta. Foi muito bem substituído na seleção por Maurício, o grande Maurício campeão olímpico (juntamente com Carlão, Tande, Giovane, Marcelo Negrão e outros). Depois veio o Ricardinho, o melhor de todos. Ricardinho, aos 31 anos, ainda desfila em quadra toda a sua genialidade, porém não mais na seleção – dizem que por problemas de ego. Pode ser. O que sei é que ele praticamente inventou um outro jogo aos distribuir as bolas com extrema velocidade e em variadas posições, para que atacantes bem mais baixos que os bloqueadores pudessem ultrapassá-los com frequência. Tanto que o Brasil passou a dominar o esporte nos anos 2000.
O que poderia ser um problema – a ausência de Ricardinho na seleção brasileira – acabou se revelando uma ótima solução para novos talentos terem seu espaço em nível internacional. E hoje há uma quantidade absurda de levantadores excepcionais atuando nos times do nosso campeonato mais importante e difícil, muito valorizado pelo repatriamento de vários craques. Só na última Superliga (2010 / 2011), eram pelo menos cinco levantadores brasileiros que podem ser chamados de brilhantes: Sandro (o campeão), William (o vice, que jogou na Argentina, conhecido por lá como o Mago), Marlon, Bruninho e o próprio Ricardinho. E a altura dos jogadores desta posição também tem aumentado muito. Já possuímos até levantador que ultrapassou a barreira dos 2 metros, como o jovem Fidele, de 2,08 m – uma das apostas do técnico Bernardinho para a seleção do futuro.
Quanto aos atacantes, nem é preciso frisar que a altura e a força hoje também são patrimônio nacional. De tal modo que uma das recentes revelações, o oposto Wallace, que jogou a última Superliga pelo Cruzeiro, o nosso atacante cubano, pela impulsão e vitalidade, é considerado baixo: tem somente 1,98 m. Isto porque contamos cada vez mais com atletas que são arranha-céus como Leandro Vissotto, com 2,12, Lucão, com 2,09, Éder, com 2,05 e Sidão, com 2,03. Mas o voleibol, apesar de toda a evolução física, ainda é um esporte em que a habilidade e o talento são preponderantes. Não é à-toa que o melhor jogador do mundo é brasileiro e olha para cima ao falar com estes atletas citados. É o ponteiro-passador Murilo Endres, com 1,92 m – como foi também o caso do campeoníssimo Giba (ainda em atividade e jogando bem), da mesma altura, e antes, de certa forma, também de Nalbert, um pouco mais alto, com 1,96 m. Todos seguindo a trilha de Renan.
Mas uma coisa é intrigante nesta história toda de sucesso e superação: o que faz com que o vôlei tenha tanta gente altíssima num país em que a grande maioria do povo (além da estatura mediana) não tem as condições elementares de saúde? E mais: como o vôlei conseguiu atingir um padrão de excelência que tem se mantido por mais de uma década inclusive nas categorias de base? – situação hegemônica que nem sempre ocorre no futebol, o nosso esporte número um. Tudo pode ser resumido em duas palavras: planejamento e organização. O Brasil do vôlei é a nossa Suíça. Por acaso ou não, um dos precursores desta jornada vitoriosa foi o jogador Jean Luc Rosat, o Suíço, atleta do Botafogo e da seleção brasileira, um dos principais jogadores do vôlei carioca, dotado de recursos extraordinários, que atuava como atacante e até como levantador.
Por fim, cabe ressaltar ainda que o planeta do vôlei é um reduto de amizade e ética. Um belo exemplo foi oferecido esses dias pelo maior jogador do mundo, Murilo. Eleito o melhor em quadra na final da Superliga, deu espontaneamente o seu prêmio para Víni, que realmente havia se destacado mais na partida, o meio de rede que era o patinho feio do time do Sesi, o único titular não convocado para a seleção brasileira. Lembro-me também de um amigo de colégio, Guilherme Rezende. Guilherme vem de uma ilustre família de jogadores de voleibol, quase todos levantadores: Rodrigo, Bernardinho e Dudu, seus irmãos, e agora o Bruninho, o sobrinho. Bernardinho transformou-se no melhor técnico de todos os tempos. Bruninho é a evolução da espécie como jogador. Guilherme, embora tenha até participado de seleções de base, não seguiu adiante com o esporte, mas é um advogado bem-sucedido e continua amigo de seus amigos dos velhos tempos. O Brasil de todos nós ainda está longe de ser o Brasil do vôlei. Muito longe. Mas o que importa é que esta ilha de excelência existe – e que bem pode nos servir de modelo para muitas outras áreas.
No mundo de hoje do vôlei masculino, alguém com 1,80 m como eu (que fui nada mais do que um razoável levantador em peladas do Piraquê), é um anão. (E pensar que um nome fundamental para o estágio atual do voleibol brasileiro, o ex-jogador Bernard, um dos melhores do mundo em sua época, tinha – tem – 1,87 m). O fato impiedoso é auto-explicável ao se assistir a um jogo de Liga Mundial ou de Olimpíadas, por exemplo, entre Rússia e Sérvia, ou Cuba e Holanda. Só tem gigante altamente vitaminado. Até os levantadores já possuem bem mais de dois metros.
Quando o Brasil começou a se destacar no cenário internacional, nos anos 80, a partir da geração que contava com Moreno, Bebeto e Luís Eymard para a seguinte com Fernandão (que na verdade veio da anterior), Bernard, Bernardinho, Montanaro, Amauri, Xandó, Badá e Renan, um atacante de, digamos, 1,95 m era considerado bem alto. Xandó, com um centímetro a menos, era um que estraçalhava qualquer defesa e abria um buraco na quadra adversária. Isso com a cara e a atitude de quem estava ouvindo rock´n´roll. Renan, com apenas 1,90 m, era um supercraque que fazia tudo bem – do ataque rápido e certeiro (um dos primeiros a bater a bola chutada na ponta) à recepção de líbero e até o levantamento de quem sabe. Além de ter sido objeto de desejo da platéia feminina – tão logo o esporte começou a lotar ginásios grandes como o Maracanãzinho e o Mineirinho.
Por falar em levantamento, esse quesito merece o destaque de um voo solo, já que solitário (taticamente) é o levantador, pois é ele quem pensa o jogo. O Brasil sempre se notabilizou por excelentes levantadores. Vitinho, lenda do Fluminense, e Bebeto de Freitas são algumas referências até se chegar ao capitão William da geração de prata. William Carvalho da Silva era um maestro, muito habilidoso, mestre da finta. Foi muito bem substituído na seleção por Maurício, o grande Maurício campeão olímpico (juntamente com Carlão, Tande, Giovane, Marcelo Negrão e outros). Depois veio o Ricardinho, o melhor de todos. Ricardinho, aos 31 anos, ainda desfila em quadra toda a sua genialidade, porém não mais na seleção – dizem que por problemas de ego. Pode ser. O que sei é que ele praticamente inventou um outro jogo aos distribuir as bolas com extrema velocidade e em variadas posições, para que atacantes bem mais baixos que os bloqueadores pudessem ultrapassá-los com frequência. Tanto que o Brasil passou a dominar o esporte nos anos 2000.
O que poderia ser um problema – a ausência de Ricardinho na seleção brasileira – acabou se revelando uma ótima solução para novos talentos terem seu espaço em nível internacional. E hoje há uma quantidade absurda de levantadores excepcionais atuando nos times do nosso campeonato mais importante e difícil, muito valorizado pelo repatriamento de vários craques. Só na última Superliga (2010 / 2011), eram pelo menos cinco levantadores brasileiros que podem ser chamados de brilhantes: Sandro (o campeão), William (o vice, que jogou na Argentina, conhecido por lá como o Mago), Marlon, Bruninho e o próprio Ricardinho. E a altura dos jogadores desta posição também tem aumentado muito. Já possuímos até levantador que ultrapassou a barreira dos 2 metros, como o jovem Fidele, de 2,08 m – uma das apostas do técnico Bernardinho para a seleção do futuro.
Quanto aos atacantes, nem é preciso frisar que a altura e a força hoje também são patrimônio nacional. De tal modo que uma das recentes revelações, o oposto Wallace, que jogou a última Superliga pelo Cruzeiro, o nosso atacante cubano, pela impulsão e vitalidade, é considerado baixo: tem somente 1,98 m. Isto porque contamos cada vez mais com atletas que são arranha-céus como Leandro Vissotto, com 2,12, Lucão, com 2,09, Éder, com 2,05 e Sidão, com 2,03. Mas o voleibol, apesar de toda a evolução física, ainda é um esporte em que a habilidade e o talento são preponderantes. Não é à-toa que o melhor jogador do mundo é brasileiro e olha para cima ao falar com estes atletas citados. É o ponteiro-passador Murilo Endres, com 1,92 m – como foi também o caso do campeoníssimo Giba (ainda em atividade e jogando bem), da mesma altura, e antes, de certa forma, também de Nalbert, um pouco mais alto, com 1,96 m. Todos seguindo a trilha de Renan.
Mas uma coisa é intrigante nesta história toda de sucesso e superação: o que faz com que o vôlei tenha tanta gente altíssima num país em que a grande maioria do povo (além da estatura mediana) não tem as condições elementares de saúde? E mais: como o vôlei conseguiu atingir um padrão de excelência que tem se mantido por mais de uma década inclusive nas categorias de base? – situação hegemônica que nem sempre ocorre no futebol, o nosso esporte número um. Tudo pode ser resumido em duas palavras: planejamento e organização. O Brasil do vôlei é a nossa Suíça. Por acaso ou não, um dos precursores desta jornada vitoriosa foi o jogador Jean Luc Rosat, o Suíço, atleta do Botafogo e da seleção brasileira, um dos principais jogadores do vôlei carioca, dotado de recursos extraordinários, que atuava como atacante e até como levantador.
Por fim, cabe ressaltar ainda que o planeta do vôlei é um reduto de amizade e ética. Um belo exemplo foi oferecido esses dias pelo maior jogador do mundo, Murilo. Eleito o melhor em quadra na final da Superliga, deu espontaneamente o seu prêmio para Víni, que realmente havia se destacado mais na partida, o meio de rede que era o patinho feio do time do Sesi, o único titular não convocado para a seleção brasileira. Lembro-me também de um amigo de colégio, Guilherme Rezende. Guilherme vem de uma ilustre família de jogadores de voleibol, quase todos levantadores: Rodrigo, Bernardinho e Dudu, seus irmãos, e agora o Bruninho, o sobrinho. Bernardinho transformou-se no melhor técnico de todos os tempos. Bruninho é a evolução da espécie como jogador. Guilherme, embora tenha até participado de seleções de base, não seguiu adiante com o esporte, mas é um advogado bem-sucedido e continua amigo de seus amigos dos velhos tempos. O Brasil de todos nós ainda está longe de ser o Brasil do vôlei. Muito longe. Mas o que importa é que esta ilha de excelência existe – e que bem pode nos servir de modelo para muitas outras áreas.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
3 Dias de Havaí
Depois da crise,
o Havaí.
Depois do baque, do colapso
de toda a merda
Da expectativa realista de vir a ser
simplesmente consagrado
como um cara legal, tranquilo
O nada, a terra arrasada
o passar de perna da realidade
À margem do complô dos incomodados
do olho grande
do pacto camuflado dos gente fina
(Tudo isso é besteira.)
Depois da crise,
o Havaí
Pelo menos por três dias.
O Havaí é aqui, no Bairro Peixoto
É o Arpoador, é o Posto Seis, é o Leme
Contra a mente estressada
e o fantasma de voltar a trabalhar
no que me assassina, no que me faz mal.
Normal.
Sou um cara como qualquer outro
que acorda às sete e reza pra chegar a sexta
Um bom filho da puta anormal, eu sei
Três dias de Havaí
depois da crise.
É o mínimo que eu preciso
para realizar as mudanças
que a vida quer pra seguir adiante
Três dias de Havaí
Andar na areia, mergulhar no mar
às três da tarde
Nenhum compromisso de horário
Três dias de Havaí
Apesar da crise política
Do menino me pedindo 10 centavos
Da pressão da sociedade
Da onda negra
Da mulher do lado falando dos problemas familiares
Três dias de Havaí
Isso é tudo o que eu preciso
Agora.
- Acorda, vagabundo!
Sou vagabundo não
Quero só fumar meu negocinho
Ir à praia e pensar
E pensar
(e pensar)
E fazer o que sei fazer
Sem pretensão, sem arrogância
Com prazer e sofrendo muito
Não há outra escolha
Três dias de Havaí
E uma cerveja
É tudo o que eu preciso.
o Havaí.
Depois do baque, do colapso
de toda a merda
Da expectativa realista de vir a ser
simplesmente consagrado
como um cara legal, tranquilo
O nada, a terra arrasada
o passar de perna da realidade
À margem do complô dos incomodados
do olho grande
do pacto camuflado dos gente fina
(Tudo isso é besteira.)
Depois da crise,
o Havaí
Pelo menos por três dias.
O Havaí é aqui, no Bairro Peixoto
É o Arpoador, é o Posto Seis, é o Leme
Contra a mente estressada
e o fantasma de voltar a trabalhar
no que me assassina, no que me faz mal.
Normal.
Sou um cara como qualquer outro
que acorda às sete e reza pra chegar a sexta
Um bom filho da puta anormal, eu sei
Três dias de Havaí
depois da crise.
É o mínimo que eu preciso
para realizar as mudanças
que a vida quer pra seguir adiante
Três dias de Havaí
Andar na areia, mergulhar no mar
às três da tarde
Nenhum compromisso de horário
Três dias de Havaí
Apesar da crise política
Do menino me pedindo 10 centavos
Da pressão da sociedade
Da onda negra
Da mulher do lado falando dos problemas familiares
Três dias de Havaí
Isso é tudo o que eu preciso
Agora.
- Acorda, vagabundo!
Sou vagabundo não
Quero só fumar meu negocinho
Ir à praia e pensar
E pensar
(e pensar)
E fazer o que sei fazer
Sem pretensão, sem arrogância
Com prazer e sofrendo muito
Não há outra escolha
Três dias de Havaí
E uma cerveja
É tudo o que eu preciso.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Quem é você?
DE BAR EM BAR (85) – Delirium Café
Esta é a primeira incursão ao boteco depois do pequeno contratempo que tive com um tal osso chamado tíbia. Ficou estressado, coitado. Ainda não estou ok, mas volto a campo mesmo assim, indo e voltando de táxi, de porta a porta, pois praticar é fundamental sob pena de perder a forma etílica. Aproveito então a oportunidade para retornar, literalmente, com alguma dose de sofisticação. Por isso dessa vez fui ao Delirium Café, primeira filial brasileira do bar de Bruxelas que tem o maior cardápio de cervejas do mundo, famoso pelos 2004 rótulos atestados pelo Guiness. Aqui não são tantos, mas de qualquer forma a variedade impressiona. É um paraíso.
Cheguei à simpática e singela casa de dois andares na Barão da Torre por volta de 20h. Não sabia ao certo o número do bar porém à medida que se passa da esquina com a Farme de Amoedo a fachada surge inconfundível, em seu tom de azul claro e seus elefantinhos cor-de-rosa. Não tem erro. Lá dentro, a festa para os olhos é ainda maior: mal se entra na casa, a despeito da bela decoração com mais elefantinhos e com cartazes e adereços relacionados à bebida e do balcão inteirinho de madeira, é impossível não ser atraído logo para a prateleira que ocupa uma parede toda, com garrafas dos mais variados estilos, tamanhos e procedências. É, de fato, um paraíso.
Sento-me inicialmente numa das mesinhas altas e redondas que ficam em frente ao balcão, próximo da entrada. Nesse momento, há apenas uma mesa ocupada, no fundo do salão. Em algumas das mesas perto da imponente prateleira, funcionários retiram e limpam algumas garrafas de caixas que provavelmente tinham acabado de chegar. Peço um chope da marca da casa, a Delirium Tremens, mas me informam que o barril também tinha chegado havia pouco e não seria possível colocá-lo para uso naquela noite. Bem... sendo assim, opto pelo chope da Therezópolis Gold, que não decepciona. Muito pelo contrário. Tomo dois antes de passar para o salão propriamente, tão logo os rapazes terminem o trabalho que a rigor não deveria estar sendo feito com clientes na área. O paraíso também tem seus problemas.
Bem acomodado estrategicamente ao lado do centro da prateleira (para esta, sim, caberiam os gritinhos histéricos de um bando de homens num certo comercial da Heineken – embora até goste da marca), começo a estudar o cardápio. E a questão shakespeareana aqui não é o que pedir, mas o que dá para pedir. Gosto muito, por exemplo, da cerveja belga Duvel e adoraria pedir a garrafa grande, de 600 ml, mas custa a bagatela de 69 reais. Achou caro? Pois este é na verdade quase um preço médio das garrafas grandes importadas. Algumas custam bem mais do que isso. Quer também um exemplo? Fiquemos no bíblico trio, também belga, das cervejas Judas, Lúcifer e Deus. Não estou brincando, o papo é sério... Quanto vale Deus? Essa é sem dúvida uma boa questão. Vale muito, caro leitor, independentemente da sua religiosidade. Na casa dos três dígitos.
Então entre belgas, americanas, alemãs, tchecas, inglesas, espanholas, francesas e muito mais, escolho a própria Delirium Tremens Ale, de 300 ml. Não poderia sair daqui sem provar a marca da casa. Para acompanhar, peço o creme de cerveja com queijo e os croquetes de carne e gorgonzola. Outros petiscos do cardápio: mexilhões, pastéis de mexilhões e de camarão, salsichas, bolinho de aipim com carne seca, linguiça com provolone, filé aperitivo ao molho de cerveja brown, croquetes de queijo St. Paulin, sanduíches, presunto cru com mussarela de búfula e rúcula e os tradicionais mexilhões com fritas. Entre os pratos, bife à milanesa com salada de batata, baby beef ao molho de cerveja com fritas e filé a Trois Poivre com salada verde. Os petiscos vieram excelentes, e a cerveja Delirium, de teor alcoólico de 8,5 %, o mesmo de minha preferida Duvel, é também deliciosamente inebriante.
A esta altura, a mesa ocupada do fundo do bar, que tem três colegas de trabalho, relaxados, rindo, já se prepara para ir embora. Mas ainda ouço um deles, o gordinho da cara vermelha, que antes falava alto que “após a implantação do sistema o rodízio de tarefas se tornou perfeito...”, agora depois de várias saideiras dizia que “só errei com uma pessoa...”. E saem ruidosamente. Mas não fico sozinho por muito tempo. Logo aparece um jovem casal e diante do bar praticamente vazio eles sentam-se na mesa exatamente ao meu lado. Como admitiu depois o gordinho, nem tudo é perfeito.
Estudo novamente o cardápio para uma última pedida. Assim como experimentar a Delirium para mim era quase uma necessidade, sair de um bar belga sem provar os mexilhões com batatas fritas não existe. Peço portanto a combinação que é especialidade da casa e vem numa caçarola com maionese fresca. Para acompanhar, sigo a sugestão do ótimo garçom, que realmente entende do seu negócio, e tomo a brasileira artesanal Dado Bier Belgian Ale. Os mexilhões vieram macios, saborosos e inacreditavelmente robustos. As batatas cumpriram seu papel coadjuvante com a crocância adequada. E a cerveja pedida, também com alto teor alcoólico, se fez valer a pena, principalmente no quesito custo/benefício.
A vontade é de continuar, pedir outra dica ao preparado garçom, e na sequência acenar alegremente para o elefantinho, na parede, que está rindo para mim. Não precisaria nem disfarçar para o casal ao lado, pois eles estão aos beijos efusivos e nem sabem que o mundo não parou. Mas acontece que se o paraíso existe, ele também é caro. E para o meu bolso já deu. Pago a salgada conta e antes de sair vou ao banheiro. Na volta ouço na passagem o simpático elefantinho me perguntar: “Quem é você?” Mas isso eu já não tenho certeza. Saúde e até a próxima.
Delirium Café – Rua Barão da Torre, 183, Ipanema (2502-0029)
Esta é a primeira incursão ao boteco depois do pequeno contratempo que tive com um tal osso chamado tíbia. Ficou estressado, coitado. Ainda não estou ok, mas volto a campo mesmo assim, indo e voltando de táxi, de porta a porta, pois praticar é fundamental sob pena de perder a forma etílica. Aproveito então a oportunidade para retornar, literalmente, com alguma dose de sofisticação. Por isso dessa vez fui ao Delirium Café, primeira filial brasileira do bar de Bruxelas que tem o maior cardápio de cervejas do mundo, famoso pelos 2004 rótulos atestados pelo Guiness. Aqui não são tantos, mas de qualquer forma a variedade impressiona. É um paraíso.
Cheguei à simpática e singela casa de dois andares na Barão da Torre por volta de 20h. Não sabia ao certo o número do bar porém à medida que se passa da esquina com a Farme de Amoedo a fachada surge inconfundível, em seu tom de azul claro e seus elefantinhos cor-de-rosa. Não tem erro. Lá dentro, a festa para os olhos é ainda maior: mal se entra na casa, a despeito da bela decoração com mais elefantinhos e com cartazes e adereços relacionados à bebida e do balcão inteirinho de madeira, é impossível não ser atraído logo para a prateleira que ocupa uma parede toda, com garrafas dos mais variados estilos, tamanhos e procedências. É, de fato, um paraíso.
Sento-me inicialmente numa das mesinhas altas e redondas que ficam em frente ao balcão, próximo da entrada. Nesse momento, há apenas uma mesa ocupada, no fundo do salão. Em algumas das mesas perto da imponente prateleira, funcionários retiram e limpam algumas garrafas de caixas que provavelmente tinham acabado de chegar. Peço um chope da marca da casa, a Delirium Tremens, mas me informam que o barril também tinha chegado havia pouco e não seria possível colocá-lo para uso naquela noite. Bem... sendo assim, opto pelo chope da Therezópolis Gold, que não decepciona. Muito pelo contrário. Tomo dois antes de passar para o salão propriamente, tão logo os rapazes terminem o trabalho que a rigor não deveria estar sendo feito com clientes na área. O paraíso também tem seus problemas.
Bem acomodado estrategicamente ao lado do centro da prateleira (para esta, sim, caberiam os gritinhos histéricos de um bando de homens num certo comercial da Heineken – embora até goste da marca), começo a estudar o cardápio. E a questão shakespeareana aqui não é o que pedir, mas o que dá para pedir. Gosto muito, por exemplo, da cerveja belga Duvel e adoraria pedir a garrafa grande, de 600 ml, mas custa a bagatela de 69 reais. Achou caro? Pois este é na verdade quase um preço médio das garrafas grandes importadas. Algumas custam bem mais do que isso. Quer também um exemplo? Fiquemos no bíblico trio, também belga, das cervejas Judas, Lúcifer e Deus. Não estou brincando, o papo é sério... Quanto vale Deus? Essa é sem dúvida uma boa questão. Vale muito, caro leitor, independentemente da sua religiosidade. Na casa dos três dígitos.
Então entre belgas, americanas, alemãs, tchecas, inglesas, espanholas, francesas e muito mais, escolho a própria Delirium Tremens Ale, de 300 ml. Não poderia sair daqui sem provar a marca da casa. Para acompanhar, peço o creme de cerveja com queijo e os croquetes de carne e gorgonzola. Outros petiscos do cardápio: mexilhões, pastéis de mexilhões e de camarão, salsichas, bolinho de aipim com carne seca, linguiça com provolone, filé aperitivo ao molho de cerveja brown, croquetes de queijo St. Paulin, sanduíches, presunto cru com mussarela de búfula e rúcula e os tradicionais mexilhões com fritas. Entre os pratos, bife à milanesa com salada de batata, baby beef ao molho de cerveja com fritas e filé a Trois Poivre com salada verde. Os petiscos vieram excelentes, e a cerveja Delirium, de teor alcoólico de 8,5 %, o mesmo de minha preferida Duvel, é também deliciosamente inebriante.
A esta altura, a mesa ocupada do fundo do bar, que tem três colegas de trabalho, relaxados, rindo, já se prepara para ir embora. Mas ainda ouço um deles, o gordinho da cara vermelha, que antes falava alto que “após a implantação do sistema o rodízio de tarefas se tornou perfeito...”, agora depois de várias saideiras dizia que “só errei com uma pessoa...”. E saem ruidosamente. Mas não fico sozinho por muito tempo. Logo aparece um jovem casal e diante do bar praticamente vazio eles sentam-se na mesa exatamente ao meu lado. Como admitiu depois o gordinho, nem tudo é perfeito.
Estudo novamente o cardápio para uma última pedida. Assim como experimentar a Delirium para mim era quase uma necessidade, sair de um bar belga sem provar os mexilhões com batatas fritas não existe. Peço portanto a combinação que é especialidade da casa e vem numa caçarola com maionese fresca. Para acompanhar, sigo a sugestão do ótimo garçom, que realmente entende do seu negócio, e tomo a brasileira artesanal Dado Bier Belgian Ale. Os mexilhões vieram macios, saborosos e inacreditavelmente robustos. As batatas cumpriram seu papel coadjuvante com a crocância adequada. E a cerveja pedida, também com alto teor alcoólico, se fez valer a pena, principalmente no quesito custo/benefício.
A vontade é de continuar, pedir outra dica ao preparado garçom, e na sequência acenar alegremente para o elefantinho, na parede, que está rindo para mim. Não precisaria nem disfarçar para o casal ao lado, pois eles estão aos beijos efusivos e nem sabem que o mundo não parou. Mas acontece que se o paraíso existe, ele também é caro. E para o meu bolso já deu. Pago a salgada conta e antes de sair vou ao banheiro. Na volta ouço na passagem o simpático elefantinho me perguntar: “Quem é você?” Mas isso eu já não tenho certeza. Saúde e até a próxima.
Delirium Café – Rua Barão da Torre, 183, Ipanema (2502-0029)
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Profeta Gentileza de segunda mão
p o e s i a
(algum desvario
amor às palavras
sensibilidade amor
às palavras e trabalho
árduo) gera poesia
(algum desvario
amor às palavras
sensibilidade amor
às palavras e trabalho
árduo) gera poesia
quinta-feira, 24 de março de 2011
Uma ilha de edição...
“A memória acredita antes que o conhecimento recorde. Acredita mais tempo do que recorda, mais do que o conhecimento pode imaginar. Conhece, recorda, acredita num corredor metido num grande edifício truncado, frio e cheio de ecos, construído de tijolo vermelho, escuro, tisnado por mais chaminés do que as suas próprias, situado entre fábricas fumarentas, num recinto sem ervas e coberto de cinza, rodeado como se fosse uma penitenciária ou um jardim zoológico, por uma cerca de ferro e arame de três metros de altura, onde, em ondas intermitentes, trajando uniformes azuis do mesmo pano, num pipilar de pardais os órfãos entram e saem; entram na recordação e saem, mas no conhecimento permanecem tão constantes como as paredes lúgubres, as lúgubres janelas onde, sobre a fuligem das chaminés, cujo número aumenta todos os anos, a chuva traça riscos que parecem lágrimas negras.” (William Faulkner, Luz em agosto)
sexta-feira, 18 de março de 2011
O Embaixador da Janela e Vovô Garoto
A SOMBRA DO FAQUIR 14
Para quem não sabe o Bairro Peixoto tem um embaixador. Ele costuma dar expediente em sua janela na entrada do pequeno oásis de Copacabana. Por lá passa todo santo dia uma multidão de pessoas que trabalha ali por perto, moradores, vendedores ambulantes, curiosos, desocupados. Porém não é raro ver alguém em pé na calçada olhando para cima e trocando sem pressa uma prosa com ele. Quando me mudei para cá logo percebi que se tratava de alguém que tinha o dom da conversa e de entreter interlocutores dos mais variados. Não imaginei na ocasião que eu também seria um desses.
O nosso embaixador não usa fraque nem pincenê. Provavelmente não domina outras línguas, e nem mesmo o idioma nacional com a perfeita fluência de um diplomata. Seu uniforme é um calção, sua fala é a das ruas. O embaixador boa praça é um autêntico vovô garoto. Surfista, alto, bonito, eternamente queimado de sol. (Poderia tranquilamente ter sido um famoso modelo internacional, mas sua filosofia zen não permitiria). Tem mais de 50 anos, mas aparenta sem nenhum favor 15 a menos (seu nível de estresse é abaixo de zero). Até onde se sabe tem um trabalho pra lá de vago de corretor de vendas. Ele próprio faz o seu horário e constrói sua agenda de acordo com o tamanho do mar. Porque se tiver dando onda ele certamente será encontrado na praia da Barra, do Recreio, da Macumba, da Prainha, ou mesmo do Leme. Jamais num escritório. Jamais.
Apesar de bastante cobiçado pelas atiradas neobalzaquianas de 40 e tantos anos da área e de outras regiões e idades também, ele tem namorada fixa, naturalmente uma bela mulher, bem mais jovem, evidentemente também surfista, e ainda skatista e dona de dois cachorros. Seu filho, em torno dos 20, mora com a ex-mulher e parece seu irmão mais novo. (Até poucos meses atrás o embaixador morava com a mãe, como autêntico vovô garoto; no entanto recentemente ela subiu de vez para o andar de cima). Há quem diga que o vovô viu a onda e também arranha alguma coisa no violão. Pode ser.
Outro dia, passava eu pela sua esquina e ele me cumprimenta: “Aí, tô gostando de ver!” É que, devido ao seu posto privilegiado, ele foi uma das principais testemunhas da minha virada rumo a uma vida mais saudável neste início de ano. Como uma espécie de retorno a uma época perdida no tempo em que fazia esporte com regularidade (embora não pareça, já joguei vôlei razoavelmente e corri até maratona), recomecei a acordar cedo e ir diariamente dar um mergulho no Arpoador. Com estes hábitos vieram também as corridinhas intercaladas com a caminhada e os exercícios a beira-mar. Voltei a me sentir muito bem disposto e até menos insatisfeito com o espelho. Como se fosse um autêntico vovô garoto.
Mas nesse dia em que o embaixador me cumprimentou, eu não estava nada bem. Depois de uma viagem de carnaval em que fiquei sentindo dores no joelho e até mancando, saí de casa para fazer uma ressonância magnética. O autêntico vovô garoto desdenhou: “Isso não é nada. Bota gelo que passa. Gelo é um remédio pra tudo. Às vezes estou aqui entrevado, doendo tudo abaixo do pescoço e boto gelo; às vezes até esqueço e durmo. No dia seguinte, faço manobras na prancha que nem eu acredito. Bota gelo, Mauro, vai por mim!”
Não tive nem coragem de dizer ao embaixador que me tornei tão alérgico, mas tão alérgico, que certas coisas me trazem problemas constrangedores. Gelo é uma delas. Beber gelado um suco ou um mate mesmo no verão se tornou proibitivo. Sorvete então nem pensar. Garganta muito sensível. (Mas paradoxalmente com álcool não; o chope, a cerveja ou a caipirinha descem bem, pois o álcool dá uma anestesiada, apesar da Sylvia não acreditar em nada disso e achar até hoje, depois de dez anos, que é uma desculpa absurdamente esfarrapada. Só eu que sei.). E esta restrição nos últimos tempos se estendeu até a passar o gelo numa contusão, digamos, no tornozelo. Depois de algumas horas, é dor de garganta na certa. Portanto, agradeci a dica e segui no meu andar capenga em direção ao laboratório para fazer o exame.
Três dias depois, o resultado inapelável: tive uma fratura na tíbia por estresse. Forcei muito a barra. Fui com muita sede ao pote. Além de não ter deixado um dia sequer para descanso desde que comecei a nova fase, não prestei a devida atenção aos evidentes sinais de desgaste excessivo do corpo. Quis recuperar a forma perdida com a ansiedade de um vovô garoto fake. E deu no que deu. Então aqui estou agora, de molho e olhando inconformado pro calendário, num repouso absoluto para que a fratura incompleta não vire total, com joelheira de neoprene e bengala de apoio. Mas, se tudo der certo, daqui a um mês e meio espero de novo poder cumprimentar cedinho o embaixador na janela.
Para quem não sabe o Bairro Peixoto tem um embaixador. Ele costuma dar expediente em sua janela na entrada do pequeno oásis de Copacabana. Por lá passa todo santo dia uma multidão de pessoas que trabalha ali por perto, moradores, vendedores ambulantes, curiosos, desocupados. Porém não é raro ver alguém em pé na calçada olhando para cima e trocando sem pressa uma prosa com ele. Quando me mudei para cá logo percebi que se tratava de alguém que tinha o dom da conversa e de entreter interlocutores dos mais variados. Não imaginei na ocasião que eu também seria um desses.
O nosso embaixador não usa fraque nem pincenê. Provavelmente não domina outras línguas, e nem mesmo o idioma nacional com a perfeita fluência de um diplomata. Seu uniforme é um calção, sua fala é a das ruas. O embaixador boa praça é um autêntico vovô garoto. Surfista, alto, bonito, eternamente queimado de sol. (Poderia tranquilamente ter sido um famoso modelo internacional, mas sua filosofia zen não permitiria). Tem mais de 50 anos, mas aparenta sem nenhum favor 15 a menos (seu nível de estresse é abaixo de zero). Até onde se sabe tem um trabalho pra lá de vago de corretor de vendas. Ele próprio faz o seu horário e constrói sua agenda de acordo com o tamanho do mar. Porque se tiver dando onda ele certamente será encontrado na praia da Barra, do Recreio, da Macumba, da Prainha, ou mesmo do Leme. Jamais num escritório. Jamais.
Apesar de bastante cobiçado pelas atiradas neobalzaquianas de 40 e tantos anos da área e de outras regiões e idades também, ele tem namorada fixa, naturalmente uma bela mulher, bem mais jovem, evidentemente também surfista, e ainda skatista e dona de dois cachorros. Seu filho, em torno dos 20, mora com a ex-mulher e parece seu irmão mais novo. (Até poucos meses atrás o embaixador morava com a mãe, como autêntico vovô garoto; no entanto recentemente ela subiu de vez para o andar de cima). Há quem diga que o vovô viu a onda e também arranha alguma coisa no violão. Pode ser.
Outro dia, passava eu pela sua esquina e ele me cumprimenta: “Aí, tô gostando de ver!” É que, devido ao seu posto privilegiado, ele foi uma das principais testemunhas da minha virada rumo a uma vida mais saudável neste início de ano. Como uma espécie de retorno a uma época perdida no tempo em que fazia esporte com regularidade (embora não pareça, já joguei vôlei razoavelmente e corri até maratona), recomecei a acordar cedo e ir diariamente dar um mergulho no Arpoador. Com estes hábitos vieram também as corridinhas intercaladas com a caminhada e os exercícios a beira-mar. Voltei a me sentir muito bem disposto e até menos insatisfeito com o espelho. Como se fosse um autêntico vovô garoto.
Mas nesse dia em que o embaixador me cumprimentou, eu não estava nada bem. Depois de uma viagem de carnaval em que fiquei sentindo dores no joelho e até mancando, saí de casa para fazer uma ressonância magnética. O autêntico vovô garoto desdenhou: “Isso não é nada. Bota gelo que passa. Gelo é um remédio pra tudo. Às vezes estou aqui entrevado, doendo tudo abaixo do pescoço e boto gelo; às vezes até esqueço e durmo. No dia seguinte, faço manobras na prancha que nem eu acredito. Bota gelo, Mauro, vai por mim!”
Não tive nem coragem de dizer ao embaixador que me tornei tão alérgico, mas tão alérgico, que certas coisas me trazem problemas constrangedores. Gelo é uma delas. Beber gelado um suco ou um mate mesmo no verão se tornou proibitivo. Sorvete então nem pensar. Garganta muito sensível. (Mas paradoxalmente com álcool não; o chope, a cerveja ou a caipirinha descem bem, pois o álcool dá uma anestesiada, apesar da Sylvia não acreditar em nada disso e achar até hoje, depois de dez anos, que é uma desculpa absurdamente esfarrapada. Só eu que sei.). E esta restrição nos últimos tempos se estendeu até a passar o gelo numa contusão, digamos, no tornozelo. Depois de algumas horas, é dor de garganta na certa. Portanto, agradeci a dica e segui no meu andar capenga em direção ao laboratório para fazer o exame.
Três dias depois, o resultado inapelável: tive uma fratura na tíbia por estresse. Forcei muito a barra. Fui com muita sede ao pote. Além de não ter deixado um dia sequer para descanso desde que comecei a nova fase, não prestei a devida atenção aos evidentes sinais de desgaste excessivo do corpo. Quis recuperar a forma perdida com a ansiedade de um vovô garoto fake. E deu no que deu. Então aqui estou agora, de molho e olhando inconformado pro calendário, num repouso absoluto para que a fratura incompleta não vire total, com joelheira de neoprene e bengala de apoio. Mas, se tudo der certo, daqui a um mês e meio espero de novo poder cumprimentar cedinho o embaixador na janela.
terça-feira, 1 de março de 2011
O abridor de manhãs
A SOMBRA DO FAQUIR 13
Após um longo período de sedentarismo e horários extremamente anti-sociais, para poder acompanhar amigos e parentes nas férias me treinei para acordar mais cedo e tomei gosto. Então desde o início do ano que novamente volto a levantar da cama por volta das sete, oito da manhã. E vou dar um mergulho na praia, alternando caminhada e corrida. Júlio de cara estranhou, achou que não era o pai que estava ali ou que aquilo não ia durar. Sylvia comemorou a possibilidade de estarmos juntos no fim-de-semana num turno que era praticamente inexistente. Eu, confesso que depois de dois meses me sinto até mais jovem por resgatar hábitos saudáveis e das antigas.
É importante ressaltar que uma coisa é acordar cedo para abraçar a natureza (e o esporte). Outra coisa é para sair de casa apressado para o colégio, a faculdade ou o emprego de ponto. Apesar de necessários, assim não tem graça. De qualquer forma, com tal mudança de horário o dia fica mais longo e a noite mais curta. E, já que abstrair do clima Rio 40 graus é impossível, nada tem sido tão bom como entrar dentro do verão para começar o dia, com o sol mais ameno. Para isso, todas as manhãs passo protetor solar, pego o boné e os óculos escuros e vou andando até a praia. Mas um dos melhores momentos do meu ritual é observar, de longe, ao chegar à esquina da Figueiredo Magalhães com Domingos Ferreira, se ele está lá.
Sim, ele é o abridor das manhãs. O presidente do verão. Pelo menos, do meu verão. Não é o homem que traz o jornal, o moço da padaria que faz o sanduíche na chapa, o vendedor da barraquinha na areia ou o salva-vidas. Não é também uma deusa inebriante que passa com o corpo escultural e molhado... Não. Nada disso. Ele é um velho que às oito e meia da matina já está tomando uma cerveja acompanhada de um copo de conhaque. Todo santo dia sua cadeira está a postos. No bar que fica na quadra da Figueiredo Magalhães com a praia ele tem lugar cativo. Praticamente todos os dias ele está lá, na cadeira de plástico com um banquinho de madeira que botam na calçada em frente ao boteco. O bar em si não tem nada de mais, é um pé-sujo normal, com seus habitués, frequentadores ocasionais e seus bebuns com a validade vencida. Mas nenhum outro tem o lorde da boemia matinal.
A primeira vez em que o vi, estranhei a violência do teor alcoólico para a inocência infantil das primeiras horas do dia. Meu estômago se retorceu, meu fígado pediu de joelhos para não tentar copiar aquilo. No dia seguinte no mesmo horário, lá estava ele de novo, quieto, em silêncio, e com os mesmos fiéis companheiros: a garrafa e o copo de cerveja e o copo ordinário de conhaque pela metade à sua frente. E no outro dia, e no outro, e no outro... Com a repetição da cena, pude perceber que aquele pedaço da manhã naquele local e com aqueles apetrechos para ele é sagrado. Provavelmente ele, um senhor de seus setenta e poucos anos, passa o resto do dia aguardando chegar a sua hora de abrir a manhã e enfeitar o bar com a sua chapliniana figura. Porque ele não fala alto, não dá escândalo. Aliás, ele mal fala. Apenas fica ali, bebericando e observando as coisas em volta com olhos de um bichinho inofensivo e carente sob os óculos de grau.
A primeira vez em que não o vi, estranhei como se estranha a ausência de um parente querido numa festa familiar. Afinal, pude testemunhar seu comparecimento ao botequim de domingo a domingo por algumas semanas. E admirar seu comportamento majestoso e elegante de quem não está fazendo mal a ninguém, no máximo só a si mesmo. Ou seja, o bêbado ideal. Cheguei a elucubrar sobre sua vida: será que tem mulher, filhos, alguém? O certo é que dois dias depois de seu primeiro sumiço, ele voltou para abrir as manhãs, mas estava com alguns curativos pelo braço e pela perna. Comecei a reparar que estava me preocupando com um estranho como se ele fosse realmente importante para mim. Um estranho que deixou há muito de ser estranho, embora nunca tenha trocado uma palavra com ele.
Agora toda vez que chego à esquina e o vejo no bar já no batente sinto uma espécie de alívio. E quando acontece de me deparar com aquela cadeira desocupada, onde ninguém mais ousa sentar, minha mente divaga por questões sombrias: será que ele caiu em casa? Será que baixou no hospital? Será que o organismo não aguentou mais? Será...? Mas os dias de ausência, felizmente, são ainda em número bastante reduzido. Pelo menos por enquanto. Hoje ele estava lá, com os olhinhos curiosos, o jornal amassado embaixo do banco turbinado e mastigando a dentadura. E amanhã, será que ele vai?
Após um longo período de sedentarismo e horários extremamente anti-sociais, para poder acompanhar amigos e parentes nas férias me treinei para acordar mais cedo e tomei gosto. Então desde o início do ano que novamente volto a levantar da cama por volta das sete, oito da manhã. E vou dar um mergulho na praia, alternando caminhada e corrida. Júlio de cara estranhou, achou que não era o pai que estava ali ou que aquilo não ia durar. Sylvia comemorou a possibilidade de estarmos juntos no fim-de-semana num turno que era praticamente inexistente. Eu, confesso que depois de dois meses me sinto até mais jovem por resgatar hábitos saudáveis e das antigas.
É importante ressaltar que uma coisa é acordar cedo para abraçar a natureza (e o esporte). Outra coisa é para sair de casa apressado para o colégio, a faculdade ou o emprego de ponto. Apesar de necessários, assim não tem graça. De qualquer forma, com tal mudança de horário o dia fica mais longo e a noite mais curta. E, já que abstrair do clima Rio 40 graus é impossível, nada tem sido tão bom como entrar dentro do verão para começar o dia, com o sol mais ameno. Para isso, todas as manhãs passo protetor solar, pego o boné e os óculos escuros e vou andando até a praia. Mas um dos melhores momentos do meu ritual é observar, de longe, ao chegar à esquina da Figueiredo Magalhães com Domingos Ferreira, se ele está lá.
Sim, ele é o abridor das manhãs. O presidente do verão. Pelo menos, do meu verão. Não é o homem que traz o jornal, o moço da padaria que faz o sanduíche na chapa, o vendedor da barraquinha na areia ou o salva-vidas. Não é também uma deusa inebriante que passa com o corpo escultural e molhado... Não. Nada disso. Ele é um velho que às oito e meia da matina já está tomando uma cerveja acompanhada de um copo de conhaque. Todo santo dia sua cadeira está a postos. No bar que fica na quadra da Figueiredo Magalhães com a praia ele tem lugar cativo. Praticamente todos os dias ele está lá, na cadeira de plástico com um banquinho de madeira que botam na calçada em frente ao boteco. O bar em si não tem nada de mais, é um pé-sujo normal, com seus habitués, frequentadores ocasionais e seus bebuns com a validade vencida. Mas nenhum outro tem o lorde da boemia matinal.
A primeira vez em que o vi, estranhei a violência do teor alcoólico para a inocência infantil das primeiras horas do dia. Meu estômago se retorceu, meu fígado pediu de joelhos para não tentar copiar aquilo. No dia seguinte no mesmo horário, lá estava ele de novo, quieto, em silêncio, e com os mesmos fiéis companheiros: a garrafa e o copo de cerveja e o copo ordinário de conhaque pela metade à sua frente. E no outro dia, e no outro, e no outro... Com a repetição da cena, pude perceber que aquele pedaço da manhã naquele local e com aqueles apetrechos para ele é sagrado. Provavelmente ele, um senhor de seus setenta e poucos anos, passa o resto do dia aguardando chegar a sua hora de abrir a manhã e enfeitar o bar com a sua chapliniana figura. Porque ele não fala alto, não dá escândalo. Aliás, ele mal fala. Apenas fica ali, bebericando e observando as coisas em volta com olhos de um bichinho inofensivo e carente sob os óculos de grau.
A primeira vez em que não o vi, estranhei como se estranha a ausência de um parente querido numa festa familiar. Afinal, pude testemunhar seu comparecimento ao botequim de domingo a domingo por algumas semanas. E admirar seu comportamento majestoso e elegante de quem não está fazendo mal a ninguém, no máximo só a si mesmo. Ou seja, o bêbado ideal. Cheguei a elucubrar sobre sua vida: será que tem mulher, filhos, alguém? O certo é que dois dias depois de seu primeiro sumiço, ele voltou para abrir as manhãs, mas estava com alguns curativos pelo braço e pela perna. Comecei a reparar que estava me preocupando com um estranho como se ele fosse realmente importante para mim. Um estranho que deixou há muito de ser estranho, embora nunca tenha trocado uma palavra com ele.
Agora toda vez que chego à esquina e o vejo no bar já no batente sinto uma espécie de alívio. E quando acontece de me deparar com aquela cadeira desocupada, onde ninguém mais ousa sentar, minha mente divaga por questões sombrias: será que ele caiu em casa? Será que baixou no hospital? Será que o organismo não aguentou mais? Será...? Mas os dias de ausência, felizmente, são ainda em número bastante reduzido. Pelo menos por enquanto. Hoje ele estava lá, com os olhinhos curiosos, o jornal amassado embaixo do banco turbinado e mastigando a dentadura. E amanhã, será que ele vai?
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Trabalho sujo
Brasil, agora tudo mudou
Na certa houve uma pressão em Brasília
E a verdade se dobrou em muitas
Precisei ver o Bob Dylan no dvd
Para entender que não dá pra ser esperto e amar
Tudo ao mesmo tempo
Brasil, como é que pode, você não dá esmola pequena
(a não ser quando precisa muito ser bonzinho)
Criança com nariz escorrendo e pé descalço
Não esculacha mais a sua consciência
“Não quero mendigo na porta da minha casa”
“Não quero rico roubando meu dinheiro”
Brasil, cadê seus bigodões, seus tamancos
Seus azulejos e seus bacalhaus
Quem é que nunca furou fila, nem sinal?
Brasil, suas verdes matas estão no e-mail
Que me pedem para assinar:
Querem reduzir a Floresta Amazônica em 70%
A morte de cada um em suspenso
Até a próxima ilusão
Brasil, e assim a gente vai estar passando
Afinal o gerundismo é hoje
Em dia um mal necessário
Como o celular que faz tudo
Como o flanelinha que não faz nada
Como a corrupção e o esquerdista pragmático
Mas não vou terminar aqui
De uma maneira inviável
Brasil, i love you so much
Não me interessam argumentos falsos
Felicidades reescritas
Pois eu estou amassado
Em minhas utopias, em nossas finanças
Brasil, qual é o sertão real?
É preciso ter uma produção do BNDES?
A tecnologia será bem-vinda
Tanto quanto a combustão da ignorância
O prazer desavergonhado
E uma sorte em Copacabana
Depois da viagem
E de todo o trabalho sujo
Trabalho sujo
Sujo
Na certa houve uma pressão em Brasília
E a verdade se dobrou em muitas
Precisei ver o Bob Dylan no dvd
Para entender que não dá pra ser esperto e amar
Tudo ao mesmo tempo
Brasil, como é que pode, você não dá esmola pequena
(a não ser quando precisa muito ser bonzinho)
Criança com nariz escorrendo e pé descalço
Não esculacha mais a sua consciência
“Não quero mendigo na porta da minha casa”
“Não quero rico roubando meu dinheiro”
Brasil, cadê seus bigodões, seus tamancos
Seus azulejos e seus bacalhaus
Quem é que nunca furou fila, nem sinal?
Brasil, suas verdes matas estão no e-mail
Que me pedem para assinar:
Querem reduzir a Floresta Amazônica em 70%
A morte de cada um em suspenso
Até a próxima ilusão
Brasil, e assim a gente vai estar passando
Afinal o gerundismo é hoje
Em dia um mal necessário
Como o celular que faz tudo
Como o flanelinha que não faz nada
Como a corrupção e o esquerdista pragmático
Mas não vou terminar aqui
De uma maneira inviável
Brasil, i love you so much
Não me interessam argumentos falsos
Felicidades reescritas
Pois eu estou amassado
Em minhas utopias, em nossas finanças
Brasil, qual é o sertão real?
É preciso ter uma produção do BNDES?
A tecnologia será bem-vinda
Tanto quanto a combustão da ignorância
O prazer desavergonhado
E uma sorte em Copacabana
Depois da viagem
E de todo o trabalho sujo
Trabalho sujo
Sujo
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Meus caros amigos
“O grande acontecimento é, sempre, o amigo. (...). O amigo é a desesperada utopia que todos nós perseguimos até a última golfada de vida.”
(Nelson Rodrigues, Memórias - a menina sem estrela)
(Nelson Rodrigues, Memórias - a menina sem estrela)
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Coisa de Loco
A SOMBRA DO FAQUIR 12
Quando Loco Abreu veio em 2010 para o Botafogo, contratado como grande estrela, sabia apenas por alto de quem se tratava. A primeira informação mais ou menos fidedigna que recebi a seu respeito veio de meu amigo argentino Federico enquanto tomávamos um chope e víamos imagens pela tevê da chegada do jogador uruguaio ao Rio. Abreu jogara em seu River Plate. “Loco é ótimo jogador, Mauro. Tem porte, cabeceia bem, faz gol. Mas não vai ficar muito tempo”, decretou ele. Não apenas em relação a Maradona ser melhor do que Pelé, meu querido amigo portenho também estava errado nessa outra questão de permanência. Loco Abreu virou um ídolo alvinegro inquestionável e por mim certamente se aposentaria por aqui.
De fato, Washington Sebastián Abreu Gallo, que é um dos maiores artilheiros da seleção uruguaia (mesmo não sendo mais titular), fez mais de 300 gols na carreira e jogou até hoje em 17 clubes em sete países (além do Brasil e do Uruguai, esteve na Argentina, México, Espanha, Grécia e até Israel), é o que se poderia chamar de atleta globalizado. Tanto que após um recente pequeno entrevero com o técnico Joel Santana, devidamente insuflado por jornalistas, chegou a publicar em seu site que se estivesse causando problemas seria melhor “mudar de ares”. Mas o caso foi abafado, com demonstrações públicas de boa vontade e pacificação de ambas as partes. Ainda bem.
El Loco, que tem esse apelido desde as categorias de base do Nacional do Uruguai pelas brincadeiras que fazia e se tornou, segundo o próprio, um “nome artístico”, não é um craque, um fora de série. Mas mesmo assim ele é, sem dúvida, um jogador diferente. Muito alto (1,93 m), excelente no jogo aéreo e de boa técnica com a bola no pé esquerdo, Abreu se notabiliza pela visão de jogo. Costuma dar bons passes de primeira e demonstra grande frieza na hora de arrematar para o gol. Exatamente como fez ao bater o célebre pênalti na Copa de 2010 contra Gana, o último na disputa de penalidades máximas. Ou contra o Flamengo na decisão da Taça Rio (e do Campeonato Carioca) do mesmo ano. Comprovando que existe golaço também de pênalti ao cobrar nas duas ocasiões com a intrépida cavadinha, quando o jogador dá um toque sutil embaixo da bola, fazendo que ela suba e caia no centro do gol, uma forma de driblar o goleiro com o corpo e a esperteza.
Além das qualidades de artilheiro, outra característica marcante de Loco Abreu é a personalidade forte. Inteligente, hábil com as palavras, ele demonstra sinceridade e consciência em suas entrevistas. Por saber analisar com lucidez o que se passa em campo (o que não costuma ocorrer com os protagonistas do espetáculo), quando o time vai mal ele fala. Quando o outro time merece a vitória ele também fala. E assim passa longe do perfil caricato do jogador médio ao desfiar a mesma ladainha de frases feitas para responder às mesmas perguntas de sempre. Com o Loco não tem hipocrisia. Por tudo isso, caiu nas graças da torcida do Fogão, tornando-se rapidamente um ídolo.
A propósito, para mim Loco Abreu é um personagem ainda maior do que o Túlio Maravilha, o último dos ídolos alvinegros. Túlio, ainda em questionável atividade, foi um grande artilheiro, jogador fundamental para o clube e identificado com a torcida. Embora deva reconhecer que sua participação na história botafoguense é bem mais importante – pelo menos até agora – do que a de Abreu, Túlio era, com todo o respeito, um falastrão, quase um bobo da corte. Loco Abreu por sua vez traz de volta a mística dos malditos, dos diferentes, dos ousados. Isto sempre fez parte do Botafogo, de Heleno de Freitas a Mané Garrincha, de Gérson (num certo sentido) e Paulo César Caju a Afonsinho e Marinho Chagas.
Mas como a contribuição de Abreu ao clube ainda está em andamento e ele traz em si a chama da imprevisibilidade, tanto podendo sair intempestivamente ao longo ou ao final da atual temporada quanto se aposentar por aqui (o ideal, óbvio), é melhor deixar de lado a perspectiva histórica. Porque hoje tudo é possível quando a bola chega até ele – inclusive nada. (E ainda assim ele será aplaudido.) Como disse o poetinha alvinegro, que seja infinito enquanto dure. Por essas e outras, hoje de manhã saí de casa e fui à loja do Botafogo, em General Severiano. Lá comprei a minha camisa da celeste alvinegra, um misto de camisa da seleção uruguaia com a do Botafogo (representada pelo tradicional escudo da estrela solitária), com o número 13 às costas e o nome Loco Abreu estampado acima. Coisa de torcedor apaixonado. Coisa de louco.
Quando Loco Abreu veio em 2010 para o Botafogo, contratado como grande estrela, sabia apenas por alto de quem se tratava. A primeira informação mais ou menos fidedigna que recebi a seu respeito veio de meu amigo argentino Federico enquanto tomávamos um chope e víamos imagens pela tevê da chegada do jogador uruguaio ao Rio. Abreu jogara em seu River Plate. “Loco é ótimo jogador, Mauro. Tem porte, cabeceia bem, faz gol. Mas não vai ficar muito tempo”, decretou ele. Não apenas em relação a Maradona ser melhor do que Pelé, meu querido amigo portenho também estava errado nessa outra questão de permanência. Loco Abreu virou um ídolo alvinegro inquestionável e por mim certamente se aposentaria por aqui.
De fato, Washington Sebastián Abreu Gallo, que é um dos maiores artilheiros da seleção uruguaia (mesmo não sendo mais titular), fez mais de 300 gols na carreira e jogou até hoje em 17 clubes em sete países (além do Brasil e do Uruguai, esteve na Argentina, México, Espanha, Grécia e até Israel), é o que se poderia chamar de atleta globalizado. Tanto que após um recente pequeno entrevero com o técnico Joel Santana, devidamente insuflado por jornalistas, chegou a publicar em seu site que se estivesse causando problemas seria melhor “mudar de ares”. Mas o caso foi abafado, com demonstrações públicas de boa vontade e pacificação de ambas as partes. Ainda bem.
El Loco, que tem esse apelido desde as categorias de base do Nacional do Uruguai pelas brincadeiras que fazia e se tornou, segundo o próprio, um “nome artístico”, não é um craque, um fora de série. Mas mesmo assim ele é, sem dúvida, um jogador diferente. Muito alto (1,93 m), excelente no jogo aéreo e de boa técnica com a bola no pé esquerdo, Abreu se notabiliza pela visão de jogo. Costuma dar bons passes de primeira e demonstra grande frieza na hora de arrematar para o gol. Exatamente como fez ao bater o célebre pênalti na Copa de 2010 contra Gana, o último na disputa de penalidades máximas. Ou contra o Flamengo na decisão da Taça Rio (e do Campeonato Carioca) do mesmo ano. Comprovando que existe golaço também de pênalti ao cobrar nas duas ocasiões com a intrépida cavadinha, quando o jogador dá um toque sutil embaixo da bola, fazendo que ela suba e caia no centro do gol, uma forma de driblar o goleiro com o corpo e a esperteza.
Além das qualidades de artilheiro, outra característica marcante de Loco Abreu é a personalidade forte. Inteligente, hábil com as palavras, ele demonstra sinceridade e consciência em suas entrevistas. Por saber analisar com lucidez o que se passa em campo (o que não costuma ocorrer com os protagonistas do espetáculo), quando o time vai mal ele fala. Quando o outro time merece a vitória ele também fala. E assim passa longe do perfil caricato do jogador médio ao desfiar a mesma ladainha de frases feitas para responder às mesmas perguntas de sempre. Com o Loco não tem hipocrisia. Por tudo isso, caiu nas graças da torcida do Fogão, tornando-se rapidamente um ídolo.
A propósito, para mim Loco Abreu é um personagem ainda maior do que o Túlio Maravilha, o último dos ídolos alvinegros. Túlio, ainda em questionável atividade, foi um grande artilheiro, jogador fundamental para o clube e identificado com a torcida. Embora deva reconhecer que sua participação na história botafoguense é bem mais importante – pelo menos até agora – do que a de Abreu, Túlio era, com todo o respeito, um falastrão, quase um bobo da corte. Loco Abreu por sua vez traz de volta a mística dos malditos, dos diferentes, dos ousados. Isto sempre fez parte do Botafogo, de Heleno de Freitas a Mané Garrincha, de Gérson (num certo sentido) e Paulo César Caju a Afonsinho e Marinho Chagas.
Mas como a contribuição de Abreu ao clube ainda está em andamento e ele traz em si a chama da imprevisibilidade, tanto podendo sair intempestivamente ao longo ou ao final da atual temporada quanto se aposentar por aqui (o ideal, óbvio), é melhor deixar de lado a perspectiva histórica. Porque hoje tudo é possível quando a bola chega até ele – inclusive nada. (E ainda assim ele será aplaudido.) Como disse o poetinha alvinegro, que seja infinito enquanto dure. Por essas e outras, hoje de manhã saí de casa e fui à loja do Botafogo, em General Severiano. Lá comprei a minha camisa da celeste alvinegra, um misto de camisa da seleção uruguaia com a do Botafogo (representada pelo tradicional escudo da estrela solitária), com o número 13 às costas e o nome Loco Abreu estampado acima. Coisa de torcedor apaixonado. Coisa de louco.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Um Brasil x Argentina na Cadeg
DE BAR EM BAR (84) – Barsa
A visita à Cadeg já estava para acontecer desde o ano passado, com um ou outro adiamento. Mas, enfim, foi desta vez, num sábado de verão daqueles, com saída na temperatura amena do meio-dia e meia. Rumamos eu e Sylvia para Benfica, logo depois de São Cristóvão. O programa é para ser cedo, pois, conforme a tradição de mercado, vários bares e lojas madrugam e fecham por volta do início de tarde. Mas em compensação também há outros que só abrem à noite. Escolhemos, por sugestão dos amigos Marcelo Max e Dani Pupo, um que fica aberto até as 17h, o Barsa. Como se sabe, a Cadeg (Centro de Abastecimento da Guanabara), inaugurada no governo de Carlos Lacerda, é um mercado de alimentos, artesanato, decoração, flores, vinhos, bares e restaurantes tão histórico que a Guanabara de seu nome não existe mais. Mas nem por isso parou no tempo. O relativamente novo Barsa, do chef Marcelo Barcellos, é prova disso.
Marcamos com o parceiro Maurício Barros (tecladista e produtor, fundador do Barão Vermelho) e Mel mais dois casais, os citados Max e Dani e o argentino carioca Federico Bardini e sua mulher, a brasileiríssima Aline. Para meus padrões, já seria mesa quase inviável. Sou daqueles que detestam aniversários e reuniões em mesas enormes. Dependendo do lado de quem se sentar é uma cilada máxima, pois não há como fugir imediatamente. Além do eterno problema da despesa rachada no final com às vezes praticamente desconhecidos e quase sempre com contas insolúveis. Mas, como no caso são todos amigos, é para ser um prazer.
Há algumas mesas no pequeno salão interno, mas o melhor mesmo é ficar nas mesinhas e cadeiras de madeira espalhadas pela ruela. Começo com um chope e observo o estabelecimento. Sento-me de frente para a cozinha aberta para os olhos públicos. As paredes são pintadas de amarelo e com azulejos mostarda. A aparência é de limpeza e bom gosto. Sem dúvida, um dos espaços mais arrumados do extenso conjunto de lojas. Mas sem frescura e com adequação ao ambiente. Chegam Max e Dani e, para acompanhá-lo, passo para a cerveja Original. As mulheres planejam comprar vinho rosé na loja perto. Sim, aqui o esquema é civilizado, o dono percebeu que não faria sentido competir com o preço do atacadista vizinho e instituiu apenas a taxa da rolha. Assim como também é permitido trazer o bolinho de bacalhau de alhures para beliscar com a cerveja gelada. Afinal, o Barsa é um restaurante com espírito de botequim. Peço uma porção de bruschetta com funghi e outra de pão do chef, recheado com calabresa e provolone. Ambas vieram muito boas.
As outras opções de entrada são iscas de filé de frango acebolado e caldinho de feijão. Quanto aos pratos do cardápio, Bacalhau Rei, Paleta de cordeiro (cordeiro assado ao vinho do porto com ervas frescas, cebolas roxas e batata caramelada), picanha aromatizada com ervas e mostarda, galinha ao molho pardo, caçarola de coelho ao bourguignon e feijoada. Eis que chegam Maurício Barros e Mel, já dispostos às compras na loja ao lado, e o vinho passa a ser definitivamente a bebida oficial da mesa. (Apenas o Max permanece fiel à cervejinha.) Mais um pouco surgem Federico, Aline, o filho pequeno Geovani e mais um casal de argentinos a tiracolo, o primo Diego e a namorada Vanessa. Agora sim a mesa ficou enorme, mas tudo bem.
Mais outras porções de pão do chef e de iscas de frango (também ótimas) e algumas garrafas de vinho rosé, entre rótulos argentinos, chilenos e portugueses a bons preços, a alegre confusão é total por entre os papos cruzados. As mulheres trocam dicas de viagem, Max me conta da nova fase do estúdio de animação que tem com o irmão, a Consequência, Maurício Barros conversa com o primo portenho, que também é músico e obviamente tem rabo de cavalo (Federico já deixou os mullets para trás). Até que o garçom dá um toque discreto de que é melhor fazer o pedido por causa do horário. A ala carioca da mesa decide pelo Bacalhau Rei e a Paleta de cordeiro. A ala gringa vai de feijoada. Quando chegam os pratos passamos para o vinho branco, também gelado gentilmente pela casa. O bacalhau e o cordeiro desfilam como uma festa para os olhos e correspondem perfeitamente às nossas expectativas. Gostei muito dos dois, com leve preferência para o bacalhau, de sabor imbatível. Quanto à feijoada, não sei, mas garanto que não houve reclamações.
É realmente um prazer dos maiores comer e beber muito bem entre amigos de fé e irmãos camaradas. Ainda lembramos, a propósito, de dois nomes queridos (e suas respectivas) que poderiam ter estado dessa vez entre nós: Roberto Frejat e Pequinho (este o ausente mais citado na De bar em bar). Mas não se pode ter tudo. Tanto é que paga a conta o grupo se dividiu, após algumas tentativas frustradas de convencimento mútuo: alguns foram à praia, dar um mergulho no fim de tarde; outros optaram pela saideira em novo local. Adivinha para onde eu fui? (Uma pista: principalmente porque já havia dado um pulo no Arpoador – acredite se quiser – às oito da manhã.) Saúde e até a próxima.
Barsa – Rua Capitão Félix 110, Cadeg, rua 4, lojas 4/6 Benfica (2585-3743)
A visita à Cadeg já estava para acontecer desde o ano passado, com um ou outro adiamento. Mas, enfim, foi desta vez, num sábado de verão daqueles, com saída na temperatura amena do meio-dia e meia. Rumamos eu e Sylvia para Benfica, logo depois de São Cristóvão. O programa é para ser cedo, pois, conforme a tradição de mercado, vários bares e lojas madrugam e fecham por volta do início de tarde. Mas em compensação também há outros que só abrem à noite. Escolhemos, por sugestão dos amigos Marcelo Max e Dani Pupo, um que fica aberto até as 17h, o Barsa. Como se sabe, a Cadeg (Centro de Abastecimento da Guanabara), inaugurada no governo de Carlos Lacerda, é um mercado de alimentos, artesanato, decoração, flores, vinhos, bares e restaurantes tão histórico que a Guanabara de seu nome não existe mais. Mas nem por isso parou no tempo. O relativamente novo Barsa, do chef Marcelo Barcellos, é prova disso.
Marcamos com o parceiro Maurício Barros (tecladista e produtor, fundador do Barão Vermelho) e Mel mais dois casais, os citados Max e Dani e o argentino carioca Federico Bardini e sua mulher, a brasileiríssima Aline. Para meus padrões, já seria mesa quase inviável. Sou daqueles que detestam aniversários e reuniões em mesas enormes. Dependendo do lado de quem se sentar é uma cilada máxima, pois não há como fugir imediatamente. Além do eterno problema da despesa rachada no final com às vezes praticamente desconhecidos e quase sempre com contas insolúveis. Mas, como no caso são todos amigos, é para ser um prazer.
Há algumas mesas no pequeno salão interno, mas o melhor mesmo é ficar nas mesinhas e cadeiras de madeira espalhadas pela ruela. Começo com um chope e observo o estabelecimento. Sento-me de frente para a cozinha aberta para os olhos públicos. As paredes são pintadas de amarelo e com azulejos mostarda. A aparência é de limpeza e bom gosto. Sem dúvida, um dos espaços mais arrumados do extenso conjunto de lojas. Mas sem frescura e com adequação ao ambiente. Chegam Max e Dani e, para acompanhá-lo, passo para a cerveja Original. As mulheres planejam comprar vinho rosé na loja perto. Sim, aqui o esquema é civilizado, o dono percebeu que não faria sentido competir com o preço do atacadista vizinho e instituiu apenas a taxa da rolha. Assim como também é permitido trazer o bolinho de bacalhau de alhures para beliscar com a cerveja gelada. Afinal, o Barsa é um restaurante com espírito de botequim. Peço uma porção de bruschetta com funghi e outra de pão do chef, recheado com calabresa e provolone. Ambas vieram muito boas.
As outras opções de entrada são iscas de filé de frango acebolado e caldinho de feijão. Quanto aos pratos do cardápio, Bacalhau Rei, Paleta de cordeiro (cordeiro assado ao vinho do porto com ervas frescas, cebolas roxas e batata caramelada), picanha aromatizada com ervas e mostarda, galinha ao molho pardo, caçarola de coelho ao bourguignon e feijoada. Eis que chegam Maurício Barros e Mel, já dispostos às compras na loja ao lado, e o vinho passa a ser definitivamente a bebida oficial da mesa. (Apenas o Max permanece fiel à cervejinha.) Mais um pouco surgem Federico, Aline, o filho pequeno Geovani e mais um casal de argentinos a tiracolo, o primo Diego e a namorada Vanessa. Agora sim a mesa ficou enorme, mas tudo bem.
Mais outras porções de pão do chef e de iscas de frango (também ótimas) e algumas garrafas de vinho rosé, entre rótulos argentinos, chilenos e portugueses a bons preços, a alegre confusão é total por entre os papos cruzados. As mulheres trocam dicas de viagem, Max me conta da nova fase do estúdio de animação que tem com o irmão, a Consequência, Maurício Barros conversa com o primo portenho, que também é músico e obviamente tem rabo de cavalo (Federico já deixou os mullets para trás). Até que o garçom dá um toque discreto de que é melhor fazer o pedido por causa do horário. A ala carioca da mesa decide pelo Bacalhau Rei e a Paleta de cordeiro. A ala gringa vai de feijoada. Quando chegam os pratos passamos para o vinho branco, também gelado gentilmente pela casa. O bacalhau e o cordeiro desfilam como uma festa para os olhos e correspondem perfeitamente às nossas expectativas. Gostei muito dos dois, com leve preferência para o bacalhau, de sabor imbatível. Quanto à feijoada, não sei, mas garanto que não houve reclamações.
É realmente um prazer dos maiores comer e beber muito bem entre amigos de fé e irmãos camaradas. Ainda lembramos, a propósito, de dois nomes queridos (e suas respectivas) que poderiam ter estado dessa vez entre nós: Roberto Frejat e Pequinho (este o ausente mais citado na De bar em bar). Mas não se pode ter tudo. Tanto é que paga a conta o grupo se dividiu, após algumas tentativas frustradas de convencimento mútuo: alguns foram à praia, dar um mergulho no fim de tarde; outros optaram pela saideira em novo local. Adivinha para onde eu fui? (Uma pista: principalmente porque já havia dado um pulo no Arpoador – acredite se quiser – às oito da manhã.) Saúde e até a próxima.
Barsa – Rua Capitão Félix 110, Cadeg, rua 4, lojas 4/6 Benfica (2585-3743)
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Meu caloroso inimigo
A SOMBRA DO FAQUIR 11
Assistindo à tevê, chorei copiosamente. Numa enxurrada de más notícias desabei com a história do sujeito humilde que perdeu, além da casa, a mãe, a mulher e a filha. Mas, em vez de desabar como eu, ele preferiu, com o seu conhecimento da região, ajudar os bombeiros e se transformou numa peça utilíssima nas tentativas de resgate. Pois é com a violência de um milhão de touros selvagens entrando sem pedir licença em sua casa que a tragédia anunciada das enchentes de todo verão não atinge mais só aos pobres. Numa hora dessas em que tanta gente perdeu todos os bens materiais, a família e a própria vida por causa das chuvas, sinto-me até constrangido em dizer que meu vilão particular nesses dias foi justamente o oposto.
Mas (deixando-o para depois) talvez seja melhor pensar, ainda em relação à tragédia, que o brasileiro é antes de tudo solidário. Temos, como povo, algumas características perversas, como o tal jeitinho levado ao limiar da canalhice, só que também somos bondosos e sentimentais: se botar um bom dramalhão na tela, seja novela das oito ou a emoção trágica da vida real, as pessoas se emocionam e mergulham de cabeça na causa. As muitas doações e a participação dos voluntários têm sido a prova disso. E, além do mais, como não se entristecer com o drama de milhares de seres humanos que estão muito perto de você e perdem tudo em questão de minutos?
Por isso é muito bonito ver um menino de dez anos colaborando nas áreas de abrigo. Senhoras participando do recebimento das doações, passando aos outros sacos de feijão ou farinha no mutirão da boa vontade. Sem dúvida nenhuma. Por outro lado, me pergunto se não era para essas operações estarem sendo realizadas fundamentalmente e desde o início pelo poder público, leiam-se polícias civil e militar, exército, aeronáutica, o que for, ou até mesmo instituições públicas de assistência social, já que se trata, assim como foi considerado no caso da guerra civil carioca, de uma questão de emergência radical.
Quem perdeu tudo precisa ao menos beber água e, com todo o respeito e admiração aos que enviaram água mineral aos necessitados, quem tem que providenciar esse mínimo alento aos desabrigados é o governo. O povo ajudar é ótimo, eu também estou nessa, mas por que os governos federal, estaduais e municipais nunca se previnem contra o que se sabe que virá? Porque não dá voto? E mais: por que não houve ao menos um aviso taxativo às populações de que se não evacuassem certos locais haveria morte em série? Não é possível que, por mais que a natureza esteja manifestando agora toda sua fúria contra os maus tratos, certos eventos não possam ser minimamente detectados, principalmente nos casos em que se nota a continuada repetição dos fenômenos.
Um amigo que mora em Teresópolis me conta, entre triste e revoltado, da precariedade da situação da cidade e da atitude da prefeitura que teria bloqueado a ação da Cruz Vermelha e de organizações da sociedade civil, fechando e impedindo o acesso às comunidades. Para tornar o trabalho mais profissional? Quem dera. Desconfia-se de que com a intenção de colher os méritos (e a grana) de posar de herói e salvador da pátria. Chega a ser inacreditável. Por mais inevitável que fosse o desastre natural fica a nítida impressão de que ele poderia ter sido menor e muitas vidas poderiam ter sido poupadas se alguns políticos tivessem mais compostura. E fossem menos inimigos do povo.
Hoje fico sabendo que saiu o sol em Friburgo e isto pode colaborar um pouco com o trabalho de resgate e reconstrução. Que a chuva, se não vai parar, ao menos dê uma trégua. E, quanto ao sol, ele lá e eu cá. Depois de passar uns dez dias de férias na Região dos Lagos sem maiores problemas, resolvi dar um mergulho no Arpoador. Como o tempo estava bastante nublado, mais para chuva, passei um pouco de protetor solar apenas nas tatuagens. Fiquei na praia não mais do que uma hora. Foi o tempo suficiente para ter queimaduras de primeiro grau. Minhas costas e ombros ficaram da cor de uma bela porção de camarão ao alho e óleo. O incômodo foi tanto que cheguei a baixar duas vezes no Pronto Socorro sábado de madrugada. Não conseguia dormir, com tanta coceira e ardência nas áreas afetadas. Mas agora está tudo bem. A próxima vez que for à praia passo protetor até se estiver chovendo. E chuva, por favor, chega de mágoa – caia mais devagar.
Assistindo à tevê, chorei copiosamente. Numa enxurrada de más notícias desabei com a história do sujeito humilde que perdeu, além da casa, a mãe, a mulher e a filha. Mas, em vez de desabar como eu, ele preferiu, com o seu conhecimento da região, ajudar os bombeiros e se transformou numa peça utilíssima nas tentativas de resgate. Pois é com a violência de um milhão de touros selvagens entrando sem pedir licença em sua casa que a tragédia anunciada das enchentes de todo verão não atinge mais só aos pobres. Numa hora dessas em que tanta gente perdeu todos os bens materiais, a família e a própria vida por causa das chuvas, sinto-me até constrangido em dizer que meu vilão particular nesses dias foi justamente o oposto.
Mas (deixando-o para depois) talvez seja melhor pensar, ainda em relação à tragédia, que o brasileiro é antes de tudo solidário. Temos, como povo, algumas características perversas, como o tal jeitinho levado ao limiar da canalhice, só que também somos bondosos e sentimentais: se botar um bom dramalhão na tela, seja novela das oito ou a emoção trágica da vida real, as pessoas se emocionam e mergulham de cabeça na causa. As muitas doações e a participação dos voluntários têm sido a prova disso. E, além do mais, como não se entristecer com o drama de milhares de seres humanos que estão muito perto de você e perdem tudo em questão de minutos?
Por isso é muito bonito ver um menino de dez anos colaborando nas áreas de abrigo. Senhoras participando do recebimento das doações, passando aos outros sacos de feijão ou farinha no mutirão da boa vontade. Sem dúvida nenhuma. Por outro lado, me pergunto se não era para essas operações estarem sendo realizadas fundamentalmente e desde o início pelo poder público, leiam-se polícias civil e militar, exército, aeronáutica, o que for, ou até mesmo instituições públicas de assistência social, já que se trata, assim como foi considerado no caso da guerra civil carioca, de uma questão de emergência radical.
Quem perdeu tudo precisa ao menos beber água e, com todo o respeito e admiração aos que enviaram água mineral aos necessitados, quem tem que providenciar esse mínimo alento aos desabrigados é o governo. O povo ajudar é ótimo, eu também estou nessa, mas por que os governos federal, estaduais e municipais nunca se previnem contra o que se sabe que virá? Porque não dá voto? E mais: por que não houve ao menos um aviso taxativo às populações de que se não evacuassem certos locais haveria morte em série? Não é possível que, por mais que a natureza esteja manifestando agora toda sua fúria contra os maus tratos, certos eventos não possam ser minimamente detectados, principalmente nos casos em que se nota a continuada repetição dos fenômenos.
Um amigo que mora em Teresópolis me conta, entre triste e revoltado, da precariedade da situação da cidade e da atitude da prefeitura que teria bloqueado a ação da Cruz Vermelha e de organizações da sociedade civil, fechando e impedindo o acesso às comunidades. Para tornar o trabalho mais profissional? Quem dera. Desconfia-se de que com a intenção de colher os méritos (e a grana) de posar de herói e salvador da pátria. Chega a ser inacreditável. Por mais inevitável que fosse o desastre natural fica a nítida impressão de que ele poderia ter sido menor e muitas vidas poderiam ter sido poupadas se alguns políticos tivessem mais compostura. E fossem menos inimigos do povo.
Hoje fico sabendo que saiu o sol em Friburgo e isto pode colaborar um pouco com o trabalho de resgate e reconstrução. Que a chuva, se não vai parar, ao menos dê uma trégua. E, quanto ao sol, ele lá e eu cá. Depois de passar uns dez dias de férias na Região dos Lagos sem maiores problemas, resolvi dar um mergulho no Arpoador. Como o tempo estava bastante nublado, mais para chuva, passei um pouco de protetor solar apenas nas tatuagens. Fiquei na praia não mais do que uma hora. Foi o tempo suficiente para ter queimaduras de primeiro grau. Minhas costas e ombros ficaram da cor de uma bela porção de camarão ao alho e óleo. O incômodo foi tanto que cheguei a baixar duas vezes no Pronto Socorro sábado de madrugada. Não conseguia dormir, com tanta coceira e ardência nas áreas afetadas. Mas agora está tudo bem. A próxima vez que for à praia passo protetor até se estiver chovendo. E chuva, por favor, chega de mágoa – caia mais devagar.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Revelações no táxi
A SOMBRA DO FAQUIR 10
Depois de mofar um pouco no ponto desisto de ir de ônibus e pego um táxi, já que estou quase em cima do laço para o primeiro show no Rio do excelente cantor e compositor paulista Marcelo Jeneci, uma revelação que certamente vai entrar pra história. Faz calor e o ar-condicionado do carro é muito bem-vindo. O motorista do táxi, educadíssimo, prefere deixar bem claro o local de destino e o trajeto que percorreremos, apesar de não haver grandes dúvidas sobre qual a melhor forma de como ir da Toneleros, em Copacabana, para o Teatro Casa Grande, no Leblon. Antes precisava passar no shopping ao lado para trocar um presente.
– E aí, doutor, fez muito calor hoje?
Só quem trabalha num frigorífico ou numa fábrica de gelo não deve ter sentido na pele o óbvio.
– Desde ontem que o calor está escaldante.
– É que estava trabalhando 48h e passei a tarde dormindo. Fiquei no ar-condicionado, depois tomei banho e vim trabalhar. O senhor é meu primeiro passageiro.
– Ah, sei.
O que parecia ser uma viagem rápida, dado o pouco volume de carros na Toneleros, logo se mostra o oposto mal cruzamos o túnel que deságua na Pompeu Loureiro. Trânsito parado. Que ótimo, penso eu olhando o relógio. O motorista continua:
– Sabe, doutor, eu trabalho muitas vezes virando a noite porque eu preciso. Tenho que pagar a faculdade de minhas duas filhas. Mas esse motivo compensa tudo.
– O que elas estudam?
– Medicina. Vão ser neurocirurgiãs.
– As duas? Meus parabéns, não é pouca coisa.
– É verdade, doutor. Só o que não é pouca coisa mesmo é o que eu tenho de pagar por mês. Mais de oito mil.
– Oito mil?!
– É, quatro mil e pouco de cada uma.
– Faculdade particular é fogo.
– Mas se Deus quiser elas vão se dar bem. São estudiosas, compenetradas.
– Isso é importante.
– E eu muitas vezes faço corridas para uns médicos figurões...
– Que já sabem de suas filhas...
– Exatamente, doutor. Eu não sou de ficar falando, mas eles me perguntam. Tem até médico desse hospital aqui – aponta para o Hospital São Lucas no trânsito mais do que lento.
– Agora entendi realmente o porquê do seu esforço.
– É isso, doutor. Então pra mim é normal dormir umas horas por noite.
– Mas como o senhor faz para aguentar o tranco? Uma coisa é fazer isso uma vez ou outra, mas sempre...
– Ah, eu nem esquento mais.
– O senhor tem alguma dieta especial, toma remédios?
– Doutor, eu vou ser bem franco com o senhor, que eu estou vendo que é pessoa decente. Eu sou da polícia. Sou tenente e trabalho no Batalhão de Operações Especiais. Estou acostumado a funcionar sob pressão.
– O senhor é do Bope?
– Sim, doutor.
– O senhor participou da operação no Complexo do Alemão?
– Mas claro.
Aquele senhor, que até então mais me parecia um ursinho carinhoso, um doce papai protetor, de repente se transforma num homem durão, porém muito preciso nos seus comentários e ainda muito educado, se é que isso é possível diante de uma guerra. Conta-me detalhes do que aconteceu naquela intervenção que já é um marco na luta do poder público contra a marginalidade no Rio de Janeiro. Coisas que obviamente não saíram nos jornais. Aproveita e reclama da imprensa, que quase teria atrapalhado o sucesso das investidas policiais. O trânsito parado ajuda o motorista a se soltar.
– Mas não sou burro de achar que a imprensa não é necessária.
– Naturalmente...
– Agora não tem cabimento o vagabundo estar vendo na tevê de plasma onde e quando vai ser o próximo passo da polícia.
– A televisão tende a transformar tudo num show pirotécnico.
– Só que sou treinado para não falhar na hora H. O senhor entende o que eu quero dizer?
– Acho que sim.
– Doutor, minha função é passar o rodo. Alguém tem que fazer o trabalho sujo, não é não? O meu trabalho é como o do lixeiro. A diferença é que mexo com o lixo humano. Infelizmente a vida é assim. Tem gente que funciona bem sob pressão, outras pessoas não, eu consigo.
– Conviver com uma situação limite muito tempo não deve ser fácil.
– Mas a cidade está bem mais calma. O Natal e o Réveillon foram de paz.
O carro, enfim, chega ao destino. Tenho pouquíssimo tempo para entrar no shopping e resolver a troca. Agradeço ao motorista a conversa sincera. Mas saio dela tão atarantado que em vez de pegar a escada rolante certa quase me estabaco ao tentar subir algo que está descendo. O mundo real já se encontrava à minha espera.
Depois de mofar um pouco no ponto desisto de ir de ônibus e pego um táxi, já que estou quase em cima do laço para o primeiro show no Rio do excelente cantor e compositor paulista Marcelo Jeneci, uma revelação que certamente vai entrar pra história. Faz calor e o ar-condicionado do carro é muito bem-vindo. O motorista do táxi, educadíssimo, prefere deixar bem claro o local de destino e o trajeto que percorreremos, apesar de não haver grandes dúvidas sobre qual a melhor forma de como ir da Toneleros, em Copacabana, para o Teatro Casa Grande, no Leblon. Antes precisava passar no shopping ao lado para trocar um presente.
– E aí, doutor, fez muito calor hoje?
Só quem trabalha num frigorífico ou numa fábrica de gelo não deve ter sentido na pele o óbvio.
– Desde ontem que o calor está escaldante.
– É que estava trabalhando 48h e passei a tarde dormindo. Fiquei no ar-condicionado, depois tomei banho e vim trabalhar. O senhor é meu primeiro passageiro.
– Ah, sei.
O que parecia ser uma viagem rápida, dado o pouco volume de carros na Toneleros, logo se mostra o oposto mal cruzamos o túnel que deságua na Pompeu Loureiro. Trânsito parado. Que ótimo, penso eu olhando o relógio. O motorista continua:
– Sabe, doutor, eu trabalho muitas vezes virando a noite porque eu preciso. Tenho que pagar a faculdade de minhas duas filhas. Mas esse motivo compensa tudo.
– O que elas estudam?
– Medicina. Vão ser neurocirurgiãs.
– As duas? Meus parabéns, não é pouca coisa.
– É verdade, doutor. Só o que não é pouca coisa mesmo é o que eu tenho de pagar por mês. Mais de oito mil.
– Oito mil?!
– É, quatro mil e pouco de cada uma.
– Faculdade particular é fogo.
– Mas se Deus quiser elas vão se dar bem. São estudiosas, compenetradas.
– Isso é importante.
– E eu muitas vezes faço corridas para uns médicos figurões...
– Que já sabem de suas filhas...
– Exatamente, doutor. Eu não sou de ficar falando, mas eles me perguntam. Tem até médico desse hospital aqui – aponta para o Hospital São Lucas no trânsito mais do que lento.
– Agora entendi realmente o porquê do seu esforço.
– É isso, doutor. Então pra mim é normal dormir umas horas por noite.
– Mas como o senhor faz para aguentar o tranco? Uma coisa é fazer isso uma vez ou outra, mas sempre...
– Ah, eu nem esquento mais.
– O senhor tem alguma dieta especial, toma remédios?
– Doutor, eu vou ser bem franco com o senhor, que eu estou vendo que é pessoa decente. Eu sou da polícia. Sou tenente e trabalho no Batalhão de Operações Especiais. Estou acostumado a funcionar sob pressão.
– O senhor é do Bope?
– Sim, doutor.
– O senhor participou da operação no Complexo do Alemão?
– Mas claro.
Aquele senhor, que até então mais me parecia um ursinho carinhoso, um doce papai protetor, de repente se transforma num homem durão, porém muito preciso nos seus comentários e ainda muito educado, se é que isso é possível diante de uma guerra. Conta-me detalhes do que aconteceu naquela intervenção que já é um marco na luta do poder público contra a marginalidade no Rio de Janeiro. Coisas que obviamente não saíram nos jornais. Aproveita e reclama da imprensa, que quase teria atrapalhado o sucesso das investidas policiais. O trânsito parado ajuda o motorista a se soltar.
– Mas não sou burro de achar que a imprensa não é necessária.
– Naturalmente...
– Agora não tem cabimento o vagabundo estar vendo na tevê de plasma onde e quando vai ser o próximo passo da polícia.
– A televisão tende a transformar tudo num show pirotécnico.
– Só que sou treinado para não falhar na hora H. O senhor entende o que eu quero dizer?
– Acho que sim.
– Doutor, minha função é passar o rodo. Alguém tem que fazer o trabalho sujo, não é não? O meu trabalho é como o do lixeiro. A diferença é que mexo com o lixo humano. Infelizmente a vida é assim. Tem gente que funciona bem sob pressão, outras pessoas não, eu consigo.
– Conviver com uma situação limite muito tempo não deve ser fácil.
– Mas a cidade está bem mais calma. O Natal e o Réveillon foram de paz.
O carro, enfim, chega ao destino. Tenho pouquíssimo tempo para entrar no shopping e resolver a troca. Agradeço ao motorista a conversa sincera. Mas saio dela tão atarantado que em vez de pegar a escada rolante certa quase me estabaco ao tentar subir algo que está descendo. O mundo real já se encontrava à minha espera.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
O paradoxo
Saída extrema da lucidez.
A revelação do quão difícil
Pode ser enxergar as coisas como
A vida não nos pede para viver.
Poço fundo.
Qual caminho levará
Para uma morte aprazível?
Onde estou agora não há
Merlins dourados.
A guerra e a paz de cada dia
Não me dão a necessária camisa
Para a coragem sinal verde.
Quero sim, mas engulo com dificuldade.
Hoje tenho dúvidas se a
Corda bamba me deixou
Uma pessoa menos apavorada.
Clarões de sangue explodem
Como o olhar pedinte de
Um cachorro fiel.
Sou um ser rasgado
Pela metade enquanto penso
Que ouço sir Paul McCartney
Cantar no ouvido que sou mãe e pai
De um sonho anacrônico.
Certamente poderia ser pior.
A revelação do quão difícil
Pode ser enxergar as coisas como
A vida não nos pede para viver.
Poço fundo.
Qual caminho levará
Para uma morte aprazível?
Onde estou agora não há
Merlins dourados.
A guerra e a paz de cada dia
Não me dão a necessária camisa
Para a coragem sinal verde.
Quero sim, mas engulo com dificuldade.
Hoje tenho dúvidas se a
Corda bamba me deixou
Uma pessoa menos apavorada.
Clarões de sangue explodem
Como o olhar pedinte de
Um cachorro fiel.
Sou um ser rasgado
Pela metade enquanto penso
Que ouço sir Paul McCartney
Cantar no ouvido que sou mãe e pai
De um sonho anacrônico.
Certamente poderia ser pior.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Pequenas malandragens portenhas
A SOMBRA DO FAQUIR 9
Logo ao chegar no hotel, a agente de turismo nos aplica as palavras decoradas destinadas aos turistas marinheiros de primeira viagem. Algumas instrucciones. Ela também determina que faremos um city tour às nove da manhã no terceiro dia. Tento resistir, mas tudo certo, vou tentar não ser tão antipático com a Sylvia e o Júlio e acordar cedo. Para finalizar lamenta que por questões de segurança todo ir e vir deve ser feito com muitos cuidados e nos alerta para não dar mole com valores, evitar notas altas para troco e, principalmente, se for andar com mochila não colocá-la nas costas e sim na frente. Tal como recomendam no metrô daqui e quase ninguém faz.
Sentindo-me o sujeito malandro carioca, vivendo em plena guerra civil, acostumado com a nem sempre fácil convivência do morro com o asfalto, apenas sorrio e digo-lhe que, infelizmente, isso não é privilégio seu. A viagem então começa. Meu primeiro dia é para sentir a cidade, sentar numa esquina e ver a vida local em movimento. Depois, no primeiro jantar, na velha churrascaria onde bato ponto sempre que venho aqui, somos atendidos por um garçom com cara de Humprey Bogart, um pouco mais maltratado, gente finíssima, River Plate até a alma. Rango e atendimento excelentes. Fim de noite, depois de um abraço no Bogart, saímos para a rua e, num cruzamento, ouço um som bonito rolando na calçada e era uma música dos Beatles, tocada e cantada em inglês bem parecido, mas com estilo bacana. Fui dar uma checada e era um gordo muito branco, de bigodes e cego. Uma figura doce. Ficamos assistindo a uma sequência de três músicas da fase mais roqueira da banda. Finalizou com Crazy a little thing called love, do Queen. Júlio deixou nossa contribuição, dada com prazer.
Não vou contar todos os passos portenhos porque até o segundo dia tudo normal, com arte, música, ótima comida e relativamente bons preços. Mas no terceiro dia, o tal dia do passeio, num miniônibus com guia turístico espirituoso e turistas robotizados (mas que mesmo assim valeu a pena fazer – é bom para ter uma noção rudimentar do espaçamento geográfico da cidade, como num curso intensivo de algumas horas), no terceiro dia, não. Depois do passeio fomos dar uma caminhada que terminou pela rua Florida, a rua da brasileiros que vão furiosos às compras e dos chatos que oferecem insistentemente câmbio, casacos de couro e shows de tango. Pois eu, malandro que sou, desdenhador das recomendações, saí com a minha mochila na posição normal, nas costas. Ao voltar para o hotel, paramos num mercado perto para umas coisas básicas e ao pagar a conta dei por falta da minha carteira. Lembro-me que antes do mercado, eu passara numa loja de vinhos e ainda estava com a carteira. Portanto o furto tinha acontecido havia poucos instantes de quando me dei conta dele. Logicamente fiquei arrasado, me ver sem o dinheiro (a maior parte do pouco que tinha em espécie ficara no hotel) foi o de menos, mas sem os documentos e o cartão de crédito numa viagem é fatal.
Porém mal deu tempo de me considerar o último dos seres e compor um tango. Ao retornar ao hotel já havia um recado de que a carteira havia sido achada. Claro que sem o dinheiro, mas com todos os documentos, inclusive o cartão. Foi como se eu tivesse ganhado na loteria. O ladrão era só um punguista barato. Não quis (ou não sabia) fazer uso de um crédito virtual que certamente eu teria dificuldade para pagar. Ainda bem. Como diria a agente de viagens, dos males o menor.
Tive ainda mais exemplos da pequena falsa malandragem do ser humano. Como o do vendedor da lojinha do Malba, um belíssimo museu, que tentou esconder rápido na embalagem que a camisa com uma máquina de escrever feita com escritos de Jack Kerouac que adorei estava rasgada. Ou do taxista nazista (“Tem que jogar bomba na favela!”) que só revelou no meio do trajeto, como quem não quer nada, que o shopping onde iríamos assistir a um filme num dia de natal sem nada para fazer e com quase tudo fechado, esse shopping também estava fechado. Como se alguém pudesse pegar um táxi para um shopping e o fato de ele não estar aberto não ser muito importante.
Fui testemunha também do caso da falsa malandragem do brasileiro no exterior, que acha que só porque é da mesma nacionalidade da outra pessoa pode puxar papo com alguma intimidade e ser inconveniente até não poder mais. Foi o caso do sujeito que tivemos o desprazer de conhecer numa volta à velha churrascaria, no penúltimo dia da viagem. “Ei, ei... o quê que é bom aqui?” “Esse cardápio tinha que ter também em português, né, mas eles são metidos a ingleses!.” “Ô botafoguense... (para o Júlio, que estava com a camisa do alvinegro) que sobremesa é essa aí?” Como já tínhamos comido, era a hora de cair fora. Mas tive uma dúvida na conta e perguntei ao garçom. Depois de esclarecimento, enquanto me levantava, o sujeito, quase com prazer, ainda tentou: “Eles erraram a conta, é?” Devo dizer ainda que fomos com a expectativa de reencontrar o garçom simpatissíssimo e ele estava lá, mas dessa vez atendia do outro lado e mal nos deu uma olhada. (Para não ser injusto, no final ele sorriu para mim e acenou. Bogart era um tímido.)
Bem, no último dia de viagem eu fui à forra. Chegara então a minha vez. Eu havia comprado na véspera do Natal uma garrafa de Stella Artois grande que não foi consumida. Como obviamente não a levaria de volta para o Brasil e também não queria deixar para o hotel, retornei ao mercado dos chineses (o mesmo onde me dei conta do furto e onde havia comprado a cerveja) e propus trocar por uma razoável garrafa de vinho (que poderia trazer) pagando a diferença. Ao tentar explicar, em portunhol, aos dois chinas que me olhavam como se eu fosse um golpista, que ainda por cima eles não entendiam bem, que comprara lá mas não tinha mais a nota, Sylvia e Júlio se afastaram envergonhados. Um impasse no caixa e no balcão estava formado e tudo parou. A fila começou a ficar impaciente. Um cliente chegou a desistir e sair do mercado. O china chefe, percebendo que eu não iria arredar o pé enquanto não conseguisse efetuar o diabo da troca, jogou a toalha e, como quem enxota um vira-lata, topou só para se ver livre de mim. Mas saí da loja feliz da vida com o vinho branco na mão.
Logo ao chegar no hotel, a agente de turismo nos aplica as palavras decoradas destinadas aos turistas marinheiros de primeira viagem. Algumas instrucciones. Ela também determina que faremos um city tour às nove da manhã no terceiro dia. Tento resistir, mas tudo certo, vou tentar não ser tão antipático com a Sylvia e o Júlio e acordar cedo. Para finalizar lamenta que por questões de segurança todo ir e vir deve ser feito com muitos cuidados e nos alerta para não dar mole com valores, evitar notas altas para troco e, principalmente, se for andar com mochila não colocá-la nas costas e sim na frente. Tal como recomendam no metrô daqui e quase ninguém faz.
Sentindo-me o sujeito malandro carioca, vivendo em plena guerra civil, acostumado com a nem sempre fácil convivência do morro com o asfalto, apenas sorrio e digo-lhe que, infelizmente, isso não é privilégio seu. A viagem então começa. Meu primeiro dia é para sentir a cidade, sentar numa esquina e ver a vida local em movimento. Depois, no primeiro jantar, na velha churrascaria onde bato ponto sempre que venho aqui, somos atendidos por um garçom com cara de Humprey Bogart, um pouco mais maltratado, gente finíssima, River Plate até a alma. Rango e atendimento excelentes. Fim de noite, depois de um abraço no Bogart, saímos para a rua e, num cruzamento, ouço um som bonito rolando na calçada e era uma música dos Beatles, tocada e cantada em inglês bem parecido, mas com estilo bacana. Fui dar uma checada e era um gordo muito branco, de bigodes e cego. Uma figura doce. Ficamos assistindo a uma sequência de três músicas da fase mais roqueira da banda. Finalizou com Crazy a little thing called love, do Queen. Júlio deixou nossa contribuição, dada com prazer.
Não vou contar todos os passos portenhos porque até o segundo dia tudo normal, com arte, música, ótima comida e relativamente bons preços. Mas no terceiro dia, o tal dia do passeio, num miniônibus com guia turístico espirituoso e turistas robotizados (mas que mesmo assim valeu a pena fazer – é bom para ter uma noção rudimentar do espaçamento geográfico da cidade, como num curso intensivo de algumas horas), no terceiro dia, não. Depois do passeio fomos dar uma caminhada que terminou pela rua Florida, a rua da brasileiros que vão furiosos às compras e dos chatos que oferecem insistentemente câmbio, casacos de couro e shows de tango. Pois eu, malandro que sou, desdenhador das recomendações, saí com a minha mochila na posição normal, nas costas. Ao voltar para o hotel, paramos num mercado perto para umas coisas básicas e ao pagar a conta dei por falta da minha carteira. Lembro-me que antes do mercado, eu passara numa loja de vinhos e ainda estava com a carteira. Portanto o furto tinha acontecido havia poucos instantes de quando me dei conta dele. Logicamente fiquei arrasado, me ver sem o dinheiro (a maior parte do pouco que tinha em espécie ficara no hotel) foi o de menos, mas sem os documentos e o cartão de crédito numa viagem é fatal.
Porém mal deu tempo de me considerar o último dos seres e compor um tango. Ao retornar ao hotel já havia um recado de que a carteira havia sido achada. Claro que sem o dinheiro, mas com todos os documentos, inclusive o cartão. Foi como se eu tivesse ganhado na loteria. O ladrão era só um punguista barato. Não quis (ou não sabia) fazer uso de um crédito virtual que certamente eu teria dificuldade para pagar. Ainda bem. Como diria a agente de viagens, dos males o menor.
Tive ainda mais exemplos da pequena falsa malandragem do ser humano. Como o do vendedor da lojinha do Malba, um belíssimo museu, que tentou esconder rápido na embalagem que a camisa com uma máquina de escrever feita com escritos de Jack Kerouac que adorei estava rasgada. Ou do taxista nazista (“Tem que jogar bomba na favela!”) que só revelou no meio do trajeto, como quem não quer nada, que o shopping onde iríamos assistir a um filme num dia de natal sem nada para fazer e com quase tudo fechado, esse shopping também estava fechado. Como se alguém pudesse pegar um táxi para um shopping e o fato de ele não estar aberto não ser muito importante.
Fui testemunha também do caso da falsa malandragem do brasileiro no exterior, que acha que só porque é da mesma nacionalidade da outra pessoa pode puxar papo com alguma intimidade e ser inconveniente até não poder mais. Foi o caso do sujeito que tivemos o desprazer de conhecer numa volta à velha churrascaria, no penúltimo dia da viagem. “Ei, ei... o quê que é bom aqui?” “Esse cardápio tinha que ter também em português, né, mas eles são metidos a ingleses!.” “Ô botafoguense... (para o Júlio, que estava com a camisa do alvinegro) que sobremesa é essa aí?” Como já tínhamos comido, era a hora de cair fora. Mas tive uma dúvida na conta e perguntei ao garçom. Depois de esclarecimento, enquanto me levantava, o sujeito, quase com prazer, ainda tentou: “Eles erraram a conta, é?” Devo dizer ainda que fomos com a expectativa de reencontrar o garçom simpatissíssimo e ele estava lá, mas dessa vez atendia do outro lado e mal nos deu uma olhada. (Para não ser injusto, no final ele sorriu para mim e acenou. Bogart era um tímido.)
Bem, no último dia de viagem eu fui à forra. Chegara então a minha vez. Eu havia comprado na véspera do Natal uma garrafa de Stella Artois grande que não foi consumida. Como obviamente não a levaria de volta para o Brasil e também não queria deixar para o hotel, retornei ao mercado dos chineses (o mesmo onde me dei conta do furto e onde havia comprado a cerveja) e propus trocar por uma razoável garrafa de vinho (que poderia trazer) pagando a diferença. Ao tentar explicar, em portunhol, aos dois chinas que me olhavam como se eu fosse um golpista, que ainda por cima eles não entendiam bem, que comprara lá mas não tinha mais a nota, Sylvia e Júlio se afastaram envergonhados. Um impasse no caixa e no balcão estava formado e tudo parou. A fila começou a ficar impaciente. Um cliente chegou a desistir e sair do mercado. O china chefe, percebendo que eu não iria arredar o pé enquanto não conseguisse efetuar o diabo da troca, jogou a toalha e, como quem enxota um vira-lata, topou só para se ver livre de mim. Mas saí da loja feliz da vida com o vinho branco na mão.
Assinar:
Postagens (Atom)