DE BAR EM BAR - Nova Capela
O tempo mudou radicalmente hoje. De dias bonitos e iluminados (a luz de maio é deslumbrante) passamos à chuva e ao frio (sim, você que é de fora: faz frio também no Rio, apesar da propaganda). Um bom pretexto para tomar um conhaque. Eis que fomos eu e S. ao Nova Capela: estava mais do que na hora de fazer uma coluna na Lapa. E o escolhido para a inauguração não poderia ser outro. Chegamos já de noite, mas num horário ainda tranquilo em se tratando do Capela, que vara as madrugadas aberto – e cheio. Hoje é sexta-feira e daqui a pouco vai fervilhar até o dia amanhecer.
O bar tem aquela aura de lugar eminentemente carioca. É, pois, o lugar do “carioca essencial”, conforme um senhor lê numa das muitas matérias de jornal emolduradas na parede (que também exibe quadros de mulheres louras, morenas, negras; há, ainda, algumas gravuras, quadros de esportes, prêmios recebidos pela casa e cartazes de cursos e shows. De um tudo). “E o Caetano, você viu?”, quer saber o mesmo senhor. “Cadê?”, sua acompanhante, excitada, já o procura com os olhos. Não, ele não está no bar. O senhor explica que, por uma força estranha, Caetano Veloso caiu do palco, em Brasília. Mas foi só um susto. (Como lhe fez bem a banda de garotos modernos e, obviamente, talentosos. Fui ver o ótimo show de lançamento do CD Zii e Zie. Caetano está leve e mais eterno do que nunca.)
Por falar em modernos, adentra o bar uma horda deles. Até então havia apenas alguns casais mais velhos e algumas duplas de amigos. Os “modernos” sentam-se numa mesa atravessada, próxima à minha bem no canto à direita. É possível identificar logo três sósias no grupo. Há o do Marcelo Tas; há um do Mike (o gordinho louro de cabelo encaracolado e óculos, filho mais jovem do Paul do programa American chopper) e, supra-sumo dos modernos, um sósia do grande Frank Zappa. Mas o que faz alguém ser “moderno” (com aspas)? Seria só o visual incomum, pretensamente criativo? Não só, caro leitor. É também a afetação, o compromisso de ser “moderno”, antenado, up-to-date. O “moderno” é o antimoderno.
Para abrir os trabalhos, eu e S. pedimos um chope e bolinhos de bacalhau. Estes vêm sensacionais: saborosos, crocantes. Para prolongar mais a estada, antes do transcendente cabrito com arroz de brócolis, cogitamos pedir umas fatias de presunto cru. Mas o preço da porção nos fez abrir pequeno debate sobre o que é felicidade. Acabamos por optar pela satisfação do singelo prazer. E Deus foi testemunha: apesar do preço salgado (ou por causa dele), estavam incrivelmente tenras e viçosas.
- Ah, Fulano é um cara maneiro. Gente fina! – diz o Mike.
- Gente fina mesmo! – e o outro estica o dedo mindinho, como que a dizer: “macérrimo”.
Como Irene, Frank Zappa ri. Fiquei na expectativa de uma boa frase, quiçá um gesto, algo que justificasse a coluna. Foi em vão. Desse mato não saiu download. Pedimos então a meia porção de cabrito, que dá perfeitamente para duas pessoas. Veio magnífica, como sempre. O Nova Capela, como o poeta, não é moderno, também é eterno. Saúde e até a próxima.
Nova Capela – Rua Mem de Sá, 96, Lapa (2252-6228)
sexta-feira, 29 de maio de 2009
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Lotado para o turno da tarde
DE BAR EM BAR - B.G. Bar
Hoje, uma sexta-feira de maio, de azul cristalino, faz uma daquelas tardes em que se tem vontade de pedir ao compromisso licença para dar um pulinho na esquina e não mais voltar. Sendo assim, é o que faço e vou ao Baixo Gávea, mais precisamente ao B.G. Bar. Se você não está ligando o nome ao boteco, é aquele que fica quase ao lado da Casa da Gávea (para quem está de frente para esta, o Braseiro está colado à direita e o B.G., próximo à esquerda). Localizou-se?
Chego no bar com a aposta furada de que ainda teria mesa livre às 15:30. Ledo engano. São apenas quatro ou cinco mesas e estão todas ocupadas pelo pessoal que trabalha ali perto e ainda almoça, ou populares que estão de bobeira mesmo. O B.G. é essencialmente um bar popular, é o mais povão entre os bares do Baixo Gávea. Mas a classe média também bate ponto, mesmo de dia, e sempre tem uma mesa da rapaziada local, juventude dourada. E hoje não é diferente: é uma mesa em constante mutação pelo entra-e-sai à direita do balcão. Aliás, aqui muito se pratica o hábito carioca do “como é que tá, tudo bem? senta aí...” Nesse trecho da Gávea é fácil encontrar conhecidos.
O bar, embora não tenha nada de mais, é um pé-sujo ajeitado. Há porções de linguiça, batata frita, bolinho de bacalhau. Nas prateleiras do balcão, sanduíches naturais já embalados. Encosto-me no balcão e fico bebendo uma Original, atento se alguma das mesas está prestes a ser desocupada. Sem chance. Olho lá para fora e até o banco público em frente está ocupado, por duas moças que trabalham no salão ali do lado, pelo vendedor de frutas ambulante e por um sósia do bom jogador João, perdão, Juan (o que virou bicho só porque levara um drible) lendo jornal. Volto-me para a mesa da rapaziada e, de lá, ouve-se essa:
- Meu irmão foi morar em São Paulo. Antes ele ficava por aqui e a gente nem se encontrava quase. Agora, tem duas semanas e já rola até saudade do moleque. Coitado, logo São Paulo! Mas trabalho é trabalho...
Certa vez, ao ser perguntado sobre o lugar mais estranho onde fizera amor, o humorista Bussunda respondeu na lata: “São Paulo.” Nelson Rodrigues (quem tem lido a coluna pode perceber ultimamente seu lugar quase cativo por aqui) escrevia que “a pior solidão é a companhia de um paulista” (magnífico. O humor não pode ter limites – se não, não é humor). Mas, preferências à parte (e eu sou carioca, pô!), trata-se, claro, de brincadeiras com o preconceito (ou com a rivalidade entre Rio e São Paulo).
Começa a escurecer. Consigo, enfim, um espaço – mas no banquinho público em frente. De lá posso observar melhor o B.G. Decido não comer nada, vou só na cervejinha e logo dá vontade de você sabe o quê (o reservado, posso garantir, é surpreendentemente limpo, ganha até de outros mais famosos). Quando volto ao meu lugar no banco, vejo a cena de duas belíssimas negonas se beijando na rua justo em frente ao bar. O povo só falta aplaudir. A noite de sexta-feira pede passagem. Daqui a pouco o Baixo Gávea será outro. O B.G. Bar também. Saúde e até a próxima.
B.G. Bar – Praça Santos Dumont 126-B, Gávea (2512-0761)
Hoje, uma sexta-feira de maio, de azul cristalino, faz uma daquelas tardes em que se tem vontade de pedir ao compromisso licença para dar um pulinho na esquina e não mais voltar. Sendo assim, é o que faço e vou ao Baixo Gávea, mais precisamente ao B.G. Bar. Se você não está ligando o nome ao boteco, é aquele que fica quase ao lado da Casa da Gávea (para quem está de frente para esta, o Braseiro está colado à direita e o B.G., próximo à esquerda). Localizou-se?
Chego no bar com a aposta furada de que ainda teria mesa livre às 15:30. Ledo engano. São apenas quatro ou cinco mesas e estão todas ocupadas pelo pessoal que trabalha ali perto e ainda almoça, ou populares que estão de bobeira mesmo. O B.G. é essencialmente um bar popular, é o mais povão entre os bares do Baixo Gávea. Mas a classe média também bate ponto, mesmo de dia, e sempre tem uma mesa da rapaziada local, juventude dourada. E hoje não é diferente: é uma mesa em constante mutação pelo entra-e-sai à direita do balcão. Aliás, aqui muito se pratica o hábito carioca do “como é que tá, tudo bem? senta aí...” Nesse trecho da Gávea é fácil encontrar conhecidos.
O bar, embora não tenha nada de mais, é um pé-sujo ajeitado. Há porções de linguiça, batata frita, bolinho de bacalhau. Nas prateleiras do balcão, sanduíches naturais já embalados. Encosto-me no balcão e fico bebendo uma Original, atento se alguma das mesas está prestes a ser desocupada. Sem chance. Olho lá para fora e até o banco público em frente está ocupado, por duas moças que trabalham no salão ali do lado, pelo vendedor de frutas ambulante e por um sósia do bom jogador João, perdão, Juan (o que virou bicho só porque levara um drible) lendo jornal. Volto-me para a mesa da rapaziada e, de lá, ouve-se essa:
- Meu irmão foi morar em São Paulo. Antes ele ficava por aqui e a gente nem se encontrava quase. Agora, tem duas semanas e já rola até saudade do moleque. Coitado, logo São Paulo! Mas trabalho é trabalho...
Certa vez, ao ser perguntado sobre o lugar mais estranho onde fizera amor, o humorista Bussunda respondeu na lata: “São Paulo.” Nelson Rodrigues (quem tem lido a coluna pode perceber ultimamente seu lugar quase cativo por aqui) escrevia que “a pior solidão é a companhia de um paulista” (magnífico. O humor não pode ter limites – se não, não é humor). Mas, preferências à parte (e eu sou carioca, pô!), trata-se, claro, de brincadeiras com o preconceito (ou com a rivalidade entre Rio e São Paulo).
Começa a escurecer. Consigo, enfim, um espaço – mas no banquinho público em frente. De lá posso observar melhor o B.G. Decido não comer nada, vou só na cervejinha e logo dá vontade de você sabe o quê (o reservado, posso garantir, é surpreendentemente limpo, ganha até de outros mais famosos). Quando volto ao meu lugar no banco, vejo a cena de duas belíssimas negonas se beijando na rua justo em frente ao bar. O povo só falta aplaudir. A noite de sexta-feira pede passagem. Daqui a pouco o Baixo Gávea será outro. O B.G. Bar também. Saúde e até a próxima.
B.G. Bar – Praça Santos Dumont 126-B, Gávea (2512-0761)
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Holandesas e belgas na varanda
DE BAR EM BAR - Buena Vida Social Clube
Fui numa tarde ensolarada ao bar num shopping a céu aberto. Pensei que estaria vazio (um bar de cervejas importadas às quatro da tarde de uma segunda-feira?). Que nada. Havia, sim, um bom movimento na aprazível varanda do Buena Vida Social Clube. Não sou muito acostumado com o peculiar público da Barra, portanto tudo é uma festa para os olhos. Pego logo uma mesa encostada na janela, de onde se pode ver um pequeno jardim. Na parte interna do bar, um balcão, algumas mesas, e nas paredes os tradicionais pôsteres de cervejas, mas em número e diversidade muito interessantes. Dá para ficar um tempo viajando nas marcas, rótulos, nacionalidades.
Para começar os trabalhos, peço uma caldereta de Stella Artois. Vem num copo de tamanho normal. Quando chamo o garçom ele me explica que saiu errado no cardápio. Só tem chope na tulipa, tanto o da Stella quanto o da Brahma. Sei. Observo uma mesa ao lado e noto que dois homens bebem cervejas diferentes, num balde com gelo. Antes de entrar nesse terreno, peço uma meia porção de croquetes de carne. Vêm assim, assim, sem muita emoção, quase pálidos (mas a mostarda estava ótima).
Vamos, então, ao que interessa: o cardápio de cervejas. É realmente especial. Tem cervejas holandesas, belgas, alemãs, japonesas e outras, todas com as respectivas descrições de coloração, sabores, teores alcoólicos. Uma alegria para os cada vez mais numerosos bebedores de cervejas diferentes, que curtem as variações, apreciando mais qualidade do que quantidades cavalares (mas, dependendo da ocasião, esta hipótese pode ter um inestimável valor...) O fato é que se pode beber muito bem no Buena Vida Social Clube. Basta ter dindim. Uma Duvel, por exemplo, uma de minhas favoritas, custa R$ 24, 50. Há também cervejas de 98 reais, a holandesa La Trappe Quadrupel, com seus 10 % de teor alcoólico.
Como o meu orçamento é mais modesto, arranjo-me com uma das promoções da casa. Um balde, em torno de 38 reais, contendo três marcas: a Lowembrau, a Franziskaner Weiss, e duas Leffe, a Blonde e a Brune. Sou atendido pelo mesmo garçom que trouxe a caldereta que é tulipa. Sem mais nem menos, ele escolhe a que vou tomar primeiro, a Lowembrau. Pergunto-lhe, como quem não quer nada, se há uma ordem certa para a degustação (em copos especiais). Ele diz que sim, o sabichão, mas sem muita simpatia. É boa a Lowembrau. Melhor ainda a Franz Weiss, a segunda na sequência. As outras duas, da Leffe, já conhecia e também gosto.
Peço o cardápio para comer outra coisa e agora vem um outro garçom. Constrangido, ele pede desculpas e explica que a cozinha está com problemas e não pode sair o espetinho misto (carne, frango e linguiça). Já gostei dele. Peço em seguida os mexilhões com fritas. Ele, muito tímido, se contorce todo, pois também não pode ser. Fechamos então nos anéis de lula, que vieram sem nada de mais. Ainda tomei uma última caldereta que é tulipa. Entre o garçom sabichão e o constrangido, este ganhou longe. Saúde e até a próxima.
Buena Vida Social Clube – Downtown, Av. das Américas, 500, bloco 9, loja 119, Barra da Tijuca (3251-5424)
Fui numa tarde ensolarada ao bar num shopping a céu aberto. Pensei que estaria vazio (um bar de cervejas importadas às quatro da tarde de uma segunda-feira?). Que nada. Havia, sim, um bom movimento na aprazível varanda do Buena Vida Social Clube. Não sou muito acostumado com o peculiar público da Barra, portanto tudo é uma festa para os olhos. Pego logo uma mesa encostada na janela, de onde se pode ver um pequeno jardim. Na parte interna do bar, um balcão, algumas mesas, e nas paredes os tradicionais pôsteres de cervejas, mas em número e diversidade muito interessantes. Dá para ficar um tempo viajando nas marcas, rótulos, nacionalidades.
Para começar os trabalhos, peço uma caldereta de Stella Artois. Vem num copo de tamanho normal. Quando chamo o garçom ele me explica que saiu errado no cardápio. Só tem chope na tulipa, tanto o da Stella quanto o da Brahma. Sei. Observo uma mesa ao lado e noto que dois homens bebem cervejas diferentes, num balde com gelo. Antes de entrar nesse terreno, peço uma meia porção de croquetes de carne. Vêm assim, assim, sem muita emoção, quase pálidos (mas a mostarda estava ótima).
Vamos, então, ao que interessa: o cardápio de cervejas. É realmente especial. Tem cervejas holandesas, belgas, alemãs, japonesas e outras, todas com as respectivas descrições de coloração, sabores, teores alcoólicos. Uma alegria para os cada vez mais numerosos bebedores de cervejas diferentes, que curtem as variações, apreciando mais qualidade do que quantidades cavalares (mas, dependendo da ocasião, esta hipótese pode ter um inestimável valor...) O fato é que se pode beber muito bem no Buena Vida Social Clube. Basta ter dindim. Uma Duvel, por exemplo, uma de minhas favoritas, custa R$ 24, 50. Há também cervejas de 98 reais, a holandesa La Trappe Quadrupel, com seus 10 % de teor alcoólico.
Como o meu orçamento é mais modesto, arranjo-me com uma das promoções da casa. Um balde, em torno de 38 reais, contendo três marcas: a Lowembrau, a Franziskaner Weiss, e duas Leffe, a Blonde e a Brune. Sou atendido pelo mesmo garçom que trouxe a caldereta que é tulipa. Sem mais nem menos, ele escolhe a que vou tomar primeiro, a Lowembrau. Pergunto-lhe, como quem não quer nada, se há uma ordem certa para a degustação (em copos especiais). Ele diz que sim, o sabichão, mas sem muita simpatia. É boa a Lowembrau. Melhor ainda a Franz Weiss, a segunda na sequência. As outras duas, da Leffe, já conhecia e também gosto.
Peço o cardápio para comer outra coisa e agora vem um outro garçom. Constrangido, ele pede desculpas e explica que a cozinha está com problemas e não pode sair o espetinho misto (carne, frango e linguiça). Já gostei dele. Peço em seguida os mexilhões com fritas. Ele, muito tímido, se contorce todo, pois também não pode ser. Fechamos então nos anéis de lula, que vieram sem nada de mais. Ainda tomei uma última caldereta que é tulipa. Entre o garçom sabichão e o constrangido, este ganhou longe. Saúde e até a próxima.
Buena Vida Social Clube – Downtown, Av. das Américas, 500, bloco 9, loja 119, Barra da Tijuca (3251-5424)
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Cachacinha, rock e blues
DE BAR EM BAR - OsBar
Primeiro foi meu consultor para bares no Centro e arredores, Marcus André, o vulgo Dudu. Depois foi o amigo ecologista (e emérito contador de casos) Ivan Sá Earp Silva. Bem, ambos me indicaram o lugar. Dudu me falou de um boteco perto de seu trabalho que serve pratos do dia como frango ensopado, dobradinha e rabada excelentes, ao som de rock e blues. O dono e cozinheiro, “um velho hippie de bandana” também atende no balcão. Sempre cheio para almoço, com engravatados ouvindo Janis Joplin; de noitinha, bar com cerveja Serra Malte e tudo. Eu queria ver isso. Até que fui esses dias com ele ao OsBar. OsBar porque é o bar do gaúcho Osmar, uma figura – parece de fato saído de algum filme, Easy Rider talvez (como que Osmar fosse o companheiro de viagem de Peter Fonda).
Mesmo com o tal trocadilho ou quem sabe também por causa dele (aliás, referendado numa pesquisa entre os frequentadores), OsBar é sensacional. Diria até que depois de 15 minutos rola a certeza de que o nome está perfeito. Pequeno, acolhedor, bem cuidado. O bar se limita a um grande balcão verde e banquinhos ao seu redor de um lado. Do outro, o Osmar e alguns poucos funcionários. No fundo, a cozinha. Nas prateleiras, uísque e cachaça de qualidade. Cachaças como Germana, Bento Velho, Providência, Salinas, Lua Cheia. Entre as cervejas, a ótima (e ainda difícil de ser encontrada) Serra Malte, Brahma Extra, Original. Nas caixas de som, um rock & blues realmente de primeira. E o melhor: nada óbvio. Tomamos cerveja e vibramos com o som. E já não estávamos sozinhos. Cinco e pouco da tarde, muito em pouco tempo o bar iria encher.
Como nas últimas semanas não se falou em outra coisa na cidade, dois amigos botafoguenses conversam sobre o futebol. “Aquele lance no primeiro jogo da final contra o Flamengo em que os nossos dois melhores jogadores, Reinaldo e Maicosuel, se machucaram na mesma jogada e, mais, sem nenhuma falta, aquilo ali acabou com a gente. Pareceu até coisa do Sobrenatural de Almeida.” O outro, naturalmente, concorda. Depois de alguns comentários – que endosso por completo – sobre a falta que Nelson Rodrigues faz para o futebol, para a literatura, e para a consciência crítica do brasileiro, os amigos se dedicam, ainda no tema futebol, a uma deliciosa e inútil questão: teria Ronaldo Fenômeno lugar na seleção de 70? (A meu ver, claro. Mas talvez no banco. Quem ia sair: o Tostão?).
Sabe-se perfeitamente que tais questões filosóficas e insolúveis dão fome. Peço um sanduíche de carne assada e tenho a confirmação de por que o bar está muito bem na foto. Não satisfeito, observo nas prateleiras vidros com belos palmitos, amazônicos, abundantes. Pergunto ao Osbar, perdão, ao Osmar se são para comer como aperitivo. “Pode ser também. É pra já.” Eu e meu consultor passamos então para a cachacinha. Sem dúvida, o OsBar é um botequim com a alma leve. Seu dono, que já abriu filial, também no Centro, imprimiu sua personalidade e aí está o resultado. Voltarei em breve para provar da refeição. Saúde e até a próxima.
OsBar – Rua Senador Dantas, 75-D, Centro (2220-5910)
Primeiro foi meu consultor para bares no Centro e arredores, Marcus André, o vulgo Dudu. Depois foi o amigo ecologista (e emérito contador de casos) Ivan Sá Earp Silva. Bem, ambos me indicaram o lugar. Dudu me falou de um boteco perto de seu trabalho que serve pratos do dia como frango ensopado, dobradinha e rabada excelentes, ao som de rock e blues. O dono e cozinheiro, “um velho hippie de bandana” também atende no balcão. Sempre cheio para almoço, com engravatados ouvindo Janis Joplin; de noitinha, bar com cerveja Serra Malte e tudo. Eu queria ver isso. Até que fui esses dias com ele ao OsBar. OsBar porque é o bar do gaúcho Osmar, uma figura – parece de fato saído de algum filme, Easy Rider talvez (como que Osmar fosse o companheiro de viagem de Peter Fonda).
Mesmo com o tal trocadilho ou quem sabe também por causa dele (aliás, referendado numa pesquisa entre os frequentadores), OsBar é sensacional. Diria até que depois de 15 minutos rola a certeza de que o nome está perfeito. Pequeno, acolhedor, bem cuidado. O bar se limita a um grande balcão verde e banquinhos ao seu redor de um lado. Do outro, o Osmar e alguns poucos funcionários. No fundo, a cozinha. Nas prateleiras, uísque e cachaça de qualidade. Cachaças como Germana, Bento Velho, Providência, Salinas, Lua Cheia. Entre as cervejas, a ótima (e ainda difícil de ser encontrada) Serra Malte, Brahma Extra, Original. Nas caixas de som, um rock & blues realmente de primeira. E o melhor: nada óbvio. Tomamos cerveja e vibramos com o som. E já não estávamos sozinhos. Cinco e pouco da tarde, muito em pouco tempo o bar iria encher.
Como nas últimas semanas não se falou em outra coisa na cidade, dois amigos botafoguenses conversam sobre o futebol. “Aquele lance no primeiro jogo da final contra o Flamengo em que os nossos dois melhores jogadores, Reinaldo e Maicosuel, se machucaram na mesma jogada e, mais, sem nenhuma falta, aquilo ali acabou com a gente. Pareceu até coisa do Sobrenatural de Almeida.” O outro, naturalmente, concorda. Depois de alguns comentários – que endosso por completo – sobre a falta que Nelson Rodrigues faz para o futebol, para a literatura, e para a consciência crítica do brasileiro, os amigos se dedicam, ainda no tema futebol, a uma deliciosa e inútil questão: teria Ronaldo Fenômeno lugar na seleção de 70? (A meu ver, claro. Mas talvez no banco. Quem ia sair: o Tostão?).
Sabe-se perfeitamente que tais questões filosóficas e insolúveis dão fome. Peço um sanduíche de carne assada e tenho a confirmação de por que o bar está muito bem na foto. Não satisfeito, observo nas prateleiras vidros com belos palmitos, amazônicos, abundantes. Pergunto ao Osbar, perdão, ao Osmar se são para comer como aperitivo. “Pode ser também. É pra já.” Eu e meu consultor passamos então para a cachacinha. Sem dúvida, o OsBar é um botequim com a alma leve. Seu dono, que já abriu filial, também no Centro, imprimiu sua personalidade e aí está o resultado. Voltarei em breve para provar da refeição. Saúde e até a próxima.
OsBar – Rua Senador Dantas, 75-D, Centro (2220-5910)
sexta-feira, 1 de maio de 2009
Referências de sorrisos largos
DE BAR EM BAR - Chico & Alaíde
Alguns dias atrás, fui conhecer o Bar Chico & Alaíde, a nova sensação do Leblon. Tive a ilusão de que chegando naquele meu horário, no fim de tarde, seria tranquilo pegar uma mesa e observar tudo em volta. Que nada. O bar já estava bombando. Encontro logo o Chico, atrás do balcão, comandando a serpentina de chope. Como se sabe, o Chico foi garçom do Bracarense por mais de uma década. Lá, era aquele tipo simpático que atrai frequentadores para a casa, é citado nos jornais e fica famoso. Daí vira referência (com a Alaíde deu-se a mesma coisa).
Chico me recebe com seu sorriso largo. Depois ele me apresenta a Alaíde, que vem da cozinha toda paramentada. Deliciei-me durante muitos anos com os bolinhos de aipim com camarão, a carne-seca com farofa e o caldinho de feijão feitos pela Alaíde no Braca, mas nunca a tinha visto. Ela tem presença, é calma, elegante. A dupla realmente está bem formada.
Enquanto não consigo mesa, fico bebendo um primeiro chope em pé na pequena parte interna em frente ao balcão. Ali faz muito calor, mas já posso ir esquadrinhando o bar. Sem esforço localizo logo pessoas conhecidas: a Luciana, amiga do meu parceiro Roberto Frejat, o compositor Fernando Brant (com seus óculos característicos, um Ray-Ban com lente de grau) e até o Cambraia Neto, personagem de uma coluna anterior. Vejam vocês.
É interessante notar que o Chico & Alaíde possui uma semelhança estrutural com o Jobi – não por acaso, o projeto arquitetônico foi feito pelo mesmo Chicô Gouveia. Confesso que não me incomodou o fato, pelo contrário, há um lado aconchegante neste formato de bar. Mas principalmente porque a decoração é outra, a iluminação e – apesar do pouco tempo – o clima também. Essa é que é a graça dos bares do Leblon. Cada um (dos que valem a pena e não são poucos) tem a sua onda específica. Consigo, enfim, uma mesa de canto e me aboleto com o cotovelo no cercado do bar.
- Era um eterno encaixe. Mas tudo bem. Meses depois, Deus chegou pra mim e disse: “Vai!...” e me liberou de ficar sofrendo daquele jeito.
- Ah, eu não! Tem horas em que eu fico descontrolada! Eu preciso muito daquilo, entendeu? Mas passa rápido.
As duas amigas, trinta e poucos anos, não tão belas, estão animadíssimas. Falam alto, riem, o álcool já bateu. Estão se divertindo muito. Aproveito o garçom por perto e peço mais um chope e a novidade da casa: o totivendo de camarão, uma espécie de escondidinho mais explícito, digamos assim. É sensacional, saboroso, consistente. Olho para o lado e observo um casal de velhos traçando um prato cinematográfico. Pergunto ao mesmo garçom do que se trata: é a fritada de camarão. No embalo, pedi três acepipes que ainda não estavam, infelizmente, em fase de produção: o croquete de palmito, a trouxinha de salmão e o caldinho de frutos do mar. Contento-me com a maravilha de camarão. Maravilhosa. Ouvi dizer que aqui é o Braca do B. Bobagem. Não é preciso ser vidente para prever que o Chico & Alaíde terá sucesso a longo prazo. Não se esgotará na novidade. Saúde e até a próxima.
Chico & Alaíde – Rua Dias Ferreira 179, Leblon (2512-0028)
Alguns dias atrás, fui conhecer o Bar Chico & Alaíde, a nova sensação do Leblon. Tive a ilusão de que chegando naquele meu horário, no fim de tarde, seria tranquilo pegar uma mesa e observar tudo em volta. Que nada. O bar já estava bombando. Encontro logo o Chico, atrás do balcão, comandando a serpentina de chope. Como se sabe, o Chico foi garçom do Bracarense por mais de uma década. Lá, era aquele tipo simpático que atrai frequentadores para a casa, é citado nos jornais e fica famoso. Daí vira referência (com a Alaíde deu-se a mesma coisa).
Chico me recebe com seu sorriso largo. Depois ele me apresenta a Alaíde, que vem da cozinha toda paramentada. Deliciei-me durante muitos anos com os bolinhos de aipim com camarão, a carne-seca com farofa e o caldinho de feijão feitos pela Alaíde no Braca, mas nunca a tinha visto. Ela tem presença, é calma, elegante. A dupla realmente está bem formada.
Enquanto não consigo mesa, fico bebendo um primeiro chope em pé na pequena parte interna em frente ao balcão. Ali faz muito calor, mas já posso ir esquadrinhando o bar. Sem esforço localizo logo pessoas conhecidas: a Luciana, amiga do meu parceiro Roberto Frejat, o compositor Fernando Brant (com seus óculos característicos, um Ray-Ban com lente de grau) e até o Cambraia Neto, personagem de uma coluna anterior. Vejam vocês.
É interessante notar que o Chico & Alaíde possui uma semelhança estrutural com o Jobi – não por acaso, o projeto arquitetônico foi feito pelo mesmo Chicô Gouveia. Confesso que não me incomodou o fato, pelo contrário, há um lado aconchegante neste formato de bar. Mas principalmente porque a decoração é outra, a iluminação e – apesar do pouco tempo – o clima também. Essa é que é a graça dos bares do Leblon. Cada um (dos que valem a pena e não são poucos) tem a sua onda específica. Consigo, enfim, uma mesa de canto e me aboleto com o cotovelo no cercado do bar.
- Era um eterno encaixe. Mas tudo bem. Meses depois, Deus chegou pra mim e disse: “Vai!...” e me liberou de ficar sofrendo daquele jeito.
- Ah, eu não! Tem horas em que eu fico descontrolada! Eu preciso muito daquilo, entendeu? Mas passa rápido.
As duas amigas, trinta e poucos anos, não tão belas, estão animadíssimas. Falam alto, riem, o álcool já bateu. Estão se divertindo muito. Aproveito o garçom por perto e peço mais um chope e a novidade da casa: o totivendo de camarão, uma espécie de escondidinho mais explícito, digamos assim. É sensacional, saboroso, consistente. Olho para o lado e observo um casal de velhos traçando um prato cinematográfico. Pergunto ao mesmo garçom do que se trata: é a fritada de camarão. No embalo, pedi três acepipes que ainda não estavam, infelizmente, em fase de produção: o croquete de palmito, a trouxinha de salmão e o caldinho de frutos do mar. Contento-me com a maravilha de camarão. Maravilhosa. Ouvi dizer que aqui é o Braca do B. Bobagem. Não é preciso ser vidente para prever que o Chico & Alaíde terá sucesso a longo prazo. Não se esgotará na novidade. Saúde e até a próxima.
Chico & Alaíde – Rua Dias Ferreira 179, Leblon (2512-0028)
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Quarentão que ainda se cuida
DE BAR EM BAR - Petisco da Vila
Fica num bairro pelo qual tenho a maior simpatia: o bairro de Noel, do Martinho, da Martn’ália. O boteco comemorou recentemente 40 anos. (É engraçado; trata-se de um bar tradicional, bastante conhecido – por isso pensei que tivesse idade mais avançada. Quem diria, é mais jovem que eu). Estou falando, naturalmente, do Petisco da Vila, na 28 de Setembro, via que tem, em suas calçadas de pedras portuguesas, desenhos de notas musicais. Isso é bonito.
Faz uma tarde chuvosa. O que não é motivo para que as calçadas do boulevard não estejam apinhadas. Vila Isabel é célebre por suas belas mulheres. Brancas, amarelas, mulatas, negras, azuis... Pude comprovar, sentado na varanda do Petisco, numa mesinha de frente para a rua Visconde de Abaeté, que faz esquina com a 28 de Setembro. Há uma TV passando um sonolento Fluminense X Boavista para ninguém. Na parte interna do bar, algumas pessoas ainda almoçam o buffet a quilo. Na continuação do salão, indo em direção aos banheiros, há uma entrevista sendo gravada naquele momento. Por deficiência minha, não reconheço de início quem responde, mas fico logo sabendo que é a Fátima Guedes, cantora e compositora importante da chamada MPB.
Peço ao simpático garçom, um senhor baixinho de cabelos bem pretos, um chopinho na meia pressão para começar. Chega um casal e senta-se à mesa na minha frente. É uma loura e um negão. Ela, feia e irritada, fala alto e pede (manda) que o negão vá comprar cigarros no pé-sujo em frente. Parecem casados. Ela bebe chope e o negão, suco de laranja. A loura marrenta acalmou. A conversa deles decididamente não é interessante. Apenas providências práticas. Mudo para a cerveja Bohemia e peço um caldinho de siri.
Observo no cardápio que por conta da comemoração de 40 anos foram resgatados acepipes que fizeram a história da casa: moela de faisão, paio no feijão manteiga, ovo colorido, joelho de porco, fígado de galinha. Fica até difícil decidir o que pedir depois do caldinho, que veio excelente. Eis que surge no bar, por coincidência, um outro casal loura & negão. Ela, de vestido florido de alça, é uma mulher bonita e enigmática, e o negão, pura simpatia. Conversam a uma certa distância; beijo nem pensar. Ele pede logo um balde com várias cervejas.
- Eu começo a me sentir culpado. Será que eu não tentei?
A loura enigmática nada responde. Apenas toma um gole de seu drinque, um dry martini. Ele continua:
- A nossa última vez em Arraial foi doideira! Mas naquele lance eu que dei mole. Na hora da crise, me falaram: não se afasta da família. Eu disse pra ela: “Não vai haver próxima vez... Não vai... Pode acreditar em mim.”
- Você é uma pessoa suspeita.
A amante, quer dizer... a loura, ela come a azeitona do seu drinque. Da minha parte, decido-me pelo paio cozido com feijão manteiga. Estava sensacional. Peço a saideira antes de tomar o caminho de casa. O Petisco da Vila, repaginado aos 40, não é dos que se fiam na tradição e acabam relaxando no corpinho, no serviço ou na qualidade dos produtos. Ainda bem. Saúde e até a próxima.
Petisco da Vila – Rua 28 de Setembro 238, Vila Isabel (2576-5652)
Fica num bairro pelo qual tenho a maior simpatia: o bairro de Noel, do Martinho, da Martn’ália. O boteco comemorou recentemente 40 anos. (É engraçado; trata-se de um bar tradicional, bastante conhecido – por isso pensei que tivesse idade mais avançada. Quem diria, é mais jovem que eu). Estou falando, naturalmente, do Petisco da Vila, na 28 de Setembro, via que tem, em suas calçadas de pedras portuguesas, desenhos de notas musicais. Isso é bonito.
Faz uma tarde chuvosa. O que não é motivo para que as calçadas do boulevard não estejam apinhadas. Vila Isabel é célebre por suas belas mulheres. Brancas, amarelas, mulatas, negras, azuis... Pude comprovar, sentado na varanda do Petisco, numa mesinha de frente para a rua Visconde de Abaeté, que faz esquina com a 28 de Setembro. Há uma TV passando um sonolento Fluminense X Boavista para ninguém. Na parte interna do bar, algumas pessoas ainda almoçam o buffet a quilo. Na continuação do salão, indo em direção aos banheiros, há uma entrevista sendo gravada naquele momento. Por deficiência minha, não reconheço de início quem responde, mas fico logo sabendo que é a Fátima Guedes, cantora e compositora importante da chamada MPB.
Peço ao simpático garçom, um senhor baixinho de cabelos bem pretos, um chopinho na meia pressão para começar. Chega um casal e senta-se à mesa na minha frente. É uma loura e um negão. Ela, feia e irritada, fala alto e pede (manda) que o negão vá comprar cigarros no pé-sujo em frente. Parecem casados. Ela bebe chope e o negão, suco de laranja. A loura marrenta acalmou. A conversa deles decididamente não é interessante. Apenas providências práticas. Mudo para a cerveja Bohemia e peço um caldinho de siri.
Observo no cardápio que por conta da comemoração de 40 anos foram resgatados acepipes que fizeram a história da casa: moela de faisão, paio no feijão manteiga, ovo colorido, joelho de porco, fígado de galinha. Fica até difícil decidir o que pedir depois do caldinho, que veio excelente. Eis que surge no bar, por coincidência, um outro casal loura & negão. Ela, de vestido florido de alça, é uma mulher bonita e enigmática, e o negão, pura simpatia. Conversam a uma certa distância; beijo nem pensar. Ele pede logo um balde com várias cervejas.
- Eu começo a me sentir culpado. Será que eu não tentei?
A loura enigmática nada responde. Apenas toma um gole de seu drinque, um dry martini. Ele continua:
- A nossa última vez em Arraial foi doideira! Mas naquele lance eu que dei mole. Na hora da crise, me falaram: não se afasta da família. Eu disse pra ela: “Não vai haver próxima vez... Não vai... Pode acreditar em mim.”
- Você é uma pessoa suspeita.
A amante, quer dizer... a loura, ela come a azeitona do seu drinque. Da minha parte, decido-me pelo paio cozido com feijão manteiga. Estava sensacional. Peço a saideira antes de tomar o caminho de casa. O Petisco da Vila, repaginado aos 40, não é dos que se fiam na tradição e acabam relaxando no corpinho, no serviço ou na qualidade dos produtos. Ainda bem. Saúde e até a próxima.
Petisco da Vila – Rua 28 de Setembro 238, Vila Isabel (2576-5652)
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Chope novo no Luiz de sempre
DE BAR EM BAR - Bar Luiz
Uma leitora reclama que tenho me esquecido do lirismo e só fico ouvindo a conversa alheia. (Verdade, eu confesso. Aliás, nem tanto.) É a vida no bar que pulsa, e ao cronista cabe observar o que se passa ao redor. Diálogos e fragmentos entrecortados são a minha matéria-prima. Daí que tiro meus quase personagens, como Cambraia Neto, Sílvio Tornado, Clarice do Jóia e outros. Mas prometo na coluna de hoje não prestar atenção às mesas que gritam à minha vista como golfinhos de Miami – mas só dessa vez. Também, eu vim hoje acompanhado do Frejat. E, além do mais, estou num bar de alma exuberante. Estou falando do tradicional Bar Luiz, na rua da carioca, no centro do Rio de Janeiro, desde o ano de 1887.
Mas, antes de falar deste bar fundamental, abro um parêntese: Na ida ao centro, vale também uma visita à exposição dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como OSGEMEOS, no CCBB. É deslumbrante. Não é preciso entender – e nem mesmo frequentar – artes plásticas para curtir o trabalho. É grandioso e simples, inventivo, bom de se ver, pop na melhor acepção do termo. Ainda aproveitamos para ver um pouco da mostra do Filme Livre. Assistimos ao hilariante Como fazer um curta-metragem experimental, cult e pseudointelectual e ao belo filme da artista plástica Cláudia Hersz, Lifebuoy. Fechado o enorme parêntese cultural, vamos ao bar.
Entrar no Bar Luiz é voltar no tempo. Permanece tal como era em minha época de estudante de Direito, quando estagiava, ou enrolava, ali por perto – e já lá se vão duas décadas. Mas este bar, que é referência no estilo art-deco, não foi sempre o mesmo. O Bar Luiz já se localizou na rua da Assembléia, e já se chamou Adolfo (o nome mudou por ocasião do nazismo, e com a salvadora intervenção de Ary Barroso para conter uma turba furiosa de estudantes em protesto contra o “bar alemão”). Mas, na verdade, há uma alteração recente significativa. O chope deixou de ser da Brahma e passou a ser da Heineken e Sol (o claro) e Xingu (escuro). Sou fã do chope da Brahma, mas a troca não fez feio. Provei das três marcas e está tudo bem – como diz a música do meu parceiro Roberto Frejat, o funk Tudo de bom (com Maurício Barros e Bruno Levinson).
Frejat bebe água mineral. Como ele não encara carne vermelha, apenas eu comi do excelente salsichão com salada de batata, um clássico do Bar Luiz. Pedimos depois uma salada de bacalhau que veio divina. Leve e muito saborosa. Conversamos sobre insônia e, principalmente, sobre a importância específica da presença paterna na criação de filhos meninos, o dele, Rafael, o meu, Júlio (os dois, inclusive, já tocam guitarra juntos). Frejat pede uma torta de maçã de sobremesa. Ele precisa ir e eu fico mais um pouco.
Quero curtir um bocadinho ainda deste lugar. Tenho perto de casa uma filial do Bar Luiz, o quiosque na praia de Copacabana, que é legal, mas definitivamente nem larga com o clima da matriz no centro da cidade. É impossível sentar-se no Bar Luiz e não se sentir um carioca típico, com crachá e tudo. Peço então a saideira. Saúde e até a próxima.
Bar Luiz – Rua da Carioca, 39, Centro (2262-6900)
Uma leitora reclama que tenho me esquecido do lirismo e só fico ouvindo a conversa alheia. (Verdade, eu confesso. Aliás, nem tanto.) É a vida no bar que pulsa, e ao cronista cabe observar o que se passa ao redor. Diálogos e fragmentos entrecortados são a minha matéria-prima. Daí que tiro meus quase personagens, como Cambraia Neto, Sílvio Tornado, Clarice do Jóia e outros. Mas prometo na coluna de hoje não prestar atenção às mesas que gritam à minha vista como golfinhos de Miami – mas só dessa vez. Também, eu vim hoje acompanhado do Frejat. E, além do mais, estou num bar de alma exuberante. Estou falando do tradicional Bar Luiz, na rua da carioca, no centro do Rio de Janeiro, desde o ano de 1887.
Mas, antes de falar deste bar fundamental, abro um parêntese: Na ida ao centro, vale também uma visita à exposição dos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como OSGEMEOS, no CCBB. É deslumbrante. Não é preciso entender – e nem mesmo frequentar – artes plásticas para curtir o trabalho. É grandioso e simples, inventivo, bom de se ver, pop na melhor acepção do termo. Ainda aproveitamos para ver um pouco da mostra do Filme Livre. Assistimos ao hilariante Como fazer um curta-metragem experimental, cult e pseudointelectual e ao belo filme da artista plástica Cláudia Hersz, Lifebuoy. Fechado o enorme parêntese cultural, vamos ao bar.
Entrar no Bar Luiz é voltar no tempo. Permanece tal como era em minha época de estudante de Direito, quando estagiava, ou enrolava, ali por perto – e já lá se vão duas décadas. Mas este bar, que é referência no estilo art-deco, não foi sempre o mesmo. O Bar Luiz já se localizou na rua da Assembléia, e já se chamou Adolfo (o nome mudou por ocasião do nazismo, e com a salvadora intervenção de Ary Barroso para conter uma turba furiosa de estudantes em protesto contra o “bar alemão”). Mas, na verdade, há uma alteração recente significativa. O chope deixou de ser da Brahma e passou a ser da Heineken e Sol (o claro) e Xingu (escuro). Sou fã do chope da Brahma, mas a troca não fez feio. Provei das três marcas e está tudo bem – como diz a música do meu parceiro Roberto Frejat, o funk Tudo de bom (com Maurício Barros e Bruno Levinson).
Frejat bebe água mineral. Como ele não encara carne vermelha, apenas eu comi do excelente salsichão com salada de batata, um clássico do Bar Luiz. Pedimos depois uma salada de bacalhau que veio divina. Leve e muito saborosa. Conversamos sobre insônia e, principalmente, sobre a importância específica da presença paterna na criação de filhos meninos, o dele, Rafael, o meu, Júlio (os dois, inclusive, já tocam guitarra juntos). Frejat pede uma torta de maçã de sobremesa. Ele precisa ir e eu fico mais um pouco.
Quero curtir um bocadinho ainda deste lugar. Tenho perto de casa uma filial do Bar Luiz, o quiosque na praia de Copacabana, que é legal, mas definitivamente nem larga com o clima da matriz no centro da cidade. É impossível sentar-se no Bar Luiz e não se sentir um carioca típico, com crachá e tudo. Peço então a saideira. Saúde e até a próxima.
Bar Luiz – Rua da Carioca, 39, Centro (2262-6900)
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Fim de tarde no paraíso dos pastéis
DE BAR EM BAR - Bar do Adão
Fui dessa vez não à matriz, no Grajaú, porém à filial, em Botafogo, num casarão bonito e bem cuidado. Caía uma chuvinha fina no fim de tarde e o bar ainda estava meio vazio, esquentando para a noite. Uma ou outra mesa ocupada na parte externa, deu para escolher, tranquilamente, meu lugar no salão do pavimento térreo, perto da janela. Mas o “meio vazio” foi ledo engano. Em pouco tempo o bar lotaria. Estou falando do Bar do Adão, na rua Dona Mariana.
A primeira impressão logo é favorável. Na parte interna, há mesas e cadeiras de madeira. No térreo, em destaque, um enorme lustre art-déco. Nas paredes, onde muitas vezes está a identidade e, portanto, a alma de um bar, há pôsteres de LPs clássicos da MPB. Como “Sentinela”, de Milton Nascimento, Meus caros amigos, de Chico Buarque, Luar, de Gilberto Gil, Como dizia o poeta, de Vinícius, Toquinho e Marília Medalha, e muitos outros. Ah, tem também o Fagner de Eu canto...
Lembro-me das centenas de LPs que colecionava e me desfiz, sem espaço em casa e já sob o império do CD. Lembro-me também de uma crônica recente de Nelson Motta em que ele, como um Fukuyama pop, falou do “Fim da música”. É verdade que há uma saturação e que a maioria esmagadora do que se produz hoje, incessantemente, é lixo. Mas “Fim da música”? Continuamos a ter ótimos nomes “novos” para o mercado: Junio Barreto, Céu, Edu Krieger, Roberta Sá, Vanguart, Qinho & Os Cara, Rodrigo Maranhão, Rodrigo Bittencourt, Rodrigo Santos, são alguns deles. Mas o que interessa aqui, no Bar do Adão, é que os grandes mestres são cultuados e isto é bem agradável de se ver.
Como já disse, o bar encheu rápido. É que hoje, uma terça-feira, acontece a promoção de pastéis, o forte da casa. Qualquer um por R$ 2,30. Aliás, o Bar do Adão é o paraíso dos pastéis. (tem até o pastel “Pressão alta”, que leva aliche e alguns outros ingredientes explosivos). A casa enche de jovens e do pessoal que trabalha ali perto e vai depois do expediente. Mas um pouco antes disso, enquanto tomava o primeiro chope e pedia o primeiro pastel, de cogumelo (shitake, shimeji, e funghi secci), pude observar uma mesa de duas senhoras à minha frente. Eram duas velhas cultas, modernas, despachadas.
- A mulher não atura mais aquele homem desagradável. Isso já era. Mas ele é muito interessante.
- Eu agora peguei a mania de não depender de ninguém. Levo sempre meu jornal para a loja. Quando não é mais preciso, saio mais cedo e vou ao cinema. Aqui em Botafogo tem sempre filme bom passando.
Fico a me deliciar com a conversa das duas senhoras. Mas não dura muito. Logo elas têm que sair pois precisam pegar a oficina mecânica ainda aberta. É uma pena. São mulheres esclarecidas, abertas para o mundo, com a vantagem da experiência. Depois que elas saem, enfileiro os pastéis de palmito, o de queijo brie com damasco e o francês (camarão, alho poró e catupiry). São todos muito bons, sequinhos, com recheio generoso. E se me perguntassem: “Qual você preferiu?”. Diria sem pestanejar: “O de cogumelo.” Saúde e até a próxima.
Bar do Adão – Rua Dona Mariana, 81, Botafogo (2535-4572)
Fui dessa vez não à matriz, no Grajaú, porém à filial, em Botafogo, num casarão bonito e bem cuidado. Caía uma chuvinha fina no fim de tarde e o bar ainda estava meio vazio, esquentando para a noite. Uma ou outra mesa ocupada na parte externa, deu para escolher, tranquilamente, meu lugar no salão do pavimento térreo, perto da janela. Mas o “meio vazio” foi ledo engano. Em pouco tempo o bar lotaria. Estou falando do Bar do Adão, na rua Dona Mariana.
A primeira impressão logo é favorável. Na parte interna, há mesas e cadeiras de madeira. No térreo, em destaque, um enorme lustre art-déco. Nas paredes, onde muitas vezes está a identidade e, portanto, a alma de um bar, há pôsteres de LPs clássicos da MPB. Como “Sentinela”, de Milton Nascimento, Meus caros amigos, de Chico Buarque, Luar, de Gilberto Gil, Como dizia o poeta, de Vinícius, Toquinho e Marília Medalha, e muitos outros. Ah, tem também o Fagner de Eu canto...
Lembro-me das centenas de LPs que colecionava e me desfiz, sem espaço em casa e já sob o império do CD. Lembro-me também de uma crônica recente de Nelson Motta em que ele, como um Fukuyama pop, falou do “Fim da música”. É verdade que há uma saturação e que a maioria esmagadora do que se produz hoje, incessantemente, é lixo. Mas “Fim da música”? Continuamos a ter ótimos nomes “novos” para o mercado: Junio Barreto, Céu, Edu Krieger, Roberta Sá, Vanguart, Qinho & Os Cara, Rodrigo Maranhão, Rodrigo Bittencourt, Rodrigo Santos, são alguns deles. Mas o que interessa aqui, no Bar do Adão, é que os grandes mestres são cultuados e isto é bem agradável de se ver.
Como já disse, o bar encheu rápido. É que hoje, uma terça-feira, acontece a promoção de pastéis, o forte da casa. Qualquer um por R$ 2,30. Aliás, o Bar do Adão é o paraíso dos pastéis. (tem até o pastel “Pressão alta”, que leva aliche e alguns outros ingredientes explosivos). A casa enche de jovens e do pessoal que trabalha ali perto e vai depois do expediente. Mas um pouco antes disso, enquanto tomava o primeiro chope e pedia o primeiro pastel, de cogumelo (shitake, shimeji, e funghi secci), pude observar uma mesa de duas senhoras à minha frente. Eram duas velhas cultas, modernas, despachadas.
- A mulher não atura mais aquele homem desagradável. Isso já era. Mas ele é muito interessante.
- Eu agora peguei a mania de não depender de ninguém. Levo sempre meu jornal para a loja. Quando não é mais preciso, saio mais cedo e vou ao cinema. Aqui em Botafogo tem sempre filme bom passando.
Fico a me deliciar com a conversa das duas senhoras. Mas não dura muito. Logo elas têm que sair pois precisam pegar a oficina mecânica ainda aberta. É uma pena. São mulheres esclarecidas, abertas para o mundo, com a vantagem da experiência. Depois que elas saem, enfileiro os pastéis de palmito, o de queijo brie com damasco e o francês (camarão, alho poró e catupiry). São todos muito bons, sequinhos, com recheio generoso. E se me perguntassem: “Qual você preferiu?”. Diria sem pestanejar: “O de cogumelo.” Saúde e até a próxima.
Bar do Adão – Rua Dona Mariana, 81, Botafogo (2535-4572)
sexta-feira, 3 de abril de 2009
O recanto onde sempre é noite
DE BAR EM BAR - Gibeer
Por indicação de amigos, fui com S. ao Gibeer, na rua Lopes Quintas. O pequenino bar, de fato, é bem interessante. Abre só no fim da tarde e por isso lá é sempre noite. Em suas paredes, cartazes e bolachas de cervejas do mundo inteiro, e ainda pôsteres de histórias em quadrinhos como Asterix, Tintim e Mickey. Há, também, um reservado, uma saleta com um grande sofá de couro. O salão propriamente possui umas oito ou nove mesas e alguns banquinhos redondos em volta do balcão. A decoração é simples, despojada, elegante.
Mas acho que não dei muita sorte. Na véspera, houve uma festa na casa e, apesar da extensa carta de cervejas, o estoque disponível estava bem limitado – e um pouco salgado, digamos a verdade. Fui então de chope. Aliás, excelente, de fabricação artesanal. Bem, o bar estava, por volta de nove da noite, com apenas uma mesa ocupada, além da minha. Mas não pensem que o local estava silencioso. Pelo contrário. O som ambiente alto e o alarido da mesa ocupada por seis marmanjos impediam a paz.
- Tá de saco cheio da sua mulher? Pega a Ponte Aérea. Passa uma noite em São Paulo. Você não vai se arrepender. No dia seguinte, pega um avião de novo. E tudo certo.
A gargalhada que veio após o plano estratégico me lembrou do Bambam, grande Rodrigo Bandeira. Virei para olhar a peça e chego a levar um susto. De costas, era praticamente o meu amigo Bandeira. Gordo, baixinho, debochado. E, pelo visto, bem nascido. Essa pequena fuga para espantar o tédio conjugal, independentemente de ser machista ou não, não é para as massas, obviamente. Ao redor do gordinho sátiro, o único que estava de gravata, como a denunciar que veio direto do trabalho, espalhavam-se os amigos de camisa pólo e feições semelhantes. No que trabalharia o gordinho sátiro? Eu apostaria no mercado financeiro. De qualquer forma, ele era o comandante da mesa.
Já que nos era impossível conversar, a mim e a S., ainda que um desconfiado garçom tenha abaixado o som ambiente, peço ao mesmo e único garçom uma porção de croquete de carne para melhor acompanhar as aventuras do gordinho.
- Aquela fase foi braba. Separei pra dar um tempo à madame e aí fui morar logo com quem?... Eu chegava do trabalho e ele: “pra onde a gente vai?” A gente voltava de madrugada, bêbado, completamente louco, e eu tinha que acordar às sete. Ele, ao meio dia. Na noite seguinte era a mesma história: “pra onde a gente vai?” Meu irmão, eu até emagreci.
Todos caem na risada. O gordinho sátiro pede mais uma cerveja Norteña grande. Agora, só long neck, informa o garçom. O gordinho faz uma cara de meter medo. Eis que surgem no bar duas amigas dos rapazes, que até então estavam relaxados, na galhofa, e se transformam ao vê-las. Uma delas chega na animação total:
- E aí, vocês não vão assistir ao jogo do Flamengo? Não acredito!
Como se tivessem recebido uma ordem superior, em pouco tempo todos os seis marmanjos estavam do lado de fora já rumando para outro local. A mim e a S. só restou terminar os ótimos croquetes. Saúde e até a próxima.
Gibeer – Rua Lopes Quintas, 158, Jardim Botânico (2279-4161)
Por indicação de amigos, fui com S. ao Gibeer, na rua Lopes Quintas. O pequenino bar, de fato, é bem interessante. Abre só no fim da tarde e por isso lá é sempre noite. Em suas paredes, cartazes e bolachas de cervejas do mundo inteiro, e ainda pôsteres de histórias em quadrinhos como Asterix, Tintim e Mickey. Há, também, um reservado, uma saleta com um grande sofá de couro. O salão propriamente possui umas oito ou nove mesas e alguns banquinhos redondos em volta do balcão. A decoração é simples, despojada, elegante.
Mas acho que não dei muita sorte. Na véspera, houve uma festa na casa e, apesar da extensa carta de cervejas, o estoque disponível estava bem limitado – e um pouco salgado, digamos a verdade. Fui então de chope. Aliás, excelente, de fabricação artesanal. Bem, o bar estava, por volta de nove da noite, com apenas uma mesa ocupada, além da minha. Mas não pensem que o local estava silencioso. Pelo contrário. O som ambiente alto e o alarido da mesa ocupada por seis marmanjos impediam a paz.
- Tá de saco cheio da sua mulher? Pega a Ponte Aérea. Passa uma noite em São Paulo. Você não vai se arrepender. No dia seguinte, pega um avião de novo. E tudo certo.
A gargalhada que veio após o plano estratégico me lembrou do Bambam, grande Rodrigo Bandeira. Virei para olhar a peça e chego a levar um susto. De costas, era praticamente o meu amigo Bandeira. Gordo, baixinho, debochado. E, pelo visto, bem nascido. Essa pequena fuga para espantar o tédio conjugal, independentemente de ser machista ou não, não é para as massas, obviamente. Ao redor do gordinho sátiro, o único que estava de gravata, como a denunciar que veio direto do trabalho, espalhavam-se os amigos de camisa pólo e feições semelhantes. No que trabalharia o gordinho sátiro? Eu apostaria no mercado financeiro. De qualquer forma, ele era o comandante da mesa.
Já que nos era impossível conversar, a mim e a S., ainda que um desconfiado garçom tenha abaixado o som ambiente, peço ao mesmo e único garçom uma porção de croquete de carne para melhor acompanhar as aventuras do gordinho.
- Aquela fase foi braba. Separei pra dar um tempo à madame e aí fui morar logo com quem?... Eu chegava do trabalho e ele: “pra onde a gente vai?” A gente voltava de madrugada, bêbado, completamente louco, e eu tinha que acordar às sete. Ele, ao meio dia. Na noite seguinte era a mesma história: “pra onde a gente vai?” Meu irmão, eu até emagreci.
Todos caem na risada. O gordinho sátiro pede mais uma cerveja Norteña grande. Agora, só long neck, informa o garçom. O gordinho faz uma cara de meter medo. Eis que surgem no bar duas amigas dos rapazes, que até então estavam relaxados, na galhofa, e se transformam ao vê-las. Uma delas chega na animação total:
- E aí, vocês não vão assistir ao jogo do Flamengo? Não acredito!
Como se tivessem recebido uma ordem superior, em pouco tempo todos os seis marmanjos estavam do lado de fora já rumando para outro local. A mim e a S. só restou terminar os ótimos croquetes. Saúde e até a próxima.
Gibeer – Rua Lopes Quintas, 158, Jardim Botânico (2279-4161)
sexta-feira, 27 de março de 2009
Brinde ao amor entre amigos
DE BAR EM BAR - Pavão Azul
O bar é pequenino (do balcão pode-se ver a cozinha, alguns palmos à frente, funcionando sem trégua), mas seu coração é enorme, quase tão vasto quanto o verso de Drummond. Chego, naquele horário de sempre, pelo fim de tarde. Por incrível que pareça – estamos num dia de semana – o bar já está cheio. Sento-me numa mesinha do lado de fora, diante da delegacia, a 12. DP. Qualquer coisa, eu já tenho onde passar a noite. Mas no bar Pavão Azul é só alegria.
Chego morto de fome. Aqui abro parênteses: não pude almoçar por conta de uma entrevista que atrasou, para a TV Brasil (antiga TVE), na qual pediram para que eu falasse sobre o amor. Passei a noite pensando o que dizer e saí com essa: “O amor verdadeiro é hoje produto em baixa no mercado das almas”. Bem, peço logo um pastel de camarão para acompanhar a cerveja gelada. Vejo à minha volta as mesas ocupadas e chama-me a atenção uma mesa com dois amigos em estado de euforia.
- Cara, há quanto tempo... Dá um abraço aqui de novo!
- Você está igualzinho.
- Já eu não posso dizer o mesmo. Tá totalmente grisalho, hein.
- Também, eu sou mais velho.
- Não é tanto assim. Mas, rapaz, que prazer! Ainda bem que a gente marcou logo esse encontro.
- Pois é, e eu achei que a gente ia ficar na troca de e-mails, adiando, adiando...
- Como é que está sua mulher?
- Tá ótima. A essa hora, no trabalho ou saindo com o cachorro. E você tá casado ou solteiro?
- Solteirão de novo.
- Era o segundo ou terceiro?
- Terceiro. Acredite se quiser.
- E quantos filhos?
- Um só, do primeiro. Graças a Deus! Imagina ter que negociar visita de filho com várias ex-mulheres?
- Vamos brindar a esse encontro. Mermão, sempre me lembro de você! Você não tem idéia como foi importante pra mim nossa convivência naquela época de estagiário. Aprender a beber, ir a botequim vagabundo, e mais do que tudo a máxima: com maluco de rua não se pode olhar no olho senão o cara gruda.
- É, essa aí eu aprendi aqui em Copa. E serve também pra bebuns chatos e malas em geral. Tim tim!
Aproveito para pedir mais uma cerveja e as famosas pataniscas (uma espécie de bolinho de bacalhau, sem o batatalhau). Vêm sequinhas, saborosas, como também estava o pastel de camarão. Agora já dá até para pensar um pouco. Penso, então, observando os dois homens agora brindando com uma cachacinha, no amor entre amigos. Tão imprescindível, ou até mais, que o amor romântico, porque, salvo desvios de rota, é sem cobranças excessivas e sem exclusividade. E é em parte como o amor paternal – pra vida toda. Admiro a relação carinhosa de amigos que, independentemente de terem se encontrado pela última vez no dia anterior ou há seis anos, são seguros da amizade verdadeira e de que há inteira reciprocidade no afeto do outro.
Pois há bares que também nos despertam este sentimento de serem benquistos e de fazer-nos sentir da mesma forma – como se estivéssemos em casa. O bar Pavão Azul é assim. Antes da conta, ainda peço o honestíssimo risoto de camarão pra viagem. E viva a amizade. Saúde e até a próxima.
Pavão Azul – Rua Hilário de Gouveia, 71 A e B, Copacabana (2236-2381)
O bar é pequenino (do balcão pode-se ver a cozinha, alguns palmos à frente, funcionando sem trégua), mas seu coração é enorme, quase tão vasto quanto o verso de Drummond. Chego, naquele horário de sempre, pelo fim de tarde. Por incrível que pareça – estamos num dia de semana – o bar já está cheio. Sento-me numa mesinha do lado de fora, diante da delegacia, a 12. DP. Qualquer coisa, eu já tenho onde passar a noite. Mas no bar Pavão Azul é só alegria.
Chego morto de fome. Aqui abro parênteses: não pude almoçar por conta de uma entrevista que atrasou, para a TV Brasil (antiga TVE), na qual pediram para que eu falasse sobre o amor. Passei a noite pensando o que dizer e saí com essa: “O amor verdadeiro é hoje produto em baixa no mercado das almas”. Bem, peço logo um pastel de camarão para acompanhar a cerveja gelada. Vejo à minha volta as mesas ocupadas e chama-me a atenção uma mesa com dois amigos em estado de euforia.
- Cara, há quanto tempo... Dá um abraço aqui de novo!
- Você está igualzinho.
- Já eu não posso dizer o mesmo. Tá totalmente grisalho, hein.
- Também, eu sou mais velho.
- Não é tanto assim. Mas, rapaz, que prazer! Ainda bem que a gente marcou logo esse encontro.
- Pois é, e eu achei que a gente ia ficar na troca de e-mails, adiando, adiando...
- Como é que está sua mulher?
- Tá ótima. A essa hora, no trabalho ou saindo com o cachorro. E você tá casado ou solteiro?
- Solteirão de novo.
- Era o segundo ou terceiro?
- Terceiro. Acredite se quiser.
- E quantos filhos?
- Um só, do primeiro. Graças a Deus! Imagina ter que negociar visita de filho com várias ex-mulheres?
- Vamos brindar a esse encontro. Mermão, sempre me lembro de você! Você não tem idéia como foi importante pra mim nossa convivência naquela época de estagiário. Aprender a beber, ir a botequim vagabundo, e mais do que tudo a máxima: com maluco de rua não se pode olhar no olho senão o cara gruda.
- É, essa aí eu aprendi aqui em Copa. E serve também pra bebuns chatos e malas em geral. Tim tim!
Aproveito para pedir mais uma cerveja e as famosas pataniscas (uma espécie de bolinho de bacalhau, sem o batatalhau). Vêm sequinhas, saborosas, como também estava o pastel de camarão. Agora já dá até para pensar um pouco. Penso, então, observando os dois homens agora brindando com uma cachacinha, no amor entre amigos. Tão imprescindível, ou até mais, que o amor romântico, porque, salvo desvios de rota, é sem cobranças excessivas e sem exclusividade. E é em parte como o amor paternal – pra vida toda. Admiro a relação carinhosa de amigos que, independentemente de terem se encontrado pela última vez no dia anterior ou há seis anos, são seguros da amizade verdadeira e de que há inteira reciprocidade no afeto do outro.
Pois há bares que também nos despertam este sentimento de serem benquistos e de fazer-nos sentir da mesma forma – como se estivéssemos em casa. O bar Pavão Azul é assim. Antes da conta, ainda peço o honestíssimo risoto de camarão pra viagem. E viva a amizade. Saúde e até a próxima.
Pavão Azul – Rua Hilário de Gouveia, 71 A e B, Copacabana (2236-2381)
sexta-feira, 20 de março de 2009
A alma ainda é a do Antonio's
DE BAR EM BAR - Rex
É um bom nome: Rex. E dá vontade de continuar dizendo: “Rex... Rex!... Aqui, Rex!”. Bem, fui ao Bar Rex, cujo símbolo é o célebre cachorro criado pelo Angelo de Aquino, e que fica quase na esquina das ruas Vinícius de Moraes (ex-Montenegro) e Barão da Torre, em frente à banca de jornal. Por lá, passam algumas das mais belas cariocas, deusas em trânsito, relaxadamente, indo para a praia, voltando, fazendo qualquer coisa. E o ipanemense em geral. Por isso, o ponto do bar é magnífico.
Mas, infelizmente, não posso dizer que tudo são flores. O bar antes era o “Antônio´s”, Antônio de um dos donos do Belmonte. Parece-me que o gerente ou sócio o comprou e virou Rex. Só que, pelo visto, o bar continuou, mesmo com nome diverso, um filhote do Belmonte. Na decoração, nos espelhos, nos ventiladores. Para o bem e para o mal, lembra muito a rede de bares que começou na praia do Flamengo.
Sento-me perto da rua e reparo nas poucas mesas ocupadas. Chamam-me a atenção, na minha diagonal, dois amigos. Eles conversam, fumam e tomam chope. Um deles é o típico malandro de praia, todo tatuado, cara de brabo, um James Dean da Montenegro entrado nos anos, mas bem. Continua queimadão de sol. O outro, mais acabado, um pouco gordinho, quase parece comigo. Na mesa colada à minha há um senhor moreno, de óculos, bebendo e lendo uma apostila.
Peço uma caldereta. O chope vem no ponto. Mas James e o amigo falam baixo e não é possível compreender nada. O que deu para ver é que surgiam na mesa deles, o tempo todo, figuras de passagem. Como a moça linda e a filha pequena, ou o negão simpatia pura, ou a mulher loura de meia idade com um cachorrinho na cesta da bicicleta. Nisso, eis que a mesa ao meu lado ganha outro colorido. Como um furacão, entra no bar uma velha senhora e senta-se na mesa do professor universitário (ou coisa parecida).
- Você viu o Zeca Pagodinho internado? Adoro esse rapaz. Da sua idade, hein!
- Tem que parar é de fumar. Acaba a resistência.
- Você deu aula hoje?
- Teve reunião. A trabalheira vai começar semana que vem.
De repente toca o celular. “Eu quero que você conheça meu filho. É... A gente passa de carro para te pegar... estamos aqui, no ex-Antônio´s, mas eu estou querendo ir a Copacabana comprar um presente... Olha, me ligou ontem um rapaz querendo alugar o apartamento, mas não deixou o número do telefone no recado. Um burro!”
A mãe só fala gritando. O filho é contido, calmo. Ela mora em cima do bar, brinca com o garçom, pega no braço. Ontem, bebeu muito. A música ambiente toca um rockabilly anos 50, a velha se balança, é animada à beça. Até que pedem a conta e saem.
Sinto fome ainda, mesmo depois da empada de palmito recheada com fartura. Peço um pastel de salmão, nessa onda de pastel de tudo. Não tem. Vou no popular pastel de camarão e um chope antes da conta. Há uma divergência quanto ao número de chopes tomados, e o garçom me pergunta se quero beber o cobrado a mais para acertar o valor. Sem chance. Ainda falta algo fundamental ao Rex – a sua alma. Saúde e até a próxima.
Rex – Rua Vinícius de Moraes, 146, Ipanema (2267-0710)
É um bom nome: Rex. E dá vontade de continuar dizendo: “Rex... Rex!... Aqui, Rex!”. Bem, fui ao Bar Rex, cujo símbolo é o célebre cachorro criado pelo Angelo de Aquino, e que fica quase na esquina das ruas Vinícius de Moraes (ex-Montenegro) e Barão da Torre, em frente à banca de jornal. Por lá, passam algumas das mais belas cariocas, deusas em trânsito, relaxadamente, indo para a praia, voltando, fazendo qualquer coisa. E o ipanemense em geral. Por isso, o ponto do bar é magnífico.
Mas, infelizmente, não posso dizer que tudo são flores. O bar antes era o “Antônio´s”, Antônio de um dos donos do Belmonte. Parece-me que o gerente ou sócio o comprou e virou Rex. Só que, pelo visto, o bar continuou, mesmo com nome diverso, um filhote do Belmonte. Na decoração, nos espelhos, nos ventiladores. Para o bem e para o mal, lembra muito a rede de bares que começou na praia do Flamengo.
Sento-me perto da rua e reparo nas poucas mesas ocupadas. Chamam-me a atenção, na minha diagonal, dois amigos. Eles conversam, fumam e tomam chope. Um deles é o típico malandro de praia, todo tatuado, cara de brabo, um James Dean da Montenegro entrado nos anos, mas bem. Continua queimadão de sol. O outro, mais acabado, um pouco gordinho, quase parece comigo. Na mesa colada à minha há um senhor moreno, de óculos, bebendo e lendo uma apostila.
Peço uma caldereta. O chope vem no ponto. Mas James e o amigo falam baixo e não é possível compreender nada. O que deu para ver é que surgiam na mesa deles, o tempo todo, figuras de passagem. Como a moça linda e a filha pequena, ou o negão simpatia pura, ou a mulher loura de meia idade com um cachorrinho na cesta da bicicleta. Nisso, eis que a mesa ao meu lado ganha outro colorido. Como um furacão, entra no bar uma velha senhora e senta-se na mesa do professor universitário (ou coisa parecida).
- Você viu o Zeca Pagodinho internado? Adoro esse rapaz. Da sua idade, hein!
- Tem que parar é de fumar. Acaba a resistência.
- Você deu aula hoje?
- Teve reunião. A trabalheira vai começar semana que vem.
De repente toca o celular. “Eu quero que você conheça meu filho. É... A gente passa de carro para te pegar... estamos aqui, no ex-Antônio´s, mas eu estou querendo ir a Copacabana comprar um presente... Olha, me ligou ontem um rapaz querendo alugar o apartamento, mas não deixou o número do telefone no recado. Um burro!”
A mãe só fala gritando. O filho é contido, calmo. Ela mora em cima do bar, brinca com o garçom, pega no braço. Ontem, bebeu muito. A música ambiente toca um rockabilly anos 50, a velha se balança, é animada à beça. Até que pedem a conta e saem.
Sinto fome ainda, mesmo depois da empada de palmito recheada com fartura. Peço um pastel de salmão, nessa onda de pastel de tudo. Não tem. Vou no popular pastel de camarão e um chope antes da conta. Há uma divergência quanto ao número de chopes tomados, e o garçom me pergunta se quero beber o cobrado a mais para acertar o valor. Sem chance. Ainda falta algo fundamental ao Rex – a sua alma. Saúde e até a próxima.
Rex – Rua Vinícius de Moraes, 146, Ipanema (2267-0710)
sexta-feira, 13 de março de 2009
Restaurante ou boteco? Ambos
DE BAR EM BAR - La Fiorentina
Certa vez fui recebido, no início de uma noite abrasadora de verão, por um simpático e eterno Ary Barroso – prenunciando o elenco estelar do estabelecimento. Vêem-se, sem muito esforço, as assinaturas, na toalha de papel da mesa, de nomes como Marília Pêra, Caetano Veloso, Braguinha, Ziraldo. Pode-se dizer que a casa sempre foi assim com as estrelas. Mas seria o La Fiorentina um restaurante ou um bar?
Acho que a Fiorentina é uma coisa e outra. O leitor pode, por exemplo, tomar vinho e jantar a dois, romanticamente, um risoto de funghi no salão, olhando para os quadros e os garranchos nas paredes de artistas famosos, como também pode pedir chope e comer camarão ao alho e óleo, na calçada, olhando para o mar de Copacabana. Fica ao seu critério. E os dois programas valem.
Sentei-me na parte externa, sob o toldo branco padronizado. As mesas são de plástico com pé de metal e cadeiras com assento imitando palhinha. Na falta ainda de público, dois garçons brincam de se zoar mutuamente. À distância, o maitre ri e apóia-se, destemido, na cabeça de um leão (assim como na entrada do bar há a estátua do compositor de “Aquarela do Brasil”, na entrada para o salão, há dois leões, em posição de guarda, um em cada lado da porta).
- Por que não reserva a escuna? Tô falando sério. Vai ser legal.
- Claro que não.. Vai ser péssimo!
O casal afinado tinha seus 50 anos. Ela comia salada verde com frutos do mar, ele bife com batata frita. Ela era animada, ele soturno. Estavam esportivos, se é que boné, camisa social, bermuda e tênis podem ser considerados assim. A senhora vestia camiseta e malha de ginástica. Os dois bebendo chope.
- Você é ótima na teoria! Mas prova que eu estou errado... aquilo vai virar um chiqueiro.
Ela se limita a tentar tirar com a unha, depois com um palito, o pedaço de alface preso entre os dentes. Ele não se incomoda. Conversam sobre trabalho e, à medida que os chopes vão se sucedendo, o tom aumenta. Será que recebem turistas? O que sei é que, subitamente, o ritmo de chegada de pessoas ao bar virou uma verdadeira loucura. E logo deixei de me interessar por aquele casal.
Duas mesas prenderam minha atenção, enquanto pedia ao garçom uma porção de camarão no vinho branco – uma delícia. A primeira mesa era comandada por uma autêntica vovó garota. Vestido preto matador, sandália de salto, a pele bronzeada. Ao lado, as netas e a namorada do filho. (Ah, as múltiplas configurações da família moderna...) Pelo vaivém, pude perceber que moram perto e são chapas dos garçons. Daria uma outra coluna.
A segunda mesa que observo reúne três mulheres. Trabalham juntas, são maduras, independentes e solteironas. Nem bonitas, nem feias, desinteressantes. Por isso mesmo, botei fé no que tinham a dizer.
- Por que você tem pena dela?
- Ela é muito solitária.
Bem, com essa, resolvi fechar a tampa. Mas, antes, pedi uma porção de mariscos, também uma maravilha – inclusive, vieram a caráter, com as respectivas cascas. Rosados, pareciam até frutos do mar de férias no Leme. Saúde e até a próxima.
La Fiorentina – Av. Atlântica, 458 A, Leme (2543-8395)
Certa vez fui recebido, no início de uma noite abrasadora de verão, por um simpático e eterno Ary Barroso – prenunciando o elenco estelar do estabelecimento. Vêem-se, sem muito esforço, as assinaturas, na toalha de papel da mesa, de nomes como Marília Pêra, Caetano Veloso, Braguinha, Ziraldo. Pode-se dizer que a casa sempre foi assim com as estrelas. Mas seria o La Fiorentina um restaurante ou um bar?
Acho que a Fiorentina é uma coisa e outra. O leitor pode, por exemplo, tomar vinho e jantar a dois, romanticamente, um risoto de funghi no salão, olhando para os quadros e os garranchos nas paredes de artistas famosos, como também pode pedir chope e comer camarão ao alho e óleo, na calçada, olhando para o mar de Copacabana. Fica ao seu critério. E os dois programas valem.
Sentei-me na parte externa, sob o toldo branco padronizado. As mesas são de plástico com pé de metal e cadeiras com assento imitando palhinha. Na falta ainda de público, dois garçons brincam de se zoar mutuamente. À distância, o maitre ri e apóia-se, destemido, na cabeça de um leão (assim como na entrada do bar há a estátua do compositor de “Aquarela do Brasil”, na entrada para o salão, há dois leões, em posição de guarda, um em cada lado da porta).
- Por que não reserva a escuna? Tô falando sério. Vai ser legal.
- Claro que não.. Vai ser péssimo!
O casal afinado tinha seus 50 anos. Ela comia salada verde com frutos do mar, ele bife com batata frita. Ela era animada, ele soturno. Estavam esportivos, se é que boné, camisa social, bermuda e tênis podem ser considerados assim. A senhora vestia camiseta e malha de ginástica. Os dois bebendo chope.
- Você é ótima na teoria! Mas prova que eu estou errado... aquilo vai virar um chiqueiro.
Ela se limita a tentar tirar com a unha, depois com um palito, o pedaço de alface preso entre os dentes. Ele não se incomoda. Conversam sobre trabalho e, à medida que os chopes vão se sucedendo, o tom aumenta. Será que recebem turistas? O que sei é que, subitamente, o ritmo de chegada de pessoas ao bar virou uma verdadeira loucura. E logo deixei de me interessar por aquele casal.
Duas mesas prenderam minha atenção, enquanto pedia ao garçom uma porção de camarão no vinho branco – uma delícia. A primeira mesa era comandada por uma autêntica vovó garota. Vestido preto matador, sandália de salto, a pele bronzeada. Ao lado, as netas e a namorada do filho. (Ah, as múltiplas configurações da família moderna...) Pelo vaivém, pude perceber que moram perto e são chapas dos garçons. Daria uma outra coluna.
A segunda mesa que observo reúne três mulheres. Trabalham juntas, são maduras, independentes e solteironas. Nem bonitas, nem feias, desinteressantes. Por isso mesmo, botei fé no que tinham a dizer.
- Por que você tem pena dela?
- Ela é muito solitária.
Bem, com essa, resolvi fechar a tampa. Mas, antes, pedi uma porção de mariscos, também uma maravilha – inclusive, vieram a caráter, com as respectivas cascas. Rosados, pareciam até frutos do mar de férias no Leme. Saúde e até a próxima.
La Fiorentina – Av. Atlântica, 458 A, Leme (2543-8395)
sexta-feira, 6 de março de 2009
"O lance é tipo assim, sacou?"
DE BAR EM BAR - Botecotaco
Daqui vejo o trânsito escoar lentamente, como é comum a qualquer hora do dia neste trecho de passagem. Observo também, do outro lado da rua, os muitos cartazes lambe-lambe de shows no tapume que cobre a extensa área ao lado da Casa de Saúde São José. Mas vamos ao que interessa: estou num estabelecimento que existe desde os anos 40, templo de várias tribos e de uma malandragem Zona Sul que, entre um gole e outro, joga sinuca e aposta nos cavalos (hoje apenas no jirau). Estou falando do Botecotaco, que foi reformado mais recentemente e ganhou banho de loja.
Há o primeiro salão, apresentando mesas com tampo de mármore, quatro ou cinco mesinhas redondas com bancos altos perto da entrada, um grande balcão com assentos em volta, uma TV de plasma enorme e uma jukebox – graças a Deus, desligadas neste fim de tarde. Depois há o segundo salão, vazio e escuro ainda, com cinco mesas de bilhar perfiladas em paralelo, imponentes, absolutas. Lembro-me do Maracanã, que ao apagar dos refletores nos jogos noturnos, virava, no dizer dos antigos locutores de rádio, o gigante adormecido.
Sento-me na primeira mesinha alta, perto da calçada, e peço uma cerveja. Há mais três mesas ocupadas: numa um casal, noutra dois amigos jovens e na última dois senhores da velha guarda. De cara chama a minha atenção a mesa dos amigos jovens porque um deles, de óculos, cabelo comprido, barba por fazer, calça jeans e camisa de manga comprida no calorão que está fazendo, quase grita ao celular. O amigo ao lado, de camiseta e bermuda, só faz tomar seu chope (a casa tem chope da Brahma e cerveja de garrafa). O barbudinho fica horas ao telefone falando um assunto de trabalho, pude perceber que ele é videomaker ou coisa parecida. Mas sou atraído por um certo linguajar BBB:
- Eles fazem tudo para a pessoa, tipo assim, se sentir à vontade. Tudo! Tipo assim... estávamos eu e a Mári de BH... a boite lotada, lotada! Aí, não sei como, ele parou na minha frente. A gente começou a conversar, papo vai papo vem...
- Já entendi tudo.
Achei que era um casal, mas o rapaz é só um amigo da moça, a típica menina, animada à beça, que sonha entrar no Big Brother Brasil. Bebem cerveja e ela fuma, sob os protestos dele. Começam a chegar os primeiros freqüentadores do segundo salão. Peço outra cerveja e o cheeseburguer da casa, correto e bem servido. O amigo da Tipo assim se levanta para ir ao banheiro e, enquanto isso, ela puxa conversa com o garçom. Ela pergunta onde ele mora e em seguida entra com seu assunto preferido: azaração. O garçom até arrisca um palpite:
- É... com mulher é mais difícil.
- Comigo não tem isso não. Quando eu tô a fim, tipo assim, não tem parada. Eu chego junto.
Eis que surge no bar o grande jogador de sinuca, o Carne Frita do pedaço. Elegante, ele traz seu próprio estojo com taco e tudo mais. Ocupa, discretamente, a segunda mesa. Deixo de lado a (futura?) BBB e suas questões metafísicas, peço a conta, mas antes de sair vou até lá admirar um pouco a arte de, tipo assim, matar a bola sete. Saúde e até a próxima.
Botecotaco – Rua Humaitá 122, Humaitá (2539-5109)
Daqui vejo o trânsito escoar lentamente, como é comum a qualquer hora do dia neste trecho de passagem. Observo também, do outro lado da rua, os muitos cartazes lambe-lambe de shows no tapume que cobre a extensa área ao lado da Casa de Saúde São José. Mas vamos ao que interessa: estou num estabelecimento que existe desde os anos 40, templo de várias tribos e de uma malandragem Zona Sul que, entre um gole e outro, joga sinuca e aposta nos cavalos (hoje apenas no jirau). Estou falando do Botecotaco, que foi reformado mais recentemente e ganhou banho de loja.
Há o primeiro salão, apresentando mesas com tampo de mármore, quatro ou cinco mesinhas redondas com bancos altos perto da entrada, um grande balcão com assentos em volta, uma TV de plasma enorme e uma jukebox – graças a Deus, desligadas neste fim de tarde. Depois há o segundo salão, vazio e escuro ainda, com cinco mesas de bilhar perfiladas em paralelo, imponentes, absolutas. Lembro-me do Maracanã, que ao apagar dos refletores nos jogos noturnos, virava, no dizer dos antigos locutores de rádio, o gigante adormecido.
Sento-me na primeira mesinha alta, perto da calçada, e peço uma cerveja. Há mais três mesas ocupadas: numa um casal, noutra dois amigos jovens e na última dois senhores da velha guarda. De cara chama a minha atenção a mesa dos amigos jovens porque um deles, de óculos, cabelo comprido, barba por fazer, calça jeans e camisa de manga comprida no calorão que está fazendo, quase grita ao celular. O amigo ao lado, de camiseta e bermuda, só faz tomar seu chope (a casa tem chope da Brahma e cerveja de garrafa). O barbudinho fica horas ao telefone falando um assunto de trabalho, pude perceber que ele é videomaker ou coisa parecida. Mas sou atraído por um certo linguajar BBB:
- Eles fazem tudo para a pessoa, tipo assim, se sentir à vontade. Tudo! Tipo assim... estávamos eu e a Mári de BH... a boite lotada, lotada! Aí, não sei como, ele parou na minha frente. A gente começou a conversar, papo vai papo vem...
- Já entendi tudo.
Achei que era um casal, mas o rapaz é só um amigo da moça, a típica menina, animada à beça, que sonha entrar no Big Brother Brasil. Bebem cerveja e ela fuma, sob os protestos dele. Começam a chegar os primeiros freqüentadores do segundo salão. Peço outra cerveja e o cheeseburguer da casa, correto e bem servido. O amigo da Tipo assim se levanta para ir ao banheiro e, enquanto isso, ela puxa conversa com o garçom. Ela pergunta onde ele mora e em seguida entra com seu assunto preferido: azaração. O garçom até arrisca um palpite:
- É... com mulher é mais difícil.
- Comigo não tem isso não. Quando eu tô a fim, tipo assim, não tem parada. Eu chego junto.
Eis que surge no bar o grande jogador de sinuca, o Carne Frita do pedaço. Elegante, ele traz seu próprio estojo com taco e tudo mais. Ocupa, discretamente, a segunda mesa. Deixo de lado a (futura?) BBB e suas questões metafísicas, peço a conta, mas antes de sair vou até lá admirar um pouco a arte de, tipo assim, matar a bola sete. Saúde e até a próxima.
Botecotaco – Rua Humaitá 122, Humaitá (2539-5109)
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
O fanfarrão do boteco ao lado
DE BAR EM BAR – Adega da Praça
A Adega é praticamente um pé-sujo. Onde está escrito “Adega” poderia estar cravado um “Bar” – e não que ache isso exatamente um demérito. Mas a Adega da Praça é um pé-sujo simpático. O espaço é pequeno do lado de fora, apenas cinco ou seis mesas. A vista da calçada dá para a Praça São Salvador, típica praça dos velhos tempos, com seu chafariz, suas árvores, seus aposentados, suas crianças correndo.
Chego esfomeado ao local, nessa tarde de muito calor. Dou uma geral nas mesas em volta, vejo uma família almoçando PF, duas mulheres comendo pastel, um casal, bastante curioso, bebendo cerveja. Peço ao solícito garçom uma Brahma Extra e, seguindo as mulheres, um pastel de queijo minas. O casal é curioso porque ela parece a Marge Simpson e ele, um hippie velho.
- Eu preparei a casa, fiz comida. Aí quando eles chegam ficam me criticando.
- Você não quer ter trabalho?
- Não é isso!
Irritados um com o outro, Marge e o Homer psicodélico ficam um tempo calados. Depois de devorar o pastel – consistente, sequinho –, eu pude descobrir que o problema era com os filhos, que têm vergonha dos pais meio hippies. O eterno e necessário conflito de gerações. Antes que eu pegasse no sono com o silêncio, observo um senhor de bigode que mudou de mesa e pede para o atendente, o mesmo garçom solícito que me serviu, limpar o local. Mas com certa aspereza.
- Seu primeiro dia hoje?
- É, sim senhor.
- Você vai gostar. Aqui é bom.
O bigode diz o “aqui é bom” cheio de marra. Em seguida, assoa o nariz, dá uma tragada no cigarro e um gole na cerveja. Os trajes são humildes, a arrogância vem de sua personalidade. Olho para dentro do bar. Nas paredes de azulejo, cartazes de cerveja, plaquetas com ditos populares, como “A inveja é igual a sapo: tem olho grande e vive na lama”. Eis então que surge o meu personagem.
Ele sequer estava no mesmo boteco. Fronteiriço à Adega da Praça fica a Casa Brasil, um bar mais sofisticado. Mas eu ia dizendo que o meu personagem adentrava o bar vizinho. De forma barulhenta, cumprimentando a todos de uma mesa de locais. Lembra um pouco o Ernesto Neto, talentoso artista plástico, ou o Cambraia, também talentoso, baixista de Nando Reis.
(Mas se o leitor não conhece nenhum dos dois, nem sabe como são, explico que o personagem é gordinho, simpático, cabelo comprido encaracolado e inteligente. Sobretudo inteligente.) Vamos chamá-lo, por justiça, de Cambraia Neto. Imediatamente, Cambraia Neto centralizou todas as atenções na mesa da rapaziada da área:
- Entendeu? Você tá numa roubada e ele é o cara que vai ajudar. A malandragem está na ajuda!...
Camisa social, calça jeans e bolsa de couro, Cambraia Neto toma um chope com os amigos e conta em detalhes a sua viagem à Espanha. Ele conheceu Madri, Barcelona, Granada, Galícia. Todos riem muito. Fico a me deliciar com as histórias do fanfarrão. Peço, na minha Adega, um sanduíche de salaminho e mais uma cerveja, enquanto o olhar está todo voltado para o bar do lado. Culpa do Cambraia Neto. Saúde e até a próxima.
Adega da Praça – Rua São Salvador, 75, Flamengo (2558-3285)
A Adega é praticamente um pé-sujo. Onde está escrito “Adega” poderia estar cravado um “Bar” – e não que ache isso exatamente um demérito. Mas a Adega da Praça é um pé-sujo simpático. O espaço é pequeno do lado de fora, apenas cinco ou seis mesas. A vista da calçada dá para a Praça São Salvador, típica praça dos velhos tempos, com seu chafariz, suas árvores, seus aposentados, suas crianças correndo.
Chego esfomeado ao local, nessa tarde de muito calor. Dou uma geral nas mesas em volta, vejo uma família almoçando PF, duas mulheres comendo pastel, um casal, bastante curioso, bebendo cerveja. Peço ao solícito garçom uma Brahma Extra e, seguindo as mulheres, um pastel de queijo minas. O casal é curioso porque ela parece a Marge Simpson e ele, um hippie velho.
- Eu preparei a casa, fiz comida. Aí quando eles chegam ficam me criticando.
- Você não quer ter trabalho?
- Não é isso!
Irritados um com o outro, Marge e o Homer psicodélico ficam um tempo calados. Depois de devorar o pastel – consistente, sequinho –, eu pude descobrir que o problema era com os filhos, que têm vergonha dos pais meio hippies. O eterno e necessário conflito de gerações. Antes que eu pegasse no sono com o silêncio, observo um senhor de bigode que mudou de mesa e pede para o atendente, o mesmo garçom solícito que me serviu, limpar o local. Mas com certa aspereza.
- Seu primeiro dia hoje?
- É, sim senhor.
- Você vai gostar. Aqui é bom.
O bigode diz o “aqui é bom” cheio de marra. Em seguida, assoa o nariz, dá uma tragada no cigarro e um gole na cerveja. Os trajes são humildes, a arrogância vem de sua personalidade. Olho para dentro do bar. Nas paredes de azulejo, cartazes de cerveja, plaquetas com ditos populares, como “A inveja é igual a sapo: tem olho grande e vive na lama”. Eis então que surge o meu personagem.
Ele sequer estava no mesmo boteco. Fronteiriço à Adega da Praça fica a Casa Brasil, um bar mais sofisticado. Mas eu ia dizendo que o meu personagem adentrava o bar vizinho. De forma barulhenta, cumprimentando a todos de uma mesa de locais. Lembra um pouco o Ernesto Neto, talentoso artista plástico, ou o Cambraia, também talentoso, baixista de Nando Reis.
(Mas se o leitor não conhece nenhum dos dois, nem sabe como são, explico que o personagem é gordinho, simpático, cabelo comprido encaracolado e inteligente. Sobretudo inteligente.) Vamos chamá-lo, por justiça, de Cambraia Neto. Imediatamente, Cambraia Neto centralizou todas as atenções na mesa da rapaziada da área:
- Entendeu? Você tá numa roubada e ele é o cara que vai ajudar. A malandragem está na ajuda!...
Camisa social, calça jeans e bolsa de couro, Cambraia Neto toma um chope com os amigos e conta em detalhes a sua viagem à Espanha. Ele conheceu Madri, Barcelona, Granada, Galícia. Todos riem muito. Fico a me deliciar com as histórias do fanfarrão. Peço, na minha Adega, um sanduíche de salaminho e mais uma cerveja, enquanto o olhar está todo voltado para o bar do lado. Culpa do Cambraia Neto. Saúde e até a próxima.
Adega da Praça – Rua São Salvador, 75, Flamengo (2558-3285)
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Sobre empadas e odontologia
DE BAR EM BAR – Salete
Dia desses, fui ao Salete com meu irmão Maurício (pensei em botar “M.”, mas o outro irmão também é “M.” de Marcelo). Ele, dentista e professor universitário, dá aula ali perto e está prestes a mudar o pouso acadêmico para outras paragens. Aproveitei, enquanto há tempo, a companhia de quem conhece bem o local. Para quem não sabe, o bar Salete é uma instituição na Tijuca, fundado pelo espanhol Manolo, em 1957.
Chego antes de meu irmão e posso observar com calma o ambiente. Bar das antigas, e também restaurante, com risoto de camarão, filé e tudo mais. Paredes com azulejos brancos e azuis, chão com tacos alvinegros, quadros naturalistas de paisagens remotas. Há, além de mim, mais algumas pessoas em três ou quatro mesas. Lá fora, as mesinhas redondas com banco alto estão todas ocupadas.
- O que o técnico disse? É pra você ir treinar ou não?...
O homem que conversa ao celular toma um chope e está diante de outro que bebe uma coca. Desliga o aparelho e fala com seu acompanhante.
- Nós jogávamos contra o Flamengo de Zico e Júnior, tomávamos de seis, sete, oito... E quando alguém se destacava, vinha o clube grande e se entendia com a gente, não tinha essa de empresário.
- Pra você, que jogou muito, mesmo não tendo conseguido um time de expressão...
- As contusões nos dois joelhos acabaram comigo.
- ... pra você deve ser mole lidar com esses garotos, falar a língua deles...
- Hum! O moleque hoje faz uma partida boa, no dia seguinte já quer um contrato com o Milan, o Real Madri.
Da cozinha sai uma fornada de empadas. Rapidamente surgem dois interessados e levam embalagens com os acepipes. O garçom pega algumas para servir as mesas da calçada. Nisso, desce as escadas do salão refrigerado, no andar de cima, uma mulher loura com ar de poderosa. Ela fala com um funcionário no balcão, senta-se na mesa perto da cozinha e come singelamente uma empadinha.
- Tá faltando coração. Ninguém quer mais jogar no mesmo clube duas, três temporadas. Só se for no Flamengo.
- Lá vem você com essa mania de achar que o Flamengo...
- É o maior do mundo mesmo, só que o mundo agora é outro.
Eis que chega o meu irmão. Ele também é flamenguista e devoto da religião segundo a qual todos são flamenguistas, mesmo que alguns não o reconheçam – obviamente que já brigamos muito por futebol. E a loura poderosa, que já estava sentada com outras pessoas na mesa ao lado da minha, se levanta e se dirige a ele:
- Como é que você entra aqui e não vem falar comigo?
Ela é a Sílvia, que toca o negócio depois da morte do pai, há quatro anos. Para isso, teve que largar a vida de dentista para dedicar-se ao Salete, mantendo-o como sempre foi. Aliás, com algumas pequenas modificações, como botar no cardápio as empadas de palmito e frango. O pai achava que devia restringir-se à perfeição da de camarão. Mas comprovei que aquelas também são excelentes. Pude experimentá-las enquanto ouvia algumas histórias engraçadas do Manolo. Graças a Deus, meu irmão e sua ex-aluna não falaram sobre odontologia. Saúde e até a próxima.
Salete – Rua Afonso Pena 189, Tijuca (2264-5163)
Dia desses, fui ao Salete com meu irmão Maurício (pensei em botar “M.”, mas o outro irmão também é “M.” de Marcelo). Ele, dentista e professor universitário, dá aula ali perto e está prestes a mudar o pouso acadêmico para outras paragens. Aproveitei, enquanto há tempo, a companhia de quem conhece bem o local. Para quem não sabe, o bar Salete é uma instituição na Tijuca, fundado pelo espanhol Manolo, em 1957.
Chego antes de meu irmão e posso observar com calma o ambiente. Bar das antigas, e também restaurante, com risoto de camarão, filé e tudo mais. Paredes com azulejos brancos e azuis, chão com tacos alvinegros, quadros naturalistas de paisagens remotas. Há, além de mim, mais algumas pessoas em três ou quatro mesas. Lá fora, as mesinhas redondas com banco alto estão todas ocupadas.
- O que o técnico disse? É pra você ir treinar ou não?...
O homem que conversa ao celular toma um chope e está diante de outro que bebe uma coca. Desliga o aparelho e fala com seu acompanhante.
- Nós jogávamos contra o Flamengo de Zico e Júnior, tomávamos de seis, sete, oito... E quando alguém se destacava, vinha o clube grande e se entendia com a gente, não tinha essa de empresário.
- Pra você, que jogou muito, mesmo não tendo conseguido um time de expressão...
- As contusões nos dois joelhos acabaram comigo.
- ... pra você deve ser mole lidar com esses garotos, falar a língua deles...
- Hum! O moleque hoje faz uma partida boa, no dia seguinte já quer um contrato com o Milan, o Real Madri.
Da cozinha sai uma fornada de empadas. Rapidamente surgem dois interessados e levam embalagens com os acepipes. O garçom pega algumas para servir as mesas da calçada. Nisso, desce as escadas do salão refrigerado, no andar de cima, uma mulher loura com ar de poderosa. Ela fala com um funcionário no balcão, senta-se na mesa perto da cozinha e come singelamente uma empadinha.
- Tá faltando coração. Ninguém quer mais jogar no mesmo clube duas, três temporadas. Só se for no Flamengo.
- Lá vem você com essa mania de achar que o Flamengo...
- É o maior do mundo mesmo, só que o mundo agora é outro.
Eis que chega o meu irmão. Ele também é flamenguista e devoto da religião segundo a qual todos são flamenguistas, mesmo que alguns não o reconheçam – obviamente que já brigamos muito por futebol. E a loura poderosa, que já estava sentada com outras pessoas na mesa ao lado da minha, se levanta e se dirige a ele:
- Como é que você entra aqui e não vem falar comigo?
Ela é a Sílvia, que toca o negócio depois da morte do pai, há quatro anos. Para isso, teve que largar a vida de dentista para dedicar-se ao Salete, mantendo-o como sempre foi. Aliás, com algumas pequenas modificações, como botar no cardápio as empadas de palmito e frango. O pai achava que devia restringir-se à perfeição da de camarão. Mas comprovei que aquelas também são excelentes. Pude experimentá-las enquanto ouvia algumas histórias engraçadas do Manolo. Graças a Deus, meu irmão e sua ex-aluna não falaram sobre odontologia. Saúde e até a próxima.
Salete – Rua Afonso Pena 189, Tijuca (2264-5163)
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
O meu momento Gisele Bündchen
DE BAR EM BAR - Pizzaria Guanabara
Outro dia tive meu momento Gisele Bündchen. Aliás, não só eu, como também o amigo e colunista vizinho Alexandre Lalas. Fomos fazer uma foto para a capa desta nossa Revista em pleno Baixo Leblon. Apresso-me em dizer que estávamos lá apenas para indicar um punhado de bares e lugares de vinho (desculpe, Lalas). Enfim, eu nem acreditei quando, no meio da tarde, adentrei a Pizzaria Guanabara e um miniestúdio havia sido montado para nos receber. Foi, sem dúvida, o meu ápice como modelo fotográfico.
A Pizzaria Guanabara é um bastião da boemia carioca, imune a modismos e horários. Se eu fosse dizer quantas madrugadas já passei por aqui, desde meus vinte e poucos anos, quando a rua parava e as pessoas ficavam bebendo na rua, mais ou menos como é hoje no Baixo Gávea, não vou conseguir. E provavelmente como alguns de vocês também não. (Hoje há também uma Guanabara na Lapa e na Barra, mas estou me referindo, naturalmente, à original).
A varanda está com duas ou três mesas ocupadas. Ainda é muito cedo para o movimento normal. Eu e Lalas ficamos na parte interna, absolutos, onde foi improvisado o cenário para a foto. Bem, vamos encurtar esta parte. Depois de umas duzentas fotos “não tão boas”, segundo o paciente Fernando Souza, o fotógrafo, e vários chopes e taças de vinho para que um simples brinde ficasse ao menos razoável, conseguimos finalizar. Ser canastrão dá muito trabalho.
Eis que surge no bar a jovem cantora Marília Bessy. Eu e Marília sentamos na varanda. Ela me conta que vai lançar disco com a produção de Rodrigo Santos, baixista do Barão Vermelho, que também vai lançar CD em breve, o seu segundo (O Rodrigo vale uma coluna à parte: era um sujeito desgovernado quando bebia, capaz de fazer barbaridades de comédia pastelão, parou com tudo e hoje está bem assim, criativo e produzindo bastante – e, graças a Deus, não perdeu o humor).
Bebemos chope e comemos um couvert básico, com pão de queijo, picles, torrada, manteiga e azeitonas. Marília Bessy me conta detalhes do seu repertório, de como, envergonhada, conheceu Ney Matogrosso, dos elogios que recebeu. Marília é uma baixinha vulcânica. Já ouvi alguém dizer que será a nova Cássia Eller. Eu acho isso de uma injustiça cruel. Com a Cássia, obviamente, porque ela era fabulosa, uma artista incomparável. E com a Marília também, porque isso seria peso demais sobre sua cabeça. Melhor deixar Marília Bessy ser Marília Bessy.
- Eu nem ligo mais. Agora com a minissérie da Globo até a Maysa já disseram que tem a ver comigo.
A noite vai caindo e a Pizzaria começa a encher. Lembro das muitas noites em que dava uma passada rápida e comia um pedaço de pizza no balcão. Ou de quando comecei a vir aqui e sempre dividia um medalhão com arroz à piamontesa com meu amigo Ricardo Coelho, um natalense carioca. Eu e Marília pedimos uma pizza portuguesa, apesar de seus protestos por estar de regime. Mas ela não se arrependeu. A Pizzaria Guanabara continua sendo única. Até o dia amanhecer. Saúde e até a próxima.
Pizzaria Guanabara – Avenida Ataulfo de Paiva, 1.228, Leblon (2294-0797)
Outro dia tive meu momento Gisele Bündchen. Aliás, não só eu, como também o amigo e colunista vizinho Alexandre Lalas. Fomos fazer uma foto para a capa desta nossa Revista em pleno Baixo Leblon. Apresso-me em dizer que estávamos lá apenas para indicar um punhado de bares e lugares de vinho (desculpe, Lalas). Enfim, eu nem acreditei quando, no meio da tarde, adentrei a Pizzaria Guanabara e um miniestúdio havia sido montado para nos receber. Foi, sem dúvida, o meu ápice como modelo fotográfico.
A Pizzaria Guanabara é um bastião da boemia carioca, imune a modismos e horários. Se eu fosse dizer quantas madrugadas já passei por aqui, desde meus vinte e poucos anos, quando a rua parava e as pessoas ficavam bebendo na rua, mais ou menos como é hoje no Baixo Gávea, não vou conseguir. E provavelmente como alguns de vocês também não. (Hoje há também uma Guanabara na Lapa e na Barra, mas estou me referindo, naturalmente, à original).
A varanda está com duas ou três mesas ocupadas. Ainda é muito cedo para o movimento normal. Eu e Lalas ficamos na parte interna, absolutos, onde foi improvisado o cenário para a foto. Bem, vamos encurtar esta parte. Depois de umas duzentas fotos “não tão boas”, segundo o paciente Fernando Souza, o fotógrafo, e vários chopes e taças de vinho para que um simples brinde ficasse ao menos razoável, conseguimos finalizar. Ser canastrão dá muito trabalho.
Eis que surge no bar a jovem cantora Marília Bessy. Eu e Marília sentamos na varanda. Ela me conta que vai lançar disco com a produção de Rodrigo Santos, baixista do Barão Vermelho, que também vai lançar CD em breve, o seu segundo (O Rodrigo vale uma coluna à parte: era um sujeito desgovernado quando bebia, capaz de fazer barbaridades de comédia pastelão, parou com tudo e hoje está bem assim, criativo e produzindo bastante – e, graças a Deus, não perdeu o humor).
Bebemos chope e comemos um couvert básico, com pão de queijo, picles, torrada, manteiga e azeitonas. Marília Bessy me conta detalhes do seu repertório, de como, envergonhada, conheceu Ney Matogrosso, dos elogios que recebeu. Marília é uma baixinha vulcânica. Já ouvi alguém dizer que será a nova Cássia Eller. Eu acho isso de uma injustiça cruel. Com a Cássia, obviamente, porque ela era fabulosa, uma artista incomparável. E com a Marília também, porque isso seria peso demais sobre sua cabeça. Melhor deixar Marília Bessy ser Marília Bessy.
- Eu nem ligo mais. Agora com a minissérie da Globo até a Maysa já disseram que tem a ver comigo.
A noite vai caindo e a Pizzaria começa a encher. Lembro das muitas noites em que dava uma passada rápida e comia um pedaço de pizza no balcão. Ou de quando comecei a vir aqui e sempre dividia um medalhão com arroz à piamontesa com meu amigo Ricardo Coelho, um natalense carioca. Eu e Marília pedimos uma pizza portuguesa, apesar de seus protestos por estar de regime. Mas ela não se arrependeu. A Pizzaria Guanabara continua sendo única. Até o dia amanhecer. Saúde e até a próxima.
Pizzaria Guanabara – Avenida Ataulfo de Paiva, 1.228, Leblon (2294-0797)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Primor de concisão
Gosto muito de poemas curtos, conforme o nobre preceito do menos é mais. Este, de Francisco Alvim, é sensacional:
Argumento
Mas se todos fazem
(In: Elefante. S.Paulo, Companhia das Letras, 2000)
Argumento
Mas se todos fazem
(In: Elefante. S.Paulo, Companhia das Letras, 2000)
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
DE BAR EM BAR - Casa Paladino
O espaço do bar, no antigo estabelecimento situado na esquina da rua Uruguaiana com a avenida Marechal Floriano, é dividido com uma mercearia de secos e molhados. E posso lhes garantir, só por esta singela descrição, que vale a visita. Trata-se da Casa Paladino, presente entre nós há 102 anos. (um detalhe: a entrada é exclusivamente pela tal mercearia.)
Faz um dia chuvoso no verão do Rio de Janeiro. Que novidade. Não tanto como no dia anterior, de alagamentos, trânsito infernal, transtornos absurdos. Chego no meio da tarde, há duas mesas ocupadas: na primeira, um rapaz come um sanduíche de salame; na outra, está um senhor gordinho, cabelo liso escuro, camisa social listada de vermelho e branco, calça social bege e pulseira de ouro no pulso. Ele conversa animadamente com o garçom, toma um chope e um Steinhager.
- Já reclamei que vocês estão perdendo cliente. Sabe o que é que ele me falou?
- Posso imaginar.
- “Estou preservando sua saúde.” Ora!...
Peço um chope e meia porção de azeitonas calabresas para abrir os trabalhos. O salão tem em torno de 25 mesas, todas com toalhas azuis, e cadeiras boas, experientes, como quase tudo aqui (olho para o teto e vejo-o descascando; enquanto não começar a esguichar água tudo bem). O garçom que conversa com o fumante agoniado é o Mário, o mais antigo dentre os garçons do local. Mas, mesmo assim, não vão pensar que o coroa é a uma múmia.
- Eu vou me aposentar esse ano. Agora aposenta até pela internet. Depois vou viajar.
- Você que é feliz, Mário. Eu com a minha aposentadoria dá para ir até o Méier. E de van, não é de ônibus com ar condicionado não.
E continua a reclamar que não pode fumar ali, porém mais por costume do que por alguma chance de vingar a demanda. Até que vem o dono, mais de 70 anos, português legítimo, sotaque original e tudo. Tapinha nas costas para cá e para lá, sorrisos, brincadeiras, e, sem nada mais a fazer, o dono se volta para seus afazeres no armazém.
O senhor gordinho da pulseira de ouro ainda pede mais um chope e um Steinhager. O rapaz que comia sanduíche já havia se retirado. O gordinho, depois de virar suas bebidas, confidenciou-me, tocado, com a intimidade de quem era o único além dele no bar: “Não sei se você sabe, mas eu mudei o escritório para a Rio Branco. Vai ficar mais longe daqui. Assim eu paro de beber”. Deu um risinho e saiu. E eu retribuí, fingindo que acreditei.
Fiquei sozinho no salão. Aliás sozinho, não: eu, Mario e outro garçom jovem, raridade no pedaço. Eles comentam que ontem, devido à chuva, só conseguiram pegar trem depois das dez. Eu, na minha ingenuidade, digo que deve ter ficado vazio o bar por causa do temporal.
- Pelo contrário, o bar lotou do pessoal esperando a água baixar.
Só me resta comer uma omelete. Fico na dúvida e peço ao Mario uma sugestão. Ele me recomenda a de sardinha portuguesa. Eu aceito. Ele pergunta: salsa e cebola? Certamente. Não ouso contrariá-lo. A omelete vem divina. Acompanho com um chope escuro, muito bem tirado. Saúde e até a próxima.
Casa Paladino – Rua Uruguaiana 226, Centro (2263-2094)
O espaço do bar, no antigo estabelecimento situado na esquina da rua Uruguaiana com a avenida Marechal Floriano, é dividido com uma mercearia de secos e molhados. E posso lhes garantir, só por esta singela descrição, que vale a visita. Trata-se da Casa Paladino, presente entre nós há 102 anos. (um detalhe: a entrada é exclusivamente pela tal mercearia.)
Faz um dia chuvoso no verão do Rio de Janeiro. Que novidade. Não tanto como no dia anterior, de alagamentos, trânsito infernal, transtornos absurdos. Chego no meio da tarde, há duas mesas ocupadas: na primeira, um rapaz come um sanduíche de salame; na outra, está um senhor gordinho, cabelo liso escuro, camisa social listada de vermelho e branco, calça social bege e pulseira de ouro no pulso. Ele conversa animadamente com o garçom, toma um chope e um Steinhager.
- Já reclamei que vocês estão perdendo cliente. Sabe o que é que ele me falou?
- Posso imaginar.
- “Estou preservando sua saúde.” Ora!...
Peço um chope e meia porção de azeitonas calabresas para abrir os trabalhos. O salão tem em torno de 25 mesas, todas com toalhas azuis, e cadeiras boas, experientes, como quase tudo aqui (olho para o teto e vejo-o descascando; enquanto não começar a esguichar água tudo bem). O garçom que conversa com o fumante agoniado é o Mário, o mais antigo dentre os garçons do local. Mas, mesmo assim, não vão pensar que o coroa é a uma múmia.
- Eu vou me aposentar esse ano. Agora aposenta até pela internet. Depois vou viajar.
- Você que é feliz, Mário. Eu com a minha aposentadoria dá para ir até o Méier. E de van, não é de ônibus com ar condicionado não.
E continua a reclamar que não pode fumar ali, porém mais por costume do que por alguma chance de vingar a demanda. Até que vem o dono, mais de 70 anos, português legítimo, sotaque original e tudo. Tapinha nas costas para cá e para lá, sorrisos, brincadeiras, e, sem nada mais a fazer, o dono se volta para seus afazeres no armazém.
O senhor gordinho da pulseira de ouro ainda pede mais um chope e um Steinhager. O rapaz que comia sanduíche já havia se retirado. O gordinho, depois de virar suas bebidas, confidenciou-me, tocado, com a intimidade de quem era o único além dele no bar: “Não sei se você sabe, mas eu mudei o escritório para a Rio Branco. Vai ficar mais longe daqui. Assim eu paro de beber”. Deu um risinho e saiu. E eu retribuí, fingindo que acreditei.
Fiquei sozinho no salão. Aliás sozinho, não: eu, Mario e outro garçom jovem, raridade no pedaço. Eles comentam que ontem, devido à chuva, só conseguiram pegar trem depois das dez. Eu, na minha ingenuidade, digo que deve ter ficado vazio o bar por causa do temporal.
- Pelo contrário, o bar lotou do pessoal esperando a água baixar.
Só me resta comer uma omelete. Fico na dúvida e peço ao Mario uma sugestão. Ele me recomenda a de sardinha portuguesa. Eu aceito. Ele pergunta: salsa e cebola? Certamente. Não ouso contrariá-lo. A omelete vem divina. Acompanho com um chope escuro, muito bem tirado. Saúde e até a próxima.
Casa Paladino – Rua Uruguaiana 226, Centro (2263-2094)
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
(Passo hoje a lançar regularmente neste blog a coluna De Bar em Bar, publicada também na Revista Programa do JB)
DE BAR EM BAR - Hipódromo
Falei aqui outro dia sobre o Braseiro da Gávea. Dessa vez, atravessei a rua e fui ao rival. Não por uma questão de comodidade – até porque, claro, não fui no mesmo dia -, mas por uma questão de inteira justiça. Invocar o nome do Baixo Gávea em coluna e não discorrer sobre o Hipódromo depois, não pode. Simplesmente não dá, o leitor sabe disso. (ainda tem o Bar do Alemão, O B. G... Mas a gente chega lá.)
O Hipódromo era quem dava as cartas no princípio. Em suas mesas, sempre mil coisas, muitos filmes, canções, teatro, futebol, sexo verbal. Houve nos anos 90 a ascensão do Braseiro (um amigo o chama de Galeto) e de repente o velho Hipódromo ficou às moscas. A picanha com arroz de brócolis do boteco do sósia do Mário Covas, o Galeto (ou Braseiro), era considerado um prato irresistível. De noite, azaração, gente louca, esquina fatal.
Bem, mas o que importa é o seguinte: fui no fim de tarde de sábado nublado, aquele calorão, encontrar-me com S. e J. depois do cinema. Eu fui ver o filme Juventude, do Domingos de Oliveira, filmaço, uma pequena obra-prima. Eles foram debulhar lágrimas com Marley e eu – chegaram extenuados à Praça da Gávea. O Braseiro estava bombando com fila na porta. Impraticável. Atravessamos a rua de mão dupla.
No Hipódromo, agradavelmente semi-cheio, a primeira coisa que reparei, ao entrar na varanda e desviar de um carrinho de bebê, foi que na mesa ao lado comia-se uma suculenta picanha com arroz de brócolis e batata frita. Antes que pudesse arrematar a idéia de que se não dá para combater o inimigo é melhor fazer igual a ele, eis que surge o garçom e lembro que o conheço de algum lugar. Sim! Ele era do Braseiro...
- Se eu fosse dizer tudo que sei, ele ia botar meu nome na encruzilhada! Ia beijar meus pés!
Mesmo que fosse algo besta, seria impossível não notar porque foi lançado aos gritos pela mulher da mesa na diagonal, com mais três amigos, todos homens. Era morena, não era bonita, mas tinha uma jovialidade que atraía os marmanjos, que só faziam ouvi-la fascinados. Quando começamos a nos acostumar com a gralha, da mesa atrás vem outro ataque de alta potência:
- Como ele era bonito! Um gostoso!... um, ai... tudo de bom!
Mesa de quatro amigas. Não deviam ser cariocas. A que falou certamente não. Uma gauchinha, de seus 20 anos, gordinha, cabelos lisos. Peitos fartos, decote profundo, auto-estima ok. Também falava aos berros. O que deu nessas mulheres? Curiosamente, a primeira mulher, a morena na mesa da diagonal, passou a conversar mais baixo depois que passaram do chope para o uísque. Não era para ser o contrário?
Pedimos primeiro a linguiça sem trema. Veio excelente. Depois o coração de galinha no espeto. Dos melhores que já comi, misturado no alho. Em seguida, galeto na brasa com fritas. Ótimo. E chope gelado na meia pressão. Nesse início de noite o Hipódromo não apenas fez parecido como fez melhor – o que é bom para todos. Nada como a concorrência respirando no cangote para não haver acomodação. Saúde e até a próxima.
Hipódromo – Praça Santos Dumont, 108, Gávea (2274-9720)
DE BAR EM BAR - Hipódromo
Falei aqui outro dia sobre o Braseiro da Gávea. Dessa vez, atravessei a rua e fui ao rival. Não por uma questão de comodidade – até porque, claro, não fui no mesmo dia -, mas por uma questão de inteira justiça. Invocar o nome do Baixo Gávea em coluna e não discorrer sobre o Hipódromo depois, não pode. Simplesmente não dá, o leitor sabe disso. (ainda tem o Bar do Alemão, O B. G... Mas a gente chega lá.)
O Hipódromo era quem dava as cartas no princípio. Em suas mesas, sempre mil coisas, muitos filmes, canções, teatro, futebol, sexo verbal. Houve nos anos 90 a ascensão do Braseiro (um amigo o chama de Galeto) e de repente o velho Hipódromo ficou às moscas. A picanha com arroz de brócolis do boteco do sósia do Mário Covas, o Galeto (ou Braseiro), era considerado um prato irresistível. De noite, azaração, gente louca, esquina fatal.
Bem, mas o que importa é o seguinte: fui no fim de tarde de sábado nublado, aquele calorão, encontrar-me com S. e J. depois do cinema. Eu fui ver o filme Juventude, do Domingos de Oliveira, filmaço, uma pequena obra-prima. Eles foram debulhar lágrimas com Marley e eu – chegaram extenuados à Praça da Gávea. O Braseiro estava bombando com fila na porta. Impraticável. Atravessamos a rua de mão dupla.
No Hipódromo, agradavelmente semi-cheio, a primeira coisa que reparei, ao entrar na varanda e desviar de um carrinho de bebê, foi que na mesa ao lado comia-se uma suculenta picanha com arroz de brócolis e batata frita. Antes que pudesse arrematar a idéia de que se não dá para combater o inimigo é melhor fazer igual a ele, eis que surge o garçom e lembro que o conheço de algum lugar. Sim! Ele era do Braseiro...
- Se eu fosse dizer tudo que sei, ele ia botar meu nome na encruzilhada! Ia beijar meus pés!
Mesmo que fosse algo besta, seria impossível não notar porque foi lançado aos gritos pela mulher da mesa na diagonal, com mais três amigos, todos homens. Era morena, não era bonita, mas tinha uma jovialidade que atraía os marmanjos, que só faziam ouvi-la fascinados. Quando começamos a nos acostumar com a gralha, da mesa atrás vem outro ataque de alta potência:
- Como ele era bonito! Um gostoso!... um, ai... tudo de bom!
Mesa de quatro amigas. Não deviam ser cariocas. A que falou certamente não. Uma gauchinha, de seus 20 anos, gordinha, cabelos lisos. Peitos fartos, decote profundo, auto-estima ok. Também falava aos berros. O que deu nessas mulheres? Curiosamente, a primeira mulher, a morena na mesa da diagonal, passou a conversar mais baixo depois que passaram do chope para o uísque. Não era para ser o contrário?
Pedimos primeiro a linguiça sem trema. Veio excelente. Depois o coração de galinha no espeto. Dos melhores que já comi, misturado no alho. Em seguida, galeto na brasa com fritas. Ótimo. E chope gelado na meia pressão. Nesse início de noite o Hipódromo não apenas fez parecido como fez melhor – o que é bom para todos. Nada como a concorrência respirando no cangote para não haver acomodação. Saúde e até a próxima.
Hipódromo – Praça Santos Dumont, 108, Gávea (2274-9720)
domingo, 25 de janeiro de 2009
DE BAR EM BAR - Allegro Bistrô (Modern Sound)
Tenho uma alegria especial em vir a este bar que fica dentro da loja que está na minha história. Já gastei, feliz, rios de cartão de crédito por aqui – e, por conta disso, levei para casa alguns dos objetos que mais amo na vida. São os discos, os LPs, os CDs – a música, enfim. É verdade que a crise do mercado fonográfico, sem precedentes, transformou o CD no próximo dinossauro – caríssimos, eu mesmo deixei de comprar tanto. (Diante da crise, passaram até a ter outras funções: outro dia, vi um mendigo, sentado num banco da Avenida Atlântica, pentear-se usando um CD como espelho).
Mas bem antes da queda brusca nas vendagens do CD, os donos da loja (os Pedros, pai e filho) sabiamente passaram a investir no bar, que já existe há oito anos. Portanto, o bar, que oferece também boa música, cresceu, ganhou espaço e tornou-se um lugar de referência de shows e até de comes e bebes. Estou falando do Allegro Bistrô, o bar da Modern Sound, na Barata Ribeiro, pertinho da Santa Clara, todos sabem onde fica.
Cheguei cedo para ver o show do Hyldon, um dos fundadores do soul brasileiro, junto com o síndico Tim Maia e Cassiano. Para quem não lembra, é o autor do clássico “Na rua, na chuva, na fazenda”. Hyldon está lançando disco de inéditas, depois de mais de 15 anos, e tenho o orgulho de ter uma parceria com ele no CD. No Allegro Bistrô, são lançados mais de 100 discos por ano. E são 600 shows anuais. Por aqui já passaram nomes como Francis Hime, Marisa Monte, Yamandu Costa, Erasmo Carlos, João Carlos Assis Brasil, Paulo Moura...
Além disso, o Allegro é elegante. Duas ou três fileiras de mesas de tampo de mármore e cadeiras de madeira, como devem ser, e um palco soberano. Ao fundo, na direção do banheiro, um balcão com bancos altos em volta. Obviamente que o lugar respira música. Em suas paredes, pôsteres de artistas. Peço um balde com três cervejas diferentes: Cerpa, Bohemia e Heineken.
O movimento do bar vai crescendo à medida que se aproxima a hora do show. Garçons passam apressados para lá e para cá. Peço logo uma porção de queijo prato e uma Caponata. Há as mesas de freqüentadores habituais, como a das saltitantes senhoras tomando chá e comendo sanduíches. Ou a do senhor à minha frente, bebendo um Chivas Regal. Chega em sua mesa um casal de amigos e, de imediato, o senhor solicita ao garçom, a cara do jogador Obina, um balde de Bohemia e uma tábua de frios.
- É fácil. Eu abro o Clarín, vejo o que está se passando, os shows... e pronto!
Falam de Puerto Madero, Hotel Faena, crise, alta do dólar. São bons vivants que adiaram uma viagem a Londres e, até segunda ordem, se divertirão em Buenos Aires. O homem é alto, atlético, tem uma barbicha branca. A mulher é loura e a idade ainda não afetou a sua beleza. Sobre eles mais não falo porque vai começar o show.
E também porque hoje o meu personagem não é ninguém de carne e osso – mas o próprio palco, soberano, razão maior da existência deste bar. Ah, sim, o show é de graça. Saúde e até a próxima.
Allegro Bistrô – Rua Barata Ribeiro 502, Copacabana (2548-5005)
Tenho uma alegria especial em vir a este bar que fica dentro da loja que está na minha história. Já gastei, feliz, rios de cartão de crédito por aqui – e, por conta disso, levei para casa alguns dos objetos que mais amo na vida. São os discos, os LPs, os CDs – a música, enfim. É verdade que a crise do mercado fonográfico, sem precedentes, transformou o CD no próximo dinossauro – caríssimos, eu mesmo deixei de comprar tanto. (Diante da crise, passaram até a ter outras funções: outro dia, vi um mendigo, sentado num banco da Avenida Atlântica, pentear-se usando um CD como espelho).
Mas bem antes da queda brusca nas vendagens do CD, os donos da loja (os Pedros, pai e filho) sabiamente passaram a investir no bar, que já existe há oito anos. Portanto, o bar, que oferece também boa música, cresceu, ganhou espaço e tornou-se um lugar de referência de shows e até de comes e bebes. Estou falando do Allegro Bistrô, o bar da Modern Sound, na Barata Ribeiro, pertinho da Santa Clara, todos sabem onde fica.
Cheguei cedo para ver o show do Hyldon, um dos fundadores do soul brasileiro, junto com o síndico Tim Maia e Cassiano. Para quem não lembra, é o autor do clássico “Na rua, na chuva, na fazenda”. Hyldon está lançando disco de inéditas, depois de mais de 15 anos, e tenho o orgulho de ter uma parceria com ele no CD. No Allegro Bistrô, são lançados mais de 100 discos por ano. E são 600 shows anuais. Por aqui já passaram nomes como Francis Hime, Marisa Monte, Yamandu Costa, Erasmo Carlos, João Carlos Assis Brasil, Paulo Moura...
Além disso, o Allegro é elegante. Duas ou três fileiras de mesas de tampo de mármore e cadeiras de madeira, como devem ser, e um palco soberano. Ao fundo, na direção do banheiro, um balcão com bancos altos em volta. Obviamente que o lugar respira música. Em suas paredes, pôsteres de artistas. Peço um balde com três cervejas diferentes: Cerpa, Bohemia e Heineken.
O movimento do bar vai crescendo à medida que se aproxima a hora do show. Garçons passam apressados para lá e para cá. Peço logo uma porção de queijo prato e uma Caponata. Há as mesas de freqüentadores habituais, como a das saltitantes senhoras tomando chá e comendo sanduíches. Ou a do senhor à minha frente, bebendo um Chivas Regal. Chega em sua mesa um casal de amigos e, de imediato, o senhor solicita ao garçom, a cara do jogador Obina, um balde de Bohemia e uma tábua de frios.
- É fácil. Eu abro o Clarín, vejo o que está se passando, os shows... e pronto!
Falam de Puerto Madero, Hotel Faena, crise, alta do dólar. São bons vivants que adiaram uma viagem a Londres e, até segunda ordem, se divertirão em Buenos Aires. O homem é alto, atlético, tem uma barbicha branca. A mulher é loura e a idade ainda não afetou a sua beleza. Sobre eles mais não falo porque vai começar o show.
E também porque hoje o meu personagem não é ninguém de carne e osso – mas o próprio palco, soberano, razão maior da existência deste bar. Ah, sim, o show é de graça. Saúde e até a próxima.
Allegro Bistrô – Rua Barata Ribeiro 502, Copacabana (2548-5005)
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
DE BAR EM BAR - Braseiro da Gávea
Quem nunca se apaixonou perdidamente, ao menos por cinco minutos, no Braseiro? Lá pelos anos 80, havia no lugar um pé-sujo que vendia cerveja Malt 90 (argh) e o pessoal bebia em pé na calçada. Mais para o final da década, o Baixo Gávea passou a ser o principal point da Zona Sul com a decadência do Baixo Leblon. Mas para ser Baixo não adianta só juntar gente, multidão, é preciso ter história. E sobre o BG daria para escrever um livro volumoso, dividido em vários tomos.
No início era o verbo. E o Hipódromo do outro lado da rua. Talvez no limiar dos 90, a coisa tenha se invertido e o Braseiro da Gávea é quem começou a dar as cartas. Tanto que conseguir mesa no fim-de-semana à tarde, especialmente no domingo, depois da praia, é tarefa dificílima. As filas são quilométricas. Mas para quem quer ver e ser visto não há lugar melhor. (Atualmente o movimento voltou a ser mais equilibrado entre os dois bares.)
Mas estou agora no Braseiro da Gávea, num dia de semana de verão. Começo com um chope e a tradicional lingüicinha na brasa. Eis que chega Seu Jorge. De cara dou-lhe os parabéns pelo sucesso todo e pergunto-lhe se ainda pensa em montar um bar com Ed Motta e Marcelo D2. Um bar com ovo colorido e tudo. Seu Jorge responde que agora não dá, “mas a idéia tá viva”. Então ele me pergunta como é que foi “O rei dos escombros”, uma peça minha (sim, me aventurei na co-autoria), em que ele cantou numa das músicas. Isso já tem um tempão. A peça não foi lá nada bem, mas a música ficou ótima.
Seu Jorge me dá um abraço e se adianta para um compromisso. Poucos minutos depois, chega o Otto, de bicicleta. Ele tomara um tombo, felizmente sem gravidade, e passou ali para dar uma relaxada. Depois que esvazia um copo, pergunto-lhe do disco novo. O título é: “Certa manhã eu acordei de sonhos intranqüilos”, inspirado no Kafka de “A metamorfose”. Não tem prazo ainda, é independente. Otto, além de imprevisível, é um poeta. Ou não é, quem escreve coisas como: “Esse amor me derreteu / Ajoelha-te esquece / A quem te machuca / Agradece, meu Deus / Dói demais / Tanta história de fogo / Que se passa / É melhor se queimar / Que viver na solidão” (“História de Fogo”, com música dele e Alessandra Negrini).
Falamos ainda sobre cães, e Otto também se foi. Aqui no Baixo Gávea é sempre assim. Os artistas vão se alternando numa velocidade espantosa. Um amigo jornalista chegou a passar, certa vez, 12 horas seguidas no Braseiro ouvindo histórias. E há, claro, os queridos personagens anônimos, como os da mesa ao meu lado. Primeiro só a filha, de seus 7 anos, e o pai, já de meia-idade. De repente, chega a namorada jovem do pai. Pouco tempo depois, aparece o pai da moça, da idade do namorado (a família moderna tem incontáveis combinações). Batem um papo animadíssimo. Mas, a esta altura, a fome já é grande. Só me resta pedir a picanha fatiada com arroz de brócolis, farofa de ovo e batatas portuguesas – um clássico do cardápio. E mais um chope para acompanhar e lavar a alma. Saúde e até a próxima.
Braseiro da Gávea – Praça Santos Dumont, 116, Gávea (2239-7494)
Quem nunca se apaixonou perdidamente, ao menos por cinco minutos, no Braseiro? Lá pelos anos 80, havia no lugar um pé-sujo que vendia cerveja Malt 90 (argh) e o pessoal bebia em pé na calçada. Mais para o final da década, o Baixo Gávea passou a ser o principal point da Zona Sul com a decadência do Baixo Leblon. Mas para ser Baixo não adianta só juntar gente, multidão, é preciso ter história. E sobre o BG daria para escrever um livro volumoso, dividido em vários tomos.
No início era o verbo. E o Hipódromo do outro lado da rua. Talvez no limiar dos 90, a coisa tenha se invertido e o Braseiro da Gávea é quem começou a dar as cartas. Tanto que conseguir mesa no fim-de-semana à tarde, especialmente no domingo, depois da praia, é tarefa dificílima. As filas são quilométricas. Mas para quem quer ver e ser visto não há lugar melhor. (Atualmente o movimento voltou a ser mais equilibrado entre os dois bares.)
Mas estou agora no Braseiro da Gávea, num dia de semana de verão. Começo com um chope e a tradicional lingüicinha na brasa. Eis que chega Seu Jorge. De cara dou-lhe os parabéns pelo sucesso todo e pergunto-lhe se ainda pensa em montar um bar com Ed Motta e Marcelo D2. Um bar com ovo colorido e tudo. Seu Jorge responde que agora não dá, “mas a idéia tá viva”. Então ele me pergunta como é que foi “O rei dos escombros”, uma peça minha (sim, me aventurei na co-autoria), em que ele cantou numa das músicas. Isso já tem um tempão. A peça não foi lá nada bem, mas a música ficou ótima.
Seu Jorge me dá um abraço e se adianta para um compromisso. Poucos minutos depois, chega o Otto, de bicicleta. Ele tomara um tombo, felizmente sem gravidade, e passou ali para dar uma relaxada. Depois que esvazia um copo, pergunto-lhe do disco novo. O título é: “Certa manhã eu acordei de sonhos intranqüilos”, inspirado no Kafka de “A metamorfose”. Não tem prazo ainda, é independente. Otto, além de imprevisível, é um poeta. Ou não é, quem escreve coisas como: “Esse amor me derreteu / Ajoelha-te esquece / A quem te machuca / Agradece, meu Deus / Dói demais / Tanta história de fogo / Que se passa / É melhor se queimar / Que viver na solidão” (“História de Fogo”, com música dele e Alessandra Negrini).
Falamos ainda sobre cães, e Otto também se foi. Aqui no Baixo Gávea é sempre assim. Os artistas vão se alternando numa velocidade espantosa. Um amigo jornalista chegou a passar, certa vez, 12 horas seguidas no Braseiro ouvindo histórias. E há, claro, os queridos personagens anônimos, como os da mesa ao meu lado. Primeiro só a filha, de seus 7 anos, e o pai, já de meia-idade. De repente, chega a namorada jovem do pai. Pouco tempo depois, aparece o pai da moça, da idade do namorado (a família moderna tem incontáveis combinações). Batem um papo animadíssimo. Mas, a esta altura, a fome já é grande. Só me resta pedir a picanha fatiada com arroz de brócolis, farofa de ovo e batatas portuguesas – um clássico do cardápio. E mais um chope para acompanhar e lavar a alma. Saúde e até a próxima.
Braseiro da Gávea – Praça Santos Dumont, 116, Gávea (2239-7494)
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