A SOMBRA DO FAQUIR 8
Uma das maiores alegrias para quem adora futebol e tem filhos é passar a paixão pelo clube por que torce para a prole. Nesse ponto não tenho do que reclamar da vida. Meu filho Júlio é tão botafoguense quanto eu, se não for ainda mais fanático. Pois bem, no último domingo fomos juntos assistir ao jogo do nosso time numa condição especialíssima: na companhia ilustre do presidente do clube, Maurício Assumpção.
Esta é uma situação que a rigor não me entusiasmaria muito. Ficar de salamaleques com o poder, mesmo sendo o do clube da estrela solitária. Mordomias no camarote presidencial, tapinhas nas costas, sorrisos elogiosos e papo furado. Mas acontece que sou um admirador incondicional do trabalho da atual diretoria do Botafogo. Em pouco tempo ela deu jeito no clube e o colocou de volta ao caminho certo, de proeminência no futebol brasileiro.
Se no ano passado, como nos anteriores, brigamos para não ser rebaixados, neste, estamos (ainda) na luta pelas principais posições da tabela. O clube, que é o que mais cedeu jogadores à seleção brasileira em todos os tempos, voltou a dar destaque aos craques do passado (inaugurando, inclusive, estátuas em seu estádio de monstros sagrados como Garrincha, Nilton Santos e Jairzinho). O Botafogo voltou a ter ídolos, como Loco Abreu e Maicosuel. Ganhou o último campeonato carioca por antecipação ao vencer os dois turnos (depois de levar uma goleada humilhante do Vasco). Teve um comportamento humanista ao tratar de forma sensível o jogador Jóbson, um talento a ser lapidado, que fora suspenso pelo uso de drogas. E investiu com inteligência no marketing, atraindo torcedores das novas gerações. Isso tudo sem gastar fortunas.
O presidente Maurício Assumpção, que é dentista, por coincidência é professor de odontologia da mesma faculdade onde meu irmão, seu xará, também dá aulas. Num jantar recente, os dois se encontraram e meu irmão comentou que eu e meu filho éramos botafoguenses roxos. O presidente, nem titubeou: “Quero convidá-los então para assistirem comigo a um jogo em meu camarote.” Assim começou a saga. Recebemos o convite para ver o Botafogo contra o Internacional de Porto Alegre.
A princípio seria um jogo fácil. O Internacional, que não aspira mais a grandes coisas na competição e está voltado para a final do campeonato Mundial de Clubes, em dezembro, viria com um time misto e o seu goleiro seria nada menos do que o quarto reserva. E o Botafogo, por sua vez, jogando em casa, motivado pela disputa por uma vaga na Taça Libertadores (sonho de consumo de todos os times brasileiros), teria tudo para passar por cima. Já me via após a partida no vestiário conversando com os jogadores e comemorando com o presidente num restaurante qualquer.
Eu e Júlio chegamos cedo ao estádio. Meu filho tinha uma prova importantíssima de Química no dia seguinte, mas eu, pai compreensivo, liberei sua vinda desde que se matasse de estudar nos dias que antecederam ao jogo. Júlio, num gesto puramente teatral, chegou a levar uma mochila com cadernos e livros para o Estádio Olímpico do Engenhão. No camarote fomos os primeiros a entrar. A visão do campo era estupenda. A felicidade estava estampada em nossos rostos. Recebemos os cumprimentos e as boas-vindas do vice-presidente Antonio Carlos Mantuano e do diretor Maurão. Aos poucos foram chegando os outros convidados. No gramado, rolava um show de Michael Sullivan, o compositor alvinegro de mil e um sucessos. A torcida fazia um bonito espetáculo.
Eis que surge no camarote o ex-jogador da seleção portuguesa da Copa de 1966, o craque Eusébio, na época comparado a Pelé. Bem conservado, uma celebridade planetária. Pouco tempo depois surge o presidente. Simpático, fala de forma atenciosa com todos, mas sem se deter muito. As muitas atribuições e a tensão de um jogo capital para nossas pretensões fazem com que ele troque apenas poucas palavras com convidados distantes como eu. Tudo bem. Chegam também ao local três dirigentes de um clube uruguaio, se não me engano o Nacional de Montevidéu. Depois da experiência bem-sucedida com Loco Abreu deve vir outro atleta daquelas bandas para o alvinegro.
De repente, eu e Júlio olhamos para um dos camarotes ao lado e vemos uma parte considerável do time que seria titular do Botafogo: Maicosuel, Herrera, Fábio Ferreira, Somália (mais o reserva Danny Moraes, porém este não estava relacionado para o jogo por pertencer ao adversário). Ainda faltou o meio-campo Marcelo Mattos. Todos contundidos. Num campeonato longo como é o Brasileirão é comum os times terem desfalques por contusão. Mas no caso do Botafogo, não só perdemos nossa principal contratação (Maicosuel), como as lesões foram todas muito graves, impossibilitando os atletas de se recuperarem a tempo de voltar a atuar ainda este ano. E, como reza a lenda, há coisas que só acontecem ao Botafogo.
Bem, vamos ao campo. O time começou pressionando e deixou de marcar logo de cara alguns gols. O tempo foi passando, a pressão arrefeceu, era chutão pra lá e pra cá e nada. Final do primeiro tempo, zero a zero. Na etapa final, o time continuou a não jogar bem, a bola parecia queimar nos pés e o sonolento time do Inter abre o placar aos 20 minutos e amplia aos 29. O Botafogo desconta aos 30, mas um nervosismo avassalador toma conta do time, da torcida e do presidente, que torce com a fúria dos desesperados. Perdemos. O Botafogo estava invicto em seu estádio havia sete meses.
Clima de velório no camarote. A profunda decepção está estampada no rosto de meu filho e dos demais. Sinto vontade de chorar mas seguro a onda. O presidente, a um canto, olha para o nada e verte lágrimas de meu mundo caiu. Fico na dúvida entre falar com ele ou deixá-lo sofrer em paz. Acabo optando por sair educadamente e me despedir dele, agradecendo mais uma vez o convite. Ele mal consegue responder. Imagino que tenha pensado: “Que pé-frio! Esse eu não convido nunca mais...” No dia seguinte, Júlio se deu mal na prova de Química. Mas, apesar de tudo, foi uma bela tarde – triste e inesquecível. E o Botafogo ainda tem chances matemáticas de conquistar a sonhada vaga para a Libertadores, dependendo de uma louca combinação de resultados. Como com o Botafogo tudo é possível, vamos aguardar. Avante, Fogão. Sempre.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Quando a letra vira música
A SOMBRA DO FAQUIR 7
No domingo passado participei de uma afinada conversa com Zeca Baleiro, no último dia da Bienal de Literatura de Campos dos Goytacazes. (Sim, alentadoramente em Campos não repercutem mais apenas deploráveis problemas políticos.) Com curadoria arquitetada pela professora poeta autora de livros infantis e divulgadora incansável da literatura Suzana Vargas, no evento feito em homenagem a Ferreira Gullar e Rachel de Queiroz, estiveram entre outros nomes importantes lá na Praça São Salvador: Sérgio Sant’Anna, Ondjaki, José Eduardo Agualusa, João Paulo Cuenca, Ruy Castro, José Castello, Heloísa Seixas, Lêdo Ivo, Luís Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Nelson Motta, Mia Couto, Nei Lopes, Ana Paula Maia, Fabrício Carpinejar, Michel Melamed e o próprio Ferreira Gullar, nosso maior poeta vivo. Nada mau, hein?
Mediado pelo jornalista e compositor (vencedor de vários festivais de música da região) Aloysio Balbi, o tema que nós tínhamos a destrinchar para uma plateia essencialmente jovem, Zeca Baleiro e eu, era exatamente o título desta crônica: Quando a letra vira música. Como Zeca ficou preso no trânsito, tive de encarar a arena jovem lotada e começar sozinho. Poderia dizer, para ir direto ao ponto, que isso acontece, a letra virar música, no momento em que há o encaixe adequado entre letra e música; isto é, entre letra de um lado e melodia e harmonia do outro. Quando a composição fecha em uma coisa só e não há mais lados. Simples assim. Mas achei melhor começar lendo o poema que deu origem à minha canção Por você (em parceria com Frejat e Maurício Barros). Foi uma decisão acertada.
Curiosamente o tema da letra de música tem sido privilegiado nos últimos dias. Estabeleceu-se uma polêmica em jornal entre dois compositores-ensaístas de gerações diferentes que admiro, Francisco Bosco e José Miguel Wisnick, polêmica (ou diálogo) sobre o tema, especificamente sobre a letra de música que é feita antes que haja uma música propriamente. Defendeu Francisco que esta pertenceria a um gênero absurdo. Wisnick não entendeu a especificidade e falou que a letra em geral não seria um gênero absurdo. Francisco se explicou mais uma vez e Wisnick acrescentou, com carinho e respeito pelo interlocutor, que o outro falava de um gênero ao qual se dedicava, mas sem declarar explicitamente sua adesão.
Acho saudável e revelador que o debate se dê sobre o gênero que é meu também, ainda mais num nível tão elevado de argumentação, mas entendo que eles discutiram quase a espuma da onda que quebra na praia. O que importa, em minha opinião (e acredito que para o público em geral), não é saber se a letra foi feita antes, depois ou durante. Importa realmente é que a música seja boa, independentemente do processo de criação. Que a melodia e a letra estejam unidas de forma harmônica e bela, isto sim é digno de relevância para gregos antigos e baianos modernos.
Também nos últimos dias iniciou-se um curso de Poesia e Letra de Música, aqui no Rio, ministrado por Antonio Cícero, filósofo, poeta e letrista de primeira ordem. Fiquei dividido entre aproveitar o tempo necessário para outras tarefas literárias e me dar o prazer renovador de ouvir o mestre, mas resolvi fazer. No ano passado eu mesmo tive a oportunidade de dar um curso unindo os dois gêneros e foi uma experiência muito interessante. Agora, com apenas uma aula assistida, já tenho a certeza de que fiz a coisa certa. Antonio Cícero, além de excelente poeta, é culto, extremamente inteligente e o melhor: fala de forma simples e bem-humorada.
Voltando a Campos e à minha troca de impressões com o inventivo Zeca Baleiro, que começou na Bienal e se estendeu a uma mesa de bar depois do evento. Ainda que ele, um artista múltiplo, autor, dentre outras criações, de um disco extraordinário em que musicou poemas de Hilda Hilst e que agora está lançando o livro Bala na agulha (reflexões de boteco, pasteis de memória e outras frituras), já conhecesse um pouco do meu trabalho e tenhamos alguns amigos músicos em comum, foi um papo que fluiu fácil desde o abraço inicial. Foi bem recebido pela curiosa plateia e nos deixou à vontade para falar sobre inspiração, o trabalho quase invisível do letrista que é só letrista, o momento de transição do mercado, a falta de discurso das novas bandas de sucesso em oposição à nossa inesgotável fonte de talentos musicais, o descartável e o que não morre nunca. E, claro, futebol, paixão dos dois – aí já com um copo de chope na frente e o relaxamento de quem já tinha cumprido o seu dever. Por um instante me senti mesmo como que seu parceiro de fé na união indissociável de vida e arte, letra e música. Valeu, Zeca: saúde e até a próxima.
No domingo passado participei de uma afinada conversa com Zeca Baleiro, no último dia da Bienal de Literatura de Campos dos Goytacazes. (Sim, alentadoramente em Campos não repercutem mais apenas deploráveis problemas políticos.) Com curadoria arquitetada pela professora poeta autora de livros infantis e divulgadora incansável da literatura Suzana Vargas, no evento feito em homenagem a Ferreira Gullar e Rachel de Queiroz, estiveram entre outros nomes importantes lá na Praça São Salvador: Sérgio Sant’Anna, Ondjaki, José Eduardo Agualusa, João Paulo Cuenca, Ruy Castro, José Castello, Heloísa Seixas, Lêdo Ivo, Luís Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Nelson Motta, Mia Couto, Nei Lopes, Ana Paula Maia, Fabrício Carpinejar, Michel Melamed e o próprio Ferreira Gullar, nosso maior poeta vivo. Nada mau, hein?
Mediado pelo jornalista e compositor (vencedor de vários festivais de música da região) Aloysio Balbi, o tema que nós tínhamos a destrinchar para uma plateia essencialmente jovem, Zeca Baleiro e eu, era exatamente o título desta crônica: Quando a letra vira música. Como Zeca ficou preso no trânsito, tive de encarar a arena jovem lotada e começar sozinho. Poderia dizer, para ir direto ao ponto, que isso acontece, a letra virar música, no momento em que há o encaixe adequado entre letra e música; isto é, entre letra de um lado e melodia e harmonia do outro. Quando a composição fecha em uma coisa só e não há mais lados. Simples assim. Mas achei melhor começar lendo o poema que deu origem à minha canção Por você (em parceria com Frejat e Maurício Barros). Foi uma decisão acertada.
Curiosamente o tema da letra de música tem sido privilegiado nos últimos dias. Estabeleceu-se uma polêmica em jornal entre dois compositores-ensaístas de gerações diferentes que admiro, Francisco Bosco e José Miguel Wisnick, polêmica (ou diálogo) sobre o tema, especificamente sobre a letra de música que é feita antes que haja uma música propriamente. Defendeu Francisco que esta pertenceria a um gênero absurdo. Wisnick não entendeu a especificidade e falou que a letra em geral não seria um gênero absurdo. Francisco se explicou mais uma vez e Wisnick acrescentou, com carinho e respeito pelo interlocutor, que o outro falava de um gênero ao qual se dedicava, mas sem declarar explicitamente sua adesão.
Acho saudável e revelador que o debate se dê sobre o gênero que é meu também, ainda mais num nível tão elevado de argumentação, mas entendo que eles discutiram quase a espuma da onda que quebra na praia. O que importa, em minha opinião (e acredito que para o público em geral), não é saber se a letra foi feita antes, depois ou durante. Importa realmente é que a música seja boa, independentemente do processo de criação. Que a melodia e a letra estejam unidas de forma harmônica e bela, isto sim é digno de relevância para gregos antigos e baianos modernos.
Também nos últimos dias iniciou-se um curso de Poesia e Letra de Música, aqui no Rio, ministrado por Antonio Cícero, filósofo, poeta e letrista de primeira ordem. Fiquei dividido entre aproveitar o tempo necessário para outras tarefas literárias e me dar o prazer renovador de ouvir o mestre, mas resolvi fazer. No ano passado eu mesmo tive a oportunidade de dar um curso unindo os dois gêneros e foi uma experiência muito interessante. Agora, com apenas uma aula assistida, já tenho a certeza de que fiz a coisa certa. Antonio Cícero, além de excelente poeta, é culto, extremamente inteligente e o melhor: fala de forma simples e bem-humorada.
Voltando a Campos e à minha troca de impressões com o inventivo Zeca Baleiro, que começou na Bienal e se estendeu a uma mesa de bar depois do evento. Ainda que ele, um artista múltiplo, autor, dentre outras criações, de um disco extraordinário em que musicou poemas de Hilda Hilst e que agora está lançando o livro Bala na agulha (reflexões de boteco, pasteis de memória e outras frituras), já conhecesse um pouco do meu trabalho e tenhamos alguns amigos músicos em comum, foi um papo que fluiu fácil desde o abraço inicial. Foi bem recebido pela curiosa plateia e nos deixou à vontade para falar sobre inspiração, o trabalho quase invisível do letrista que é só letrista, o momento de transição do mercado, a falta de discurso das novas bandas de sucesso em oposição à nossa inesgotável fonte de talentos musicais, o descartável e o que não morre nunca. E, claro, futebol, paixão dos dois – aí já com um copo de chope na frente e o relaxamento de quem já tinha cumprido o seu dever. Por um instante me senti mesmo como que seu parceiro de fé na união indissociável de vida e arte, letra e música. Valeu, Zeca: saúde e até a próxima.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Luizinho Vermelho e o verão de 68
DE BAR EM BAR - Garota de Bonsucesso
Condensar as experimentações de uma ida ao botequim nem sempre é tarefa das mais fáceis – embora a impressão que dá seja exatamente a oposta dado o prazer inegável que é sentar num bar, pedir um chope e ver a vida passar diante dos olhos. Só que são tantas variáveis, tanto aleatório para botar no papel... Mas dessa vez, amigo leitor, confesso que foi quase como que uma tarefa impossível. Isto porque meu convidado foi o poeta, letrista, produtor e metralhadora cultural Tavinho Paes. Como encaminhar o chão da conversa? Como contê-lo nesse espaço? Só mesmo indo a Bonsucesso para saber. Foi o que fizemos.
Levados de carro por uma loura gentil e bonita, a designer Ariella Cristaldi, de Copacabana até o bairro onde Tavinho morou quando foi adolescente, a conversa de bar começou logo no longo caminho (aliás não há mais nenhum horário sem engarrafamento no Rio de Janeiro. Tudo é hora do rush. Alô, Olimpíadas, Copa do Mundo. Alô, carioca, poder público: cadê o metrô disseminado? Cadê ciclovia pela cidade inteira?).
Mal saímos do Rebouças, Tavinho Paes entrou no túnel do tempo. Seus olhos estouravam champanhe ao contar as aventuras loucas que viveu lá pelos seus quinze anos. Como o pai teve altos e baixos financeiros pela vida, o carioca Luiz Octavio Paes de Oliveira, nascido literalmente na Praça da Apoteose, morou de Ipanema a Cascadura. Passando pela Bonsucesso de 1968, com o mítico bandido Lúcio Flávio (favor não confundir com o hoje apagado e perseguido meio-campo do Botafogo) passeando de lambreta com os maiores brotos da área pela Avenida Paris. Sim, pois as avenidas de Bonsucesso têm nome de famosas cidades internacionais.
Quando, depois de um bom trecho na Avenida Brasil, viramos à direita e entramos no bairro, Tavinho mostrou-nos orgulhoso seu conhecimento das ruas e dos estabelecimentos de então (o cinema Paraíso, a favela Perereca...). Vários já não existem mais. Como o primeiro bar para onde nos dirigimos (“um dos primeiros a ter chope na Zona Norte”). Virou uma lanchonete. Tavinho pensou rápido numa outra possibilidade e lá fomos nós para o cruzamento das Avenidas Bruxelas e Nova Iorque. Perfeito. Um bar de esquina, com varanda, e de nome emblemático: Garota de Bonsucesso.
O calor é senegalesco. O relógio digital de rua marca 33 graus, mas a sensação é de 52. E o verão mal começou. “O vento não tem como entrar aqui no bairro”, esclarece o coautor de tantas músicas de êxito como Totalmente Demais, Radio Blá, Sexy Iemanjá, Linda Demais, parceiro de muitos artistas, entre eles Lobão e Arnaldo Brandão, o mais constante (com quem compôs “Bonsucesso 68”: “Lúcio Flávio morava na Roma / Fernando C.O. lá na New York / Tavinho era um menino na Bruxelas / Entre a Londres e a Paris” *).
Sentamos na varanda do lado da Avenida Bruxelas, na mesma quadra onde Tavinho morou e também onde Zeca Pagodinho fez seus primeiros shows. Pedimos vários chopes e para acompanhar espetinhos de carne de porco e linguiça mineira com farofa e molho à campanha. Nada veio muito bom, mas isso não tinha a menor importância. Ariella, fiel à sua função de nos rebocar ao final sãos e salvos, pediu uma banana split com três bolas de sorvete de chocolate, mas como não tinha sorvete de chocolate, contentou-se com uma porção de batata frita. Na verdade, para ela estava tudo bem pois também se divertia com as peripécias do nosso Tavinho.
Mas, por desencargo de consciência e justiça ao bom atendimento, cito algumas outras opções do cardápio: casquinha de siri, camarão à milanesa, bolinho de bacalhau e de carne seca, queijo prato e salaminho. Entre as refeições, espaguete à bolonhesa, churrasco misto, filé à Osvaldo Aranha, polvo à portuguesa e posta de peixe à Garota. Um cardápio bem diversificado.
De repente, Tavinho Paes se levanta e vai até o balcão conversar com o gerente. E volta com uma cachacinha na mão. Dividimos a dose e mandamos descer outra. Tavinho fala ao garçom: “Se eu pedir mais uma, ignora.” Achei melhor nem saber da marca. As seguintes doses, quem pediu fui eu. Tavinho conta então aquela que é a história central do nosso encontro e envolve o citado bandido Lúcio Flávio.
Lúcio Flávio (não confundir por favor com o perseguido meio-campo do Botafogo), cujo sonho – dizem – era se tornar pintor, político ou padre, era bandido numa época em que a marginalidade romanticamente fazia pegas em Gordinis e roubava carros no subúrbio para revender na Ilha do Governador. Bons tempos. Porém, como hoje, Lúcio Flávio e sua gangue (Toninho Caroço, Mico Preto, Fernando C.O. e outros) utilizavam os adolescentes para serem seus olheiros quanto à chegada da polícia. Tavinho foi um desses. Na época era o Luizinho Vermelho (ou Vermelhinho), não porque fosse precocemente comunista, mas porque era como ficava ao pegar sol.
Certa feita, estava num dos três carros da bandidagem quando chegou a polícia. O motorista do primeiro era Lorde GK (corruptela de Lorde Jeca), o melhor piloto da quadrilha, que disse para os moleques (entre eles, Luizinho Vermelho): “Fiquem tranquilos. Vocês estão comigo.” E começou uma perseguição de filme americano. Tavinho sentiu-se como se estivesse dentro da tela do cinema Paraíso. Foi uma das maiores aventuras do homem que decidiu entregar sua vida, alguns anos depois, à aventura da poesia e da arte. Sábia decisão. Saúde e até a próxima.
Garota de Bonsucesso – Rua Nova Iorque, 212, Bonsucesso (2564-3013)
* link para um vídeo da música:
http://www.letradamusica.net/hanoi-hanoi/bonsucesso-68.html (Programa Rock Brasil – TV Manchete – 1987)
Condensar as experimentações de uma ida ao botequim nem sempre é tarefa das mais fáceis – embora a impressão que dá seja exatamente a oposta dado o prazer inegável que é sentar num bar, pedir um chope e ver a vida passar diante dos olhos. Só que são tantas variáveis, tanto aleatório para botar no papel... Mas dessa vez, amigo leitor, confesso que foi quase como que uma tarefa impossível. Isto porque meu convidado foi o poeta, letrista, produtor e metralhadora cultural Tavinho Paes. Como encaminhar o chão da conversa? Como contê-lo nesse espaço? Só mesmo indo a Bonsucesso para saber. Foi o que fizemos.
Levados de carro por uma loura gentil e bonita, a designer Ariella Cristaldi, de Copacabana até o bairro onde Tavinho morou quando foi adolescente, a conversa de bar começou logo no longo caminho (aliás não há mais nenhum horário sem engarrafamento no Rio de Janeiro. Tudo é hora do rush. Alô, Olimpíadas, Copa do Mundo. Alô, carioca, poder público: cadê o metrô disseminado? Cadê ciclovia pela cidade inteira?).
Mal saímos do Rebouças, Tavinho Paes entrou no túnel do tempo. Seus olhos estouravam champanhe ao contar as aventuras loucas que viveu lá pelos seus quinze anos. Como o pai teve altos e baixos financeiros pela vida, o carioca Luiz Octavio Paes de Oliveira, nascido literalmente na Praça da Apoteose, morou de Ipanema a Cascadura. Passando pela Bonsucesso de 1968, com o mítico bandido Lúcio Flávio (favor não confundir com o hoje apagado e perseguido meio-campo do Botafogo) passeando de lambreta com os maiores brotos da área pela Avenida Paris. Sim, pois as avenidas de Bonsucesso têm nome de famosas cidades internacionais.
Quando, depois de um bom trecho na Avenida Brasil, viramos à direita e entramos no bairro, Tavinho mostrou-nos orgulhoso seu conhecimento das ruas e dos estabelecimentos de então (o cinema Paraíso, a favela Perereca...). Vários já não existem mais. Como o primeiro bar para onde nos dirigimos (“um dos primeiros a ter chope na Zona Norte”). Virou uma lanchonete. Tavinho pensou rápido numa outra possibilidade e lá fomos nós para o cruzamento das Avenidas Bruxelas e Nova Iorque. Perfeito. Um bar de esquina, com varanda, e de nome emblemático: Garota de Bonsucesso.
O calor é senegalesco. O relógio digital de rua marca 33 graus, mas a sensação é de 52. E o verão mal começou. “O vento não tem como entrar aqui no bairro”, esclarece o coautor de tantas músicas de êxito como Totalmente Demais, Radio Blá, Sexy Iemanjá, Linda Demais, parceiro de muitos artistas, entre eles Lobão e Arnaldo Brandão, o mais constante (com quem compôs “Bonsucesso 68”: “Lúcio Flávio morava na Roma / Fernando C.O. lá na New York / Tavinho era um menino na Bruxelas / Entre a Londres e a Paris” *).
Sentamos na varanda do lado da Avenida Bruxelas, na mesma quadra onde Tavinho morou e também onde Zeca Pagodinho fez seus primeiros shows. Pedimos vários chopes e para acompanhar espetinhos de carne de porco e linguiça mineira com farofa e molho à campanha. Nada veio muito bom, mas isso não tinha a menor importância. Ariella, fiel à sua função de nos rebocar ao final sãos e salvos, pediu uma banana split com três bolas de sorvete de chocolate, mas como não tinha sorvete de chocolate, contentou-se com uma porção de batata frita. Na verdade, para ela estava tudo bem pois também se divertia com as peripécias do nosso Tavinho.
Mas, por desencargo de consciência e justiça ao bom atendimento, cito algumas outras opções do cardápio: casquinha de siri, camarão à milanesa, bolinho de bacalhau e de carne seca, queijo prato e salaminho. Entre as refeições, espaguete à bolonhesa, churrasco misto, filé à Osvaldo Aranha, polvo à portuguesa e posta de peixe à Garota. Um cardápio bem diversificado.
De repente, Tavinho Paes se levanta e vai até o balcão conversar com o gerente. E volta com uma cachacinha na mão. Dividimos a dose e mandamos descer outra. Tavinho fala ao garçom: “Se eu pedir mais uma, ignora.” Achei melhor nem saber da marca. As seguintes doses, quem pediu fui eu. Tavinho conta então aquela que é a história central do nosso encontro e envolve o citado bandido Lúcio Flávio.
Lúcio Flávio (não confundir por favor com o perseguido meio-campo do Botafogo), cujo sonho – dizem – era se tornar pintor, político ou padre, era bandido numa época em que a marginalidade romanticamente fazia pegas em Gordinis e roubava carros no subúrbio para revender na Ilha do Governador. Bons tempos. Porém, como hoje, Lúcio Flávio e sua gangue (Toninho Caroço, Mico Preto, Fernando C.O. e outros) utilizavam os adolescentes para serem seus olheiros quanto à chegada da polícia. Tavinho foi um desses. Na época era o Luizinho Vermelho (ou Vermelhinho), não porque fosse precocemente comunista, mas porque era como ficava ao pegar sol.
Certa feita, estava num dos três carros da bandidagem quando chegou a polícia. O motorista do primeiro era Lorde GK (corruptela de Lorde Jeca), o melhor piloto da quadrilha, que disse para os moleques (entre eles, Luizinho Vermelho): “Fiquem tranquilos. Vocês estão comigo.” E começou uma perseguição de filme americano. Tavinho sentiu-se como se estivesse dentro da tela do cinema Paraíso. Foi uma das maiores aventuras do homem que decidiu entregar sua vida, alguns anos depois, à aventura da poesia e da arte. Sábia decisão. Saúde e até a próxima.
Garota de Bonsucesso – Rua Nova Iorque, 212, Bonsucesso (2564-3013)
* link para um vídeo da música:
http://www.letradamusica.net/hanoi-hanoi/bonsucesso-68.html (Programa Rock Brasil – TV Manchete – 1987)
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
O poeta pornográfico
A SOMBRA DO FAQUIR - 6
Certo dia toca o telefone e recebo o pedido para dar uma espécie de consultoria a um psiquiatra. Ele queria publicar um livro de poesia. Conta-me, o próprio, que tem vários livros publicados em sua área, mas no gênero onde queria se aventurar agora não conhecia os caminhos, nem ninguém. Esclarece que são poemas eróticos escritos no formato tradicional de sonetos. E que gostaria de publicar sob pseudônimo. Sem saber como começar, pergunto-lhe como chegou a mim. (Penso logo na internet, site, blog...). Ele diz que viu uma matéria num jornal sobre uma oficina que ministrei há algum tempo e correu atrás do telefone. Peço que me mande os poemas por e-mail para que pudesse ter uma opinião sobre o trabalho. Ele retruca que não possui computador e onde mora não existe internet, se poderia mandá-lo manuscrito pelo correio. Revela que trabalha no interior e tem também um consultório no Rio onde dá expediente uma ou duas vezes por mês. Por coincidência fica perto de onde moro, no Bairro Peixoto. A situação, apesar da enorme chance de roubada, era tão estranha que ficou interessante.
Tive uma grande surpresa ao ler os poemas.
O meu receio de um perigoso tarado sexual mostrou-se infundado. É realmente um cara sério, de verdade, casado (bem casado), com duas filhas. Filho de uma família abastada do interior fluminense que tinha uma indústria alimentícia, recebeu uma boa educação, vive bem, mas não acumulou patrimônio. Gosta de um bom vinho. Admirador de Baudelaire.
É dele o seguinte tributo: “Meu caro irmão Baudelaire, / em quem em vão eu me inspiro, / o que o teu Poema quer / é tudo o que eu admiro. / És autor do que eu prefiro / sobre o homem e a mulher. / (As palavras que eu profiro / são frouxas, para quem quiser...) / Tudo aquilo que a tua verve / dá sob o nome de flores / é também o que em mim ferve, / mesmo sendo eu tão banal / – pois sinto minhas tuas dores, / é meu também o teu mal...”
A referência ao poeta das flores do mal não se esgota aí: o livro se chama As florzinhas do bem – Sonetos de bandalha, blasfêmia e escracho. Está sendo publicado agora pela editora Íbis Libris. Há poemas sobre o prazer solitário (“Confissões do punheteiro”), a iniciação (“O menino e a puta”), a performance (“Conselhos para bem foder”), excrementos (“Homo cagandis” e “O mijão”). Não resisto, aliás, a reproduzir um trecho deste último: “Minha rica piroquinha / reduziu-se a um bom mijão. / Toda a potência que tinha / esvai-se em mijo no chão... / Quem se tinha por machão / e a quem mijar não convinha / precisa agora da mão / pra sacudir a gotinha...”
E há, evidentemente, o sexo com fartura. Sexo na veia. Sexo pelos poros: “Toda mulher que é pudica / – tão cheia de pudicícia! – / quando prova boa pica / sempre acha uma delícia! / Quão mais severa a moral / mais se ressente de um pau, / mais falta tem de um caralho! / Pois após tê-lo engolido / e entre as pernas sentido / a força de sua broca / logo esquece a timidez: / quer mais e mais, e outra vez, / o vai-e-vem da piroca!”.
Encantei-me com vários dos poemas que, apesar do tema controvertido, não têm nada de chulo. Muito pelo contrário, são inteligentes, simples (e não simplórios), bem-humorados, feitos por alguém que certamente leu bastante e escreve com regularidade. Incentivei-o a publicar com seu próprio nome. Mas ele, mesmo tentado, achou que não cairia bem um poeta pornográfico para a sua clientela um tanto conservadora de cidades do interior. Adotou o pseudônimo Gil Tramontana e uma das dedicatórias do livro é para Carlos Zéfiro, cujos desenhos eróticos foram como que a Playboy de toda uma geração.
Por detrás da respeitável estampa de experiente psiquiatra, magro, elegante, de barba, cabelos prateados e nada escassos para seus 62 anos, vive um jovial safado dos olhinhos infantis, um fauno incorrigível. Grande figura o novato Gil Tramontana, um cara que merece ser lido.
Certo dia toca o telefone e recebo o pedido para dar uma espécie de consultoria a um psiquiatra. Ele queria publicar um livro de poesia. Conta-me, o próprio, que tem vários livros publicados em sua área, mas no gênero onde queria se aventurar agora não conhecia os caminhos, nem ninguém. Esclarece que são poemas eróticos escritos no formato tradicional de sonetos. E que gostaria de publicar sob pseudônimo. Sem saber como começar, pergunto-lhe como chegou a mim. (Penso logo na internet, site, blog...). Ele diz que viu uma matéria num jornal sobre uma oficina que ministrei há algum tempo e correu atrás do telefone. Peço que me mande os poemas por e-mail para que pudesse ter uma opinião sobre o trabalho. Ele retruca que não possui computador e onde mora não existe internet, se poderia mandá-lo manuscrito pelo correio. Revela que trabalha no interior e tem também um consultório no Rio onde dá expediente uma ou duas vezes por mês. Por coincidência fica perto de onde moro, no Bairro Peixoto. A situação, apesar da enorme chance de roubada, era tão estranha que ficou interessante.
Tive uma grande surpresa ao ler os poemas.
O meu receio de um perigoso tarado sexual mostrou-se infundado. É realmente um cara sério, de verdade, casado (bem casado), com duas filhas. Filho de uma família abastada do interior fluminense que tinha uma indústria alimentícia, recebeu uma boa educação, vive bem, mas não acumulou patrimônio. Gosta de um bom vinho. Admirador de Baudelaire.
É dele o seguinte tributo: “Meu caro irmão Baudelaire, / em quem em vão eu me inspiro, / o que o teu Poema quer / é tudo o que eu admiro. / És autor do que eu prefiro / sobre o homem e a mulher. / (As palavras que eu profiro / são frouxas, para quem quiser...) / Tudo aquilo que a tua verve / dá sob o nome de flores / é também o que em mim ferve, / mesmo sendo eu tão banal / – pois sinto minhas tuas dores, / é meu também o teu mal...”
A referência ao poeta das flores do mal não se esgota aí: o livro se chama As florzinhas do bem – Sonetos de bandalha, blasfêmia e escracho. Está sendo publicado agora pela editora Íbis Libris. Há poemas sobre o prazer solitário (“Confissões do punheteiro”), a iniciação (“O menino e a puta”), a performance (“Conselhos para bem foder”), excrementos (“Homo cagandis” e “O mijão”). Não resisto, aliás, a reproduzir um trecho deste último: “Minha rica piroquinha / reduziu-se a um bom mijão. / Toda a potência que tinha / esvai-se em mijo no chão... / Quem se tinha por machão / e a quem mijar não convinha / precisa agora da mão / pra sacudir a gotinha...”
E há, evidentemente, o sexo com fartura. Sexo na veia. Sexo pelos poros: “Toda mulher que é pudica / – tão cheia de pudicícia! – / quando prova boa pica / sempre acha uma delícia! / Quão mais severa a moral / mais se ressente de um pau, / mais falta tem de um caralho! / Pois após tê-lo engolido / e entre as pernas sentido / a força de sua broca / logo esquece a timidez: / quer mais e mais, e outra vez, / o vai-e-vem da piroca!”.
Encantei-me com vários dos poemas que, apesar do tema controvertido, não têm nada de chulo. Muito pelo contrário, são inteligentes, simples (e não simplórios), bem-humorados, feitos por alguém que certamente leu bastante e escreve com regularidade. Incentivei-o a publicar com seu próprio nome. Mas ele, mesmo tentado, achou que não cairia bem um poeta pornográfico para a sua clientela um tanto conservadora de cidades do interior. Adotou o pseudônimo Gil Tramontana e uma das dedicatórias do livro é para Carlos Zéfiro, cujos desenhos eróticos foram como que a Playboy de toda uma geração.
Por detrás da respeitável estampa de experiente psiquiatra, magro, elegante, de barba, cabelos prateados e nada escassos para seus 62 anos, vive um jovial safado dos olhinhos infantis, um fauno incorrigível. Grande figura o novato Gil Tramontana, um cara que merece ser lido.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
O empresário e o sonho
DE BAR EM BAR – Adega Portugália
Numa terça-feira de sol preguiçoso (uma tarde à feição de um bom boteco), fui à Adega Portugália, naquele trecho panorâmico do Largo do Machado em que dá para observar a vida pulsando na praça, com seus velhinhos de estimação, crianças com suas babás, pivetes, passantes, mulheres de todos os naipes, o mundo em geral. Chego um pouco antes de meu personagem, o empresário, produtor cultural e grande agitador do Facebook, o surpreendente Jeronymo Machado, o Jê.
Sento-me numa das mesinhas de madeira colocadas na parte de fora. Por enquanto, apenas duas ou três estão ocupadas. Na parte interna há um grande balcão com seus acepipes expostos e, ainda, um comprido salão interno com a tevê ligada para ninguém num jogo da Liga dos Campeões (na calçada há uma outra, na minha diagonal). A Adega Portugália, além do ar lusitano (como o nome entrega), respira um quê de cidade pequena onde todos sabem quem é quem.
Peço o primeiro chope quando Jeronymo aparece. Bem vestido, elegante, percebo de cara que está à vontade e curtiu o convite para o papo numa mesa de bar. Conheço-o há algum tempo, sempre o encontro em shows e eventos culturais, porém antes só tínhamos, de fato, conversado mais detidamente uma única vez. O que não é nenhum problema: temos em comum diversos amigos, a música e o trepidante Botafogo. E o Jê tem história pra contar.
Como acompanhamento, pedimos alguns bolinhos de bacalhau e pastéis de camarão. Ambos vieram bons, mas nada de excepcional. O assunto futebol é inevitável e logo fico sabendo que ele foi jogador e quase seguiu carreira. Quando era juvenil e jogava pelo Fluminense, recebeu uma proposta de ir para o Flamengo do Piauí. O pai vetou. Como era reserva no tricolor, acabou largando para se dedicar ao curso de Economia. Mas até hoje bate suas peladas no Caxinguelê, com artistas como Evandro Mesquita e ex-jogadores como Pintinho, Nei Conceição e Donizete (o Pantera). Realmente não é para qualquer um.
No calor da conversa, o chope desce igual água. Penso em pedir mais alguma coisa e o Jê sugere repetirmos os pastéis. Tudo bem, vamos lá. Mas a casa tem também no cardápio as opções: mexilhões, polvo e jiló à vinagrete, sardinhas portuguesas, carne seca acebolada, frango à passarinho, presunto tender e batata calabresa. Entre os pratos, bife de fígado com arroz e fritas, dobradinha, costela no bafo, cabrito à moda da casa, sopa de frutos do mar, risoto de bacalhau e bacalhau à Zé do Pipo. Para beber, fora o chope, uma razoável carta de vinhos, algumas boas cachaças e a tradicional caneca de vinho gaúcho.
Depois de trabalhar por um tempo no mercado financeiro (administrando, inclusive, uma carteira de amigos músicos) e ganhar uma boa grana, Jê migrou para a área da cultura e foi trabalhar na produção dos Paralamas no final dos anos 1980. Não parou mais. Trabalhou com artistas como Titãs, O Rappa, Adriana Calcanhotto, Sandra de Sá, Claudinho e Buchecha, Paulinho Moska e Nando Reis. Desde 2002 tem sua própria produtora e assim segue em frente. Múltiplo, seu telefone toca várias vezes e ele vai resolvendo as coisas enquanto pedimos uma salada de bacalhau com feijão fradinho. Gostei, mas também não me surpreendeu. De todo jeito, a Adega é um lugar que vale pelo conjunto da obra.
O que me surpreendeu mesmo (e fiz questão de lhe dizer) foi ter tido contato recentemente com alguns textos que de vez em quando Jê salpica no Facebook. Enxutos, inteligentes, bem sacados. Enquanto tomávamos a saideira, soltei: “Jê, tu é poeta. Tem que publicar!” Jeronymo Machado sorriu, quase tão orgulhoso como quando ele fala de suas filhas, as também botafoguenses Bárbara e Joana. E saiu leve para um outro compromisso, ó pá. Um empresário poeta: nem tudo está perdido. Saúde e até a próxima.
Adega Portugália – Largo do Machado 30, Catete (2558-2821)
Numa terça-feira de sol preguiçoso (uma tarde à feição de um bom boteco), fui à Adega Portugália, naquele trecho panorâmico do Largo do Machado em que dá para observar a vida pulsando na praça, com seus velhinhos de estimação, crianças com suas babás, pivetes, passantes, mulheres de todos os naipes, o mundo em geral. Chego um pouco antes de meu personagem, o empresário, produtor cultural e grande agitador do Facebook, o surpreendente Jeronymo Machado, o Jê.
Sento-me numa das mesinhas de madeira colocadas na parte de fora. Por enquanto, apenas duas ou três estão ocupadas. Na parte interna há um grande balcão com seus acepipes expostos e, ainda, um comprido salão interno com a tevê ligada para ninguém num jogo da Liga dos Campeões (na calçada há uma outra, na minha diagonal). A Adega Portugália, além do ar lusitano (como o nome entrega), respira um quê de cidade pequena onde todos sabem quem é quem.
Peço o primeiro chope quando Jeronymo aparece. Bem vestido, elegante, percebo de cara que está à vontade e curtiu o convite para o papo numa mesa de bar. Conheço-o há algum tempo, sempre o encontro em shows e eventos culturais, porém antes só tínhamos, de fato, conversado mais detidamente uma única vez. O que não é nenhum problema: temos em comum diversos amigos, a música e o trepidante Botafogo. E o Jê tem história pra contar.
Como acompanhamento, pedimos alguns bolinhos de bacalhau e pastéis de camarão. Ambos vieram bons, mas nada de excepcional. O assunto futebol é inevitável e logo fico sabendo que ele foi jogador e quase seguiu carreira. Quando era juvenil e jogava pelo Fluminense, recebeu uma proposta de ir para o Flamengo do Piauí. O pai vetou. Como era reserva no tricolor, acabou largando para se dedicar ao curso de Economia. Mas até hoje bate suas peladas no Caxinguelê, com artistas como Evandro Mesquita e ex-jogadores como Pintinho, Nei Conceição e Donizete (o Pantera). Realmente não é para qualquer um.
No calor da conversa, o chope desce igual água. Penso em pedir mais alguma coisa e o Jê sugere repetirmos os pastéis. Tudo bem, vamos lá. Mas a casa tem também no cardápio as opções: mexilhões, polvo e jiló à vinagrete, sardinhas portuguesas, carne seca acebolada, frango à passarinho, presunto tender e batata calabresa. Entre os pratos, bife de fígado com arroz e fritas, dobradinha, costela no bafo, cabrito à moda da casa, sopa de frutos do mar, risoto de bacalhau e bacalhau à Zé do Pipo. Para beber, fora o chope, uma razoável carta de vinhos, algumas boas cachaças e a tradicional caneca de vinho gaúcho.
Depois de trabalhar por um tempo no mercado financeiro (administrando, inclusive, uma carteira de amigos músicos) e ganhar uma boa grana, Jê migrou para a área da cultura e foi trabalhar na produção dos Paralamas no final dos anos 1980. Não parou mais. Trabalhou com artistas como Titãs, O Rappa, Adriana Calcanhotto, Sandra de Sá, Claudinho e Buchecha, Paulinho Moska e Nando Reis. Desde 2002 tem sua própria produtora e assim segue em frente. Múltiplo, seu telefone toca várias vezes e ele vai resolvendo as coisas enquanto pedimos uma salada de bacalhau com feijão fradinho. Gostei, mas também não me surpreendeu. De todo jeito, a Adega é um lugar que vale pelo conjunto da obra.
O que me surpreendeu mesmo (e fiz questão de lhe dizer) foi ter tido contato recentemente com alguns textos que de vez em quando Jê salpica no Facebook. Enxutos, inteligentes, bem sacados. Enquanto tomávamos a saideira, soltei: “Jê, tu é poeta. Tem que publicar!” Jeronymo Machado sorriu, quase tão orgulhoso como quando ele fala de suas filhas, as também botafoguenses Bárbara e Joana. E saiu leve para um outro compromisso, ó pá. Um empresário poeta: nem tudo está perdido. Saúde e até a próxima.
Adega Portugália – Largo do Machado 30, Catete (2558-2821)
terça-feira, 19 de outubro de 2010
A tropa da burguesia fede
A SOMBRA DO FAQUIR – 5
Esse não é um texto barbudo marxista, nem é sobre as surradas e onipresentes eleições presidenciais. Não prego a luta de classes, nem a implosão do Country Club (só talvez a da estátua em frente a um shopping da Barra da Tijuca). Mas assim como cantou Cazuza quando já estava bastante doente, no último disco que gravou (“Burguesia”, 1988), considerado menor por alguns críticos, muitas vezes também acho que: “A burguesia fede / A burguesia quer ficar rica / Enquanto houver burguesia / Não vai haver poesia.” Se esta canção (taxada de juvenil por seus detratores) não está entre as mais exaltadas da obra única (apesar de curta) do poeta, não deixa de ser um bom rock básico, sem firulas, seco, oportuno. Refrescante.
Fui estes dias ver o filme Tropa de elite 2, no cinema Leblon. Como veio precedido de enorme badalação, boa parte em função do sucesso e da polêmica alcançados pelo primeiro, o tumulto já era grande nas proximidades da calçada da esquina da Carlos Góis com Ataulfo de Paiva. Mas, assim como eu, a maioria do público já tinha comprado seus ingressos pela internet. (O bairro do Jobi e do Bracarense, como se sabe, é o bairro de alguns dos cidadãos mais ricos e elegantes e sofisticados e que não gostam de enfrentar fila da cidade.) E as duas salas do Leblon constituem um dos poucos cinemas de rua que ainda temos, remanescente de uma época em que, além dele e do Roxy, tínhamos um bom punhado de cinemas grandes, nostalgicamente majestosos e verdadeiramente insubstituíveis, apesar de considerados arcaicos a partir do império das salas de shopping.
O filme em si é de tirar o fôlego – muito mais do que o primeiro Tropa de elite. Embora muita gente tenha visto este apenas como uma peça de propaganda da violência e da guerra civil carioca, com teses preconceituosas e “de direita”, e possivelmente enxergarão os mesmos atributos negativos nesta continuação, considero que temos dois filmes que vão marcar época pelas suas qualidades artísticas. É impossível assistir a esta continuação da história sem ficar inteiramente magnetizado pelo que rola na tela. O ritmo da narrativa é alucinante. O desempenho de Vagner Moura é excepcional. A direção e o roteiro são de primeiro mundo (para utilizar uma expressão que é cara à burguesia). Em minha opinião, as teses levantadas, ainda que cutuquem a ferida aberta em todos nós que vivemos no Rio de Janeiro, no asfalto ou no morro, e sejam importantíssimas de ser discutidas (em especial a tese que detecta a união da milícia aos políticos), não são o único trunfo do filme. O filme é cinema de gente grande, ponto. Expressivo e muito bem realizado – chegou a merecer palmas dos espectadores ao final da sessão.
Mas o meu assunto é quando acabou o filme e as luzes foram acesas. Quando toda aquela gente elegante e sofisticada se levantou para ir embora, o que se viu no chão acarpetado foi uma imundice que poucas vezes vi na vida. Duvido que um cinema de subúrbio ou de cidade pequena, ou até mesmo um salão de festa infantil, fique em estado pior. Era pipoca esparramada por tudo que é lado, almofadas e sacos e copos plásticos abandonados de qualquer jeito. Repito: não era uma e outra pipoca que normalmente caem do saco no escurinho do cinema. Era um chiqueiro furioso. Como pessoas esclarecidas, que acabaram de ver (e aplaudir) um filme de forte cunho político e social, podem se comportar desse jeito no espaço público?
Talvez o conceito de burguês hoje em dia não seja mais tão apropriado. Na sociedade virtual da crescente mulambalização (termo eternizado pelo fotógrafo e DJ Maurício Valladares), talvez seja melhor se referir ao individualismo cego até dos mais esclarecidos e daqueles que tiveram oportunidades. “Porcos num chiqueiro / São mais dignos que um burguês / Mas também existe o bom burguês / Que vive do seu trabalho honestamente / Mas este quer construir um país / E não abandoná-lo com uma pasta de dólares.” Falou e disse, Cazuza. Tomara.
Esse não é um texto barbudo marxista, nem é sobre as surradas e onipresentes eleições presidenciais. Não prego a luta de classes, nem a implosão do Country Club (só talvez a da estátua em frente a um shopping da Barra da Tijuca). Mas assim como cantou Cazuza quando já estava bastante doente, no último disco que gravou (“Burguesia”, 1988), considerado menor por alguns críticos, muitas vezes também acho que: “A burguesia fede / A burguesia quer ficar rica / Enquanto houver burguesia / Não vai haver poesia.” Se esta canção (taxada de juvenil por seus detratores) não está entre as mais exaltadas da obra única (apesar de curta) do poeta, não deixa de ser um bom rock básico, sem firulas, seco, oportuno. Refrescante.
Fui estes dias ver o filme Tropa de elite 2, no cinema Leblon. Como veio precedido de enorme badalação, boa parte em função do sucesso e da polêmica alcançados pelo primeiro, o tumulto já era grande nas proximidades da calçada da esquina da Carlos Góis com Ataulfo de Paiva. Mas, assim como eu, a maioria do público já tinha comprado seus ingressos pela internet. (O bairro do Jobi e do Bracarense, como se sabe, é o bairro de alguns dos cidadãos mais ricos e elegantes e sofisticados e que não gostam de enfrentar fila da cidade.) E as duas salas do Leblon constituem um dos poucos cinemas de rua que ainda temos, remanescente de uma época em que, além dele e do Roxy, tínhamos um bom punhado de cinemas grandes, nostalgicamente majestosos e verdadeiramente insubstituíveis, apesar de considerados arcaicos a partir do império das salas de shopping.
O filme em si é de tirar o fôlego – muito mais do que o primeiro Tropa de elite. Embora muita gente tenha visto este apenas como uma peça de propaganda da violência e da guerra civil carioca, com teses preconceituosas e “de direita”, e possivelmente enxergarão os mesmos atributos negativos nesta continuação, considero que temos dois filmes que vão marcar época pelas suas qualidades artísticas. É impossível assistir a esta continuação da história sem ficar inteiramente magnetizado pelo que rola na tela. O ritmo da narrativa é alucinante. O desempenho de Vagner Moura é excepcional. A direção e o roteiro são de primeiro mundo (para utilizar uma expressão que é cara à burguesia). Em minha opinião, as teses levantadas, ainda que cutuquem a ferida aberta em todos nós que vivemos no Rio de Janeiro, no asfalto ou no morro, e sejam importantíssimas de ser discutidas (em especial a tese que detecta a união da milícia aos políticos), não são o único trunfo do filme. O filme é cinema de gente grande, ponto. Expressivo e muito bem realizado – chegou a merecer palmas dos espectadores ao final da sessão.
Mas o meu assunto é quando acabou o filme e as luzes foram acesas. Quando toda aquela gente elegante e sofisticada se levantou para ir embora, o que se viu no chão acarpetado foi uma imundice que poucas vezes vi na vida. Duvido que um cinema de subúrbio ou de cidade pequena, ou até mesmo um salão de festa infantil, fique em estado pior. Era pipoca esparramada por tudo que é lado, almofadas e sacos e copos plásticos abandonados de qualquer jeito. Repito: não era uma e outra pipoca que normalmente caem do saco no escurinho do cinema. Era um chiqueiro furioso. Como pessoas esclarecidas, que acabaram de ver (e aplaudir) um filme de forte cunho político e social, podem se comportar desse jeito no espaço público?
Talvez o conceito de burguês hoje em dia não seja mais tão apropriado. Na sociedade virtual da crescente mulambalização (termo eternizado pelo fotógrafo e DJ Maurício Valladares), talvez seja melhor se referir ao individualismo cego até dos mais esclarecidos e daqueles que tiveram oportunidades. “Porcos num chiqueiro / São mais dignos que um burguês / Mas também existe o bom burguês / Que vive do seu trabalho honestamente / Mas este quer construir um país / E não abandoná-lo com uma pasta de dólares.” Falou e disse, Cazuza. Tomara.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Quando o garçom se materializa
DE BAR EM BAR – Rosa de Ouro
Conheci o jornalista Ramon Mello quando fui entrevistado por ele há uns três anos (por ocasião do lançamento de um livro meu). Logo no início daquele papo, nas primeiras indagações, percebi que ele era também artista num sentido amplo. Depois disso, de fato, ele surgiu com livro de poesia (Vinis mofados), a curadoria da obra do ótimo escritor Rodrigo Souza Leão (morto precocemente), diversas entrevistas com nomes (realmente) de peso e uma peça de teatro (adaptada de uma obra de Souza Leão). Hoje ele é o meu convidado neste boteco de belíssimo nome: Rosa de Ouro.
Quando fui combinar com ele onde iríamos, sugeri uns quatro ou cinco bares. Mas ele devolveu: “Conhece o Rosa de Ouro, no início da Voluntários da Pátria? Adoro aquele lugar barulhento, e tem o melhor garçom do Rio, o Miguel.” Topei no ato, pelos adoráveis motivos alegados (o “lugar barulhento” e, claro, o nome improvável do garçom).
Chego primeiro, por volta de 18:30 h, e o pequeno bar inicia o seu movimento camaleônico para o turno da noite – assim como ocorre, por exemplo, com o Bar Rebouças no Jardim Botânico: durante o dia um pé-sujo normal, de noite um bar descolado. A essa hora ainda consigo pegar uma mesinha de calçada na beirada do bar. A vista é panorâmica pro rush dos automóveis e dos passantes e para as duas outras mesas por enquanto ocupadas do lado de fora, com dois amigos numa e noutra um cara e uma menina, ambas as duplas nos seus 20 e poucos anos.
Enquanto tomo uma primeira Antarctica, eis que chega o poeta Ramon (com seus 26 para baixar consideravelmente a média de idade da mesa), chega inquieto, pede um copo, puxa logo uma cigarrilha e o papo não para mais. A fim de acompanhar nossos pensamentos líquidos (título de um poema dele), me apresenta ao garçom Miguel, que ainda não havia se materializado (muito simpático e totalmente diferente do que eu imaginava). Pedimos mais outra cerveja e uma pizza marguerita, uma das especialidades da casa, levinha, na linha do bom, bonito e barato. Outras opções: iscas de fígado, salsichão, feijão amigo, bolinho de bacalhau. E os pratos: milanesa à parmegiana, estrogonofe, fritada de bacalhau e viradinho à paulista.
Ramon Mello, nascido em Araruama e emancipado aos 16 (desde cedo decidiu que sairia da cidade), veio para o Rio estudar teatro na Escola Martins Pena e acabou fazendo também jornalismo. Em oito anos de Rio, morou em seis lugares diferentes e nesse tempo, a partir de suas entrevistas, conheceu boa parte dos faróis da cultura brasileira. Entrevistou, por exemplo, seus ídolos João Gilberto Noll e Fernanda Montenegro. E mais nomes como Sérgio Britto, Ferreira Gullar, Michel Melamed, Heloísa Buarque de Hollanda e o próprio Rodrigo Souza Leão (de quem se tornou próximo a partir de um único encontro e de quem recebia toda semana uma ligação telefônica, sempre no mesmo dia e horário). Depois de sua morte, recebeu a obra do amigo para cuidar.
Algumas cervejas consumidas, o bar está fervilhando com a calçada apinhada de gente. O movimento do tradicional pé-sujo de bairro cresceu muito em função dos estabelecimentos que se avolumaram ali perto: cinemas, livrarias, pé-limpos e boate. O escritor Ramon, depois de nosso encontro, ainda vai a um lançamento de livros de dois amigos. Ainda pedimos com a saideira uma porção de bolinho de bacalhau, que veio apenas razoável. (Mas acho que ninguém aqui se importa muito.) Para finalizar, pergunto ao meu promissor convidado o que ele tem ouvido ultimamente. Moska e o grupo português Três Marias. O inquieto Ramon é um cara antenado, assim como esse bar Rosa de Ouro (cujo nome foi tirado de um histórico show de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus), do bom Miguel. Sim, caro leitor, existe um garçom chamado Miguel. Saúde e até a próxima.
Rosa de Ouro – Rua Voluntários da Pátria 1, lj 11, Botafogo (2527-0565)
Conheci o jornalista Ramon Mello quando fui entrevistado por ele há uns três anos (por ocasião do lançamento de um livro meu). Logo no início daquele papo, nas primeiras indagações, percebi que ele era também artista num sentido amplo. Depois disso, de fato, ele surgiu com livro de poesia (Vinis mofados), a curadoria da obra do ótimo escritor Rodrigo Souza Leão (morto precocemente), diversas entrevistas com nomes (realmente) de peso e uma peça de teatro (adaptada de uma obra de Souza Leão). Hoje ele é o meu convidado neste boteco de belíssimo nome: Rosa de Ouro.
Quando fui combinar com ele onde iríamos, sugeri uns quatro ou cinco bares. Mas ele devolveu: “Conhece o Rosa de Ouro, no início da Voluntários da Pátria? Adoro aquele lugar barulhento, e tem o melhor garçom do Rio, o Miguel.” Topei no ato, pelos adoráveis motivos alegados (o “lugar barulhento” e, claro, o nome improvável do garçom).
Chego primeiro, por volta de 18:30 h, e o pequeno bar inicia o seu movimento camaleônico para o turno da noite – assim como ocorre, por exemplo, com o Bar Rebouças no Jardim Botânico: durante o dia um pé-sujo normal, de noite um bar descolado. A essa hora ainda consigo pegar uma mesinha de calçada na beirada do bar. A vista é panorâmica pro rush dos automóveis e dos passantes e para as duas outras mesas por enquanto ocupadas do lado de fora, com dois amigos numa e noutra um cara e uma menina, ambas as duplas nos seus 20 e poucos anos.
Enquanto tomo uma primeira Antarctica, eis que chega o poeta Ramon (com seus 26 para baixar consideravelmente a média de idade da mesa), chega inquieto, pede um copo, puxa logo uma cigarrilha e o papo não para mais. A fim de acompanhar nossos pensamentos líquidos (título de um poema dele), me apresenta ao garçom Miguel, que ainda não havia se materializado (muito simpático e totalmente diferente do que eu imaginava). Pedimos mais outra cerveja e uma pizza marguerita, uma das especialidades da casa, levinha, na linha do bom, bonito e barato. Outras opções: iscas de fígado, salsichão, feijão amigo, bolinho de bacalhau. E os pratos: milanesa à parmegiana, estrogonofe, fritada de bacalhau e viradinho à paulista.
Ramon Mello, nascido em Araruama e emancipado aos 16 (desde cedo decidiu que sairia da cidade), veio para o Rio estudar teatro na Escola Martins Pena e acabou fazendo também jornalismo. Em oito anos de Rio, morou em seis lugares diferentes e nesse tempo, a partir de suas entrevistas, conheceu boa parte dos faróis da cultura brasileira. Entrevistou, por exemplo, seus ídolos João Gilberto Noll e Fernanda Montenegro. E mais nomes como Sérgio Britto, Ferreira Gullar, Michel Melamed, Heloísa Buarque de Hollanda e o próprio Rodrigo Souza Leão (de quem se tornou próximo a partir de um único encontro e de quem recebia toda semana uma ligação telefônica, sempre no mesmo dia e horário). Depois de sua morte, recebeu a obra do amigo para cuidar.
Algumas cervejas consumidas, o bar está fervilhando com a calçada apinhada de gente. O movimento do tradicional pé-sujo de bairro cresceu muito em função dos estabelecimentos que se avolumaram ali perto: cinemas, livrarias, pé-limpos e boate. O escritor Ramon, depois de nosso encontro, ainda vai a um lançamento de livros de dois amigos. Ainda pedimos com a saideira uma porção de bolinho de bacalhau, que veio apenas razoável. (Mas acho que ninguém aqui se importa muito.) Para finalizar, pergunto ao meu promissor convidado o que ele tem ouvido ultimamente. Moska e o grupo português Três Marias. O inquieto Ramon é um cara antenado, assim como esse bar Rosa de Ouro (cujo nome foi tirado de um histórico show de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus), do bom Miguel. Sim, caro leitor, existe um garçom chamado Miguel. Saúde e até a próxima.
Rosa de Ouro – Rua Voluntários da Pátria 1, lj 11, Botafogo (2527-0565)
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
A selvageria do ridículo
A SOMBRA DO FAQUIR – 4
Antes de mais nada é claro que ninguém, fora o palhaço profissional e o masoquista de alma, quer fazer papel de bobo nessa vida. Mas todos, sem exceção, todos nós pagamos nosso mico (leão dourado ou miquinho comum) pelo menos em um momento ou outro – se não para todo o planeta ou a cidade, para um grupo, para poucas pessoas, para alguém lá na esquina, ou, quando é mais cruel, apenas para nós mesmos – e justamente quando ninguém vê. O ser humano sabe ser patético como nenhuma outra espécie porque, além de praticar atos ridículos, também tem a capacidade de analisá-los (ou, na maioria das vezes, os de outrem). Mas quem faz o papel ridículo não é necessariamente um idiota contumaz.
Arriscar-se ao ridículo pode eventualmente ser o preço para o sujeito dar um passo à frente. Por exemplo, no amor. O adolescente para beijar uma primeira vez precisa tentar, prestar-se a ganhar o não. E quem ama recebe de contrapeso o cheque em branco do papel ridículo (quem nunca se apaixonou e fez coisas inacreditáveis?). Pois no currículo de toda gente existe um amor que não deu certo. Mas, como sabemos, ridículo é não amar.
Também na arte o ridículo pode estar muito próximo da ousadia. Ou melhor, é o contrário: a ousadia do artista pode estar a um passo do ridículo. Dependendo do talento, da ambição e do conhecimento do que já foi feito, uma obra esteticamente muito arrojada, “uma inovação”, pode ser realmente uma inovação; mas pode (com muito mais frequência) ser uma coisa que já foi inventada lá atrás, no início do século passado ou mesmo da história da humanidade, e o artista genial só não sabe porque foi muito ingênuo (pura intuição) e não estudou.
O ridículo é próprio da condição humana. A esse respeito, Fernando Pessoa tem o célebre “Poema em linha reta” (“Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”), no qual o poeta afirma ironicamente que apenas ele seria fraco, covarde, vil: “Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / (...) / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda.” Para depois (nos) perguntar: “Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?”
Um grande amigo do ridículo é a ansiedade. A ansiedade pode acabar com uma reputação construída ao longo de anos e transformar subitamente alguém (outrora respeitado) em um ser muito ridículo. Eu sou ansioso. O mundo hoje é muito ansioso, com suas mil e uma tecnologias de comunicação para dar suporte à solidão compartilhada e, também, com a quantidade ultramegablaster de radiação informativa a que somos expostos diariamente, numa razão inversamente proporcional ao conhecimento e ao sentido crítico.
Há situações ridículas pelas quais vale a pena passar uma única vez para nunca mais. É o caso do garoto de classe média que foi pego roubando uma caixa de chicletes no supermercado, ou do adulto que fez ilações completamente absurdas a partir de uma má interpretação dos fatos, ou, ainda, do jovem que se viu preso numa boite, depois de uma discussão de que não foi causador, somente por estar acompanhado de um amigo e, não por acaso (mas sem que soubesse), de um baderneiro (da noite anterior), amigo do seu amigo. Desde que se aprenda e saia intacto destas molecagens (principalmente da última), tudo vale a pena. Passar a noite numa cela de pouca periculosidade, mas abarrotada de arruaceiros encostados à parede e literalmente ver sol nascer quadrado, pode ser uma experiência sociologicamente rica e, claro, inesquecível. Foi inesquecível.
O ridículo tem uma importante função, ainda que às avessas, na tentativa de evolução do homem. Nisso o humor é mestre, utilizando-se do ridículo em estado selvagem para dar a ver uma situação ou uma atitude completamente equivocada. Mas há também os que não se emendam nunca. Existe, sim, o ridículo total (encarnado pelo bobo absoluto). É raro mas existe. No mais, todos nós podemos ser bobos (ou ridículos) para alguém. É a vida. Pois o limite entre a criatividade e o ridículo pode ser mais tênue do que parece. Basta passar um pouquinho do ponto. Por isso, diante da selvageria do ridículo cotidiano, aprender com o erro é essencial.
* * *
Tiririca, Ratinho Jr., Garotinho e Maluf na Câmara dos Deputados... não é apenas muito ridículo – é desolador que ainda elejamos novos macacos Tião e os velhos ladrões de sempre.
Antes de mais nada é claro que ninguém, fora o palhaço profissional e o masoquista de alma, quer fazer papel de bobo nessa vida. Mas todos, sem exceção, todos nós pagamos nosso mico (leão dourado ou miquinho comum) pelo menos em um momento ou outro – se não para todo o planeta ou a cidade, para um grupo, para poucas pessoas, para alguém lá na esquina, ou, quando é mais cruel, apenas para nós mesmos – e justamente quando ninguém vê. O ser humano sabe ser patético como nenhuma outra espécie porque, além de praticar atos ridículos, também tem a capacidade de analisá-los (ou, na maioria das vezes, os de outrem). Mas quem faz o papel ridículo não é necessariamente um idiota contumaz.
Arriscar-se ao ridículo pode eventualmente ser o preço para o sujeito dar um passo à frente. Por exemplo, no amor. O adolescente para beijar uma primeira vez precisa tentar, prestar-se a ganhar o não. E quem ama recebe de contrapeso o cheque em branco do papel ridículo (quem nunca se apaixonou e fez coisas inacreditáveis?). Pois no currículo de toda gente existe um amor que não deu certo. Mas, como sabemos, ridículo é não amar.
Também na arte o ridículo pode estar muito próximo da ousadia. Ou melhor, é o contrário: a ousadia do artista pode estar a um passo do ridículo. Dependendo do talento, da ambição e do conhecimento do que já foi feito, uma obra esteticamente muito arrojada, “uma inovação”, pode ser realmente uma inovação; mas pode (com muito mais frequência) ser uma coisa que já foi inventada lá atrás, no início do século passado ou mesmo da história da humanidade, e o artista genial só não sabe porque foi muito ingênuo (pura intuição) e não estudou.
O ridículo é próprio da condição humana. A esse respeito, Fernando Pessoa tem o célebre “Poema em linha reta” (“Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”), no qual o poeta afirma ironicamente que apenas ele seria fraco, covarde, vil: “Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / (...) / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda.” Para depois (nos) perguntar: “Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?”
Um grande amigo do ridículo é a ansiedade. A ansiedade pode acabar com uma reputação construída ao longo de anos e transformar subitamente alguém (outrora respeitado) em um ser muito ridículo. Eu sou ansioso. O mundo hoje é muito ansioso, com suas mil e uma tecnologias de comunicação para dar suporte à solidão compartilhada e, também, com a quantidade ultramegablaster de radiação informativa a que somos expostos diariamente, numa razão inversamente proporcional ao conhecimento e ao sentido crítico.
Há situações ridículas pelas quais vale a pena passar uma única vez para nunca mais. É o caso do garoto de classe média que foi pego roubando uma caixa de chicletes no supermercado, ou do adulto que fez ilações completamente absurdas a partir de uma má interpretação dos fatos, ou, ainda, do jovem que se viu preso numa boite, depois de uma discussão de que não foi causador, somente por estar acompanhado de um amigo e, não por acaso (mas sem que soubesse), de um baderneiro (da noite anterior), amigo do seu amigo. Desde que se aprenda e saia intacto destas molecagens (principalmente da última), tudo vale a pena. Passar a noite numa cela de pouca periculosidade, mas abarrotada de arruaceiros encostados à parede e literalmente ver sol nascer quadrado, pode ser uma experiência sociologicamente rica e, claro, inesquecível. Foi inesquecível.
O ridículo tem uma importante função, ainda que às avessas, na tentativa de evolução do homem. Nisso o humor é mestre, utilizando-se do ridículo em estado selvagem para dar a ver uma situação ou uma atitude completamente equivocada. Mas há também os que não se emendam nunca. Existe, sim, o ridículo total (encarnado pelo bobo absoluto). É raro mas existe. No mais, todos nós podemos ser bobos (ou ridículos) para alguém. É a vida. Pois o limite entre a criatividade e o ridículo pode ser mais tênue do que parece. Basta passar um pouquinho do ponto. Por isso, diante da selvageria do ridículo cotidiano, aprender com o erro é essencial.
* * *
Tiririca, Ratinho Jr., Garotinho e Maluf na Câmara dos Deputados... não é apenas muito ridículo – é desolador que ainda elejamos novos macacos Tião e os velhos ladrões de sempre.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Da música clássica ao heavy metal
DE BAR EM BAR – Bar do Serafim
Uma coisa estranha aconteceu quando travei conhecimento com os primeiros textos de Arthur Dapieve no agora longínquo JB. Me pareceu de cara que já o conhecia desde sempre: apaixonado por música e literatura, botafoguense, criado em Copa (entre a praia, o Mallet Soares, a primeira comunhão na igreja de São Paulo Apóstolo e a pizza de presunto do Caravelle). De lá para cá sua alma refinada só nos fez a todos – a mim e a toda uma geração de que faço parte, à seguinte, a outra e àquelas que continuam chegando – refletir e, na medida do impossível, aproveitar um pouco desse atormentado mundo cruel. Pois bem, é com ele que eu vou ao Bar do Serafim, em Laranjeiras.
Saio do centro já meio em cima da hora (com a recomendação, de meu filho Júlio, de que lhe desse os parabéns por uma contenda clubística, que envolvia o Zico e a tradição alvinegra, num programa de tevê com o mordaz comentarista Renato Maurício Prado, temido jornalista rubro-negro). Hora do rush, metrô entupido, nenhum táxi livre no Largo do Machado, trânsito infernal, ônibus então, Rua das Laranjeiras parada, mas consigo entrar no Serafim exatamente no mesmo instante que Dapieve, morador do bairro, chega pontualmente. Sentamos numa mesa à direita, próximo do balcão. Ele pede um chope escuro, eu um claro.
O Serafim, onde “não é permitido entrar bêbado, sair sim”, é um bar pequeno, aconchegante. No dizer de um dos quadros na parede, um bar “lusitano à Noel Rosa”. Noutro, vê-se Marcelo D2 afirmar, numa matéria antiga, que lá é seu escritório. Um belo escritório, por sinal, com boas cachaças nas prateleiras e pedaços de bacalhau no teto. Entre as fotos expostas, uma de meu convidado com seu Juca, o ex-dono de fartos bigodes, que morreu ano passado.
Pergunto a Dapieve, como frequentador da casa, o que ele recomenda. Começamos com os ótimos bolinhos de bacalhau para acompanhar o chope. De tamanho médio, sequinhos, saborosos. Algumas outras opções de petiscos no cardápio: pastéis, empadas, torresmo, fritas com cebola, alheira portuguesa, morcela. Entre as bem servidas refeições, capa de filé, rabada com agrião e o cozido do fim de semana. Dapieve me conta que um de seus pratos preferidos é a lula à alentejana (arroz, pedaços de lula, paio e lombinho). Fiquei curioso com essa mistura meio extravagante. Mas vai ficar para outra.
Com a ajuda do chope para molhar a garganta e a mente, enfileiramos vários assuntos: primeiro o futebol, claro, o bom trabalho que a diretoria do Botafogo vem fazendo, Loco Abreu, o difícil equilíbrio entre o casamento e a oferta de mil jogos por semana (ele, por sorte, é casado com uma santa que gosta de futebol, a também jornalista Mànya Millen); bares de Copacabana; uma viagem programada ao Japão; Maria Gadu, bandas novas; o prazer de indicar uma leitura; o dilema de ler ou não enquanto se escreve um romance; Bussunda; os perigos de um piripaque em nossa idade (rondando os 50)...
A propósito, para checar a saúde e o colesterol, pedimos a boa porção de pastéis de camarão com catupiry. Súbito, com várias bolachas de chope espalhadas pela mesa, nos damos conta de que já se passaram mais de duas horas e meia. Quando o encontro é bacana passa rápido. Afinal, Arthur Dapieve transita com bom gosto, elegância e conhecimento de causa da música clássica ao heavy metal (os sons que ele vem escutando ultimamente, aliás). Da política brazuca às obras completas de Freud, passando pela Segunda Guerra Mundial. De A a Z. O que faz dele um dos principais cronistas do nosso tempo. Saúde e até a próxima, Arthur.
Bar do Serafim – Rua Alice, 24 A, Laranjeiras (2225-2843)
Uma coisa estranha aconteceu quando travei conhecimento com os primeiros textos de Arthur Dapieve no agora longínquo JB. Me pareceu de cara que já o conhecia desde sempre: apaixonado por música e literatura, botafoguense, criado em Copa (entre a praia, o Mallet Soares, a primeira comunhão na igreja de São Paulo Apóstolo e a pizza de presunto do Caravelle). De lá para cá sua alma refinada só nos fez a todos – a mim e a toda uma geração de que faço parte, à seguinte, a outra e àquelas que continuam chegando – refletir e, na medida do impossível, aproveitar um pouco desse atormentado mundo cruel. Pois bem, é com ele que eu vou ao Bar do Serafim, em Laranjeiras.
Saio do centro já meio em cima da hora (com a recomendação, de meu filho Júlio, de que lhe desse os parabéns por uma contenda clubística, que envolvia o Zico e a tradição alvinegra, num programa de tevê com o mordaz comentarista Renato Maurício Prado, temido jornalista rubro-negro). Hora do rush, metrô entupido, nenhum táxi livre no Largo do Machado, trânsito infernal, ônibus então, Rua das Laranjeiras parada, mas consigo entrar no Serafim exatamente no mesmo instante que Dapieve, morador do bairro, chega pontualmente. Sentamos numa mesa à direita, próximo do balcão. Ele pede um chope escuro, eu um claro.
O Serafim, onde “não é permitido entrar bêbado, sair sim”, é um bar pequeno, aconchegante. No dizer de um dos quadros na parede, um bar “lusitano à Noel Rosa”. Noutro, vê-se Marcelo D2 afirmar, numa matéria antiga, que lá é seu escritório. Um belo escritório, por sinal, com boas cachaças nas prateleiras e pedaços de bacalhau no teto. Entre as fotos expostas, uma de meu convidado com seu Juca, o ex-dono de fartos bigodes, que morreu ano passado.
Pergunto a Dapieve, como frequentador da casa, o que ele recomenda. Começamos com os ótimos bolinhos de bacalhau para acompanhar o chope. De tamanho médio, sequinhos, saborosos. Algumas outras opções de petiscos no cardápio: pastéis, empadas, torresmo, fritas com cebola, alheira portuguesa, morcela. Entre as bem servidas refeições, capa de filé, rabada com agrião e o cozido do fim de semana. Dapieve me conta que um de seus pratos preferidos é a lula à alentejana (arroz, pedaços de lula, paio e lombinho). Fiquei curioso com essa mistura meio extravagante. Mas vai ficar para outra.
Com a ajuda do chope para molhar a garganta e a mente, enfileiramos vários assuntos: primeiro o futebol, claro, o bom trabalho que a diretoria do Botafogo vem fazendo, Loco Abreu, o difícil equilíbrio entre o casamento e a oferta de mil jogos por semana (ele, por sorte, é casado com uma santa que gosta de futebol, a também jornalista Mànya Millen); bares de Copacabana; uma viagem programada ao Japão; Maria Gadu, bandas novas; o prazer de indicar uma leitura; o dilema de ler ou não enquanto se escreve um romance; Bussunda; os perigos de um piripaque em nossa idade (rondando os 50)...
A propósito, para checar a saúde e o colesterol, pedimos a boa porção de pastéis de camarão com catupiry. Súbito, com várias bolachas de chope espalhadas pela mesa, nos damos conta de que já se passaram mais de duas horas e meia. Quando o encontro é bacana passa rápido. Afinal, Arthur Dapieve transita com bom gosto, elegância e conhecimento de causa da música clássica ao heavy metal (os sons que ele vem escutando ultimamente, aliás). Da política brazuca às obras completas de Freud, passando pela Segunda Guerra Mundial. De A a Z. O que faz dele um dos principais cronistas do nosso tempo. Saúde e até a próxima, Arthur.
Bar do Serafim – Rua Alice, 24 A, Laranjeiras (2225-2843)
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A consciência negra fora do lote
DE BAR EM BAR – Angu do Gomes
Depois de tudo, a última coisa que Nei me disse, antes de deixar o Largo de São Francisco da Prainha rumo a Seropédica, foi precisamente isto: – Valeu, Santa, vamos em frente! Quando o censo bater na minha casa, faço um passo de samba e mando brasa: sou, com orgulho, afrodescendente! Valeu, saúde pra você e os seus. Até a próxima meu cumpádi.
Terminou quase assim, nesses dias, este casual encontro com o escritor, ensaísta, compositor, sambista e grande figura Nei Lopes. Conheci-o quando participamos de um debate sobre literatura e canção realizado na flip de 2007. O debate em si rendeu menos que o esperado, o que valeu mesmo (e ficou em minha memória, apesar de tudo) foi a tarde que passamos bebendo uma cerveja de responsa e jogando conversa pra dentro. Eu, ele e sua esposa (Sônia) emendamos um papo durante o almoço que se estendeu até de noitinha, estourando até o último minuto que tínhamos para nos dirigir ao local do debate. Pois sim.
Cheguei ao Angu do Gomes no meio da tarde, no tradicional larguinho no bairro da Saúde, região portuária carioca, que ainda respira um Rio das antigas (e alguma malandragem). Entro no pequeno salão, sento-me na fileira da esquerda, atrás de uma mesa com quatro colegas de trabalho, dois homens e duas mulheres. A casa está no final do movimento de almoço, alguns funcionários uniformizados pegam seus talheres e ocupam as primeiras mesas perto do balcão com pratos bem-servidos.
Cabe aqui um esclarecimento: o Angu do Gomes é muito conhecido pelos carrinhos que circulavam pelas ruas da cidade vendendo o prato popular e típico da paisagem carioca. Hoje se vê menos isso. Mas há esse bar e restaurante, que havia sido inaugurado em 1977, e que está de volta ao local que já foi mercado negreiro e se transformou em centro de boemia, palco das primeiras rodas de samba e de capoeira do Rio.
Aqui, além do tradicional angu à baiana, com miúdos de boi, pode-se degustar o angu com algumas variações: carne moída, frango, calabresa ou vegetariano. E os seguintes petiscos: bolinho de feijoada, linguiça mineira, moela, sardinha frita, acarajé, punheta do vovô Basílio (bacalhau imperial, azeitona, cebola e azeite) e, naturalmente, pastel de angu. Entre os pratos, contrafilé, filé de frango e galetinho com guarnição.
Olhando em volta do simpático salão, imagino um senhor sozinho, escrevinhando alguma coisa, numa mesa de canto, à direita. Fixo o olhar e reparo quem é. Penso em não perturbá-lo já que está em atividade. Imediatamente ele também me olha e dispara: – Ô Santa! Há quanto tempo! Tudo bem? Senta aqui comigo...
Não vou nem dizer que o mundo é tão pequeno, porque é mesmo. Estava pensando justamente no homem. Acabara de ler seu romance Mandingas da mulata velha na cidade nova e vim aqui no Angu do Gomes para refletir sobre um trecho do livro que não sai da minha cabeça: “Todo indivíduo é um elo na cadeia da existência, repassando aos seus descendentes o que recebeu de seus ancestrais. A transmissão correta e direta desse saber precisa de tempo e lugar. O tempo é agora. E o lugar é este.”
E esse é o cara. Nei Lopes. Mal me refiz desse ótimo primeiro romance, onde a verdadeira história do nosso povo, não aquela engessada pela história dos poderosos, é contada com liberdade e sabor, e ele já está lançando o segundo: Oiobomé – a epopéia de uma nação. Por falar em sabor, pedimos uma porção de bolinho de feijoada. Veio um pouco gordurosa, poderia ser melhor, mas o prazer do encontro e o angu à baiana, pedido depois, compensaram o pequeno tropeço. E deram sustança à sequência de cervas Original.
Depois que ele se foi, fiquei até na dúvida.
Não sei mais se esse encontro não aconteceu. Ele é tão real... (os quatro colegas de trabalho ainda estão por aqui, alegres e matreiros como adolescentes matando aula). Nei Lopes transformou-se, num único encontro, em amigo, um novo velho amigo de infância. Isso é raro. A questão é que ele fica lá no seu paraíso, lá em seu Lote, num lugar impreciso ente Saracuruna e Seropédica, criando, compondo e vivendo a vida, com sua Sônia. Saúde e até a próxima.
Angu do Gomes – Largo de São Francisco da Prainha, 17, Saúde (2233-4561)
Depois de tudo, a última coisa que Nei me disse, antes de deixar o Largo de São Francisco da Prainha rumo a Seropédica, foi precisamente isto: – Valeu, Santa, vamos em frente! Quando o censo bater na minha casa, faço um passo de samba e mando brasa: sou, com orgulho, afrodescendente! Valeu, saúde pra você e os seus. Até a próxima meu cumpádi.
Terminou quase assim, nesses dias, este casual encontro com o escritor, ensaísta, compositor, sambista e grande figura Nei Lopes. Conheci-o quando participamos de um debate sobre literatura e canção realizado na flip de 2007. O debate em si rendeu menos que o esperado, o que valeu mesmo (e ficou em minha memória, apesar de tudo) foi a tarde que passamos bebendo uma cerveja de responsa e jogando conversa pra dentro. Eu, ele e sua esposa (Sônia) emendamos um papo durante o almoço que se estendeu até de noitinha, estourando até o último minuto que tínhamos para nos dirigir ao local do debate. Pois sim.
Cheguei ao Angu do Gomes no meio da tarde, no tradicional larguinho no bairro da Saúde, região portuária carioca, que ainda respira um Rio das antigas (e alguma malandragem). Entro no pequeno salão, sento-me na fileira da esquerda, atrás de uma mesa com quatro colegas de trabalho, dois homens e duas mulheres. A casa está no final do movimento de almoço, alguns funcionários uniformizados pegam seus talheres e ocupam as primeiras mesas perto do balcão com pratos bem-servidos.
Cabe aqui um esclarecimento: o Angu do Gomes é muito conhecido pelos carrinhos que circulavam pelas ruas da cidade vendendo o prato popular e típico da paisagem carioca. Hoje se vê menos isso. Mas há esse bar e restaurante, que havia sido inaugurado em 1977, e que está de volta ao local que já foi mercado negreiro e se transformou em centro de boemia, palco das primeiras rodas de samba e de capoeira do Rio.
Aqui, além do tradicional angu à baiana, com miúdos de boi, pode-se degustar o angu com algumas variações: carne moída, frango, calabresa ou vegetariano. E os seguintes petiscos: bolinho de feijoada, linguiça mineira, moela, sardinha frita, acarajé, punheta do vovô Basílio (bacalhau imperial, azeitona, cebola e azeite) e, naturalmente, pastel de angu. Entre os pratos, contrafilé, filé de frango e galetinho com guarnição.
Olhando em volta do simpático salão, imagino um senhor sozinho, escrevinhando alguma coisa, numa mesa de canto, à direita. Fixo o olhar e reparo quem é. Penso em não perturbá-lo já que está em atividade. Imediatamente ele também me olha e dispara: – Ô Santa! Há quanto tempo! Tudo bem? Senta aqui comigo...
Não vou nem dizer que o mundo é tão pequeno, porque é mesmo. Estava pensando justamente no homem. Acabara de ler seu romance Mandingas da mulata velha na cidade nova e vim aqui no Angu do Gomes para refletir sobre um trecho do livro que não sai da minha cabeça: “Todo indivíduo é um elo na cadeia da existência, repassando aos seus descendentes o que recebeu de seus ancestrais. A transmissão correta e direta desse saber precisa de tempo e lugar. O tempo é agora. E o lugar é este.”
E esse é o cara. Nei Lopes. Mal me refiz desse ótimo primeiro romance, onde a verdadeira história do nosso povo, não aquela engessada pela história dos poderosos, é contada com liberdade e sabor, e ele já está lançando o segundo: Oiobomé – a epopéia de uma nação. Por falar em sabor, pedimos uma porção de bolinho de feijoada. Veio um pouco gordurosa, poderia ser melhor, mas o prazer do encontro e o angu à baiana, pedido depois, compensaram o pequeno tropeço. E deram sustança à sequência de cervas Original.
Depois que ele se foi, fiquei até na dúvida.
Não sei mais se esse encontro não aconteceu. Ele é tão real... (os quatro colegas de trabalho ainda estão por aqui, alegres e matreiros como adolescentes matando aula). Nei Lopes transformou-se, num único encontro, em amigo, um novo velho amigo de infância. Isso é raro. A questão é que ele fica lá no seu paraíso, lá em seu Lote, num lugar impreciso ente Saracuruna e Seropédica, criando, compondo e vivendo a vida, com sua Sônia. Saúde e até a próxima.
Angu do Gomes – Largo de São Francisco da Prainha, 17, Saúde (2233-4561)
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Naquelas tardes de domingo
Se o velho ainda fosse vivo, hoje seria o dia que não ia segurar a onda. Não tenho a menor dúvida. Ele não conseguiria nem olhar de rabo de olho para o telão da tevê. Muito menos torcer – nem contra nem a favor. Além de encher a cara, de gritar com a minha mãe desde cedo e de se indispor com a vizinhança, só conseguiria se lembrar da primeira bola que me deu, aquela tal jabulani. Da primeira camisa do Flamengo que comprou para mim, quando eu ainda nadava dentro da barriga. Das inúmeras vezes em que me levou ao Maracanã. Dos meus primeiros testes, dos meus primeiros treinos. Da primeira foto no jornal, tão moleque que eu era. Da torcida pedindo para eu entrar no segundo tempo. Da primeira vez que fui escalado de saída. Dos primeiros elogios nas mesas-redondas. Da primeira vez em que fui convocado. Das situações em que ele me defendeu no bar quando joguei mal. De como sofreu quando fiquei um ano parado por conta de uma entrada criminosa do zagueiro inglês. Do orgulho que sentiu quando fui vendido para a Espanha, na época ainda o principal mercado. Do quanto fiquei rico e famoso depois da ganhar a Liga dos Campeões. Do sorriso sardônico que exibia quando se falava das minhas mulheres. Do alívio quando retornei, mesmo já meio esquecido e sem dinheiro por conta do meu quarto divórcio. Aí, não ia ter jeito: iria se lembrar também de toda a reviravolta. De como eu fui chamado de traíra aqui e ali, apesar de muita gente boa também ter entrado nessa. Depois, a sua pressão iria escalar o Everest – ou o Fuji, se quiserem – até o ataque fulminante.
Tudo começou no tempo da Copa de 2010, quando ainda usava fraldas. O time do Dunga teve aquela trajetória emblemática que todos estão cansados de saber, mesmo os mais desinteressados. Os jornalistas menos pessimistas viram alguma semelhança com a seleção de 1994, bem longe, lá atrás no século passado, independente do valor de cada uma. Depois veio a Copa no Brasil, em 2014, quando todo mundo pediu a volta do futebol criativo que sempre nos caracterizou. O velho foi ao estádio Mário Filho na final com seu pai, meu saudoso avô Toninho, que dizia que bom mesmo era o Zico. Nada de Neymar, Paulo Henrique Ganso, Alexandre Pato ou Philippe Coutinho, hoje devidamente aposentados e com seus nomes inscritos no panteão da glória dos craques eternos. Já o meu pai juraria que fora de série mesmo eram Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho. Kaká nem tanto, dizia ele. Para mim isso não significa nada. O futebol atualmente é muito diferente, com seus três árbitros, auxílio de várias câmeras, substituições reversíveis, ponto eletrônico, pedidos de tempo, preparação física de 100 metros rasos. Pois bem: exatamente 20 anos atrás foi quando o esporte começou a se tornar o que é hoje. Um show de profissionalismo e tecnologia voltado para a máxima produtividade, controlado por quem pouco entende de bola, mas que domina as ferramentas midiáticas mais modernas e surpreendentes – afinal de contas já se pode até ler os sonhos, não é mesmo?, até isso eles já inventaram.
Nesse momento falta muito pouco para o céu ou o inferno. O coração está quase saindo do corpo. O Sawamura, o japeta que divide o quarto comigo, já desceu. Antes ele havia permanecido horas no banheiro. Eu apertado e ele lá. Muito preocupado com seu cabelo: tintura, xampu, pentes especiais, secador, creme alisante, gel – como se ao menos fosse entrar em campo e não mofar no banco de reservas como uma possibilidade inexistente. Agora ele está na recepção, junto dos outros, todos rindo amarelo, com a cara amarela, tudo na maior disciplina e conforme a hierarquia. Finalmente eles vão jogar contra o Brasil. Ou melhor, nós vamos enfrentar o Brasil, que no placar geral das copas, continua soberano, ainda que hoje, com a fusão de países em blocos econômicos, formados por nações politicamente interdependentes, a confusão seja enorme. Tudo em nome da nova ordem mundial – a meu ver, em função da cara de pau dos mais poderosos. Se eu tivesse de explicar as regras atuais para um marciano eu diria o seguinte: o Japão, ainda o atual dono do mundo, foi quem criou as regras e não quis se associar a ninguém, óbvio, até porque as opções imediatas, as duas Coreias, eram consideradas por ele desastrosas. A gigantesca e promissora China (atropelando por fora) também conseguiu essa prerrogativa., como a segunda força mundial. E também deram um jeitinho os Estados Unidos, mesmo em franca decadência, e a Alemanha, empatadas no terceiro posto. O resto do planeta não teve esta sorte. Graças à nova etapa da globalização, Chile, Brasil e Venezuela tiveram de se concatenar (sendo que alguns chegaram a se lembrar, esquerdistas saudosos, da época em que os presidentes destes dois últimos países, também quando eu ainda usava fraldas, governavam com grande popularidade e, dizem, com alguma fanfarronice, mas sem um interfluxo obrigatório). Assim como tiveram de se acotovelar amistosamente Argentina, Uruguai e Paraguai. E no velho continente, amigo E.T. de Marte? França, Holanda e Bélgica. Aí a coisa, quero dizer a fusão, foi ficando mais sem sentido em termos geográficos, por conta de uma inconveniente hostilidade entre vizinhos. Daí se formou, por exemplo, o bloco Inglaterra, Noruega e Grécia. Quer mais? Portugal, Áustria e Escócia. Espanha e Rússia também ficaram juntas, e se tornariam uma seleção fortíssima candidata em qualquer campeonato. Na África, caro alienígena, devido à pobreza, foram só dois blocos: África 1 e África 2. E por aí vai. Mas, no mundo do futebol, todos perceberam que isso não iria funcionar, porque as potências no ex-esporte bretão são por merecimento Brasil, Itália e Argentina, e não Japão e China e EUA e Alemanha, apesar da grande tradição desta última. Daí se voltou à disputa como sempre foi, antes mesmo de ter sido implantado o novo modelo. Para não deixarem tudo na mesma, os poderosos, sempre sob o pretexto de reaquecer a economia, e em nome da nova ordem mundial, criaram o regime de cotas das nacionalidades em leilão – do qual sou um dos principais atores. Portanto, no placar direto entre os dois países que jogam logo mais (pensando-se, claro, no mapa-múndi de antigamente): Brasil 7 x 2 Japão. Este é o escore de Copas do Mundo que promete ser revertido pelos japoneses muito em breve, meta para a qual eles contam comigo, a partir da data de hoje: 13 de julho de 2034. Afinal sou um dos atletas estrangeiros considerados classe A pela FIFA que podem atuar por outras seleções, numa autêntica venda de nacionalidade. Tudo, claro, para aumentar o consumo e reaquecer a economia, seriamente abalada depois dos golpes cada vez mais duros que a natureza tem aplicado ao planeta. Fenômenos como o recente terremoto no Ceará e o veranico no Pólo Norte mostram que ela agoniza mas ainda vive – e até nos oferece pequeno troco aos muitos séculos de descaso, ganância e egoísmo da nossa gente.
No finalzinho da partida, Matsumura avança pela direita, tabela com Kobayashi, passa pelo ala esquerdo brasileiro Felipe Galvão Mascarenhas de Moraes e Silva, vai até a linha de fundo, e cruza pelo alto no meio da área; O volante brazuca Vítor Sombra tenta cortar de cabeça e fura espetacularmente; a bola sobra limpa na meia-lua para o argentino Federico Barros (outro atleta cooptado pelo Japão, como eu) que, com uma visão de jogo diferenciada, entre dois adversários, o ala direito Aldo Porto e o meia Luís Mocó, enfia para mim que, de voleio, emendo com violência sem tempo do zagueiro verde e amarelo Marçal Machado chegar junto, nem tampouco do goleiro Ricardo Alberto esboçar qualquer reação, estufando a rede; logo depois me vejo sufocado por Maki, Matsumura, Sato e os demais japetas numa pirâmide amarela – é tudo o que consigo mentalizar, conforme eles me ensinaram, enquanto encaro com certo desprezo (unicamente por fora) meus compatriotas no túnel de acesso ao gramado. Os brasileiros, por sua vez, guardam para mim um risinho totalmente irônico e irritante. Em seguida, os dois times vão ficar perfilados e ouvir as respectivas canções transnacionais, mixadas por famosos DJs a partir dos hinos dos países de antigamente. É isso. Ainda penso no meu velho e em como é bem melhor que ele não esteja por aqui. Saudades dele naquelas tardes de domingo.
Tudo começou no tempo da Copa de 2010, quando ainda usava fraldas. O time do Dunga teve aquela trajetória emblemática que todos estão cansados de saber, mesmo os mais desinteressados. Os jornalistas menos pessimistas viram alguma semelhança com a seleção de 1994, bem longe, lá atrás no século passado, independente do valor de cada uma. Depois veio a Copa no Brasil, em 2014, quando todo mundo pediu a volta do futebol criativo que sempre nos caracterizou. O velho foi ao estádio Mário Filho na final com seu pai, meu saudoso avô Toninho, que dizia que bom mesmo era o Zico. Nada de Neymar, Paulo Henrique Ganso, Alexandre Pato ou Philippe Coutinho, hoje devidamente aposentados e com seus nomes inscritos no panteão da glória dos craques eternos. Já o meu pai juraria que fora de série mesmo eram Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho. Kaká nem tanto, dizia ele. Para mim isso não significa nada. O futebol atualmente é muito diferente, com seus três árbitros, auxílio de várias câmeras, substituições reversíveis, ponto eletrônico, pedidos de tempo, preparação física de 100 metros rasos. Pois bem: exatamente 20 anos atrás foi quando o esporte começou a se tornar o que é hoje. Um show de profissionalismo e tecnologia voltado para a máxima produtividade, controlado por quem pouco entende de bola, mas que domina as ferramentas midiáticas mais modernas e surpreendentes – afinal de contas já se pode até ler os sonhos, não é mesmo?, até isso eles já inventaram.
Nesse momento falta muito pouco para o céu ou o inferno. O coração está quase saindo do corpo. O Sawamura, o japeta que divide o quarto comigo, já desceu. Antes ele havia permanecido horas no banheiro. Eu apertado e ele lá. Muito preocupado com seu cabelo: tintura, xampu, pentes especiais, secador, creme alisante, gel – como se ao menos fosse entrar em campo e não mofar no banco de reservas como uma possibilidade inexistente. Agora ele está na recepção, junto dos outros, todos rindo amarelo, com a cara amarela, tudo na maior disciplina e conforme a hierarquia. Finalmente eles vão jogar contra o Brasil. Ou melhor, nós vamos enfrentar o Brasil, que no placar geral das copas, continua soberano, ainda que hoje, com a fusão de países em blocos econômicos, formados por nações politicamente interdependentes, a confusão seja enorme. Tudo em nome da nova ordem mundial – a meu ver, em função da cara de pau dos mais poderosos. Se eu tivesse de explicar as regras atuais para um marciano eu diria o seguinte: o Japão, ainda o atual dono do mundo, foi quem criou as regras e não quis se associar a ninguém, óbvio, até porque as opções imediatas, as duas Coreias, eram consideradas por ele desastrosas. A gigantesca e promissora China (atropelando por fora) também conseguiu essa prerrogativa., como a segunda força mundial. E também deram um jeitinho os Estados Unidos, mesmo em franca decadência, e a Alemanha, empatadas no terceiro posto. O resto do planeta não teve esta sorte. Graças à nova etapa da globalização, Chile, Brasil e Venezuela tiveram de se concatenar (sendo que alguns chegaram a se lembrar, esquerdistas saudosos, da época em que os presidentes destes dois últimos países, também quando eu ainda usava fraldas, governavam com grande popularidade e, dizem, com alguma fanfarronice, mas sem um interfluxo obrigatório). Assim como tiveram de se acotovelar amistosamente Argentina, Uruguai e Paraguai. E no velho continente, amigo E.T. de Marte? França, Holanda e Bélgica. Aí a coisa, quero dizer a fusão, foi ficando mais sem sentido em termos geográficos, por conta de uma inconveniente hostilidade entre vizinhos. Daí se formou, por exemplo, o bloco Inglaterra, Noruega e Grécia. Quer mais? Portugal, Áustria e Escócia. Espanha e Rússia também ficaram juntas, e se tornariam uma seleção fortíssima candidata em qualquer campeonato. Na África, caro alienígena, devido à pobreza, foram só dois blocos: África 1 e África 2. E por aí vai. Mas, no mundo do futebol, todos perceberam que isso não iria funcionar, porque as potências no ex-esporte bretão são por merecimento Brasil, Itália e Argentina, e não Japão e China e EUA e Alemanha, apesar da grande tradição desta última. Daí se voltou à disputa como sempre foi, antes mesmo de ter sido implantado o novo modelo. Para não deixarem tudo na mesma, os poderosos, sempre sob o pretexto de reaquecer a economia, e em nome da nova ordem mundial, criaram o regime de cotas das nacionalidades em leilão – do qual sou um dos principais atores. Portanto, no placar direto entre os dois países que jogam logo mais (pensando-se, claro, no mapa-múndi de antigamente): Brasil 7 x 2 Japão. Este é o escore de Copas do Mundo que promete ser revertido pelos japoneses muito em breve, meta para a qual eles contam comigo, a partir da data de hoje: 13 de julho de 2034. Afinal sou um dos atletas estrangeiros considerados classe A pela FIFA que podem atuar por outras seleções, numa autêntica venda de nacionalidade. Tudo, claro, para aumentar o consumo e reaquecer a economia, seriamente abalada depois dos golpes cada vez mais duros que a natureza tem aplicado ao planeta. Fenômenos como o recente terremoto no Ceará e o veranico no Pólo Norte mostram que ela agoniza mas ainda vive – e até nos oferece pequeno troco aos muitos séculos de descaso, ganância e egoísmo da nossa gente.
No finalzinho da partida, Matsumura avança pela direita, tabela com Kobayashi, passa pelo ala esquerdo brasileiro Felipe Galvão Mascarenhas de Moraes e Silva, vai até a linha de fundo, e cruza pelo alto no meio da área; O volante brazuca Vítor Sombra tenta cortar de cabeça e fura espetacularmente; a bola sobra limpa na meia-lua para o argentino Federico Barros (outro atleta cooptado pelo Japão, como eu) que, com uma visão de jogo diferenciada, entre dois adversários, o ala direito Aldo Porto e o meia Luís Mocó, enfia para mim que, de voleio, emendo com violência sem tempo do zagueiro verde e amarelo Marçal Machado chegar junto, nem tampouco do goleiro Ricardo Alberto esboçar qualquer reação, estufando a rede; logo depois me vejo sufocado por Maki, Matsumura, Sato e os demais japetas numa pirâmide amarela – é tudo o que consigo mentalizar, conforme eles me ensinaram, enquanto encaro com certo desprezo (unicamente por fora) meus compatriotas no túnel de acesso ao gramado. Os brasileiros, por sua vez, guardam para mim um risinho totalmente irônico e irritante. Em seguida, os dois times vão ficar perfilados e ouvir as respectivas canções transnacionais, mixadas por famosos DJs a partir dos hinos dos países de antigamente. É isso. Ainda penso no meu velho e em como é bem melhor que ele não esteja por aqui. Saudades dele naquelas tardes de domingo.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Fome
"Hora da boia. Ensina-nos a todos, à guisa de refinamento e cultura, que há um melhor uso para a boca do que deixar passar por ela opiniões pessoais."
(W. Faulkner)
(W. Faulkner)
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Três novas razões para uma vida plena
A SOMBRA DO FAQUIR – 3
Antigamente se dizia que para que uma vida valesse a pena ser vivida o indivíduo deveria, antes de expirar sua passagem pelo planeta, fazer três coisas: 1- plantar uma árvore; 2- ter um filho; 3- escrever um livro. Ações que justificariam uma existência. Com o império do descartável, com a revolução da tecnologia da informação e com a alucinada velocidade subjetiva do tempo, tais requisitos não são mais primordiais. Ficaram defasados.
Hoje não é mais necessário plantar uma árvore. A consciência ecológica e o sentido de perenidade (que não dura mais uma vida inteira mas até o próximo verão) podem ser aplacados com o apoio virtual a campanhas como salvem as baleias e não ao desmatamento da Amazônia, e ainda com pequenos grandes gestos como a utilização de sacolas retornáveis no lugar das sacolas de plástico nas compras do supermercado. Tudo em nome do futuro.
Hoje não é mais necessário ter um filho para se dar continuidade a uma cadeia hereditária. Como a família não possui mais um formato único, padrão, é possível ser o pai (na prática) do filho (de outro casamento) da sua atual mulher. E vice-versa. Com muito mais tempo de convivência e de afeto do que os progenitores reais em boa parte dos casos.
Hoje também não é mais necessário escrever um livro. Num momento em que cada vez mais se questionam mídias como o livro impresso e o CD (este praticamente moribundo), o invisível espaço virtual para troca e aquisição de conhecimento e fruição estética é o caminho ladeira abaixo da humanidade atordoada e dispersa em mil e um estímulos que nos liberam da experiência tátil e do contato físico.
Portanto, diria que, atualizando o ditado popular, três possíveis razões contemporâneas para validar uma existência neste início de século 21 seriam: 1- participar de um reality show (como se sabe, hoje esse tipo de programa está presente em praticamente todos os canais de televisão e sobre os mais variados assuntos: anônimos que querem virar celebridades, bandas de rock, chefs de cozinha, casais gordinhos, quase famosos, cães problemáticos e por aí vai); 2- casar no mínimo três vezes (o que gera uma infinidade de subfamílias que se interpenetram e garantem amor e ódio para sempre); 3- escrever um blog (qualquer um pode ser escritor ou jornalista e garantir seu lugar na posteridade virtual).
* * *
Segundo tais requisitos, a minha vida estaria ainda a 2/3 do ponto de poder ser considerada plena – atinjo tão-somente o último item e mesmo assim a custa de muita resistência e indecisão quanto à minha real aptidão para essa modalidade de diário pessoal e público.
Num exercício de imaginar o que significa para mim uma vida bem vivida diria que é preciso: 1- antes de mais nada, fazer o que se gosta; 2- ter ao menos um grande amor, um grande amigo ou um grande parente; 3- ter sempre dinheiro para comprar livros, discos e, digamos, algum cachorro engarrafado.
* * *
Esta eu ouvi numa das últimas edições do extraordinário programa Coisas pelas quais vale a pena viver, da atriz Priscilla Rozembaum e do ator, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, que passa no Canal Brasil. A respeito do último dia da temporada da peça Moby Dick no Teatro Poeira, no Rio, mestre Domingos mandou: “Sabe qual é a forma mais interessante de sabedoria? A loucura controlada.” É isso aí.
Antigamente se dizia que para que uma vida valesse a pena ser vivida o indivíduo deveria, antes de expirar sua passagem pelo planeta, fazer três coisas: 1- plantar uma árvore; 2- ter um filho; 3- escrever um livro. Ações que justificariam uma existência. Com o império do descartável, com a revolução da tecnologia da informação e com a alucinada velocidade subjetiva do tempo, tais requisitos não são mais primordiais. Ficaram defasados.
Hoje não é mais necessário plantar uma árvore. A consciência ecológica e o sentido de perenidade (que não dura mais uma vida inteira mas até o próximo verão) podem ser aplacados com o apoio virtual a campanhas como salvem as baleias e não ao desmatamento da Amazônia, e ainda com pequenos grandes gestos como a utilização de sacolas retornáveis no lugar das sacolas de plástico nas compras do supermercado. Tudo em nome do futuro.
Hoje não é mais necessário ter um filho para se dar continuidade a uma cadeia hereditária. Como a família não possui mais um formato único, padrão, é possível ser o pai (na prática) do filho (de outro casamento) da sua atual mulher. E vice-versa. Com muito mais tempo de convivência e de afeto do que os progenitores reais em boa parte dos casos.
Hoje também não é mais necessário escrever um livro. Num momento em que cada vez mais se questionam mídias como o livro impresso e o CD (este praticamente moribundo), o invisível espaço virtual para troca e aquisição de conhecimento e fruição estética é o caminho ladeira abaixo da humanidade atordoada e dispersa em mil e um estímulos que nos liberam da experiência tátil e do contato físico.
Portanto, diria que, atualizando o ditado popular, três possíveis razões contemporâneas para validar uma existência neste início de século 21 seriam: 1- participar de um reality show (como se sabe, hoje esse tipo de programa está presente em praticamente todos os canais de televisão e sobre os mais variados assuntos: anônimos que querem virar celebridades, bandas de rock, chefs de cozinha, casais gordinhos, quase famosos, cães problemáticos e por aí vai); 2- casar no mínimo três vezes (o que gera uma infinidade de subfamílias que se interpenetram e garantem amor e ódio para sempre); 3- escrever um blog (qualquer um pode ser escritor ou jornalista e garantir seu lugar na posteridade virtual).
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Segundo tais requisitos, a minha vida estaria ainda a 2/3 do ponto de poder ser considerada plena – atinjo tão-somente o último item e mesmo assim a custa de muita resistência e indecisão quanto à minha real aptidão para essa modalidade de diário pessoal e público.
Num exercício de imaginar o que significa para mim uma vida bem vivida diria que é preciso: 1- antes de mais nada, fazer o que se gosta; 2- ter ao menos um grande amor, um grande amigo ou um grande parente; 3- ter sempre dinheiro para comprar livros, discos e, digamos, algum cachorro engarrafado.
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Esta eu ouvi numa das últimas edições do extraordinário programa Coisas pelas quais vale a pena viver, da atriz Priscilla Rozembaum e do ator, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, que passa no Canal Brasil. A respeito do último dia da temporada da peça Moby Dick no Teatro Poeira, no Rio, mestre Domingos mandou: “Sabe qual é a forma mais interessante de sabedoria? A loucura controlada.” É isso aí.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Descerebrai-vos
“Uma vez admitido que a vida possa guiar-se pela razão, aniquila-se a possibilidade da vida.”
(Leon Tolstoi)
(Leon Tolstoi)
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Olhos (e boca) de Facebook, ouvidos da Igreja Universal
A SOMBRA DO FAQUIR - 2
A propaganda geralmente consolida e traduz tendências existentes na sociedade. Não costuma criar novas bossas, mas, ao contrário, capta o que está rolando – às vezes, dependendo da sensibilidade do publicitário, até mesmo apresenta como novidade o que já é pretérito.
Dois comerciais recentes me chamaram muito a atenção. No primeiro, uma família se prepara para sair de férias. Cheia de bugigangas, entra no carro, finge que vai zarpar e volta para a garagem. Na cena seguinte, vemos a família toda em frente à tevê, curtindo a mil. Férias ideais: na segurança e no conforto do lar, controle remoto na mão e dezenas de canais do mundo inteiro. O fim da picada.
No outro, um comercial de telefonia, o pai e o filho adolescente conversam, este, como aborrescente típico, desqualifica o esforçado provedor, que exulta ao conseguir checar seus e-mails pelo celular, transformando-o, um homem de seus 40 e poucos anos, numa peça de museu ao lhe informar que e-mail já era, o negócio agora são as redes sociais. (No final o pai dá o troco, quando o filho mostra a foto da namorada no celular: “namorar... que coisa mais careta!” – mas isso não importa).
Conjugados, os dois comerciais parecem nos dizer: experiência real de vida é hoje algo pouco importante; fique numa boa que é possível conhecer o mundo inteiro e falar com todas as pessoas possíveis sem sair do seu canto. Na mais completa solidão compartilhada.
* * *
Depois de relutar bastante, de ignorar solenemente Orkut, MSN e Twitter, entrei há pouco para o Facebook. Alguns amigos e minha mulher me convenceram de que este seria outra coisa, mais adaptável ao meu temperamento esquizóide, afeito à reclusão, à leitura e ao silêncio (cada vez mais) e simultânea e paradoxalmente (para alguns) ainda fascinado pelas ondas mundanas que quebram na praia da inquietude. Lá no FB, segundo eles, poderia postar meus textos, discutir idéias com pessoas afins e ser feliz.
Pois bem. Em um mês e meio de Facebook, constato o óbvio: as possibilidades de se atingir o maior número de pessoas são claramente maiores do que através do e-mail (o aborrescente do comercial de alguma forma estava certo). Mas por outro lado observo que é uma tendência muito grande usar o Facebook principalmente para uma comunicação mais direta, rasteira e cotidiana. Por exemplo: fulano diz: “Amarelo!” ou “Que frio!” – e imediatamente pipocam comentários a respeito do que talvez só interessasse aos envolvidos. A questão é que pelo lado positivo se pode comunicar com muito mais gente ao mesmo tempo do que o tempo de cada um permite se a comunicação fosse feita individualmente. É muito fácil, por isso, saber quem está de ressaca ou acordou apaixonado. A exposição espontânea é espantosa.
Percebo ainda que a sociabilidade virtual é bem relativa. Tirando as exceções fortuitas dos famosos ou muito populares, só tem olhos (e boca) para você praticamente quem já é conhecido. Agora, o maior teste é para a ansiedade e a insegurança de checar a todo momento se alguém curtiu ou fez algum comentário a algo postado. Isso é terrível. Sem falar nos que nos humilham com milhares de amigos. Eu, por enquanto, estou nos meros 150. Mas vou continuar insistindo, lentamente. Alguém aí está me vendo?
* * *
Um amigo me conta revoltado que se instalou na loja embaixo de seu prédio uma Igreja Universal. Ele mora no segundo andar. Ao ouvir a barulheira dos infernos, vindo dos cânticos e dos Glória a Deus de praxe, foi reclamar com o porteiro. Ao que este comentou: “Pior é que eles pensam que Deus é surdo.”
Um poeta, o porteiro.
A propaganda geralmente consolida e traduz tendências existentes na sociedade. Não costuma criar novas bossas, mas, ao contrário, capta o que está rolando – às vezes, dependendo da sensibilidade do publicitário, até mesmo apresenta como novidade o que já é pretérito.
Dois comerciais recentes me chamaram muito a atenção. No primeiro, uma família se prepara para sair de férias. Cheia de bugigangas, entra no carro, finge que vai zarpar e volta para a garagem. Na cena seguinte, vemos a família toda em frente à tevê, curtindo a mil. Férias ideais: na segurança e no conforto do lar, controle remoto na mão e dezenas de canais do mundo inteiro. O fim da picada.
No outro, um comercial de telefonia, o pai e o filho adolescente conversam, este, como aborrescente típico, desqualifica o esforçado provedor, que exulta ao conseguir checar seus e-mails pelo celular, transformando-o, um homem de seus 40 e poucos anos, numa peça de museu ao lhe informar que e-mail já era, o negócio agora são as redes sociais. (No final o pai dá o troco, quando o filho mostra a foto da namorada no celular: “namorar... que coisa mais careta!” – mas isso não importa).
Conjugados, os dois comerciais parecem nos dizer: experiência real de vida é hoje algo pouco importante; fique numa boa que é possível conhecer o mundo inteiro e falar com todas as pessoas possíveis sem sair do seu canto. Na mais completa solidão compartilhada.
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Depois de relutar bastante, de ignorar solenemente Orkut, MSN e Twitter, entrei há pouco para o Facebook. Alguns amigos e minha mulher me convenceram de que este seria outra coisa, mais adaptável ao meu temperamento esquizóide, afeito à reclusão, à leitura e ao silêncio (cada vez mais) e simultânea e paradoxalmente (para alguns) ainda fascinado pelas ondas mundanas que quebram na praia da inquietude. Lá no FB, segundo eles, poderia postar meus textos, discutir idéias com pessoas afins e ser feliz.
Pois bem. Em um mês e meio de Facebook, constato o óbvio: as possibilidades de se atingir o maior número de pessoas são claramente maiores do que através do e-mail (o aborrescente do comercial de alguma forma estava certo). Mas por outro lado observo que é uma tendência muito grande usar o Facebook principalmente para uma comunicação mais direta, rasteira e cotidiana. Por exemplo: fulano diz: “Amarelo!” ou “Que frio!” – e imediatamente pipocam comentários a respeito do que talvez só interessasse aos envolvidos. A questão é que pelo lado positivo se pode comunicar com muito mais gente ao mesmo tempo do que o tempo de cada um permite se a comunicação fosse feita individualmente. É muito fácil, por isso, saber quem está de ressaca ou acordou apaixonado. A exposição espontânea é espantosa.
Percebo ainda que a sociabilidade virtual é bem relativa. Tirando as exceções fortuitas dos famosos ou muito populares, só tem olhos (e boca) para você praticamente quem já é conhecido. Agora, o maior teste é para a ansiedade e a insegurança de checar a todo momento se alguém curtiu ou fez algum comentário a algo postado. Isso é terrível. Sem falar nos que nos humilham com milhares de amigos. Eu, por enquanto, estou nos meros 150. Mas vou continuar insistindo, lentamente. Alguém aí está me vendo?
* * *
Um amigo me conta revoltado que se instalou na loja embaixo de seu prédio uma Igreja Universal. Ele mora no segundo andar. Ao ouvir a barulheira dos infernos, vindo dos cânticos e dos Glória a Deus de praxe, foi reclamar com o porteiro. Ao que este comentou: “Pior é que eles pensam que Deus é surdo.”
Um poeta, o porteiro.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Um pé-sujo diferente
DE BAR EM BAR - REBOUÇAS
– Bota uma aí pra queimar a garganta.
O atendente serve uma dose generosa de 51.
– Posso cair dentro?
O trabalhador humilde vira tudo e faz aquela careta. Normal. Esta é uma cena que poderia ter acontecido em qualquer pé-sujo da cidade. Mas foi aqui no Rebouças, um pequeno grande boteco. Enquanto espero meu convidado chegar, sento-me num dos poucos bancos do balcão, peço uma Antarctica e observo o ambiente.
O bar é de dia uma pequena porta na Rua Maria Angélica. À noite ele cresce com mesinhas pela calçada. Nas prateleiras acima do balcão, noto garrafas de vinho que fogem ao padrão pé-sujo. Como também em relação às cachaças, aqui tem marcas como Lua Cheia, Germana, Magnífica, Salinas, Bento Velho, Chico Mineiro e Rainha do Vale. Não é pouca coisa. Um dos fregueses beberica uma dose de Red Label, ao lado do trabalhador que virou a 51.
– A música tá muito careta! Cadê os porras-loucas de hoje?
Quem fala é um senhor jovem, mais jovem do que muita gente que tem 18 anos. Discorre também sobre eleições, elogiando o candidato socialista Plínio de Arruda Sampaio, sobre vendedores de picolé no Pacaembu e seu método original de venda e ainda sobre a idade avançada das aeromoças atualmente. Interessante figura. Descubro depois que se trata do pianista Guilherme Vergueiro (não sabia como ele era). Mas eis que chega ao Rebouças meu convidado Toni Platão, que, antes de me dar um abraço, para pra falar com todo mundo. Aqui ele está em casa.
Toni Platão é, sem nenhum favor, um dos maiores cantores do Brasil. Num país que prima por excelentes cantoras, onde nasce uma diva a cada semana, Toni é quase um artigo de luxo. Deveria estar sendo disputado a tapa pelas gravadoras em crise. Mas a maioria delas sofre de miopia aguda. Toni Platão, gaiato, sempre que me encontra se refere à minha canção (em parceria com Frejat e Maurício Barros) Por você como “aquela canalhice”. Em seguida emenda: “Mas a Deborah adora”. Deborah é sua mulher, a coreógrafa Deborah Colker. Ainda bem que a Deborah adora.
Sentamo-nos numa mesinha na calçada. Para acompanhar a cerveja e o bom papo, peço uma empadinha de camarão. Veio ótima. Peço mais uma. Outras opções da casa: bolinhos de bacalhau, de camarão com catupiry, pastéis de carne, queijo, camarão e carne seca, sanduíche de carne assada, cachorro quente, presunto Parma. Todos os petiscos expostos parecem gozar de boa saúde.
Como não poderia deixar de ser, o assunto gira em torno de futebol, especificamente sobre como equilibrar o casamento e os 1500 jogos que passam na tevê, música digital (“tá faltando o discurso”) e filhos eternos. Pelo celular, Platão monitora o estudo do seu Antonio Bento, de 10 anos, que tem teste de matemática no dia seguinte. E ainda cumprimenta a nova leva de frequentadores, agora o turno da noite. Ele conhece desde o negão que coordena o ponto de táxi em frente, o Lafond (“aqui todos têm apelido”), até a florida mesa ao lado, recheada de gatas extraordinárias, como diria Caetano. Vai começar o jogo da nova seleção brasileira. Vamos para o interior do bar. Tudo certo no Rebouças – e no campo, com Ganso, Neymar e Pato. Saúde e até a próxima.
Bar Rebouças – Rua Maria Angélica 197, Jardim Botânico (2286-3212)
– Bota uma aí pra queimar a garganta.
O atendente serve uma dose generosa de 51.
– Posso cair dentro?
O trabalhador humilde vira tudo e faz aquela careta. Normal. Esta é uma cena que poderia ter acontecido em qualquer pé-sujo da cidade. Mas foi aqui no Rebouças, um pequeno grande boteco. Enquanto espero meu convidado chegar, sento-me num dos poucos bancos do balcão, peço uma Antarctica e observo o ambiente.
O bar é de dia uma pequena porta na Rua Maria Angélica. À noite ele cresce com mesinhas pela calçada. Nas prateleiras acima do balcão, noto garrafas de vinho que fogem ao padrão pé-sujo. Como também em relação às cachaças, aqui tem marcas como Lua Cheia, Germana, Magnífica, Salinas, Bento Velho, Chico Mineiro e Rainha do Vale. Não é pouca coisa. Um dos fregueses beberica uma dose de Red Label, ao lado do trabalhador que virou a 51.
– A música tá muito careta! Cadê os porras-loucas de hoje?
Quem fala é um senhor jovem, mais jovem do que muita gente que tem 18 anos. Discorre também sobre eleições, elogiando o candidato socialista Plínio de Arruda Sampaio, sobre vendedores de picolé no Pacaembu e seu método original de venda e ainda sobre a idade avançada das aeromoças atualmente. Interessante figura. Descubro depois que se trata do pianista Guilherme Vergueiro (não sabia como ele era). Mas eis que chega ao Rebouças meu convidado Toni Platão, que, antes de me dar um abraço, para pra falar com todo mundo. Aqui ele está em casa.
Toni Platão é, sem nenhum favor, um dos maiores cantores do Brasil. Num país que prima por excelentes cantoras, onde nasce uma diva a cada semana, Toni é quase um artigo de luxo. Deveria estar sendo disputado a tapa pelas gravadoras em crise. Mas a maioria delas sofre de miopia aguda. Toni Platão, gaiato, sempre que me encontra se refere à minha canção (em parceria com Frejat e Maurício Barros) Por você como “aquela canalhice”. Em seguida emenda: “Mas a Deborah adora”. Deborah é sua mulher, a coreógrafa Deborah Colker. Ainda bem que a Deborah adora.
Sentamo-nos numa mesinha na calçada. Para acompanhar a cerveja e o bom papo, peço uma empadinha de camarão. Veio ótima. Peço mais uma. Outras opções da casa: bolinhos de bacalhau, de camarão com catupiry, pastéis de carne, queijo, camarão e carne seca, sanduíche de carne assada, cachorro quente, presunto Parma. Todos os petiscos expostos parecem gozar de boa saúde.
Como não poderia deixar de ser, o assunto gira em torno de futebol, especificamente sobre como equilibrar o casamento e os 1500 jogos que passam na tevê, música digital (“tá faltando o discurso”) e filhos eternos. Pelo celular, Platão monitora o estudo do seu Antonio Bento, de 10 anos, que tem teste de matemática no dia seguinte. E ainda cumprimenta a nova leva de frequentadores, agora o turno da noite. Ele conhece desde o negão que coordena o ponto de táxi em frente, o Lafond (“aqui todos têm apelido”), até a florida mesa ao lado, recheada de gatas extraordinárias, como diria Caetano. Vai começar o jogo da nova seleção brasileira. Vamos para o interior do bar. Tudo certo no Rebouças – e no campo, com Ganso, Neymar e Pato. Saúde e até a próxima.
Bar Rebouças – Rua Maria Angélica 197, Jardim Botânico (2286-3212)
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Santa utopia
“Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza, temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.”
(Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português)
(Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português)
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Bigodes, chapéus e um Robin Hood pós-moderno
A SOMBRA DO FAQUIR - A QUEM INTERESSA?
Inauguro hoje nesse espaço uma crônica freestyle, A Sombra do Faquir. Como a De Bar em Bar da vez ficou adiada para a outra semana por conta da agenda do convidado (e da chuva), respirei fundo, deixei a preguiça sofrendo na janela e pronto. Escreverei sobre o que chamar a atenção, sem mote prévio, como é da natureza da crônica, esse gênero brasileiríssimo. Ela aparecerá ao lado dos pequenos textos, citações, poemas e da própria De Bar em Bar.
Abs & bjs
M
* * *
BIGODES E CHAPÉUS
Sempre achei bigode um lance esquisito. Alguém botar um tufo de cabelo embaixo do nariz – e barbear o resto da cara. É o tipo de acessório que combina bem em poucos casos. Há bigodes clássicos que falam por si: Hitler, Sarney, Carlitos, Rivelino (na luta entre o bem e o mal deu empate). Kurt Vonnegut. A partir da minha recente obsessão por este escritor, de quem já li uns dez livros seguidos, enfileirados, começando justo pela obra-prima Matadouro 5, e tenho, graças a Deus, ainda mais uns oito na estante (quase tudo comprado em sebos), resolvi tentar mais uma vez um improvável bigodon. Isso mesmo, em homenagem a Kurt Vonnegut, o genial escritor bigode que até pouco tempo eu achava que era apenas um autor de ficção científica. Não é. É um escritor que me bateu fundo e dos grandes do século 20.
Bem, o bigode não deu lá muito certo. Meu cabelo já ficou grisalho e ralo no topo (é, amigo; velhice é ladeira abaixo). E o bigode é meio louro, meio branco. Tentei insistir, olhando-me no espelho o tempo todo para vigiar o crescimento dos pelos e tal e coisa. De início achei que estava legal, junto com uma barbicha de leve, que já tinha usado antes. Mas aí comecei a perceber na rua, na foto do jornal, no show moderninho no Oi Futuro, na propaganda de cerveja, que bigode, antes uma coisa meio cafona, agora é up-to-date. Sinal de modernidade. Comecei então a reparar no formato falho do meu bigode crescendo. E depois ainda que a minha mulher fez uma referência sem nenhum entusiasmo a respeito de minha dita homenagem (que ela não sabia ser uma homenagem), rapei fora. Que coisa mais ridícula, bigode.
* * *
Ocorre comigo algo parecido em relação ao chapéu (cujo uso é também uma boa estratégia para deletar virtualmente a carequice, estratégia digna até, se comparada a perucas e implantes que parecem capim). Comprei um em Buenos Aires há quase um ano e nunca o usei apesar de ser muito bonito. Boné de vez em quando rola. Chapéu coco também já usei. Mas chapéu, chapéu, ainda mais depois que virou moda entre todas as bandas modernas e celebridades, fica difícil. E, assim como o bigode, também não cai bem em qualquer um. Sabem disso e usufruem da benesse meus amigos músicos Rodrigo Santos e Humberto Barros (este então tem toda uma persona cujo chapéu é parte indispensável. Fico até curioso para saber como ele é sem – sem nenhuma segunda intenção, por favor). Mas essa febre de chapéu já passou um pouco e ainda vou insistir. Dessa vez, em homenagem a ninguém. Ou melhor, em homenagem a Tom Jobim. Isso. Nada como uma motivação.
* * *
UM ROBIN HOOD PÓS-MODERNO
Ouvido numa esquina do Bairro Peixoto, de um menino de seus 12 anos, num grupo de moleques de rua: “Só vamos roubar se for de quem tem dinheiro. Roubar de quem é pobre não tá com nada.” A vida anda tão dura que quase bati palmas.
Inauguro hoje nesse espaço uma crônica freestyle, A Sombra do Faquir. Como a De Bar em Bar da vez ficou adiada para a outra semana por conta da agenda do convidado (e da chuva), respirei fundo, deixei a preguiça sofrendo na janela e pronto. Escreverei sobre o que chamar a atenção, sem mote prévio, como é da natureza da crônica, esse gênero brasileiríssimo. Ela aparecerá ao lado dos pequenos textos, citações, poemas e da própria De Bar em Bar.
Abs & bjs
M
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BIGODES E CHAPÉUS
Sempre achei bigode um lance esquisito. Alguém botar um tufo de cabelo embaixo do nariz – e barbear o resto da cara. É o tipo de acessório que combina bem em poucos casos. Há bigodes clássicos que falam por si: Hitler, Sarney, Carlitos, Rivelino (na luta entre o bem e o mal deu empate). Kurt Vonnegut. A partir da minha recente obsessão por este escritor, de quem já li uns dez livros seguidos, enfileirados, começando justo pela obra-prima Matadouro 5, e tenho, graças a Deus, ainda mais uns oito na estante (quase tudo comprado em sebos), resolvi tentar mais uma vez um improvável bigodon. Isso mesmo, em homenagem a Kurt Vonnegut, o genial escritor bigode que até pouco tempo eu achava que era apenas um autor de ficção científica. Não é. É um escritor que me bateu fundo e dos grandes do século 20.
Bem, o bigode não deu lá muito certo. Meu cabelo já ficou grisalho e ralo no topo (é, amigo; velhice é ladeira abaixo). E o bigode é meio louro, meio branco. Tentei insistir, olhando-me no espelho o tempo todo para vigiar o crescimento dos pelos e tal e coisa. De início achei que estava legal, junto com uma barbicha de leve, que já tinha usado antes. Mas aí comecei a perceber na rua, na foto do jornal, no show moderninho no Oi Futuro, na propaganda de cerveja, que bigode, antes uma coisa meio cafona, agora é up-to-date. Sinal de modernidade. Comecei então a reparar no formato falho do meu bigode crescendo. E depois ainda que a minha mulher fez uma referência sem nenhum entusiasmo a respeito de minha dita homenagem (que ela não sabia ser uma homenagem), rapei fora. Que coisa mais ridícula, bigode.
* * *
Ocorre comigo algo parecido em relação ao chapéu (cujo uso é também uma boa estratégia para deletar virtualmente a carequice, estratégia digna até, se comparada a perucas e implantes que parecem capim). Comprei um em Buenos Aires há quase um ano e nunca o usei apesar de ser muito bonito. Boné de vez em quando rola. Chapéu coco também já usei. Mas chapéu, chapéu, ainda mais depois que virou moda entre todas as bandas modernas e celebridades, fica difícil. E, assim como o bigode, também não cai bem em qualquer um. Sabem disso e usufruem da benesse meus amigos músicos Rodrigo Santos e Humberto Barros (este então tem toda uma persona cujo chapéu é parte indispensável. Fico até curioso para saber como ele é sem – sem nenhuma segunda intenção, por favor). Mas essa febre de chapéu já passou um pouco e ainda vou insistir. Dessa vez, em homenagem a ninguém. Ou melhor, em homenagem a Tom Jobim. Isso. Nada como uma motivação.
* * *
UM ROBIN HOOD PÓS-MODERNO
Ouvido numa esquina do Bairro Peixoto, de um menino de seus 12 anos, num grupo de moleques de rua: “Só vamos roubar se for de quem tem dinheiro. Roubar de quem é pobre não tá com nada.” A vida anda tão dura que quase bati palmas.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
O homem quase
Quando foi libertado por bom comportamento, em 2037, temeu pela reação violenta das pessoas e por sua vida fora das grades. Mas o mundo já não sabia mais quem ele era.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Criativo, delirante... e sóbrio
DE BAR EM BAR - CERVANTES
Já estava mais do que na hora. Fui nesta semana àquele boteco que é diretamente associado ao mais célebre bardo de Copacabana, figura mitológica da boemia carioca Rio 40 graus. O bar, claro, é o Cervantes. E o personagem, mais claro ainda, é o compositor e escritor Fausto Fawcett. Porém agora com um detalhe importantíssimo: Fausto parou de beber. Fui lá me encontrar com ele.
Quando chego, por volta de 16h, Fausto já estava lá, encostado no balcão, traçando um sanduíche com guaraná, e conversando com dois amigos sobre uma de suas maiores paixões: o Fluminense, que anda muito bem na foto, um dos líderes do Brasileirão, mas que pode perder seu técnico, Muricy Ramalho, para a seleção brasileira. Não se pode ter tudo. (Eu, como botafoguense que sou, sei bem disso... Reestreia, Maicosuel! Volta logo, Loco!)
Depois de meia hora, os amigos se vão e eu e Fausto vamos para o salão interno. Há nesse momento, apenas mais duas mesas ocupadas, uma com pai e filho almoçando tardiamente, outra com duas moças tirando fotos publicitárias de um sanduíche, realmente cinematográfico, da casa. Peço meu segundo chope e Fausto, outro guaraná.
Fausto Fawcett está mais magro e muito bem disposto. Entro logo de sola no assunto que não quer calar: como é nunca mais acordar de ressaca? Com o bom humor que o caracteriza, ele conta que na verdade não havia propriamente ressaca, pois, durante uns 25 anos, sua vida no Triângulo das Calcinhas, ou na “Bukowskaia”, foi um eterno estado de embriaguez, que, parece, passou voando. E acrescenta que parou porque teve que parar: o médico disse que era isso ou o transplante de fígado ou... Mas ainda bem que ele preferiu ficar mais um bom tempo por aqui, nos brindando com sua verve e seu texto inspirado. Porque muito mais do que o poeta das louras, Fausto Fawcett é um inventor de linguagem.
Enquanto passam garçons e o reverenciam, o papo corre solto. Falamos um pouco de tudo: Dunga, seleção espanhola, surfe de peito nas ondas de Copacabana na década de 1980, beber para suportar (“a vida é isso?”), indiferença, capatazes de humanista e música digital, entre outras coisas. Enfileiro um chope atrás do outro e pergunto se isso não o incomoda. Ele, com toda a calma, diz que está tranquilo. Peço o tradicional sanduíche de filé com queijo e abacaxi para acompanhar.
Como se sabe, o Cervantes é o paraíso dos sanduíches. Aqui tem de mortadela, salsichão, patê com abacaxi, linguiça calabresa, rosbife, fiambre de peru, filé de frango e muitos outros. Mas há também pratos como churrasco à campanha, brochete de camarão, frango ao alho e óleo, língua com salada de batata, miolos à milanesa e sopas de aspargos e de tomate.
O tempo passa voando e Fausto precisa ir embora. Poderíamos continuar conversando fácil. Antes de sair, conta que em setembro publicará seu quarto livro, Favelost, e em seguida o primeiro infanto-juvenil, Lourinha levada. Fico para tomar a saideira. E me sinto feliz pelo amigo, que está leve, inteligente e mordaz como sempre e pronto para escrever novos textos que o desafiem além e aquém do território babélico de Copa. Ele pode. Saúde e até a próxima.
Cervantes – Rua Barata Ribeiro, 7-B, Copacabana (2275-6147)
Já estava mais do que na hora. Fui nesta semana àquele boteco que é diretamente associado ao mais célebre bardo de Copacabana, figura mitológica da boemia carioca Rio 40 graus. O bar, claro, é o Cervantes. E o personagem, mais claro ainda, é o compositor e escritor Fausto Fawcett. Porém agora com um detalhe importantíssimo: Fausto parou de beber. Fui lá me encontrar com ele.
Quando chego, por volta de 16h, Fausto já estava lá, encostado no balcão, traçando um sanduíche com guaraná, e conversando com dois amigos sobre uma de suas maiores paixões: o Fluminense, que anda muito bem na foto, um dos líderes do Brasileirão, mas que pode perder seu técnico, Muricy Ramalho, para a seleção brasileira. Não se pode ter tudo. (Eu, como botafoguense que sou, sei bem disso... Reestreia, Maicosuel! Volta logo, Loco!)
Depois de meia hora, os amigos se vão e eu e Fausto vamos para o salão interno. Há nesse momento, apenas mais duas mesas ocupadas, uma com pai e filho almoçando tardiamente, outra com duas moças tirando fotos publicitárias de um sanduíche, realmente cinematográfico, da casa. Peço meu segundo chope e Fausto, outro guaraná.
Fausto Fawcett está mais magro e muito bem disposto. Entro logo de sola no assunto que não quer calar: como é nunca mais acordar de ressaca? Com o bom humor que o caracteriza, ele conta que na verdade não havia propriamente ressaca, pois, durante uns 25 anos, sua vida no Triângulo das Calcinhas, ou na “Bukowskaia”, foi um eterno estado de embriaguez, que, parece, passou voando. E acrescenta que parou porque teve que parar: o médico disse que era isso ou o transplante de fígado ou... Mas ainda bem que ele preferiu ficar mais um bom tempo por aqui, nos brindando com sua verve e seu texto inspirado. Porque muito mais do que o poeta das louras, Fausto Fawcett é um inventor de linguagem.
Enquanto passam garçons e o reverenciam, o papo corre solto. Falamos um pouco de tudo: Dunga, seleção espanhola, surfe de peito nas ondas de Copacabana na década de 1980, beber para suportar (“a vida é isso?”), indiferença, capatazes de humanista e música digital, entre outras coisas. Enfileiro um chope atrás do outro e pergunto se isso não o incomoda. Ele, com toda a calma, diz que está tranquilo. Peço o tradicional sanduíche de filé com queijo e abacaxi para acompanhar.
Como se sabe, o Cervantes é o paraíso dos sanduíches. Aqui tem de mortadela, salsichão, patê com abacaxi, linguiça calabresa, rosbife, fiambre de peru, filé de frango e muitos outros. Mas há também pratos como churrasco à campanha, brochete de camarão, frango ao alho e óleo, língua com salada de batata, miolos à milanesa e sopas de aspargos e de tomate.
O tempo passa voando e Fausto precisa ir embora. Poderíamos continuar conversando fácil. Antes de sair, conta que em setembro publicará seu quarto livro, Favelost, e em seguida o primeiro infanto-juvenil, Lourinha levada. Fico para tomar a saideira. E me sinto feliz pelo amigo, que está leve, inteligente e mordaz como sempre e pronto para escrever novos textos que o desafiem além e aquém do território babélico de Copa. Ele pode. Saúde e até a próxima.
Cervantes – Rua Barata Ribeiro, 7-B, Copacabana (2275-6147)
sexta-feira, 16 de julho de 2010
O próximo passo
“Um passo para trás depois de se ter tomado o caminho errado é um passo na direção certa.”
(Kurt Vonnegut)
(Kurt Vonnegut)
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Com estacionamento de gaiolas e pudim
De Bar em Bar - Varnhagem
Outro dia uma leitora do JB me pediu que fosse mais à Tijuca e me enviou uma lista, muito boa por sinal, de botequins do bairro. Antes que ela pensasse que tenho algo contra a área, me apressei em esclarecer que já fiz a coluna em dois dos muito bons bares da região: Salete e Otto. E, acima de tudo, tenho pessoalmente uma relação de carinho com a Tijuca. (Conforme a teoria de um amigo meu, todo carioca que se preza tem ou teve uma namorada tijucana. Faço jus, portanto, ao meu crachá.)
Fui então dessa vez a um conhecido bar na Praça Varnhagem, o famoso bar da dona Natalina, com o mesmo nome do lugar público. O Varnhagem é daqueles botecos para a gente se sentir em casa. A matriarca da família Rosário, que bate ponto no local diariamente há mais de 50 anos, é quem supervisiona a cozinha e atende os fregueses com zelo e bom humor. Fico a imaginar se isso lhe fosse retirado – a vida perderia todo o sentido. Mas essa hipótese não existe, ainda bem.
Para abrir peço uma cerveja Original a fim de fazer par com o famoso bolinho de bacalhau da casa. Realmente, a fama não é em vão. Mesmo sendo um pouco cedo para a atividade boêmia, por volta de meio-dia, o petisco e a cerveja gelada caíram muito bem. Outros tira-gostos que também valem a pedida: croquete de carne e vaca atolada. À minha volta, alguns trabalhadores almoçam e veem televisão. Apesar de ser um pouco pequeno, o boteco de azulejos brancos e rosa e de alma lusitana tem espaço para todos.
Cheguei ao ponto onde queria. Aqui têm vez até os passarinhos, amigo leitor. Fico sabendo que nos fins de semana frequentadores trazem suas gaiolas, penduram-nas numa barra de ferro e tomam sua cervejinha tranquilamente. Não é à toa que o Varnhagem é conhecido também como o bar dos passarinhos. É ou não é sensacional um estacionamento de gaiolas? (Mesmo para quem, como eu, prefere passarinho solto.) Quem imagina que o Rio de hoje é só violência e terra de ninguém ainda não esteve por estas bandas. É uma cidade que não existe mais se recusando a ir embora de vez.
De tanto olhar as pessoas ao redor almoçando com gosto, a fome aperta. Resolvo embarcar nessa e peço o filé mignon suíno com salada de batata, arroz, feijão e farofa. Enquanto isso, observo um rapaz com ares de artista antenado, com seus piercings e boné modernos, a conversar com dois senhores de terno e gravata. Penso logo que é o tradicional caso em que o artista vai ao mecenas com o pires na mão e o coração na boca.
Porém me surpreendo inteiramente quando ouço o rapaz expor suas ideias sobre marketing e negócios com muita propriedade e total atenção dos engravatados. O que comprova o óbvio: imagem nem sempre corresponde ao que de fato é. Tal raciocínio serve perfeitamente ao Varnhagem, que a princípio até pode parecer um pé-sujo comum. Depois de degustar o prato delicioso, ainda me permiti uma coisa raríssima para mim em boteco: comer um doce. E o pudim de leite veio tão bom que me fez levitar feliz até o metrô no caminho de volta. Saúde e até a próxima.
Café e Bar Varnhagem – Praça Varnhagem, 14-A, Tijuca (2254-3062)
Outro dia uma leitora do JB me pediu que fosse mais à Tijuca e me enviou uma lista, muito boa por sinal, de botequins do bairro. Antes que ela pensasse que tenho algo contra a área, me apressei em esclarecer que já fiz a coluna em dois dos muito bons bares da região: Salete e Otto. E, acima de tudo, tenho pessoalmente uma relação de carinho com a Tijuca. (Conforme a teoria de um amigo meu, todo carioca que se preza tem ou teve uma namorada tijucana. Faço jus, portanto, ao meu crachá.)
Fui então dessa vez a um conhecido bar na Praça Varnhagem, o famoso bar da dona Natalina, com o mesmo nome do lugar público. O Varnhagem é daqueles botecos para a gente se sentir em casa. A matriarca da família Rosário, que bate ponto no local diariamente há mais de 50 anos, é quem supervisiona a cozinha e atende os fregueses com zelo e bom humor. Fico a imaginar se isso lhe fosse retirado – a vida perderia todo o sentido. Mas essa hipótese não existe, ainda bem.
Para abrir peço uma cerveja Original a fim de fazer par com o famoso bolinho de bacalhau da casa. Realmente, a fama não é em vão. Mesmo sendo um pouco cedo para a atividade boêmia, por volta de meio-dia, o petisco e a cerveja gelada caíram muito bem. Outros tira-gostos que também valem a pedida: croquete de carne e vaca atolada. À minha volta, alguns trabalhadores almoçam e veem televisão. Apesar de ser um pouco pequeno, o boteco de azulejos brancos e rosa e de alma lusitana tem espaço para todos.
Cheguei ao ponto onde queria. Aqui têm vez até os passarinhos, amigo leitor. Fico sabendo que nos fins de semana frequentadores trazem suas gaiolas, penduram-nas numa barra de ferro e tomam sua cervejinha tranquilamente. Não é à toa que o Varnhagem é conhecido também como o bar dos passarinhos. É ou não é sensacional um estacionamento de gaiolas? (Mesmo para quem, como eu, prefere passarinho solto.) Quem imagina que o Rio de hoje é só violência e terra de ninguém ainda não esteve por estas bandas. É uma cidade que não existe mais se recusando a ir embora de vez.
De tanto olhar as pessoas ao redor almoçando com gosto, a fome aperta. Resolvo embarcar nessa e peço o filé mignon suíno com salada de batata, arroz, feijão e farofa. Enquanto isso, observo um rapaz com ares de artista antenado, com seus piercings e boné modernos, a conversar com dois senhores de terno e gravata. Penso logo que é o tradicional caso em que o artista vai ao mecenas com o pires na mão e o coração na boca.
Porém me surpreendo inteiramente quando ouço o rapaz expor suas ideias sobre marketing e negócios com muita propriedade e total atenção dos engravatados. O que comprova o óbvio: imagem nem sempre corresponde ao que de fato é. Tal raciocínio serve perfeitamente ao Varnhagem, que a princípio até pode parecer um pé-sujo comum. Depois de degustar o prato delicioso, ainda me permiti uma coisa raríssima para mim em boteco: comer um doce. E o pudim de leite veio tão bom que me fez levitar feliz até o metrô no caminho de volta. Saúde e até a próxima.
Café e Bar Varnhagem – Praça Varnhagem, 14-A, Tijuca (2254-3062)
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Porque ninguém é de ferro...
“Uma sesta clarifica maravilhosamente a cabeça para além de conceber uma renovada energia. Imagino que cerca de metade das pessoas do mundo não conseguem fazer uma sesta sem se sentirem depois um pouco obtusos, mas para aqueles que conseguem, uma sesta é uma poupança e não uma perda de tempo.”
(Patricia Highsmith)
(Patricia Highsmith)
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Viva a besteira
DE BAR EM BAR - Astor
Nesta semana fui a um botequim novidade. Além de ser um dos poucos que temos à beira-mar (sem contar os muitos restaurantes de Copacabana), é também um boteco de paulista, sem nenhum preconceito à cidade da garoa e do trabalho eficiente. Fui ao Astor, ali onde era o Barril 1.800, no início de Ipanema, com S. e os queridos amigos Mel e Maurício Barros. Uma saída com este casal é sinônimo de comer e beber bem e jogar ótima conversa fora – além de quase sempre fecharmos o bar.
Chegamos por volta de 19h de sábado. A varanda, que costuma ser a preferência, estava cheia. No amplo e elegante salão interno havia algumas poucas possibilidades de mesa, mas também já estava bem ocupado. O pouso ficou em frente ao extenso balcão, no extremo das mesas, e o mais perto das poltronas, no ambiente anexo para espera, e de parte da cozinha aberta ao público.
No início é preciso quase implorar aos garçons que notem nossa existência (talvez por não acharem que iríamos consumir; ou seja, cara de pobre). Mesmo depois do contato com o maître, ainda mantiveram por um tempo a pose blasé. Mas depois, capitaneados pelo garçom Ronaldo, justiça seja feita, tudo melhorou. Afinal, São Paulo não pode parar... e o bar também não.
Abrimos os trabalhos com ostras, os afrancesados mexilhões com batatas fritas (moules et frites) e chope cremoso da Brahma. As ostras vieram excelentes, frescas e saborosas. O chope muito bom, com a pressão na medida. Os mexilhões em molho de cerveja, numa porção não muito generosa, estavam corretos, mas não chegaram a empolgar. Pedimos então bolinhos Pirajá, que vêm a ser bolinhos com recheio de abóbora e carne-seca. Vieram ok para menos.
Outras opções do cardápio: pastéis, empadas, caldinho de feijão, omeletes, mexidinhos de rabada, polenta e agrião, de frutos do mar e de linguiça com gorgonzola. Entre os pratos, pode-se escolher entre filé com queijo Palmira, camarão com chuchu, picadinho Astor, linguado à Meuniére e frango Balthazar.
Observando ao redor, percebo um clima de azaração light. É um lugar para ver e ser visto. Logo identifico uma mesa com três amigas à La Sex in the city ali, outra mesa com dois senhores com ares de burgueses divorciados perto, passam para lá e para cá algumas modeletes anônimas, um ator de novela das oito, outro de Zorra Total, e uma turma bem mais jovem, que surge para se aglomerar na área das poltronas. A casa aumenta o som ambiente. U-hu!...
Depois dos primeiros chopes, passamos para o vinho (menos a Mel, que continuou com sua caipirinha de lichia com vodca Absolut). Começamos com um Alamos (Malbec), mudamos para um Tília (Shiraz/ Malbec) e repetimos a dose deste, ambos argentinos. Para continuar nos belisquetes, pedimos almôndegas picantes, muito boas, e em seguida besteiras à milanesa, nada mais nada menos do que pedaços de bife à milanesa com queijo emental presos no palito.
O que poderia ser só um item coadjuvante no pé-limpo bom, bonito e caro acabou sendo o destaque gastronômico da noite. Inclusive com grande aceitação nas outras mesas (o que prova que simplicidade tem o seu valor também nos lugares mais requintados). No boteco paulista com vista para o mar, a besteira foi o astro. Ah, sim: fechamos o bar mais uma vez. Saúde e até a próxima.
Astor – Rua Vieira Souto, 110, Ipanema (2523-0085)
Nesta semana fui a um botequim novidade. Além de ser um dos poucos que temos à beira-mar (sem contar os muitos restaurantes de Copacabana), é também um boteco de paulista, sem nenhum preconceito à cidade da garoa e do trabalho eficiente. Fui ao Astor, ali onde era o Barril 1.800, no início de Ipanema, com S. e os queridos amigos Mel e Maurício Barros. Uma saída com este casal é sinônimo de comer e beber bem e jogar ótima conversa fora – além de quase sempre fecharmos o bar.
Chegamos por volta de 19h de sábado. A varanda, que costuma ser a preferência, estava cheia. No amplo e elegante salão interno havia algumas poucas possibilidades de mesa, mas também já estava bem ocupado. O pouso ficou em frente ao extenso balcão, no extremo das mesas, e o mais perto das poltronas, no ambiente anexo para espera, e de parte da cozinha aberta ao público.
No início é preciso quase implorar aos garçons que notem nossa existência (talvez por não acharem que iríamos consumir; ou seja, cara de pobre). Mesmo depois do contato com o maître, ainda mantiveram por um tempo a pose blasé. Mas depois, capitaneados pelo garçom Ronaldo, justiça seja feita, tudo melhorou. Afinal, São Paulo não pode parar... e o bar também não.
Abrimos os trabalhos com ostras, os afrancesados mexilhões com batatas fritas (moules et frites) e chope cremoso da Brahma. As ostras vieram excelentes, frescas e saborosas. O chope muito bom, com a pressão na medida. Os mexilhões em molho de cerveja, numa porção não muito generosa, estavam corretos, mas não chegaram a empolgar. Pedimos então bolinhos Pirajá, que vêm a ser bolinhos com recheio de abóbora e carne-seca. Vieram ok para menos.
Outras opções do cardápio: pastéis, empadas, caldinho de feijão, omeletes, mexidinhos de rabada, polenta e agrião, de frutos do mar e de linguiça com gorgonzola. Entre os pratos, pode-se escolher entre filé com queijo Palmira, camarão com chuchu, picadinho Astor, linguado à Meuniére e frango Balthazar.
Observando ao redor, percebo um clima de azaração light. É um lugar para ver e ser visto. Logo identifico uma mesa com três amigas à La Sex in the city ali, outra mesa com dois senhores com ares de burgueses divorciados perto, passam para lá e para cá algumas modeletes anônimas, um ator de novela das oito, outro de Zorra Total, e uma turma bem mais jovem, que surge para se aglomerar na área das poltronas. A casa aumenta o som ambiente. U-hu!...
Depois dos primeiros chopes, passamos para o vinho (menos a Mel, que continuou com sua caipirinha de lichia com vodca Absolut). Começamos com um Alamos (Malbec), mudamos para um Tília (Shiraz/ Malbec) e repetimos a dose deste, ambos argentinos. Para continuar nos belisquetes, pedimos almôndegas picantes, muito boas, e em seguida besteiras à milanesa, nada mais nada menos do que pedaços de bife à milanesa com queijo emental presos no palito.
O que poderia ser só um item coadjuvante no pé-limpo bom, bonito e caro acabou sendo o destaque gastronômico da noite. Inclusive com grande aceitação nas outras mesas (o que prova que simplicidade tem o seu valor também nos lugares mais requintados). No boteco paulista com vista para o mar, a besteira foi o astro. Ah, sim: fechamos o bar mais uma vez. Saúde e até a próxima.
Astor – Rua Vieira Souto, 110, Ipanema (2523-0085)
A origem da comédia
“Se examinarmos atenta e longamente uma história engraçada, ela se torna cada vez mais triste.”
(Gogol)
(Gogol)
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O cabrito fica pra próxima
DE BAR EM BAR – Nordestino Carioca
Em algumas das colunas recentes, explorei a comida de boteco que vem da parte do país Bahia acima, indo ao quase turístico Estação Baião de Dois, na Feira de São Cristóvão, e também a de um Brasil mais longínquo, no Arataca de Copacabana com sua culinária do Pará. Dessa vez, fechando uma pequena trilogia, me embrenhei por um Nordeste profundo e fui ao Nordestino carioca, em Jacarepaguá (Anil).
Logo de cara sou arrebatado ao chegar ao bar, pois se destaca na parede central um enorme escudo do meu querido Botafogo. Isso por si só já seria o suficiente para ter toda boa vontade com a casa. Mas o amigo leitor sabe perfeitamente que esta condição não vale para encher de loas nenhum estabelecimento. Porque, se a paixão pode até nublar o raciocínio, na hora decisiva os prazeres da mesa não fazem distinção entre geografia, política, religião, times de futebol ou o que quer que seja. Dito isto, vamos ao que interessa.
“Nem no Piauí se come um cabrito como o daqui!”, é como sou recebido pelo dono, o paraibano Roberto Salles, que por sinal trabalhou muitos anos na Feira de São Cristóvão. É um autêntico personagem. Paramentado com chapéu de couro, o senhor de óculos de alto grau e bigodinho, é animado à beça. Contador de histórias, repentista, ele ainda faz a propaganda do irmão cantor, Chico Salles, e mostra todo orgulhoso o CD do (outro) artista da família.
São aproximadamente 11 horas da noite de quinta-feira e o bar está bem cheio. O que nada impede que a casa, decorada com garrafas de cachaça, objetos típicos e quadros com motivos regionais, seja muito agradável. Instalo-me na varanda e observo, além do movimento interno, a esquina bucólica e a lua cheia a nos proteger, a todos os boêmios, até onde a violência nossa de cada dia permite.
Peço uma cerveja Original e um bolinho de carne seca empanado. Enquanto degusto a ótima iguaria, atento para outras boas opções do cardápio, como por exemplo: baião de dois, cabrito ensopado, galinha de cabidela, lasanha nordestina, sarapatel e codorna na brasa com farofa de milho e molho à campanha. Para abrir ainda mais a fome – e continuar no clima poético –, solicito uma cachacinha, claro, da marca Lua Cheia.
Aproveito então para experimentar o petisco concorrente à terceira edição do Festival Comida di Buteco, que se encerra no próximo domingo. É o “caldo da caridade”, que vem a ser um encorpado caldo feito com carne moída, ovos cozidos, farinha de mesa e temperos nordestinos. Caprichado e até segura a onda etílica. (Preferi deixar o cabrito para outra oportunidade.)
Para finalizar, um rápido pitaco sobre a ralentada polêmica dos tira-gostos elaborados para o concurso pelos 31 bares cariocas em disputa. Há os que defendem que isto seria uma traição aos “atrativos genuínos” dos botequins. Em minha opinião, muito pelo contrário – quando as (boas) criações acrescentam e se incorporam à cultura de boteco. Em última análise, no confronto entre inovação e tradição, quem decide é o freguês. Saúde e até a próxima.
Nordestino Carioca – Av. Sargento Carlos Argemiro Camargo, 49, Jacarepaguá (3412-3353)
Em algumas das colunas recentes, explorei a comida de boteco que vem da parte do país Bahia acima, indo ao quase turístico Estação Baião de Dois, na Feira de São Cristóvão, e também a de um Brasil mais longínquo, no Arataca de Copacabana com sua culinária do Pará. Dessa vez, fechando uma pequena trilogia, me embrenhei por um Nordeste profundo e fui ao Nordestino carioca, em Jacarepaguá (Anil).
Logo de cara sou arrebatado ao chegar ao bar, pois se destaca na parede central um enorme escudo do meu querido Botafogo. Isso por si só já seria o suficiente para ter toda boa vontade com a casa. Mas o amigo leitor sabe perfeitamente que esta condição não vale para encher de loas nenhum estabelecimento. Porque, se a paixão pode até nublar o raciocínio, na hora decisiva os prazeres da mesa não fazem distinção entre geografia, política, religião, times de futebol ou o que quer que seja. Dito isto, vamos ao que interessa.
“Nem no Piauí se come um cabrito como o daqui!”, é como sou recebido pelo dono, o paraibano Roberto Salles, que por sinal trabalhou muitos anos na Feira de São Cristóvão. É um autêntico personagem. Paramentado com chapéu de couro, o senhor de óculos de alto grau e bigodinho, é animado à beça. Contador de histórias, repentista, ele ainda faz a propaganda do irmão cantor, Chico Salles, e mostra todo orgulhoso o CD do (outro) artista da família.
São aproximadamente 11 horas da noite de quinta-feira e o bar está bem cheio. O que nada impede que a casa, decorada com garrafas de cachaça, objetos típicos e quadros com motivos regionais, seja muito agradável. Instalo-me na varanda e observo, além do movimento interno, a esquina bucólica e a lua cheia a nos proteger, a todos os boêmios, até onde a violência nossa de cada dia permite.
Peço uma cerveja Original e um bolinho de carne seca empanado. Enquanto degusto a ótima iguaria, atento para outras boas opções do cardápio, como por exemplo: baião de dois, cabrito ensopado, galinha de cabidela, lasanha nordestina, sarapatel e codorna na brasa com farofa de milho e molho à campanha. Para abrir ainda mais a fome – e continuar no clima poético –, solicito uma cachacinha, claro, da marca Lua Cheia.
Aproveito então para experimentar o petisco concorrente à terceira edição do Festival Comida di Buteco, que se encerra no próximo domingo. É o “caldo da caridade”, que vem a ser um encorpado caldo feito com carne moída, ovos cozidos, farinha de mesa e temperos nordestinos. Caprichado e até segura a onda etílica. (Preferi deixar o cabrito para outra oportunidade.)
Para finalizar, um rápido pitaco sobre a ralentada polêmica dos tira-gostos elaborados para o concurso pelos 31 bares cariocas em disputa. Há os que defendem que isto seria uma traição aos “atrativos genuínos” dos botequins. Em minha opinião, muito pelo contrário – quando as (boas) criações acrescentam e se incorporam à cultura de boteco. Em última análise, no confronto entre inovação e tradição, quem decide é o freguês. Saúde e até a próxima.
Nordestino Carioca – Av. Sargento Carlos Argemiro Camargo, 49, Jacarepaguá (3412-3353)
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Planeta inexperiência
“Sai-se da infância sem saber o que é a juventude, casa-se sem saber o que é ser casado, e mesmo, quando entramos na velhice, não sabemos para onde vamos: os velhos são crianças inocentes de sua velhice. Neste sentido, a terra do homem é o planeta da inexperiência.”
(Milan Kundera)
(Milan Kundera)
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Futebol e louras (geladas ou não)
DE BAR EM BAR - Gracioso
Começa, enfim, amigo leitor, a Copa do Mundo. E, como todos sabem, futebol e botequim têm uma relação de profunda intimidade. Mesmo sem Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Neymar, para sorte de argentinos e que tais, hei de torcer, torcer, torcer pela nossa seleção. Além disso, continua a todo vapor a 3. edição do Festival Comida di Buteco. É, portanto, um período bastante propício para frequentar os bares cariocas.
Aproveitei a oportunidade e fui esta semana visitar um dos concorrentes do Festival: O Gracioso, numa esquina bastante tranquila da rua Sacadura Cabral, ali na Saúde há mais de 50 anos. É daqueles bares tradicionais, com alma e azulejos brancos na parede. Cheguei por volta das oito da noite e o movimento na casa era bom.
Sem maiores delongas, fui direto ao assunto. Pedi uma cerveja Bohemia e o petisco que participa do referido concurso: o “Jabazinho”, bolinho de massa de abóbora recheado com carne seca e empanado com flocos de arroz, acompanhado de molho de mostarda preta, mostarda amarela e pasta de gorgonzola. Se deu água na boca só de ler a descrição, o que posso dizer a você, é que este jabá, saboroso e crocante, eu aprovei. (Palavra de letrista...)
Outros tira-gostos do cardápio (cuja primeira página elegantemente ostenta um poema sobre a amizade): croquete, risoles de frango e camarão, bolinho de bacalhau, salaminho, queijo coalho e linguiça calabresa. Quanto às refeições, pode-se degustar pratos que o povo gosta, como a feijoada, carne assada com arroz e brócolis, viradinho à paulista, bisteca à campanha, iscas de fígado aceboladas, fritada de camarão e posta de peixe à brasileira. Não é à toa que o lugar é bastante procurado para o almoço.
Peço outra cerveja e uma porção de linguiça calabresa. Tudo certo, mais uma bola dentro. Dou uma olhada nas pessoas em volta e chama a minha atenção uma dupla de amigas. Só consigo ver de frente a loura baixinha e de boina verde, pois sua amiga morena dos cabelos encaracolados está de costas para mim. É a loura que fala:
– Amiga, eu passei por uma situação na semana passada!
– Me conta...
– Fui convocada para depor num processo trabalhista como testemunha da empresa.
– Qual o problema?
– É que foi contra uma colega demitida.
– Que chato.
– Chato não, horrível!
– Como você fez?
– Olha, passei a noite sem dormir!
A essa altura, só tinha ouvidos para a loura baixinha. Cheguei a me angustiar com o seu problema. Mas, como um autêntico torcedor, até respirei aliviado quando ela contou que na hora agá foi dispensada pelo advogado. Foi quase como torcer para aquela bola perigosa do adversário, rondando a pequena área, ir longe do nosso gol. Ufa! Viva a lourinha do Gracioso. E o Brasil-il-il-il! – apesar de toda a teimosia do Dunga.
PS: A partir de hoje, deixo o Jornal do Brasil e a crônica De Bar em Bar passará a ser publicada exclusivamente neste blog, sempre alternada com outros textos. Saúde e até a próxima.
Gracioso – Rua Sacadura Cabral, 97, Saúde (2263-5028)
Começa, enfim, amigo leitor, a Copa do Mundo. E, como todos sabem, futebol e botequim têm uma relação de profunda intimidade. Mesmo sem Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Neymar, para sorte de argentinos e que tais, hei de torcer, torcer, torcer pela nossa seleção. Além disso, continua a todo vapor a 3. edição do Festival Comida di Buteco. É, portanto, um período bastante propício para frequentar os bares cariocas.
Aproveitei a oportunidade e fui esta semana visitar um dos concorrentes do Festival: O Gracioso, numa esquina bastante tranquila da rua Sacadura Cabral, ali na Saúde há mais de 50 anos. É daqueles bares tradicionais, com alma e azulejos brancos na parede. Cheguei por volta das oito da noite e o movimento na casa era bom.
Sem maiores delongas, fui direto ao assunto. Pedi uma cerveja Bohemia e o petisco que participa do referido concurso: o “Jabazinho”, bolinho de massa de abóbora recheado com carne seca e empanado com flocos de arroz, acompanhado de molho de mostarda preta, mostarda amarela e pasta de gorgonzola. Se deu água na boca só de ler a descrição, o que posso dizer a você, é que este jabá, saboroso e crocante, eu aprovei. (Palavra de letrista...)
Outros tira-gostos do cardápio (cuja primeira página elegantemente ostenta um poema sobre a amizade): croquete, risoles de frango e camarão, bolinho de bacalhau, salaminho, queijo coalho e linguiça calabresa. Quanto às refeições, pode-se degustar pratos que o povo gosta, como a feijoada, carne assada com arroz e brócolis, viradinho à paulista, bisteca à campanha, iscas de fígado aceboladas, fritada de camarão e posta de peixe à brasileira. Não é à toa que o lugar é bastante procurado para o almoço.
Peço outra cerveja e uma porção de linguiça calabresa. Tudo certo, mais uma bola dentro. Dou uma olhada nas pessoas em volta e chama a minha atenção uma dupla de amigas. Só consigo ver de frente a loura baixinha e de boina verde, pois sua amiga morena dos cabelos encaracolados está de costas para mim. É a loura que fala:
– Amiga, eu passei por uma situação na semana passada!
– Me conta...
– Fui convocada para depor num processo trabalhista como testemunha da empresa.
– Qual o problema?
– É que foi contra uma colega demitida.
– Que chato.
– Chato não, horrível!
– Como você fez?
– Olha, passei a noite sem dormir!
A essa altura, só tinha ouvidos para a loura baixinha. Cheguei a me angustiar com o seu problema. Mas, como um autêntico torcedor, até respirei aliviado quando ela contou que na hora agá foi dispensada pelo advogado. Foi quase como torcer para aquela bola perigosa do adversário, rondando a pequena área, ir longe do nosso gol. Ufa! Viva a lourinha do Gracioso. E o Brasil-il-il-il! – apesar de toda a teimosia do Dunga.
PS: A partir de hoje, deixo o Jornal do Brasil e a crônica De Bar em Bar passará a ser publicada exclusivamente neste blog, sempre alternada com outros textos. Saúde e até a próxima.
Gracioso – Rua Sacadura Cabral, 97, Saúde (2263-5028)
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Ave cerva
Loura nossa que estás no Sol,
superlampótico esteja vosso frasco.
Venha a nós o vosso malte.
Seja feito o vosso efeito,
assim na cuca como nos rins.
O provolone nosso de cada dia nos dai hoje
e perdoai a qualidade da moela,
assim como da azeitona, da manjubinha etc.
Não nos deixeis cair de cara no chão
e livrai-nos do bleargh, amen(doim)!
superlampótico esteja vosso frasco.
Venha a nós o vosso malte.
Seja feito o vosso efeito,
assim na cuca como nos rins.
O provolone nosso de cada dia nos dai hoje
e perdoai a qualidade da moela,
assim como da azeitona, da manjubinha etc.
Não nos deixeis cair de cara no chão
e livrai-nos do bleargh, amen(doim)!
(Aldir Blanc, Da série "ÁRIAS PARA FOLHAS DE FÍCUS" - IV)
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Aquele bolinho transcendente
DE BAR EM BAR - Bacalhau do Rei
Fui esta semana a uma casa especializada na culinária portuguesa, mistura de bar e restaurante e que cumpre muito bem os dois papéis: o Bacalhau do Rei, ali no começo da Marquês de São Vicente. Endereço ideal para o amigo leitor comer um transcendente bolinho de bacalhau, mas que com certeza não se esgota nisso.
Sento-me na varanda, de frente para a rua bastante movimentada do início de noite. Observo com algum espanto, no lado oposto ao Bacalhau do Rei, os tapumes de uma obra que varreu alguns estabelecimentos tradicionais da área: barbearia, chaveiro, papelaria e correio. Isso para a construção, ao que tudo indica, de mais um prédio gigantesco em nossa cidade. Ó céus.
Peço uma cerveja ao garçom, que me informa que as marcas disponíveis são Original e Bohemia, mas ao conferir o cardápio, um pouco depois, fico sabendo que eles também têm a ótima e difícil de encontrar Serra Malte. (E que assim se torna mais difícil ainda.) Mas vem uma Original bem gelada, perfeita para acompanhar a excelente porção de jiló grelhado, crocante e com o amargor na medida certa.
Falando em medida certa, penso no meu filho Júlio, que vai mal no colégio, e me ponho a refletir sobre como estimulá-lo a estudar Química, Matemática e Física, que ele tanto odeia (como de resto a maioria dos adolescentes – à qual não fui exceção). Qual a medida certa entre a bronca e o carinho para que a coisa não desande de vez? Bem, deixo momentaneamente esta questão de lado e me ponho a estudar o cardápio para uma nova pedida.
As opções de tira-gosto são variadas: além do jiló, o Bacalhau do Rei oferece abobrinha à doré, gurjão de peixe, escondidinho, risole de camarão, patanisca, espetinho misto, carne seca com aipim e queijo derretido, caldinhos e, naturalmente, o bolinho de bacalhau. Peço um caldinho de frutos do mar e mais uma cerveja, agora a dificultosa Serra Malte. O caldinho vem surpreendentemente leve e muito saboroso e a cerveja compensa a minha insistência.
Em relação aos pratos, é preciso dedicar uma atenção especial ao carro-chefe da casa: há bacalhau assado de Lisboa, grelhado à Alentejano, do Porto ao Rei, à portuguesa, à espanhola, à moda, à Zé do Pipo, ao forno, à Narcisa, à Lagareira, risoto e salada de Bacalhau Imperial, entre outras possibilidades que dão água na boca e enchem uma página inteira do cardápio. (Mas dignos de registro são também o bobó de camarão, lula com arroz de brocólis, estrogonofe de filé e medalhão à piamontesa.)
Enquanto provo, enfim, o maravilhoso bolinho de bacalhau, reparo nas pessoas ao redor. Na mesa de trás, são quatro amigas numa comemoração; na frente há três tipos de solitários: um rapaz moderno, um senhor com pinta de aposentado e outro com ares de artista. Quando ia pedir a conta, eis que surgem na rua meu irmão Marcelo, sua mulher Cliva e meu sobrinho e afilhado Leonardo (como eu, um apaixonado pela leitura). Eles vêm se sentar comigo. Tive então, em nome da família, de recomeçar os trabalhos – o que não foi exatamente um sacrifício. Saúde e até a próxima.
Bacalhau do Rei – Rua Marquês de São Vicente, 11, Gávea (2239-8945)
Fui esta semana a uma casa especializada na culinária portuguesa, mistura de bar e restaurante e que cumpre muito bem os dois papéis: o Bacalhau do Rei, ali no começo da Marquês de São Vicente. Endereço ideal para o amigo leitor comer um transcendente bolinho de bacalhau, mas que com certeza não se esgota nisso.
Sento-me na varanda, de frente para a rua bastante movimentada do início de noite. Observo com algum espanto, no lado oposto ao Bacalhau do Rei, os tapumes de uma obra que varreu alguns estabelecimentos tradicionais da área: barbearia, chaveiro, papelaria e correio. Isso para a construção, ao que tudo indica, de mais um prédio gigantesco em nossa cidade. Ó céus.
Peço uma cerveja ao garçom, que me informa que as marcas disponíveis são Original e Bohemia, mas ao conferir o cardápio, um pouco depois, fico sabendo que eles também têm a ótima e difícil de encontrar Serra Malte. (E que assim se torna mais difícil ainda.) Mas vem uma Original bem gelada, perfeita para acompanhar a excelente porção de jiló grelhado, crocante e com o amargor na medida certa.
Falando em medida certa, penso no meu filho Júlio, que vai mal no colégio, e me ponho a refletir sobre como estimulá-lo a estudar Química, Matemática e Física, que ele tanto odeia (como de resto a maioria dos adolescentes – à qual não fui exceção). Qual a medida certa entre a bronca e o carinho para que a coisa não desande de vez? Bem, deixo momentaneamente esta questão de lado e me ponho a estudar o cardápio para uma nova pedida.
As opções de tira-gosto são variadas: além do jiló, o Bacalhau do Rei oferece abobrinha à doré, gurjão de peixe, escondidinho, risole de camarão, patanisca, espetinho misto, carne seca com aipim e queijo derretido, caldinhos e, naturalmente, o bolinho de bacalhau. Peço um caldinho de frutos do mar e mais uma cerveja, agora a dificultosa Serra Malte. O caldinho vem surpreendentemente leve e muito saboroso e a cerveja compensa a minha insistência.
Em relação aos pratos, é preciso dedicar uma atenção especial ao carro-chefe da casa: há bacalhau assado de Lisboa, grelhado à Alentejano, do Porto ao Rei, à portuguesa, à espanhola, à moda, à Zé do Pipo, ao forno, à Narcisa, à Lagareira, risoto e salada de Bacalhau Imperial, entre outras possibilidades que dão água na boca e enchem uma página inteira do cardápio. (Mas dignos de registro são também o bobó de camarão, lula com arroz de brocólis, estrogonofe de filé e medalhão à piamontesa.)
Enquanto provo, enfim, o maravilhoso bolinho de bacalhau, reparo nas pessoas ao redor. Na mesa de trás, são quatro amigas numa comemoração; na frente há três tipos de solitários: um rapaz moderno, um senhor com pinta de aposentado e outro com ares de artista. Quando ia pedir a conta, eis que surgem na rua meu irmão Marcelo, sua mulher Cliva e meu sobrinho e afilhado Leonardo (como eu, um apaixonado pela leitura). Eles vêm se sentar comigo. Tive então, em nome da família, de recomeçar os trabalhos – o que não foi exatamente um sacrifício. Saúde e até a próxima.
Bacalhau do Rei – Rua Marquês de São Vicente, 11, Gávea (2239-8945)
sábado, 22 de maio de 2010
Concisão maravilhosa
Texto de apenas uma frase, talvez o menor conto do mundo:
"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."
(Augusto Monterroso, escritor guatemalteco, O dinossauro)
"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."
(Augusto Monterroso, escritor guatemalteco, O dinossauro)
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Abençoai-nos, Buda sambista
DE BAR EM BAR - Picote
Eis um bar com um nome muito legal. Ainda que aparentemente nada tenha a ver com a atividade etílica (aos leitores que porventura vierem a me corrigir, por favor, sem agressões...). Mas isso, claro, não tem a menor importância. “Vamos ao Picote?” “Ontem dei uma passadinha rápida no Picote...” Pois bem, funcionando desde 1959 no coração do Flamengo, esse é o bar da semana.
Chego ao botequim naquele horário em que a estação do metrô, quase em frente, está fervilhando no lusco-fusco. Sento-me numa das mesinhas de alumínio na calçada. Peço o primeiro chope e fico feliz de constatar que veio na pressão ideal, sem ter sido necessária qualquer recomendação ao garçom. O que me faz crer que o letreiro “O melhor chope do bairro”, na pior das hipóteses, não é nenhuma heresia.
Com alguma fome, dou uma conferida no cardápio e, mais do que isso, reparo no movimento das bandejas. Escolho o campeão na preferência popular (pelo menos na ocasião): o bolinho de bacalhau. Estava tão gostoso que peço outro. Mas este segundo não vem tão bom, bem de acordo com a teoria dos petiscos que o escritor Dalton Trevisan expôs em seu livro Dinorá:
“– Já reparei, garçom: a segunda empadinha nunca é tão boa quanto a primeira.
– ...
– Hoje você me traga a segunda antes da primeira.”
Outros tira-gostos da casa: camarão empanado, quibe, bolinho de aipim, sardinha, polvo ou lula a vinagrete, pastéis, porções de provolone, filé mignon e lombinho. Tem também os pratos: milanesa com arroz e purê, polvo com arroz e brócolis, risotos de camarão, bacalhau ou frango, filé com arroz à grega e carré com arroz e fritas.
Olhando em volta, há uma mulher que faz palavras cruzadas como se não houvesse amanhã (fala sozinha, se irrita, comemora); perto dela, um senhor no celular se estressa tremendamente (“Eu não acredito em você, nem no seu advogado!” “Você não tem autoridade nem moral pra definir isso!”). Mas, felizmente, nem tudo são espinhos: a verdadeira boa figura do boteco, aquele que vale a pena descrever, estava numa mesa na parte interna.
Peço mais um chope, acompanhado de uma ótima sardinha frita, e o observo atentamente. Ele está de camiseta, bermuda, chinelos e vários colares no pescoço. Em geral, ninguém gosta de ser assemelhado com outra pessoa, é verdade, mas só para você entender, amigo leitor, ele é fisicamente um mix de Moacyr Luz e o compositor Paulo César Pinheiro. Com toda a serenidade de um Buda carioca, beberica seu chope e um drinque destilado.
Todos o cumprimentam. Mesmo os ambulantes param para tomar a benção. E ele apenas sorri. Até que se senta ao seu lado um senhor quase tão personagem quanto: cabelos longos, gravata vermelha, camisa social, calça e sapatos brancos. Pede uma caracu e duas empadas. Os dois ficam um tempão sem nenhum contato, mas o senhorzinho não se aguenta e puxa conversa. O Buda sambista, perfeito cavalheiro, retribui, mas parece aliviado quando volta a ficar sozinho. Sem dúvida, o cara é bacana – assim como esse bar de belo nome. Saúde e até a próxima.
Picote – Rua Marquês de Paraná, 128, Flamengo (2552-1799)
Eis um bar com um nome muito legal. Ainda que aparentemente nada tenha a ver com a atividade etílica (aos leitores que porventura vierem a me corrigir, por favor, sem agressões...). Mas isso, claro, não tem a menor importância. “Vamos ao Picote?” “Ontem dei uma passadinha rápida no Picote...” Pois bem, funcionando desde 1959 no coração do Flamengo, esse é o bar da semana.
Chego ao botequim naquele horário em que a estação do metrô, quase em frente, está fervilhando no lusco-fusco. Sento-me numa das mesinhas de alumínio na calçada. Peço o primeiro chope e fico feliz de constatar que veio na pressão ideal, sem ter sido necessária qualquer recomendação ao garçom. O que me faz crer que o letreiro “O melhor chope do bairro”, na pior das hipóteses, não é nenhuma heresia.
Com alguma fome, dou uma conferida no cardápio e, mais do que isso, reparo no movimento das bandejas. Escolho o campeão na preferência popular (pelo menos na ocasião): o bolinho de bacalhau. Estava tão gostoso que peço outro. Mas este segundo não vem tão bom, bem de acordo com a teoria dos petiscos que o escritor Dalton Trevisan expôs em seu livro Dinorá:
“– Já reparei, garçom: a segunda empadinha nunca é tão boa quanto a primeira.
– ...
– Hoje você me traga a segunda antes da primeira.”
Outros tira-gostos da casa: camarão empanado, quibe, bolinho de aipim, sardinha, polvo ou lula a vinagrete, pastéis, porções de provolone, filé mignon e lombinho. Tem também os pratos: milanesa com arroz e purê, polvo com arroz e brócolis, risotos de camarão, bacalhau ou frango, filé com arroz à grega e carré com arroz e fritas.
Olhando em volta, há uma mulher que faz palavras cruzadas como se não houvesse amanhã (fala sozinha, se irrita, comemora); perto dela, um senhor no celular se estressa tremendamente (“Eu não acredito em você, nem no seu advogado!” “Você não tem autoridade nem moral pra definir isso!”). Mas, felizmente, nem tudo são espinhos: a verdadeira boa figura do boteco, aquele que vale a pena descrever, estava numa mesa na parte interna.
Peço mais um chope, acompanhado de uma ótima sardinha frita, e o observo atentamente. Ele está de camiseta, bermuda, chinelos e vários colares no pescoço. Em geral, ninguém gosta de ser assemelhado com outra pessoa, é verdade, mas só para você entender, amigo leitor, ele é fisicamente um mix de Moacyr Luz e o compositor Paulo César Pinheiro. Com toda a serenidade de um Buda carioca, beberica seu chope e um drinque destilado.
Todos o cumprimentam. Mesmo os ambulantes param para tomar a benção. E ele apenas sorri. Até que se senta ao seu lado um senhor quase tão personagem quanto: cabelos longos, gravata vermelha, camisa social, calça e sapatos brancos. Pede uma caracu e duas empadas. Os dois ficam um tempão sem nenhum contato, mas o senhorzinho não se aguenta e puxa conversa. O Buda sambista, perfeito cavalheiro, retribui, mas parece aliviado quando volta a ficar sozinho. Sem dúvida, o cara é bacana – assim como esse bar de belo nome. Saúde e até a próxima.
Picote – Rua Marquês de Paraná, 128, Flamengo (2552-1799)
sábado, 8 de maio de 2010
A história de cada um
“A arte, disse, é parte da história particular muito mais do que a história da arte propriamente dita. A arte, disse, é a história particular. É a única história particular possível. É a história particular e ao mesmo tempo a matriz da história particular. E o que é a matriz da história particular?, perguntei. Ato contínuo pensei que me responderia: a arte. Também pensei, e esse foi um pensamento afável, que já estávamos bêbados e que era hora de voltar para casa. Mas meu amigo falou: a matriz da história particular é a história secreta.”
(Roberto Bolaño, Dentista, in: Putas assassinas)
(Roberto Bolaño, Dentista, in: Putas assassinas)
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Um Brasil longínquo, logo ali
DE BAR EM BAR - Arataca
Se outro dia percorri um Nordeste que resiste aqui no Rio, na Feira de São Cristóvão, dessa vez fiz uma incursão por um Brasil mais longínquo. Visitei o simpático Arataca, de Copacabana, especializado em comidas típicas do Pará. (Lembro-me do tempo em que havia o restaurante, na Figueiredo Magalhães, e a lojinha, na Domingos Ferreira. Restou apenas esta.) Basicamente é um lugar para compra de produtos e refeições completas, mas o amigo leitor pode tranquilamente tomar sua cerveja e comer uns petiscos, acompanhando o vai-e-vem de uma das ruas mais agradáveis do bairro.
Sobre os produtos à venda, têm-se manteiga de garrafa, farinha amarela, tapioca, camarão seco, doce de buriti, pimenta malagueta. Para comer na hora, casquinhas de caranguejo, sururu e lagosta, tacacá, bolinho de pirarucu, carne de sol aperitivo e porção de acarajé. A casa oferece ainda os pratos: pato no tucupi, costela de tambaqui, carne-de-sol com feijão de corda, fritada de caranguejo sarapatel, maniçoba (farinha amarela com carne de porco), galinha cabidela.
Peço uma casquinha de caranguejo e uma cerveja grande Cerpa, de 600 ml, muito difícil de ser encontrada. Há também as bebidas típicas, como as batidas de cupuaçu, graviola, taperebá e maracujá e os licores de jenipapo e açaí. A cerveja vem geladíssima e a casquinha, uma delícia. Nesse momento estou sozinho nas mesinhas que ficam na calçada. Mas observo o movimento do pé-sujo ao lado, com os moradores da área ainda comentando o justo e sofrido triunfo do meu Botafogo no campeonato carioca. (Apenas sorrio.)
Eis que chegam ao Arataca um casal e duas jovens amigas. Devido à proximidade, fico sabendo que eles vieram do Parque da Catacumba, na Lagoa, onde foi montado um circuito de aventura, com arvorismo, rapel, tirolesa e muro de escalada. Uau. Peço então outra cerveja (mudo para Bohemia) e bolinhos de pirarucu. Rapidamente, fico sabendo também que as amigas são mais que amigas. A mais velha, a mais falante, discorre sobre seus projetos ecológicos: “Para de pensar que aquele é o todo e passa a olhar ao redor...”
Os bolinhos de pirarucu, peixe do rio Amazonas, vêm bons, porém, confesso que já comi melhores em outras vindas aqui. Enquanto os degusto, surgem novos frequentadores. Dois homens e duas mulheres. Uma delas, muito simpática, conta: “Tenho uma amiga que é a pessoa mais simpática que conheço. O ladrão veio dar o bote e ela: ‘Ai, que susto!, achei que você ia me assaltar...’, deixando-o sem graça. Depois bateu um papo com ele, no final, disse tchau, valeu e ainda deu um dinheiro para o ônibus.” Desconfio que a simpática era ela mesma. Como diria o bardo Aldir Blanc, um dos ídolos dessa coluna, simpatia é quase amor.
Fecho meus pedidos com o ponto alto da comilança: a sopa de caranguejo. Forte, bem-servida, uma beleza. Faltou só dizer que na mesa da simpática havia a mulher loura com olhos de fofoca. Praticamente virou sua cadeira para a mesa das namoradas. Que feio. Eu, como voyeur de botequim, asseguro: ser discreto é fundamental. Saúde e até a próxima.
Arataca – Rua Domingos Ferreira, 41 B, Copacabana (2549-2076)
Se outro dia percorri um Nordeste que resiste aqui no Rio, na Feira de São Cristóvão, dessa vez fiz uma incursão por um Brasil mais longínquo. Visitei o simpático Arataca, de Copacabana, especializado em comidas típicas do Pará. (Lembro-me do tempo em que havia o restaurante, na Figueiredo Magalhães, e a lojinha, na Domingos Ferreira. Restou apenas esta.) Basicamente é um lugar para compra de produtos e refeições completas, mas o amigo leitor pode tranquilamente tomar sua cerveja e comer uns petiscos, acompanhando o vai-e-vem de uma das ruas mais agradáveis do bairro.
Sobre os produtos à venda, têm-se manteiga de garrafa, farinha amarela, tapioca, camarão seco, doce de buriti, pimenta malagueta. Para comer na hora, casquinhas de caranguejo, sururu e lagosta, tacacá, bolinho de pirarucu, carne de sol aperitivo e porção de acarajé. A casa oferece ainda os pratos: pato no tucupi, costela de tambaqui, carne-de-sol com feijão de corda, fritada de caranguejo sarapatel, maniçoba (farinha amarela com carne de porco), galinha cabidela.
Peço uma casquinha de caranguejo e uma cerveja grande Cerpa, de 600 ml, muito difícil de ser encontrada. Há também as bebidas típicas, como as batidas de cupuaçu, graviola, taperebá e maracujá e os licores de jenipapo e açaí. A cerveja vem geladíssima e a casquinha, uma delícia. Nesse momento estou sozinho nas mesinhas que ficam na calçada. Mas observo o movimento do pé-sujo ao lado, com os moradores da área ainda comentando o justo e sofrido triunfo do meu Botafogo no campeonato carioca. (Apenas sorrio.)
Eis que chegam ao Arataca um casal e duas jovens amigas. Devido à proximidade, fico sabendo que eles vieram do Parque da Catacumba, na Lagoa, onde foi montado um circuito de aventura, com arvorismo, rapel, tirolesa e muro de escalada. Uau. Peço então outra cerveja (mudo para Bohemia) e bolinhos de pirarucu. Rapidamente, fico sabendo também que as amigas são mais que amigas. A mais velha, a mais falante, discorre sobre seus projetos ecológicos: “Para de pensar que aquele é o todo e passa a olhar ao redor...”
Os bolinhos de pirarucu, peixe do rio Amazonas, vêm bons, porém, confesso que já comi melhores em outras vindas aqui. Enquanto os degusto, surgem novos frequentadores. Dois homens e duas mulheres. Uma delas, muito simpática, conta: “Tenho uma amiga que é a pessoa mais simpática que conheço. O ladrão veio dar o bote e ela: ‘Ai, que susto!, achei que você ia me assaltar...’, deixando-o sem graça. Depois bateu um papo com ele, no final, disse tchau, valeu e ainda deu um dinheiro para o ônibus.” Desconfio que a simpática era ela mesma. Como diria o bardo Aldir Blanc, um dos ídolos dessa coluna, simpatia é quase amor.
Fecho meus pedidos com o ponto alto da comilança: a sopa de caranguejo. Forte, bem-servida, uma beleza. Faltou só dizer que na mesa da simpática havia a mulher loura com olhos de fofoca. Praticamente virou sua cadeira para a mesa das namoradas. Que feio. Eu, como voyeur de botequim, asseguro: ser discreto é fundamental. Saúde e até a próxima.
Arataca – Rua Domingos Ferreira, 41 B, Copacabana (2549-2076)
sexta-feira, 23 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Uma maratona com obstáculos
DE BAR EM BAR - Tropeço
Devo logo esclarecer que dessa vez foi praticamente uma maratona: seis horas de bar. A coluna, porém, quase não acontece. Combinei de ir ao botequim com um amigo que não mora no Rio. Era para termos nos encontrado na quarta-feira. Mas ele esqueceu, amigo leitor. Simplesmente esqueceu... Diante de tal tropeço, só me restou levá-lo, na sexta, ao novo bar do Leblon, cria do Degrau.
Fora o inacreditável esquecimento, Renato Salazar é um grande amigo. Tão amigo que somos compadres de mão dupla: eu sou padrinho de seu filho,Víni, e ele do meu Júlio. Estudamos juntos no Colégio Andrews. Somos de uma geração da tradicional escola de Botafogo que tem os músicos Roberto Frejat, Nilo Romero e Luce, o deputado Otávio Leite, o arquiteto João Uchoa, o ator Felipe Martins, o artista plástico Marcus André e outros menos conhecidos, mas não menos importantes na minha história pessoal.
Chegamos no Tropeço às seis da tarde. Conseguimos logo a melhor mesa, na beira da calçada. Uma frequentadora pagava sua conta e nos cedeu o lugar, não sem antes nos recomendar os pastéis da casa. Nem precisava tamanha delicadeza, pois os conheço bem – sou fã dos famosos pastéis do velho e bom Degrau. Mas, como já disse o compositor Aldir Blanc, o boteco “é o último reduto da gentileza.”
Pedimos o primeiro chope, enquanto meu amigo me fala de seu renovado amor à nossa cidade (submersa ou não). Surfista, biólogo e mestre em políticas públicas, Renato Salazar é daqueles cariocas com crachá e tudo, eternamente queimado de sol, mesmo tendo ido morar em Florianópolis, há 16 anos, em busca de uma vida mais pacata. Pergunto-lhe se ainda faz sentido a ideia de que Floripa seria um Rio de Janeiro da década de 1940. “Não, atualmente a distância diminuiu; seria como o Rio de 25 anos atrás.”
Lá pelo quinto chope, pedimos o Invocado (iscas de peixe com molho picante). Veio excelente a porção, saborosa e farta. Os outros petiscos do cardápio também levam títulos espirituosos, como Sirizinhos nada egoístas, Longe de casa, Vai dar samba e Camarões boêmios. Entre os pratos, pode-se degustar o risoto de tomate seco com camarões, nhoque de ricota, salmão ao molho de vinho, frango com catupiry e batata leonesa.
Lá pelo 10◦ chope, resolvo ir ao banheiro e é quando observo melhor a casa. São dois andares, com iluminação baixa, paredes amarelas com pôsteres de praia e fotos com situações como o “cofrinho” de fora, a saia presa na saída do banheiro e a alface no dente. Com tantas imagens sugestivas, pronto, eis que subindo os degraus para o reservado dou uma tropeçada, mas ainda bem que ninguém viu, ninguém soube.
Lá pelo 50◦ chope, chegam ao bar um amigo de Renato – Alfredo – e sua ex-namorada. Pedimos então os pastéis de camarão com shitake. Ótimos. A conversa toma outros rumos: falamos de astrologia e candidatos a presidente da República. Sinto que é a hora de tirar o time de campo. Quando já estou no táxi, Renato me liga para dizer que sua chave ficou na minha mochila. Ainda faltava o tropeço final. Saúde e até a próxima.
Tropeço – Avenida Ataulfo de Paiva, 517, lj A, Leblon (2239-3121)
Devo logo esclarecer que dessa vez foi praticamente uma maratona: seis horas de bar. A coluna, porém, quase não acontece. Combinei de ir ao botequim com um amigo que não mora no Rio. Era para termos nos encontrado na quarta-feira. Mas ele esqueceu, amigo leitor. Simplesmente esqueceu... Diante de tal tropeço, só me restou levá-lo, na sexta, ao novo bar do Leblon, cria do Degrau.
Fora o inacreditável esquecimento, Renato Salazar é um grande amigo. Tão amigo que somos compadres de mão dupla: eu sou padrinho de seu filho,Víni, e ele do meu Júlio. Estudamos juntos no Colégio Andrews. Somos de uma geração da tradicional escola de Botafogo que tem os músicos Roberto Frejat, Nilo Romero e Luce, o deputado Otávio Leite, o arquiteto João Uchoa, o ator Felipe Martins, o artista plástico Marcus André e outros menos conhecidos, mas não menos importantes na minha história pessoal.
Chegamos no Tropeço às seis da tarde. Conseguimos logo a melhor mesa, na beira da calçada. Uma frequentadora pagava sua conta e nos cedeu o lugar, não sem antes nos recomendar os pastéis da casa. Nem precisava tamanha delicadeza, pois os conheço bem – sou fã dos famosos pastéis do velho e bom Degrau. Mas, como já disse o compositor Aldir Blanc, o boteco “é o último reduto da gentileza.”
Pedimos o primeiro chope, enquanto meu amigo me fala de seu renovado amor à nossa cidade (submersa ou não). Surfista, biólogo e mestre em políticas públicas, Renato Salazar é daqueles cariocas com crachá e tudo, eternamente queimado de sol, mesmo tendo ido morar em Florianópolis, há 16 anos, em busca de uma vida mais pacata. Pergunto-lhe se ainda faz sentido a ideia de que Floripa seria um Rio de Janeiro da década de 1940. “Não, atualmente a distância diminuiu; seria como o Rio de 25 anos atrás.”
Lá pelo quinto chope, pedimos o Invocado (iscas de peixe com molho picante). Veio excelente a porção, saborosa e farta. Os outros petiscos do cardápio também levam títulos espirituosos, como Sirizinhos nada egoístas, Longe de casa, Vai dar samba e Camarões boêmios. Entre os pratos, pode-se degustar o risoto de tomate seco com camarões, nhoque de ricota, salmão ao molho de vinho, frango com catupiry e batata leonesa.
Lá pelo 10◦ chope, resolvo ir ao banheiro e é quando observo melhor a casa. São dois andares, com iluminação baixa, paredes amarelas com pôsteres de praia e fotos com situações como o “cofrinho” de fora, a saia presa na saída do banheiro e a alface no dente. Com tantas imagens sugestivas, pronto, eis que subindo os degraus para o reservado dou uma tropeçada, mas ainda bem que ninguém viu, ninguém soube.
Lá pelo 50◦ chope, chegam ao bar um amigo de Renato – Alfredo – e sua ex-namorada. Pedimos então os pastéis de camarão com shitake. Ótimos. A conversa toma outros rumos: falamos de astrologia e candidatos a presidente da República. Sinto que é a hora de tirar o time de campo. Quando já estou no táxi, Renato me liga para dizer que sua chave ficou na minha mochila. Ainda faltava o tropeço final. Saúde e até a próxima.
Tropeço – Avenida Ataulfo de Paiva, 517, lj A, Leblon (2239-3121)
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