terça-feira, 19 de outubro de 2010

A tropa da burguesia fede

A SOMBRA DO FAQUIR – 5


Esse não é um texto barbudo marxista, nem é sobre as surradas e onipresentes eleições presidenciais. Não prego a luta de classes, nem a implosão do Country Club (só talvez a da estátua em frente a um shopping da Barra da Tijuca). Mas assim como cantou Cazuza quando já estava bastante doente, no último disco que gravou (“Burguesia”, 1988), considerado menor por alguns críticos, muitas vezes também acho que: “A burguesia fede / A burguesia quer ficar rica / Enquanto houver burguesia / Não vai haver poesia.” Se esta canção (taxada de juvenil por seus detratores) não está entre as mais exaltadas da obra única (apesar de curta) do poeta, não deixa de ser um bom rock básico, sem firulas, seco, oportuno. Refrescante.

Fui estes dias ver o filme Tropa de elite 2, no cinema Leblon. Como veio precedido de enorme badalação, boa parte em função do sucesso e da polêmica alcançados pelo primeiro, o tumulto já era grande nas proximidades da calçada da esquina da Carlos Góis com Ataulfo de Paiva. Mas, assim como eu, a maioria do público já tinha comprado seus ingressos pela internet. (O bairro do Jobi e do Bracarense, como se sabe, é o bairro de alguns dos cidadãos mais ricos e elegantes e sofisticados e que não gostam de enfrentar fila da cidade.) E as duas salas do Leblon constituem um dos poucos cinemas de rua que ainda temos, remanescente de uma época em que, além dele e do Roxy, tínhamos um bom punhado de cinemas grandes, nostalgicamente majestosos e verdadeiramente insubstituíveis, apesar de considerados arcaicos a partir do império das salas de shopping.

O filme em si é de tirar o fôlego – muito mais do que o primeiro Tropa de elite. Embora muita gente tenha visto este apenas como uma peça de propaganda da violência e da guerra civil carioca, com teses preconceituosas e “de direita”, e possivelmente enxergarão os mesmos atributos negativos nesta continuação, considero que temos dois filmes que vão marcar época pelas suas qualidades artísticas. É impossível assistir a esta continuação da história sem ficar inteiramente magnetizado pelo que rola na tela. O ritmo da narrativa é alucinante. O desempenho de Vagner Moura é excepcional. A direção e o roteiro são de primeiro mundo (para utilizar uma expressão que é cara à burguesia). Em minha opinião, as teses levantadas, ainda que cutuquem a ferida aberta em todos nós que vivemos no Rio de Janeiro, no asfalto ou no morro, e sejam importantíssimas de ser discutidas (em especial a tese que detecta a união da milícia aos políticos), não são o único trunfo do filme. O filme é cinema de gente grande, ponto. Expressivo e muito bem realizado – chegou a merecer palmas dos espectadores ao final da sessão.

Mas o meu assunto é quando acabou o filme e as luzes foram acesas. Quando toda aquela gente elegante e sofisticada se levantou para ir embora, o que se viu no chão acarpetado foi uma imundice que poucas vezes vi na vida. Duvido que um cinema de subúrbio ou de cidade pequena, ou até mesmo um salão de festa infantil, fique em estado pior. Era pipoca esparramada por tudo que é lado, almofadas e sacos e copos plásticos abandonados de qualquer jeito. Repito: não era uma e outra pipoca que normalmente caem do saco no escurinho do cinema. Era um chiqueiro furioso. Como pessoas esclarecidas, que acabaram de ver (e aplaudir) um filme de forte cunho político e social, podem se comportar desse jeito no espaço público?

Talvez o conceito de burguês hoje em dia não seja mais tão apropriado. Na sociedade virtual da crescente mulambalização (termo eternizado pelo fotógrafo e DJ Maurício Valladares), talvez seja melhor se referir ao individualismo cego até dos mais esclarecidos e daqueles que tiveram oportunidades. “Porcos num chiqueiro / São mais dignos que um burguês / Mas também existe o bom burguês / Que vive do seu trabalho honestamente / Mas este quer construir um país / E não abandoná-lo com uma pasta de dólares.” Falou e disse, Cazuza. Tomara.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando o garçom se materializa

DE BAR EM BAR – Rosa de Ouro


Conheci o jornalista Ramon Mello quando fui entrevistado por ele há uns três anos (por ocasião do lançamento de um livro meu). Logo no início daquele papo, nas primeiras indagações, percebi que ele era também artista num sentido amplo. Depois disso, de fato, ele surgiu com livro de poesia (Vinis mofados), a curadoria da obra do ótimo escritor Rodrigo Souza Leão (morto precocemente), diversas entrevistas com nomes (realmente) de peso e uma peça de teatro (adaptada de uma obra de Souza Leão). Hoje ele é o meu convidado neste boteco de belíssimo nome: Rosa de Ouro.

Quando fui combinar com ele onde iríamos, sugeri uns quatro ou cinco bares. Mas ele devolveu: “Conhece o Rosa de Ouro, no início da Voluntários da Pátria? Adoro aquele lugar barulhento, e tem o melhor garçom do Rio, o Miguel.” Topei no ato, pelos adoráveis motivos alegados (o “lugar barulhento” e, claro, o nome improvável do garçom).

Chego primeiro, por volta de 18:30 h, e o pequeno bar inicia o seu movimento camaleônico para o turno da noite – assim como ocorre, por exemplo, com o Bar Rebouças no Jardim Botânico: durante o dia um pé-sujo normal, de noite um bar descolado. A essa hora ainda consigo pegar uma mesinha de calçada na beirada do bar. A vista é panorâmica pro rush dos automóveis e dos passantes e para as duas outras mesas por enquanto ocupadas do lado de fora, com dois amigos numa e noutra um cara e uma menina, ambas as duplas nos seus 20 e poucos anos.

Enquanto tomo uma primeira Antarctica, eis que chega o poeta Ramon (com seus 26 para baixar consideravelmente a média de idade da mesa), chega inquieto, pede um copo, puxa logo uma cigarrilha e o papo não para mais. A fim de acompanhar nossos pensamentos líquidos (título de um poema dele), me apresenta ao garçom Miguel, que ainda não havia se materializado (muito simpático e totalmente diferente do que eu imaginava). Pedimos mais outra cerveja e uma pizza marguerita, uma das especialidades da casa, levinha, na linha do bom, bonito e barato. Outras opções: iscas de fígado, salsichão, feijão amigo, bolinho de bacalhau. E os pratos: milanesa à parmegiana, estrogonofe, fritada de bacalhau e viradinho à paulista.

Ramon Mello, nascido em Araruama e emancipado aos 16 (desde cedo decidiu que sairia da cidade), veio para o Rio estudar teatro na Escola Martins Pena e acabou fazendo também jornalismo. Em oito anos de Rio, morou em seis lugares diferentes e nesse tempo, a partir de suas entrevistas, conheceu boa parte dos faróis da cultura brasileira. Entrevistou, por exemplo, seus ídolos João Gilberto Noll e Fernanda Montenegro. E mais nomes como Sérgio Britto, Ferreira Gullar, Michel Melamed, Heloísa Buarque de Hollanda e o próprio Rodrigo Souza Leão (de quem se tornou próximo a partir de um único encontro e de quem recebia toda semana uma ligação telefônica, sempre no mesmo dia e horário). Depois de sua morte, recebeu a obra do amigo para cuidar.

Algumas cervejas consumidas, o bar está fervilhando com a calçada apinhada de gente. O movimento do tradicional pé-sujo de bairro cresceu muito em função dos estabelecimentos que se avolumaram ali perto: cinemas, livrarias, pé-limpos e boate. O escritor Ramon, depois de nosso encontro, ainda vai a um lançamento de livros de dois amigos. Ainda pedimos com a saideira uma porção de bolinho de bacalhau, que veio apenas razoável. (Mas acho que ninguém aqui se importa muito.) Para finalizar, pergunto ao meu promissor convidado o que ele tem ouvido ultimamente. Moska e o grupo português Três Marias. O inquieto Ramon é um cara antenado, assim como esse bar Rosa de Ouro (cujo nome foi tirado de um histórico show de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus), do bom Miguel. Sim, caro leitor, existe um garçom chamado Miguel. Saúde e até a próxima.

Rosa de Ouro – Rua Voluntários da Pátria 1, lj 11, Botafogo (2527-0565)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A selvageria do ridículo

A SOMBRA DO FAQUIR – 4


Antes de mais nada é claro que ninguém, fora o palhaço profissional e o masoquista de alma, quer fazer papel de bobo nessa vida. Mas todos, sem exceção, todos nós pagamos nosso mico (leão dourado ou miquinho comum) pelo menos em um momento ou outro – se não para todo o planeta ou a cidade, para um grupo, para poucas pessoas, para alguém lá na esquina, ou, quando é mais cruel, apenas para nós mesmos – e justamente quando ninguém vê. O ser humano sabe ser patético como nenhuma outra espécie porque, além de praticar atos ridículos, também tem a capacidade de analisá-los (ou, na maioria das vezes, os de outrem). Mas quem faz o papel ridículo não é necessariamente um idiota contumaz.

Arriscar-se ao ridículo pode eventualmente ser o preço para o sujeito dar um passo à frente. Por exemplo, no amor. O adolescente para beijar uma primeira vez precisa tentar, prestar-se a ganhar o não. E quem ama recebe de contrapeso o cheque em branco do papel ridículo (quem nunca se apaixonou e fez coisas inacreditáveis?). Pois no currículo de toda gente existe um amor que não deu certo. Mas, como sabemos, ridículo é não amar.

Também na arte o ridículo pode estar muito próximo da ousadia. Ou melhor, é o contrário: a ousadia do artista pode estar a um passo do ridículo. Dependendo do talento, da ambição e do conhecimento do que já foi feito, uma obra esteticamente muito arrojada, “uma inovação”, pode ser realmente uma inovação; mas pode (com muito mais frequência) ser uma coisa que já foi inventada lá atrás, no início do século passado ou mesmo da história da humanidade, e o artista genial só não sabe porque foi muito ingênuo (pura intuição) e não estudou.

O ridículo é próprio da condição humana. A esse respeito, Fernando Pessoa tem o célebre “Poema em linha reta” (“Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”), no qual o poeta afirma ironicamente que apenas ele seria fraco, covarde, vil: “Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / (...) / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda.” Para depois (nos) perguntar: “Então só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

Um grande amigo do ridículo é a ansiedade. A ansiedade pode acabar com uma reputação construída ao longo de anos e transformar subitamente alguém (outrora respeitado) em um ser muito ridículo. Eu sou ansioso. O mundo hoje é muito ansioso, com suas mil e uma tecnologias de comunicação para dar suporte à solidão compartilhada e, também, com a quantidade ultramegablaster de radiação informativa a que somos expostos diariamente, numa razão inversamente proporcional ao conhecimento e ao sentido crítico.

Há situações ridículas pelas quais vale a pena passar uma única vez para nunca mais. É o caso do garoto de classe média que foi pego roubando uma caixa de chicletes no supermercado, ou do adulto que fez ilações completamente absurdas a partir de uma má interpretação dos fatos, ou, ainda, do jovem que se viu preso numa boite, depois de uma discussão de que não foi causador, somente por estar acompanhado de um amigo e, não por acaso (mas sem que soubesse), de um baderneiro (da noite anterior), amigo do seu amigo. Desde que se aprenda e saia intacto destas molecagens (principalmente da última), tudo vale a pena. Passar a noite numa cela de pouca periculosidade, mas abarrotada de arruaceiros encostados à parede e literalmente ver sol nascer quadrado, pode ser uma experiência sociologicamente rica e, claro, inesquecível. Foi inesquecível.

O ridículo tem uma importante função, ainda que às avessas, na tentativa de evolução do homem. Nisso o humor é mestre, utilizando-se do ridículo em estado selvagem para dar a ver uma situação ou uma atitude completamente equivocada. Mas há também os que não se emendam nunca. Existe, sim, o ridículo total (encarnado pelo bobo absoluto). É raro mas existe. No mais, todos nós podemos ser bobos (ou ridículos) para alguém. É a vida. Pois o limite entre a criatividade e o ridículo pode ser mais tênue do que parece. Basta passar um pouquinho do ponto. Por isso, diante da selvageria do ridículo cotidiano, aprender com o erro é essencial.

* * *

Tiririca, Ratinho Jr., Garotinho e Maluf na Câmara dos Deputados... não é apenas muito ridículo – é desolador que ainda elejamos novos macacos Tião e os velhos ladrões de sempre.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Da música clássica ao heavy metal

DE BAR EM BAR – Bar do Serafim


Uma coisa estranha aconteceu quando travei conhecimento com os primeiros textos de Arthur Dapieve no agora longínquo JB. Me pareceu de cara que já o conhecia desde sempre: apaixonado por música e literatura, botafoguense, criado em Copa (entre a praia, o Mallet Soares, a primeira comunhão na igreja de São Paulo Apóstolo e a pizza de presunto do Caravelle). De lá para cá sua alma refinada só nos fez a todos – a mim e a toda uma geração de que faço parte, à seguinte, a outra e àquelas que continuam chegando – refletir e, na medida do impossível, aproveitar um pouco desse atormentado mundo cruel. Pois bem, é com ele que eu vou ao Bar do Serafim, em Laranjeiras.

Saio do centro já meio em cima da hora (com a recomendação, de meu filho Júlio, de que lhe desse os parabéns por uma contenda clubística, que envolvia o Zico e a tradição alvinegra, num programa de tevê com o mordaz comentarista Renato Maurício Prado, temido jornalista rubro-negro). Hora do rush, metrô entupido, nenhum táxi livre no Largo do Machado, trânsito infernal, ônibus então, Rua das Laranjeiras parada, mas consigo entrar no Serafim exatamente no mesmo instante que Dapieve, morador do bairro, chega pontualmente. Sentamos numa mesa à direita, próximo do balcão. Ele pede um chope escuro, eu um claro.

O Serafim, onde “não é permitido entrar bêbado, sair sim”, é um bar pequeno, aconchegante. No dizer de um dos quadros na parede, um bar “lusitano à Noel Rosa”. Noutro, vê-se Marcelo D2 afirmar, numa matéria antiga, que lá é seu escritório. Um belo escritório, por sinal, com boas cachaças nas prateleiras e pedaços de bacalhau no teto. Entre as fotos expostas, uma de meu convidado com seu Juca, o ex-dono de fartos bigodes, que morreu ano passado.

Pergunto a Dapieve, como frequentador da casa, o que ele recomenda. Começamos com os ótimos bolinhos de bacalhau para acompanhar o chope. De tamanho médio, sequinhos, saborosos. Algumas outras opções de petiscos no cardápio: pastéis, empadas, torresmo, fritas com cebola, alheira portuguesa, morcela. Entre as bem servidas refeições, capa de filé, rabada com agrião e o cozido do fim de semana. Dapieve me conta que um de seus pratos preferidos é a lula à alentejana (arroz, pedaços de lula, paio e lombinho). Fiquei curioso com essa mistura meio extravagante. Mas vai ficar para outra.

Com a ajuda do chope para molhar a garganta e a mente, enfileiramos vários assuntos: primeiro o futebol, claro, o bom trabalho que a diretoria do Botafogo vem fazendo, Loco Abreu, o difícil equilíbrio entre o casamento e a oferta de mil jogos por semana (ele, por sorte, é casado com uma santa que gosta de futebol, a também jornalista Mànya Millen); bares de Copacabana; uma viagem programada ao Japão; Maria Gadu, bandas novas; o prazer de indicar uma leitura; o dilema de ler ou não enquanto se escreve um romance; Bussunda; os perigos de um piripaque em nossa idade (rondando os 50)...

A propósito, para checar a saúde e o colesterol, pedimos a boa porção de pastéis de camarão com catupiry. Súbito, com várias bolachas de chope espalhadas pela mesa, nos damos conta de que já se passaram mais de duas horas e meia. Quando o encontro é bacana passa rápido. Afinal, Arthur Dapieve transita com bom gosto, elegância e conhecimento de causa da música clássica ao heavy metal (os sons que ele vem escutando ultimamente, aliás). Da política brazuca às obras completas de Freud, passando pela Segunda Guerra Mundial. De A a Z. O que faz dele um dos principais cronistas do nosso tempo. Saúde e até a próxima, Arthur.

Bar do Serafim – Rua Alice, 24 A, Laranjeiras (2225-2843)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A consciência negra fora do lote

DE BAR EM BAR – Angu do Gomes


Depois de tudo, a última coisa que Nei me disse, antes de deixar o Largo de São Francisco da Prainha rumo a Seropédica, foi precisamente isto: – Valeu, Santa, vamos em frente! Quando o censo bater na minha casa, faço um passo de samba e mando brasa: sou, com orgulho, afrodescendente! Valeu, saúde pra você e os seus. Até a próxima meu cumpádi.

Terminou quase assim, nesses dias, este casual encontro com o escritor, ensaísta, compositor, sambista e grande figura Nei Lopes. Conheci-o quando participamos de um debate sobre literatura e canção realizado na flip de 2007. O debate em si rendeu menos que o esperado, o que valeu mesmo (e ficou em minha memória, apesar de tudo) foi a tarde que passamos bebendo uma cerveja de responsa e jogando conversa pra dentro. Eu, ele e sua esposa (Sônia) emendamos um papo durante o almoço que se estendeu até de noitinha, estourando até o último minuto que tínhamos para nos dirigir ao local do debate. Pois sim.

Cheguei ao Angu do Gomes no meio da tarde, no tradicional larguinho no bairro da Saúde, região portuária carioca, que ainda respira um Rio das antigas (e alguma malandragem). Entro no pequeno salão, sento-me na fileira da esquerda, atrás de uma mesa com quatro colegas de trabalho, dois homens e duas mulheres. A casa está no final do movimento de almoço, alguns funcionários uniformizados pegam seus talheres e ocupam as primeiras mesas perto do balcão com pratos bem-servidos.

Cabe aqui um esclarecimento: o Angu do Gomes é muito conhecido pelos carrinhos que circulavam pelas ruas da cidade vendendo o prato popular e típico da paisagem carioca. Hoje se vê menos isso. Mas há esse bar e restaurante, que havia sido inaugurado em 1977, e que está de volta ao local que já foi mercado negreiro e se transformou em centro de boemia, palco das primeiras rodas de samba e de capoeira do Rio.

Aqui, além do tradicional angu à baiana, com miúdos de boi, pode-se degustar o angu com algumas variações: carne moída, frango, calabresa ou vegetariano. E os seguintes petiscos: bolinho de feijoada, linguiça mineira, moela, sardinha frita, acarajé, punheta do vovô Basílio (bacalhau imperial, azeitona, cebola e azeite) e, naturalmente, pastel de angu. Entre os pratos, contrafilé, filé de frango e galetinho com guarnição.

Olhando em volta do simpático salão, imagino um senhor sozinho, escrevinhando alguma coisa, numa mesa de canto, à direita. Fixo o olhar e reparo quem é. Penso em não perturbá-lo já que está em atividade. Imediatamente ele também me olha e dispara: – Ô Santa! Há quanto tempo! Tudo bem? Senta aqui comigo...

Não vou nem dizer que o mundo é tão pequeno, porque é mesmo. Estava pensando justamente no homem. Acabara de ler seu romance Mandingas da mulata velha na cidade nova e vim aqui no Angu do Gomes para refletir sobre um trecho do livro que não sai da minha cabeça: “Todo indivíduo é um elo na cadeia da existência, repassando aos seus descendentes o que recebeu de seus ancestrais. A transmissão correta e direta desse saber precisa de tempo e lugar. O tempo é agora. E o lugar é este.”

E esse é o cara. Nei Lopes. Mal me refiz desse ótimo primeiro romance, onde a verdadeira história do nosso povo, não aquela engessada pela história dos poderosos, é contada com liberdade e sabor, e ele já está lançando o segundo: Oiobomé – a epopéia de uma nação. Por falar em sabor, pedimos uma porção de bolinho de feijoada. Veio um pouco gordurosa, poderia ser melhor, mas o prazer do encontro e o angu à baiana, pedido depois, compensaram o pequeno tropeço. E deram sustança à sequência de cervas Original.

Depois que ele se foi, fiquei até na dúvida.

Não sei mais se esse encontro não aconteceu. Ele é tão real... (os quatro colegas de trabalho ainda estão por aqui, alegres e matreiros como adolescentes matando aula). Nei Lopes transformou-se, num único encontro, em amigo, um novo velho amigo de infância. Isso é raro. A questão é que ele fica lá no seu paraíso, lá em seu Lote, num lugar impreciso ente Saracuruna e Seropédica, criando, compondo e vivendo a vida, com sua Sônia. Saúde e até a próxima.

Angu do Gomes – Largo de São Francisco da Prainha, 17, Saúde (2233-4561)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Naquelas tardes de domingo

Se o velho ainda fosse vivo, hoje seria o dia que não ia segurar a onda. Não tenho a menor dúvida. Ele não conseguiria nem olhar de rabo de olho para o telão da tevê. Muito menos torcer – nem contra nem a favor. Além de encher a cara, de gritar com a minha mãe desde cedo e de se indispor com a vizinhança, só conseguiria se lembrar da primeira bola que me deu, aquela tal jabulani. Da primeira camisa do Flamengo que comprou para mim, quando eu ainda nadava dentro da barriga. Das inúmeras vezes em que me levou ao Maracanã. Dos meus primeiros testes, dos meus primeiros treinos. Da primeira foto no jornal, tão moleque que eu era. Da torcida pedindo para eu entrar no segundo tempo. Da primeira vez que fui escalado de saída. Dos primeiros elogios nas mesas-redondas. Da primeira vez em que fui convocado. Das situações em que ele me defendeu no bar quando joguei mal. De como sofreu quando fiquei um ano parado por conta de uma entrada criminosa do zagueiro inglês. Do orgulho que sentiu quando fui vendido para a Espanha, na época ainda o principal mercado. Do quanto fiquei rico e famoso depois da ganhar a Liga dos Campeões. Do sorriso sardônico que exibia quando se falava das minhas mulheres. Do alívio quando retornei, mesmo já meio esquecido e sem dinheiro por conta do meu quarto divórcio. Aí, não ia ter jeito: iria se lembrar também de toda a reviravolta. De como eu fui chamado de traíra aqui e ali, apesar de muita gente boa também ter entrado nessa. Depois, a sua pressão iria escalar o Everest – ou o Fuji, se quiserem – até o ataque fulminante.
Tudo começou no tempo da Copa de 2010, quando ainda usava fraldas. O time do Dunga teve aquela trajetória emblemática que todos estão cansados de saber, mesmo os mais desinteressados. Os jornalistas menos pessimistas viram alguma semelhança com a seleção de 1994, bem longe, lá atrás no século passado, independente do valor de cada uma. Depois veio a Copa no Brasil, em 2014, quando todo mundo pediu a volta do futebol criativo que sempre nos caracterizou. O velho foi ao estádio Mário Filho na final com seu pai, meu saudoso avô Toninho, que dizia que bom mesmo era o Zico. Nada de Neymar, Paulo Henrique Ganso, Alexandre Pato ou Philippe Coutinho, hoje devidamente aposentados e com seus nomes inscritos no panteão da glória dos craques eternos. Já o meu pai juraria que fora de série mesmo eram Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho. Kaká nem tanto, dizia ele. Para mim isso não significa nada. O futebol atualmente é muito diferente, com seus três árbitros, auxílio de várias câmeras, substituições reversíveis, ponto eletrônico, pedidos de tempo, preparação física de 100 metros rasos. Pois bem: exatamente 20 anos atrás foi quando o esporte começou a se tornar o que é hoje. Um show de profissionalismo e tecnologia voltado para a máxima produtividade, controlado por quem pouco entende de bola, mas que domina as ferramentas midiáticas mais modernas e surpreendentes – afinal de contas já se pode até ler os sonhos, não é mesmo?, até isso eles já inventaram.
Nesse momento falta muito pouco para o céu ou o inferno. O coração está quase saindo do corpo. O Sawamura, o japeta que divide o quarto comigo, já desceu. Antes ele havia permanecido horas no banheiro. Eu apertado e ele lá. Muito preocupado com seu cabelo: tintura, xampu, pentes especiais, secador, creme alisante, gel – como se ao menos fosse entrar em campo e não mofar no banco de reservas como uma possibilidade inexistente. Agora ele está na recepção, junto dos outros, todos rindo amarelo, com a cara amarela, tudo na maior disciplina e conforme a hierarquia. Finalmente eles vão jogar contra o Brasil. Ou melhor, nós vamos enfrentar o Brasil, que no placar geral das copas, continua soberano, ainda que hoje, com a fusão de países em blocos econômicos, formados por nações politicamente interdependentes, a confusão seja enorme. Tudo em nome da nova ordem mundial – a meu ver, em função da cara de pau dos mais poderosos. Se eu tivesse de explicar as regras atuais para um marciano eu diria o seguinte: o Japão, ainda o atual dono do mundo, foi quem criou as regras e não quis se associar a ninguém, óbvio, até porque as opções imediatas, as duas Coreias, eram consideradas por ele desastrosas. A gigantesca e promissora China (atropelando por fora) também conseguiu essa prerrogativa., como a segunda força mundial. E também deram um jeitinho os Estados Unidos, mesmo em franca decadência, e a Alemanha, empatadas no terceiro posto. O resto do planeta não teve esta sorte. Graças à nova etapa da globalização, Chile, Brasil e Venezuela tiveram de se concatenar (sendo que alguns chegaram a se lembrar, esquerdistas saudosos, da época em que os presidentes destes dois últimos países, também quando eu ainda usava fraldas, governavam com grande popularidade e, dizem, com alguma fanfarronice, mas sem um interfluxo obrigatório). Assim como tiveram de se acotovelar amistosamente Argentina, Uruguai e Paraguai. E no velho continente, amigo E.T. de Marte? França, Holanda e Bélgica. Aí a coisa, quero dizer a fusão, foi ficando mais sem sentido em termos geográficos, por conta de uma inconveniente hostilidade entre vizinhos. Daí se formou, por exemplo, o bloco Inglaterra, Noruega e Grécia. Quer mais? Portugal, Áustria e Escócia. Espanha e Rússia também ficaram juntas, e se tornariam uma seleção fortíssima candidata em qualquer campeonato. Na África, caro alienígena, devido à pobreza, foram só dois blocos: África 1 e África 2. E por aí vai. Mas, no mundo do futebol, todos perceberam que isso não iria funcionar, porque as potências no ex-esporte bretão são por merecimento Brasil, Itália e Argentina, e não Japão e China e EUA e Alemanha, apesar da grande tradição desta última. Daí se voltou à disputa como sempre foi, antes mesmo de ter sido implantado o novo modelo. Para não deixarem tudo na mesma, os poderosos, sempre sob o pretexto de reaquecer a economia, e em nome da nova ordem mundial, criaram o regime de cotas das nacionalidades em leilão – do qual sou um dos principais atores. Portanto, no placar direto entre os dois países que jogam logo mais (pensando-se, claro, no mapa-múndi de antigamente): Brasil 7 x 2 Japão. Este é o escore de Copas do Mundo que promete ser revertido pelos japoneses muito em breve, meta para a qual eles contam comigo, a partir da data de hoje: 13 de julho de 2034. Afinal sou um dos atletas estrangeiros considerados classe A pela FIFA que podem atuar por outras seleções, numa autêntica venda de nacionalidade. Tudo, claro, para aumentar o consumo e reaquecer a economia, seriamente abalada depois dos golpes cada vez mais duros que a natureza tem aplicado ao planeta. Fenômenos como o recente terremoto no Ceará e o veranico no Pólo Norte mostram que ela agoniza mas ainda vive – e até nos oferece pequeno troco aos muitos séculos de descaso, ganância e egoísmo da nossa gente.
No finalzinho da partida, Matsumura avança pela direita, tabela com Kobayashi, passa pelo ala esquerdo brasileiro Felipe Galvão Mascarenhas de Moraes e Silva, vai até a linha de fundo, e cruza pelo alto no meio da área; O volante brazuca Vítor Sombra tenta cortar de cabeça e fura espetacularmente; a bola sobra limpa na meia-lua para o argentino Federico Barros (outro atleta cooptado pelo Japão, como eu) que, com uma visão de jogo diferenciada, entre dois adversários, o ala direito Aldo Porto e o meia Luís Mocó, enfia para mim que, de voleio, emendo com violência sem tempo do zagueiro verde e amarelo Marçal Machado chegar junto, nem tampouco do goleiro Ricardo Alberto esboçar qualquer reação, estufando a rede; logo depois me vejo sufocado por Maki, Matsumura, Sato e os demais japetas numa pirâmide amarela – é tudo o que consigo mentalizar, conforme eles me ensinaram, enquanto encaro com certo desprezo (unicamente por fora) meus compatriotas no túnel de acesso ao gramado. Os brasileiros, por sua vez, guardam para mim um risinho totalmente irônico e irritante. Em seguida, os dois times vão ficar perfilados e ouvir as respectivas canções transnacionais, mixadas por famosos DJs a partir dos hinos dos países de antigamente. É isso. Ainda penso no meu velho e em como é bem melhor que ele não esteja por aqui. Saudades dele naquelas tardes de domingo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Fome

"Hora da boia. Ensina-nos a todos, à guisa de refinamento e cultura, que há um melhor uso para a boca do que deixar passar por ela opiniões pessoais."
(W. Faulkner)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Três novas razões para uma vida plena

A SOMBRA DO FAQUIR – 3


Antigamente se dizia que para que uma vida valesse a pena ser vivida o indivíduo deveria, antes de expirar sua passagem pelo planeta, fazer três coisas: 1- plantar uma árvore; 2- ter um filho; 3- escrever um livro. Ações que justificariam uma existência. Com o império do descartável, com a revolução da tecnologia da informação e com a alucinada velocidade subjetiva do tempo, tais requisitos não são mais primordiais. Ficaram defasados.

Hoje não é mais necessário plantar uma árvore. A consciência ecológica e o sentido de perenidade (que não dura mais uma vida inteira mas até o próximo verão) podem ser aplacados com o apoio virtual a campanhas como salvem as baleias e não ao desmatamento da Amazônia, e ainda com pequenos grandes gestos como a utilização de sacolas retornáveis no lugar das sacolas de plástico nas compras do supermercado. Tudo em nome do futuro.

Hoje não é mais necessário ter um filho para se dar continuidade a uma cadeia hereditária. Como a família não possui mais um formato único, padrão, é possível ser o pai (na prática) do filho (de outro casamento) da sua atual mulher. E vice-versa. Com muito mais tempo de convivência e de afeto do que os progenitores reais em boa parte dos casos.

Hoje também não é mais necessário escrever um livro. Num momento em que cada vez mais se questionam mídias como o livro impresso e o CD (este praticamente moribundo), o invisível espaço virtual para troca e aquisição de conhecimento e fruição estética é o caminho ladeira abaixo da humanidade atordoada e dispersa em mil e um estímulos que nos liberam da experiência tátil e do contato físico.

Portanto, diria que, atualizando o ditado popular, três possíveis razões contemporâneas para validar uma existência neste início de século 21 seriam: 1- participar de um reality show (como se sabe, hoje esse tipo de programa está presente em praticamente todos os canais de televisão e sobre os mais variados assuntos: anônimos que querem virar celebridades, bandas de rock, chefs de cozinha, casais gordinhos, quase famosos, cães problemáticos e por aí vai); 2- casar no mínimo três vezes (o que gera uma infinidade de subfamílias que se interpenetram e garantem amor e ódio para sempre); 3- escrever um blog (qualquer um pode ser escritor ou jornalista e garantir seu lugar na posteridade virtual).

* * *

Segundo tais requisitos, a minha vida estaria ainda a 2/3 do ponto de poder ser considerada plena – atinjo tão-somente o último item e mesmo assim a custa de muita resistência e indecisão quanto à minha real aptidão para essa modalidade de diário pessoal e público.

Num exercício de imaginar o que significa para mim uma vida bem vivida diria que é preciso: 1- antes de mais nada, fazer o que se gosta; 2- ter ao menos um grande amor, um grande amigo ou um grande parente; 3- ter sempre dinheiro para comprar livros, discos e, digamos, algum cachorro engarrafado.

* * *

Esta eu ouvi numa das últimas edições do extraordinário programa Coisas pelas quais vale a pena viver, da atriz Priscilla Rozembaum e do ator, dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, que passa no Canal Brasil. A respeito do último dia da temporada da peça Moby Dick no Teatro Poeira, no Rio, mestre Domingos mandou: “Sabe qual é a forma mais interessante de sabedoria? A loucura controlada.” É isso aí.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Descerebrai-vos

“Uma vez admitido que a vida possa guiar-se pela razão, aniquila-se a possibilidade da vida.”
(Leon Tolstoi)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Olhos (e boca) de Facebook, ouvidos da Igreja Universal

A SOMBRA DO FAQUIR - 2

A propaganda geralmente consolida e traduz tendências existentes na sociedade. Não costuma criar novas bossas, mas, ao contrário, capta o que está rolando – às vezes, dependendo da sensibilidade do publicitário, até mesmo apresenta como novidade o que já é pretérito.

Dois comerciais recentes me chamaram muito a atenção. No primeiro, uma família se prepara para sair de férias. Cheia de bugigangas, entra no carro, finge que vai zarpar e volta para a garagem. Na cena seguinte, vemos a família toda em frente à tevê, curtindo a mil. Férias ideais: na segurança e no conforto do lar, controle remoto na mão e dezenas de canais do mundo inteiro. O fim da picada.

No outro, um comercial de telefonia, o pai e o filho adolescente conversam, este, como aborrescente típico, desqualifica o esforçado provedor, que exulta ao conseguir checar seus e-mails pelo celular, transformando-o, um homem de seus 40 e poucos anos, numa peça de museu ao lhe informar que e-mail já era, o negócio agora são as redes sociais. (No final o pai dá o troco, quando o filho mostra a foto da namorada no celular: “namorar... que coisa mais careta!” – mas isso não importa).

Conjugados, os dois comerciais parecem nos dizer: experiência real de vida é hoje algo pouco importante; fique numa boa que é possível conhecer o mundo inteiro e falar com todas as pessoas possíveis sem sair do seu canto. Na mais completa solidão compartilhada.

* * *

Depois de relutar bastante, de ignorar solenemente Orkut, MSN e Twitter, entrei há pouco para o Facebook. Alguns amigos e minha mulher me convenceram de que este seria outra coisa, mais adaptável ao meu temperamento esquizóide, afeito à reclusão, à leitura e ao silêncio (cada vez mais) e simultânea e paradoxalmente (para alguns) ainda fascinado pelas ondas mundanas que quebram na praia da inquietude. Lá no FB, segundo eles, poderia postar meus textos, discutir idéias com pessoas afins e ser feliz.

Pois bem. Em um mês e meio de Facebook, constato o óbvio: as possibilidades de se atingir o maior número de pessoas são claramente maiores do que através do e-mail (o aborrescente do comercial de alguma forma estava certo). Mas por outro lado observo que é uma tendência muito grande usar o Facebook principalmente para uma comunicação mais direta, rasteira e cotidiana. Por exemplo: fulano diz: “Amarelo!” ou “Que frio!” – e imediatamente pipocam comentários a respeito do que talvez só interessasse aos envolvidos. A questão é que pelo lado positivo se pode comunicar com muito mais gente ao mesmo tempo do que o tempo de cada um permite se a comunicação fosse feita individualmente. É muito fácil, por isso, saber quem está de ressaca ou acordou apaixonado. A exposição espontânea é espantosa.

Percebo ainda que a sociabilidade virtual é bem relativa. Tirando as exceções fortuitas dos famosos ou muito populares, só tem olhos (e boca) para você praticamente quem já é conhecido. Agora, o maior teste é para a ansiedade e a insegurança de checar a todo momento se alguém curtiu ou fez algum comentário a algo postado. Isso é terrível. Sem falar nos que nos humilham com milhares de amigos. Eu, por enquanto, estou nos meros 150. Mas vou continuar insistindo, lentamente. Alguém aí está me vendo?

* * *

Um amigo me conta revoltado que se instalou na loja embaixo de seu prédio uma Igreja Universal. Ele mora no segundo andar. Ao ouvir a barulheira dos infernos, vindo dos cânticos e dos Glória a Deus de praxe, foi reclamar com o porteiro. Ao que este comentou: “Pior é que eles pensam que Deus é surdo.”

Um poeta, o porteiro.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Um pé-sujo diferente

DE BAR EM BAR - REBOUÇAS

– Bota uma aí pra queimar a garganta.

O atendente serve uma dose generosa de 51.

– Posso cair dentro?

O trabalhador humilde vira tudo e faz aquela careta. Normal. Esta é uma cena que poderia ter acontecido em qualquer pé-sujo da cidade. Mas foi aqui no Rebouças, um pequeno grande boteco. Enquanto espero meu convidado chegar, sento-me num dos poucos bancos do balcão, peço uma Antarctica e observo o ambiente.

O bar é de dia uma pequena porta na Rua Maria Angélica. À noite ele cresce com mesinhas pela calçada. Nas prateleiras acima do balcão, noto garrafas de vinho que fogem ao padrão pé-sujo. Como também em relação às cachaças, aqui tem marcas como Lua Cheia, Germana, Magnífica, Salinas, Bento Velho, Chico Mineiro e Rainha do Vale. Não é pouca coisa. Um dos fregueses beberica uma dose de Red Label, ao lado do trabalhador que virou a 51.

– A música tá muito careta! Cadê os porras-loucas de hoje?

Quem fala é um senhor jovem, mais jovem do que muita gente que tem 18 anos. Discorre também sobre eleições, elogiando o candidato socialista Plínio de Arruda Sampaio, sobre vendedores de picolé no Pacaembu e seu método original de venda e ainda sobre a idade avançada das aeromoças atualmente. Interessante figura. Descubro depois que se trata do pianista Guilherme Vergueiro (não sabia como ele era). Mas eis que chega ao Rebouças meu convidado Toni Platão, que, antes de me dar um abraço, para pra falar com todo mundo. Aqui ele está em casa.

Toni Platão é, sem nenhum favor, um dos maiores cantores do Brasil. Num país que prima por excelentes cantoras, onde nasce uma diva a cada semana, Toni é quase um artigo de luxo. Deveria estar sendo disputado a tapa pelas gravadoras em crise. Mas a maioria delas sofre de miopia aguda. Toni Platão, gaiato, sempre que me encontra se refere à minha canção (em parceria com Frejat e Maurício Barros) Por você como “aquela canalhice”. Em seguida emenda: “Mas a Deborah adora”. Deborah é sua mulher, a coreógrafa Deborah Colker. Ainda bem que a Deborah adora.

Sentamo-nos numa mesinha na calçada. Para acompanhar a cerveja e o bom papo, peço uma empadinha de camarão. Veio ótima. Peço mais uma. Outras opções da casa: bolinhos de bacalhau, de camarão com catupiry, pastéis de carne, queijo, camarão e carne seca, sanduíche de carne assada, cachorro quente, presunto Parma. Todos os petiscos expostos parecem gozar de boa saúde.

Como não poderia deixar de ser, o assunto gira em torno de futebol, especificamente sobre como equilibrar o casamento e os 1500 jogos que passam na tevê, música digital (“tá faltando o discurso”) e filhos eternos. Pelo celular, Platão monitora o estudo do seu Antonio Bento, de 10 anos, que tem teste de matemática no dia seguinte. E ainda cumprimenta a nova leva de frequentadores, agora o turno da noite. Ele conhece desde o negão que coordena o ponto de táxi em frente, o Lafond (“aqui todos têm apelido”), até a florida mesa ao lado, recheada de gatas extraordinárias, como diria Caetano. Vai começar o jogo da nova seleção brasileira. Vamos para o interior do bar. Tudo certo no Rebouças – e no campo, com Ganso, Neymar e Pato. Saúde e até a próxima.

Bar Rebouças – Rua Maria Angélica 197, Jardim Botânico (2286-3212)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Santa utopia

“Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza, temos o direito a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza.”

(Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Bigodes, chapéus e um Robin Hood pós-moderno

A SOMBRA DO FAQUIR - A QUEM INTERESSA?


Inauguro hoje nesse espaço uma crônica freestyle, A Sombra do Faquir. Como a De Bar em Bar da vez ficou adiada para a outra semana por conta da agenda do convidado (e da chuva), respirei fundo, deixei a preguiça sofrendo na janela e pronto. Escreverei sobre o que chamar a atenção, sem mote prévio, como é da natureza da crônica, esse gênero brasileiríssimo. Ela aparecerá ao lado dos pequenos textos, citações, poemas e da própria De Bar em Bar.

Abs & bjs
M

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BIGODES E CHAPÉUS

Sempre achei bigode um lance esquisito. Alguém botar um tufo de cabelo embaixo do nariz – e barbear o resto da cara. É o tipo de acessório que combina bem em poucos casos. Há bigodes clássicos que falam por si: Hitler, Sarney, Carlitos, Rivelino (na luta entre o bem e o mal deu empate). Kurt Vonnegut. A partir da minha recente obsessão por este escritor, de quem já li uns dez livros seguidos, enfileirados, começando justo pela obra-prima Matadouro 5, e tenho, graças a Deus, ainda mais uns oito na estante (quase tudo comprado em sebos), resolvi tentar mais uma vez um improvável bigodon. Isso mesmo, em homenagem a Kurt Vonnegut, o genial escritor bigode que até pouco tempo eu achava que era apenas um autor de ficção científica. Não é. É um escritor que me bateu fundo e dos grandes do século 20.

Bem, o bigode não deu lá muito certo. Meu cabelo já ficou grisalho e ralo no topo (é, amigo; velhice é ladeira abaixo). E o bigode é meio louro, meio branco. Tentei insistir, olhando-me no espelho o tempo todo para vigiar o crescimento dos pelos e tal e coisa. De início achei que estava legal, junto com uma barbicha de leve, que já tinha usado antes. Mas aí comecei a perceber na rua, na foto do jornal, no show moderninho no Oi Futuro, na propaganda de cerveja, que bigode, antes uma coisa meio cafona, agora é up-to-date. Sinal de modernidade. Comecei então a reparar no formato falho do meu bigode crescendo. E depois ainda que a minha mulher fez uma referência sem nenhum entusiasmo a respeito de minha dita homenagem (que ela não sabia ser uma homenagem), rapei fora. Que coisa mais ridícula, bigode.

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Ocorre comigo algo parecido em relação ao chapéu (cujo uso é também uma boa estratégia para deletar virtualmente a carequice, estratégia digna até, se comparada a perucas e implantes que parecem capim). Comprei um em Buenos Aires há quase um ano e nunca o usei apesar de ser muito bonito. Boné de vez em quando rola. Chapéu coco também já usei. Mas chapéu, chapéu, ainda mais depois que virou moda entre todas as bandas modernas e celebridades, fica difícil. E, assim como o bigode, também não cai bem em qualquer um. Sabem disso e usufruem da benesse meus amigos músicos Rodrigo Santos e Humberto Barros (este então tem toda uma persona cujo chapéu é parte indispensável. Fico até curioso para saber como ele é sem – sem nenhuma segunda intenção, por favor). Mas essa febre de chapéu já passou um pouco e ainda vou insistir. Dessa vez, em homenagem a ninguém. Ou melhor, em homenagem a Tom Jobim. Isso. Nada como uma motivação.

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UM ROBIN HOOD PÓS-MODERNO

Ouvido numa esquina do Bairro Peixoto, de um menino de seus 12 anos, num grupo de moleques de rua: “Só vamos roubar se for de quem tem dinheiro. Roubar de quem é pobre não tá com nada.” A vida anda tão dura que quase bati palmas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O homem quase

Quando foi libertado por bom comportamento, em 2037, temeu pela reação violenta das pessoas e por sua vida fora das grades. Mas o mundo já não sabia mais quem ele era.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Criativo, delirante... e sóbrio

DE BAR EM BAR - CERVANTES

Já estava mais do que na hora. Fui nesta semana àquele boteco que é diretamente associado ao mais célebre bardo de Copacabana, figura mitológica da boemia carioca Rio 40 graus. O bar, claro, é o Cervantes. E o personagem, mais claro ainda, é o compositor e escritor Fausto Fawcett. Porém agora com um detalhe importantíssimo: Fausto parou de beber. Fui lá me encontrar com ele.

Quando chego, por volta de 16h, Fausto já estava lá, encostado no balcão, traçando um sanduíche com guaraná, e conversando com dois amigos sobre uma de suas maiores paixões: o Fluminense, que anda muito bem na foto, um dos líderes do Brasileirão, mas que pode perder seu técnico, Muricy Ramalho, para a seleção brasileira. Não se pode ter tudo. (Eu, como botafoguense que sou, sei bem disso... Reestreia, Maicosuel! Volta logo, Loco!)

Depois de meia hora, os amigos se vão e eu e Fausto vamos para o salão interno. Há nesse momento, apenas mais duas mesas ocupadas, uma com pai e filho almoçando tardiamente, outra com duas moças tirando fotos publicitárias de um sanduíche, realmente cinematográfico, da casa. Peço meu segundo chope e Fausto, outro guaraná.

Fausto Fawcett está mais magro e muito bem disposto. Entro logo de sola no assunto que não quer calar: como é nunca mais acordar de ressaca? Com o bom humor que o caracteriza, ele conta que na verdade não havia propriamente ressaca, pois, durante uns 25 anos, sua vida no Triângulo das Calcinhas, ou na “Bukowskaia”, foi um eterno estado de embriaguez, que, parece, passou voando. E acrescenta que parou porque teve que parar: o médico disse que era isso ou o transplante de fígado ou... Mas ainda bem que ele preferiu ficar mais um bom tempo por aqui, nos brindando com sua verve e seu texto inspirado. Porque muito mais do que o poeta das louras, Fausto Fawcett é um inventor de linguagem.

Enquanto passam garçons e o reverenciam, o papo corre solto. Falamos um pouco de tudo: Dunga, seleção espanhola, surfe de peito nas ondas de Copacabana na década de 1980, beber para suportar (“a vida é isso?”), indiferença, capatazes de humanista e música digital, entre outras coisas. Enfileiro um chope atrás do outro e pergunto se isso não o incomoda. Ele, com toda a calma, diz que está tranquilo. Peço o tradicional sanduíche de filé com queijo e abacaxi para acompanhar.

Como se sabe, o Cervantes é o paraíso dos sanduíches. Aqui tem de mortadela, salsichão, patê com abacaxi, linguiça calabresa, rosbife, fiambre de peru, filé de frango e muitos outros. Mas há também pratos como churrasco à campanha, brochete de camarão, frango ao alho e óleo, língua com salada de batata, miolos à milanesa e sopas de aspargos e de tomate.

O tempo passa voando e Fausto precisa ir embora. Poderíamos continuar conversando fácil. Antes de sair, conta que em setembro publicará seu quarto livro, Favelost, e em seguida o primeiro infanto-juvenil, Lourinha levada. Fico para tomar a saideira. E me sinto feliz pelo amigo, que está leve, inteligente e mordaz como sempre e pronto para escrever novos textos que o desafiem além e aquém do território babélico de Copa. Ele pode. Saúde e até a próxima.

Cervantes – Rua Barata Ribeiro, 7-B, Copacabana (2275-6147)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

O próximo passo

“Um passo para trás depois de se ter tomado o caminho errado é um passo na direção certa.”
(Kurt Vonnegut)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Com estacionamento de gaiolas e pudim

De Bar em Bar - Varnhagem

Outro dia uma leitora do JB me pediu que fosse mais à Tijuca e me enviou uma lista, muito boa por sinal, de botequins do bairro. Antes que ela pensasse que tenho algo contra a área, me apressei em esclarecer que já fiz a coluna em dois dos muito bons bares da região: Salete e Otto. E, acima de tudo, tenho pessoalmente uma relação de carinho com a Tijuca. (Conforme a teoria de um amigo meu, todo carioca que se preza tem ou teve uma namorada tijucana. Faço jus, portanto, ao meu crachá.)

Fui então dessa vez a um conhecido bar na Praça Varnhagem, o famoso bar da dona Natalina, com o mesmo nome do lugar público. O Varnhagem é daqueles botecos para a gente se sentir em casa. A matriarca da família Rosário, que bate ponto no local diariamente há mais de 50 anos, é quem supervisiona a cozinha e atende os fregueses com zelo e bom humor. Fico a imaginar se isso lhe fosse retirado – a vida perderia todo o sentido. Mas essa hipótese não existe, ainda bem.

Para abrir peço uma cerveja Original a fim de fazer par com o famoso bolinho de bacalhau da casa. Realmente, a fama não é em vão. Mesmo sendo um pouco cedo para a atividade boêmia, por volta de meio-dia, o petisco e a cerveja gelada caíram muito bem. Outros tira-gostos que também valem a pedida: croquete de carne e vaca atolada. À minha volta, alguns trabalhadores almoçam e veem televisão. Apesar de ser um pouco pequeno, o boteco de azulejos brancos e rosa e de alma lusitana tem espaço para todos.

Cheguei ao ponto onde queria. Aqui têm vez até os passarinhos, amigo leitor. Fico sabendo que nos fins de semana frequentadores trazem suas gaiolas, penduram-nas numa barra de ferro e tomam sua cervejinha tranquilamente. Não é à toa que o Varnhagem é conhecido também como o bar dos passarinhos. É ou não é sensacional um estacionamento de gaiolas? (Mesmo para quem, como eu, prefere passarinho solto.) Quem imagina que o Rio de hoje é só violência e terra de ninguém ainda não esteve por estas bandas. É uma cidade que não existe mais se recusando a ir embora de vez.

De tanto olhar as pessoas ao redor almoçando com gosto, a fome aperta. Resolvo embarcar nessa e peço o filé mignon suíno com salada de batata, arroz, feijão e farofa. Enquanto isso, observo um rapaz com ares de artista antenado, com seus piercings e boné modernos, a conversar com dois senhores de terno e gravata. Penso logo que é o tradicional caso em que o artista vai ao mecenas com o pires na mão e o coração na boca.

Porém me surpreendo inteiramente quando ouço o rapaz expor suas ideias sobre marketing e negócios com muita propriedade e total atenção dos engravatados. O que comprova o óbvio: imagem nem sempre corresponde ao que de fato é. Tal raciocínio serve perfeitamente ao Varnhagem, que a princípio até pode parecer um pé-sujo comum. Depois de degustar o prato delicioso, ainda me permiti uma coisa raríssima para mim em boteco: comer um doce. E o pudim de leite veio tão bom que me fez levitar feliz até o metrô no caminho de volta. Saúde e até a próxima.

Café e Bar Varnhagem – Praça Varnhagem, 14-A, Tijuca (2254-3062)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Porque ninguém é de ferro...

“Uma sesta clarifica maravilhosamente a cabeça para além de conceber uma renovada energia. Imagino que cerca de metade das pessoas do mundo não conseguem fazer uma sesta sem se sentirem depois um pouco obtusos, mas para aqueles que conseguem, uma sesta é uma poupança e não uma perda de tempo.”
(Patricia Highsmith)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Viva a besteira

DE BAR EM BAR - Astor

Nesta semana fui a um botequim novidade. Além de ser um dos poucos que temos à beira-mar (sem contar os muitos restaurantes de Copacabana), é também um boteco de paulista, sem nenhum preconceito à cidade da garoa e do trabalho eficiente. Fui ao Astor, ali onde era o Barril 1.800, no início de Ipanema, com S. e os queridos amigos Mel e Maurício Barros. Uma saída com este casal é sinônimo de comer e beber bem e jogar ótima conversa fora – além de quase sempre fecharmos o bar.

Chegamos por volta de 19h de sábado. A varanda, que costuma ser a preferência, estava cheia. No amplo e elegante salão interno havia algumas poucas possibilidades de mesa, mas também já estava bem ocupado. O pouso ficou em frente ao extenso balcão, no extremo das mesas, e o mais perto das poltronas, no ambiente anexo para espera, e de parte da cozinha aberta ao público.

No início é preciso quase implorar aos garçons que notem nossa existência (talvez por não acharem que iríamos consumir; ou seja, cara de pobre). Mesmo depois do contato com o maître, ainda mantiveram por um tempo a pose blasé. Mas depois, capitaneados pelo garçom Ronaldo, justiça seja feita, tudo melhorou. Afinal, São Paulo não pode parar... e o bar também não.

Abrimos os trabalhos com ostras, os afrancesados mexilhões com batatas fritas (moules et frites) e chope cremoso da Brahma. As ostras vieram excelentes, frescas e saborosas. O chope muito bom, com a pressão na medida. Os mexilhões em molho de cerveja, numa porção não muito generosa, estavam corretos, mas não chegaram a empolgar. Pedimos então bolinhos Pirajá, que vêm a ser bolinhos com recheio de abóbora e carne-seca. Vieram ok para menos.

Outras opções do cardápio: pastéis, empadas, caldinho de feijão, omeletes, mexidinhos de rabada, polenta e agrião, de frutos do mar e de linguiça com gorgonzola. Entre os pratos, pode-se escolher entre filé com queijo Palmira, camarão com chuchu, picadinho Astor, linguado à Meuniére e frango Balthazar.

Observando ao redor, percebo um clima de azaração light. É um lugar para ver e ser visto. Logo identifico uma mesa com três amigas à La Sex in the city ali, outra mesa com dois senhores com ares de burgueses divorciados perto, passam para lá e para cá algumas modeletes anônimas, um ator de novela das oito, outro de Zorra Total, e uma turma bem mais jovem, que surge para se aglomerar na área das poltronas. A casa aumenta o som ambiente. U-hu!...

Depois dos primeiros chopes, passamos para o vinho (menos a Mel, que continuou com sua caipirinha de lichia com vodca Absolut). Começamos com um Alamos (Malbec), mudamos para um Tília (Shiraz/ Malbec) e repetimos a dose deste, ambos argentinos. Para continuar nos belisquetes, pedimos almôndegas picantes, muito boas, e em seguida besteiras à milanesa, nada mais nada menos do que pedaços de bife à milanesa com queijo emental presos no palito.

O que poderia ser só um item coadjuvante no pé-limpo bom, bonito e caro acabou sendo o destaque gastronômico da noite. Inclusive com grande aceitação nas outras mesas (o que prova que simplicidade tem o seu valor também nos lugares mais requintados). No boteco paulista com vista para o mar, a besteira foi o astro. Ah, sim: fechamos o bar mais uma vez. Saúde e até a próxima.

Astor – Rua Vieira Souto, 110, Ipanema (2523-0085)

A origem da comédia

“Se examinarmos atenta e longamente uma história engraçada, ela se torna cada vez mais triste.”
(Gogol)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

O cabrito fica pra próxima

DE BAR EM BAR – Nordestino Carioca

Em algumas das colunas recentes, explorei a comida de boteco que vem da parte do país Bahia acima, indo ao quase turístico Estação Baião de Dois, na Feira de São Cristóvão, e também a de um Brasil mais longínquo, no Arataca de Copacabana com sua culinária do Pará. Dessa vez, fechando uma pequena trilogia, me embrenhei por um Nordeste profundo e fui ao Nordestino carioca, em Jacarepaguá (Anil).

Logo de cara sou arrebatado ao chegar ao bar, pois se destaca na parede central um enorme escudo do meu querido Botafogo. Isso por si só já seria o suficiente para ter toda boa vontade com a casa. Mas o amigo leitor sabe perfeitamente que esta condição não vale para encher de loas nenhum estabelecimento. Porque, se a paixão pode até nublar o raciocínio, na hora decisiva os prazeres da mesa não fazem distinção entre geografia, política, religião, times de futebol ou o que quer que seja. Dito isto, vamos ao que interessa.

“Nem no Piauí se come um cabrito como o daqui!”, é como sou recebido pelo dono, o paraibano Roberto Salles, que por sinal trabalhou muitos anos na Feira de São Cristóvão. É um autêntico personagem. Paramentado com chapéu de couro, o senhor de óculos de alto grau e bigodinho, é animado à beça. Contador de histórias, repentista, ele ainda faz a propaganda do irmão cantor, Chico Salles, e mostra todo orgulhoso o CD do (outro) artista da família.

São aproximadamente 11 horas da noite de quinta-feira e o bar está bem cheio. O que nada impede que a casa, decorada com garrafas de cachaça, objetos típicos e quadros com motivos regionais, seja muito agradável. Instalo-me na varanda e observo, além do movimento interno, a esquina bucólica e a lua cheia a nos proteger, a todos os boêmios, até onde a violência nossa de cada dia permite.

Peço uma cerveja Original e um bolinho de carne seca empanado. Enquanto degusto a ótima iguaria, atento para outras boas opções do cardápio, como por exemplo: baião de dois, cabrito ensopado, galinha de cabidela, lasanha nordestina, sarapatel e codorna na brasa com farofa de milho e molho à campanha. Para abrir ainda mais a fome – e continuar no clima poético –, solicito uma cachacinha, claro, da marca Lua Cheia.

Aproveito então para experimentar o petisco concorrente à terceira edição do Festival Comida di Buteco, que se encerra no próximo domingo. É o “caldo da caridade”, que vem a ser um encorpado caldo feito com carne moída, ovos cozidos, farinha de mesa e temperos nordestinos. Caprichado e até segura a onda etílica. (Preferi deixar o cabrito para outra oportunidade.)

Para finalizar, um rápido pitaco sobre a ralentada polêmica dos tira-gostos elaborados para o concurso pelos 31 bares cariocas em disputa. Há os que defendem que isto seria uma traição aos “atrativos genuínos” dos botequins. Em minha opinião, muito pelo contrário – quando as (boas) criações acrescentam e se incorporam à cultura de boteco. Em última análise, no confronto entre inovação e tradição, quem decide é o freguês. Saúde e até a próxima.

Nordestino Carioca – Av. Sargento Carlos Argemiro Camargo, 49, Jacarepaguá (3412-3353)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Planeta inexperiência

“Sai-se da infância sem saber o que é a juventude, casa-se sem saber o que é ser casado, e mesmo, quando entramos na velhice, não sabemos para onde vamos: os velhos são crianças inocentes de sua velhice. Neste sentido, a terra do homem é o planeta da inexperiência.”

(Milan Kundera)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Futebol e louras (geladas ou não)

DE BAR EM BAR - Gracioso


Começa, enfim, amigo leitor, a Copa do Mundo. E, como todos sabem, futebol e botequim têm uma relação de profunda intimidade. Mesmo sem Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Neymar, para sorte de argentinos e que tais, hei de torcer, torcer, torcer pela nossa seleção. Além disso, continua a todo vapor a 3. edição do Festival Comida di Buteco. É, portanto, um período bastante propício para frequentar os bares cariocas.

Aproveitei a oportunidade e fui esta semana visitar um dos concorrentes do Festival: O Gracioso, numa esquina bastante tranquila da rua Sacadura Cabral, ali na Saúde há mais de 50 anos. É daqueles bares tradicionais, com alma e azulejos brancos na parede. Cheguei por volta das oito da noite e o movimento na casa era bom.

Sem maiores delongas, fui direto ao assunto. Pedi uma cerveja Bohemia e o petisco que participa do referido concurso: o “Jabazinho”, bolinho de massa de abóbora recheado com carne seca e empanado com flocos de arroz, acompanhado de molho de mostarda preta, mostarda amarela e pasta de gorgonzola. Se deu água na boca só de ler a descrição, o que posso dizer a você, é que este jabá, saboroso e crocante, eu aprovei. (Palavra de letrista...)

Outros tira-gostos do cardápio (cuja primeira página elegantemente ostenta um poema sobre a amizade): croquete, risoles de frango e camarão, bolinho de bacalhau, salaminho, queijo coalho e linguiça calabresa. Quanto às refeições, pode-se degustar pratos que o povo gosta, como a feijoada, carne assada com arroz e brócolis, viradinho à paulista, bisteca à campanha, iscas de fígado aceboladas, fritada de camarão e posta de peixe à brasileira. Não é à toa que o lugar é bastante procurado para o almoço.

Peço outra cerveja e uma porção de linguiça calabresa. Tudo certo, mais uma bola dentro. Dou uma olhada nas pessoas em volta e chama a minha atenção uma dupla de amigas. Só consigo ver de frente a loura baixinha e de boina verde, pois sua amiga morena dos cabelos encaracolados está de costas para mim. É a loura que fala:

– Amiga, eu passei por uma situação na semana passada!

– Me conta...

– Fui convocada para depor num processo trabalhista como testemunha da empresa.

– Qual o problema?

– É que foi contra uma colega demitida.

– Que chato.

– Chato não, horrível!

– Como você fez?

– Olha, passei a noite sem dormir!

A essa altura, só tinha ouvidos para a loura baixinha. Cheguei a me angustiar com o seu problema. Mas, como um autêntico torcedor, até respirei aliviado quando ela contou que na hora agá foi dispensada pelo advogado. Foi quase como torcer para aquela bola perigosa do adversário, rondando a pequena área, ir longe do nosso gol. Ufa! Viva a lourinha do Gracioso. E o Brasil-il-il-il! – apesar de toda a teimosia do Dunga.

PS: A partir de hoje, deixo o Jornal do Brasil e a crônica De Bar em Bar passará a ser publicada exclusivamente neste blog, sempre alternada com outros textos. Saúde e até a próxima.

Gracioso – Rua Sacadura Cabral, 97, Saúde (2263-5028)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ave cerva

Loura nossa que estás no Sol,
superlampótico esteja vosso frasco.
Venha a nós o vosso malte.
Seja feito o vosso efeito,
assim na cuca como nos rins.
O provolone nosso de cada dia nos dai hoje
e perdoai a qualidade da moela,
assim como da azeitona, da manjubinha etc.
Não nos deixeis cair de cara no chão
e livrai-nos do bleargh, amen(doim)!

(Aldir Blanc, Da série "ÁRIAS PARA FOLHAS DE FÍCUS" - IV)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Aquele bolinho transcendente

DE BAR EM BAR - Bacalhau do Rei

Fui esta semana a uma casa especializada na culinária portuguesa, mistura de bar e restaurante e que cumpre muito bem os dois papéis: o Bacalhau do Rei, ali no começo da Marquês de São Vicente. Endereço ideal para o amigo leitor comer um transcendente bolinho de bacalhau, mas que com certeza não se esgota nisso.

Sento-me na varanda, de frente para a rua bastante movimentada do início de noite. Observo com algum espanto, no lado oposto ao Bacalhau do Rei, os tapumes de uma obra que varreu alguns estabelecimentos tradicionais da área: barbearia, chaveiro, papelaria e correio. Isso para a construção, ao que tudo indica, de mais um prédio gigantesco em nossa cidade. Ó céus.

Peço uma cerveja ao garçom, que me informa que as marcas disponíveis são Original e Bohemia, mas ao conferir o cardápio, um pouco depois, fico sabendo que eles também têm a ótima e difícil de encontrar Serra Malte. (E que assim se torna mais difícil ainda.) Mas vem uma Original bem gelada, perfeita para acompanhar a excelente porção de jiló grelhado, crocante e com o amargor na medida certa.

Falando em medida certa, penso no meu filho Júlio, que vai mal no colégio, e me ponho a refletir sobre como estimulá-lo a estudar Química, Matemática e Física, que ele tanto odeia (como de resto a maioria dos adolescentes – à qual não fui exceção). Qual a medida certa entre a bronca e o carinho para que a coisa não desande de vez? Bem, deixo momentaneamente esta questão de lado e me ponho a estudar o cardápio para uma nova pedida.

As opções de tira-gosto são variadas: além do jiló, o Bacalhau do Rei oferece abobrinha à doré, gurjão de peixe, escondidinho, risole de camarão, patanisca, espetinho misto, carne seca com aipim e queijo derretido, caldinhos e, naturalmente, o bolinho de bacalhau. Peço um caldinho de frutos do mar e mais uma cerveja, agora a dificultosa Serra Malte. O caldinho vem surpreendentemente leve e muito saboroso e a cerveja compensa a minha insistência.

Em relação aos pratos, é preciso dedicar uma atenção especial ao carro-chefe da casa: há bacalhau assado de Lisboa, grelhado à Alentejano, do Porto ao Rei, à portuguesa, à espanhola, à moda, à Zé do Pipo, ao forno, à Narcisa, à Lagareira, risoto e salada de Bacalhau Imperial, entre outras possibilidades que dão água na boca e enchem uma página inteira do cardápio. (Mas dignos de registro são também o bobó de camarão, lula com arroz de brocólis, estrogonofe de filé e medalhão à piamontesa.)

Enquanto provo, enfim, o maravilhoso bolinho de bacalhau, reparo nas pessoas ao redor. Na mesa de trás, são quatro amigas numa comemoração; na frente há três tipos de solitários: um rapaz moderno, um senhor com pinta de aposentado e outro com ares de artista. Quando ia pedir a conta, eis que surgem na rua meu irmão Marcelo, sua mulher Cliva e meu sobrinho e afilhado Leonardo (como eu, um apaixonado pela leitura). Eles vêm se sentar comigo. Tive então, em nome da família, de recomeçar os trabalhos – o que não foi exatamente um sacrifício. Saúde e até a próxima.

Bacalhau do Rei – Rua Marquês de São Vicente, 11, Gávea (2239-8945)

sábado, 22 de maio de 2010

Concisão maravilhosa

Texto de apenas uma frase, talvez o menor conto do mundo:

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."

(Augusto Monterroso, escritor guatemalteco, O dinossauro)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Abençoai-nos, Buda sambista

DE BAR EM BAR - Picote

Eis um bar com um nome muito legal. Ainda que aparentemente nada tenha a ver com a atividade etílica (aos leitores que porventura vierem a me corrigir, por favor, sem agressões...). Mas isso, claro, não tem a menor importância. “Vamos ao Picote?” “Ontem dei uma passadinha rápida no Picote...” Pois bem, funcionando desde 1959 no coração do Flamengo, esse é o bar da semana.

Chego ao botequim naquele horário em que a estação do metrô, quase em frente, está fervilhando no lusco-fusco. Sento-me numa das mesinhas de alumínio na calçada. Peço o primeiro chope e fico feliz de constatar que veio na pressão ideal, sem ter sido necessária qualquer recomendação ao garçom. O que me faz crer que o letreiro “O melhor chope do bairro”, na pior das hipóteses, não é nenhuma heresia.

Com alguma fome, dou uma conferida no cardápio e, mais do que isso, reparo no movimento das bandejas. Escolho o campeão na preferência popular (pelo menos na ocasião): o bolinho de bacalhau. Estava tão gostoso que peço outro. Mas este segundo não vem tão bom, bem de acordo com a teoria dos petiscos que o escritor Dalton Trevisan expôs em seu livro Dinorá:

“– Já reparei, garçom: a segunda empadinha nunca é tão boa quanto a primeira.
– ...
– Hoje você me traga a segunda antes da primeira.”

Outros tira-gostos da casa: camarão empanado, quibe, bolinho de aipim, sardinha, polvo ou lula a vinagrete, pastéis, porções de provolone, filé mignon e lombinho. Tem também os pratos: milanesa com arroz e purê, polvo com arroz e brócolis, risotos de camarão, bacalhau ou frango, filé com arroz à grega e carré com arroz e fritas.

Olhando em volta, há uma mulher que faz palavras cruzadas como se não houvesse amanhã (fala sozinha, se irrita, comemora); perto dela, um senhor no celular se estressa tremendamente (“Eu não acredito em você, nem no seu advogado!” “Você não tem autoridade nem moral pra definir isso!”). Mas, felizmente, nem tudo são espinhos: a verdadeira boa figura do boteco, aquele que vale a pena descrever, estava numa mesa na parte interna.

Peço mais um chope, acompanhado de uma ótima sardinha frita, e o observo atentamente. Ele está de camiseta, bermuda, chinelos e vários colares no pescoço. Em geral, ninguém gosta de ser assemelhado com outra pessoa, é verdade, mas só para você entender, amigo leitor, ele é fisicamente um mix de Moacyr Luz e o compositor Paulo César Pinheiro. Com toda a serenidade de um Buda carioca, beberica seu chope e um drinque destilado.

Todos o cumprimentam. Mesmo os ambulantes param para tomar a benção. E ele apenas sorri. Até que se senta ao seu lado um senhor quase tão personagem quanto: cabelos longos, gravata vermelha, camisa social, calça e sapatos brancos. Pede uma caracu e duas empadas. Os dois ficam um tempão sem nenhum contato, mas o senhorzinho não se aguenta e puxa conversa. O Buda sambista, perfeito cavalheiro, retribui, mas parece aliviado quando volta a ficar sozinho. Sem dúvida, o cara é bacana – assim como esse bar de belo nome. Saúde e até a próxima.

Picote – Rua Marquês de Paraná, 128, Flamengo (2552-1799)

sábado, 8 de maio de 2010

A história de cada um

“A arte, disse, é parte da história particular muito mais do que a história da arte propriamente dita. A arte, disse, é a história particular. É a única história particular possível. É a história particular e ao mesmo tempo a matriz da história particular. E o que é a matriz da história particular?, perguntei. Ato contínuo pensei que me responderia: a arte. Também pensei, e esse foi um pensamento afável, que já estávamos bêbados e que era hora de voltar para casa. Mas meu amigo falou: a matriz da história particular é a história secreta.”

(Roberto Bolaño, Dentista, in: Putas assassinas)

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Um Brasil longínquo, logo ali

DE BAR EM BAR - Arataca


Se outro dia percorri um Nordeste que resiste aqui no Rio, na Feira de São Cristóvão, dessa vez fiz uma incursão por um Brasil mais longínquo. Visitei o simpático Arataca, de Copacabana, especializado em comidas típicas do Pará. (Lembro-me do tempo em que havia o restaurante, na Figueiredo Magalhães, e a lojinha, na Domingos Ferreira. Restou apenas esta.) Basicamente é um lugar para compra de produtos e refeições completas, mas o amigo leitor pode tranquilamente tomar sua cerveja e comer uns petiscos, acompanhando o vai-e-vem de uma das ruas mais agradáveis do bairro.

Sobre os produtos à venda, têm-se manteiga de garrafa, farinha amarela, tapioca, camarão seco, doce de buriti, pimenta malagueta. Para comer na hora, casquinhas de caranguejo, sururu e lagosta, tacacá, bolinho de pirarucu, carne de sol aperitivo e porção de acarajé. A casa oferece ainda os pratos: pato no tucupi, costela de tambaqui, carne-de-sol com feijão de corda, fritada de caranguejo sarapatel, maniçoba (farinha amarela com carne de porco), galinha cabidela.

Peço uma casquinha de caranguejo e uma cerveja grande Cerpa, de 600 ml, muito difícil de ser encontrada. Há também as bebidas típicas, como as batidas de cupuaçu, graviola, taperebá e maracujá e os licores de jenipapo e açaí. A cerveja vem geladíssima e a casquinha, uma delícia. Nesse momento estou sozinho nas mesinhas que ficam na calçada. Mas observo o movimento do pé-sujo ao lado, com os moradores da área ainda comentando o justo e sofrido triunfo do meu Botafogo no campeonato carioca. (Apenas sorrio.)

Eis que chegam ao Arataca um casal e duas jovens amigas. Devido à proximidade, fico sabendo que eles vieram do Parque da Catacumba, na Lagoa, onde foi montado um circuito de aventura, com arvorismo, rapel, tirolesa e muro de escalada. Uau. Peço então outra cerveja (mudo para Bohemia) e bolinhos de pirarucu. Rapidamente, fico sabendo também que as amigas são mais que amigas. A mais velha, a mais falante, discorre sobre seus projetos ecológicos: “Para de pensar que aquele é o todo e passa a olhar ao redor...”

Os bolinhos de pirarucu, peixe do rio Amazonas, vêm bons, porém, confesso que já comi melhores em outras vindas aqui. Enquanto os degusto, surgem novos frequentadores. Dois homens e duas mulheres. Uma delas, muito simpática, conta: “Tenho uma amiga que é a pessoa mais simpática que conheço. O ladrão veio dar o bote e ela: ‘Ai, que susto!, achei que você ia me assaltar...’, deixando-o sem graça. Depois bateu um papo com ele, no final, disse tchau, valeu e ainda deu um dinheiro para o ônibus.” Desconfio que a simpática era ela mesma. Como diria o bardo Aldir Blanc, um dos ídolos dessa coluna, simpatia é quase amor.

Fecho meus pedidos com o ponto alto da comilança: a sopa de caranguejo. Forte, bem-servida, uma beleza. Faltou só dizer que na mesa da simpática havia a mulher loura com olhos de fofoca. Praticamente virou sua cadeira para a mesa das namoradas. Que feio. Eu, como voyeur de botequim, asseguro: ser discreto é fundamental. Saúde e até a próxima.

Arataca – Rua Domingos Ferreira, 41 B, Copacabana (2549-2076)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Dois lados

“Prefiro o paraíso pelo clima, o inferno pela companhia.”
(Mark Twain)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Uma maratona com obstáculos

DE BAR EM BAR - Tropeço


Devo logo esclarecer que dessa vez foi praticamente uma maratona: seis horas de bar. A coluna, porém, quase não acontece. Combinei de ir ao botequim com um amigo que não mora no Rio. Era para termos nos encontrado na quarta-feira. Mas ele esqueceu, amigo leitor. Simplesmente esqueceu... Diante de tal tropeço, só me restou levá-lo, na sexta, ao novo bar do Leblon, cria do Degrau.

Fora o inacreditável esquecimento, Renato Salazar é um grande amigo. Tão amigo que somos compadres de mão dupla: eu sou padrinho de seu filho,Víni, e ele do meu Júlio. Estudamos juntos no Colégio Andrews. Somos de uma geração da tradicional escola de Botafogo que tem os músicos Roberto Frejat, Nilo Romero e Luce, o deputado Otávio Leite, o arquiteto João Uchoa, o ator Felipe Martins, o artista plástico Marcus André e outros menos conhecidos, mas não menos importantes na minha história pessoal.

Chegamos no Tropeço às seis da tarde. Conseguimos logo a melhor mesa, na beira da calçada. Uma frequentadora pagava sua conta e nos cedeu o lugar, não sem antes nos recomendar os pastéis da casa. Nem precisava tamanha delicadeza, pois os conheço bem – sou fã dos famosos pastéis do velho e bom Degrau. Mas, como já disse o compositor Aldir Blanc, o boteco “é o último reduto da gentileza.”

Pedimos o primeiro chope, enquanto meu amigo me fala de seu renovado amor à nossa cidade (submersa ou não). Surfista, biólogo e mestre em políticas públicas, Renato Salazar é daqueles cariocas com crachá e tudo, eternamente queimado de sol, mesmo tendo ido morar em Florianópolis, há 16 anos, em busca de uma vida mais pacata. Pergunto-lhe se ainda faz sentido a ideia de que Floripa seria um Rio de Janeiro da década de 1940. “Não, atualmente a distância diminuiu; seria como o Rio de 25 anos atrás.”

Lá pelo quinto chope, pedimos o Invocado (iscas de peixe com molho picante). Veio excelente a porção, saborosa e farta. Os outros petiscos do cardápio também levam títulos espirituosos, como Sirizinhos nada egoístas, Longe de casa, Vai dar samba e Camarões boêmios. Entre os pratos, pode-se degustar o risoto de tomate seco com camarões, nhoque de ricota, salmão ao molho de vinho, frango com catupiry e batata leonesa.

Lá pelo 10◦ chope, resolvo ir ao banheiro e é quando observo melhor a casa. São dois andares, com iluminação baixa, paredes amarelas com pôsteres de praia e fotos com situações como o “cofrinho” de fora, a saia presa na saída do banheiro e a alface no dente. Com tantas imagens sugestivas, pronto, eis que subindo os degraus para o reservado dou uma tropeçada, mas ainda bem que ninguém viu, ninguém soube.

Lá pelo 50◦ chope, chegam ao bar um amigo de Renato – Alfredo – e sua ex-namorada. Pedimos então os pastéis de camarão com shitake. Ótimos. A conversa toma outros rumos: falamos de astrologia e candidatos a presidente da República. Sinto que é a hora de tirar o time de campo. Quando já estou no táxi, Renato me liga para dizer que sua chave ficou na minha mochila. Ainda faltava o tropeço final. Saúde e até a próxima.

Tropeço – Avenida Ataulfo de Paiva, 517, lj A, Leblon (2239-3121)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Quatro coisas sobre ela

O riso aberto de quem sabe tão cedo a sombra
metafísica e estética de um bar.

A pele morena dançando a urgência
da vida e do sexo.

A busca, essa eterna busca,
de algo que nunca virá.

O atalho temático de mar que estende
a curva até o céu.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Tem xinxim, acarajé e chope gelado

DE BAR EM BAR - Estação Baião de Dois


Dessa vez, amigo leitor, fui a um bar na sucursal do Nordeste que temos ali depois do túnel, no começo da Linha Vermelha, quebrando à direita. Cá estamos na tradicional feira de São Cristóvão. Filho de uma piauiense (com mineiro) que sou, sinto-me em casa entre zabumbas, sanfonas e chapéus de couro. Caruru, bobó, biju, xinxim de galhinha... Ó, xente!

Mas para falar a verdade, esse é um lugar tanto para emigrados que vieram trabalhar aqui (os nossos queridos paraíbas) quanto cariocas e turistas em geral – para quem tem intimidade ou não com a cultura nordestina. Poderia estar melhor cuidado o local? Poderia. Mas dá para se divertir.

Às seis da tarde de um sábado, faz um calor dos infernos por entre as vielas, cheias de pequenos bares, cada um com seu respectivo som a todo volume. (Fora o show que rola num palco no centro da feira.) É a maior balbúrdia, quase uma agressão sonora, mas não vi uma briga, uma confusão. Beleza.

Escolhi o Estação Baião de Dois para sentar pouso. Além do ar condicionado, é amplo e dá para observar bem o que se passa tanto no salão quanto na passarela que se forma lá fora. Me lembra até a rua das pedras de Búzios ambientada num sertão cinematográfico, se é que dá para me entender.

Peço logo um chope e uma porção de patinhas de caranguejo à vinagrete. Outras opções de petiscos: queijo coalho com melaço de cana, casquinha de siri, acarajé, bolinho de rã. Entre os pratos, a casa oferece galinha caipira ao molho pardo, sarapatel, buchada de bode, galo da feira e vaca atolada com pirão e arroz. As patinhas vieram ótimas. Só achei a porção um pouco pequena para o preço (R$ 35). Ainda mais se levando em conta que as porções dos pratos são bem fartas.

Mas (quase) tudo certo. Já que estamos aqui o melhor é curtir. Então vêm em série acarajé, caldinho e casquinha de siri. Cada um mais gostoso que o outro. Ah, sim, o chope, servido em caneca, é bem tirado e geladíssimo. Então peço mais um, enquanto observo a decoração da casa: o enorme salão, em branco e verde, possui quadros de praias nordestinas pelas paredes. Em volta delas, há cajueiros cenográficos com frutas de plástico pendurados. No centro do salão, abóboras e cana-de-açúcar.

Olho para o meu vizinho do lado. É um senhor careca, que parece o escritor inglês Nick Hornby (autor de Alta fidelidade e Um grande garoto que viraram filmes de sucesso). Ele está com a esposa. Bebem uma cachacinha, passam para o chope e depois arrematam com uma carne de sol e aipim frito. O verdadeiro, o inglês, além de ótimo escritor, é um cara que adora futebol e música. Grande Nick.

O Nick de São Cristóvão e sua esposa falam sobre o vestibular do filho e escolha de profissão. Fazer escolhas pode ser um drama. (Às vezes é difícil optar entre um caldinho de camarão e um de feijão-de-corda, o que dirá escolher uma profissão para a vida toda.) Mas, no meu caso, fiz bem vir em vir ao Estação Baião de Dois. Fica para uma outra oportunidade a visita a um boteco carioca do Nordeste mais profundo. Saúde e até a próxima.

Estação Baião de Dois – Av. Nordeste, lj 46, Feira de São Cristóvão (3860-3296)

sábado, 27 de março de 2010

O passado

“Mesmo o passado se faz às vezes tão presente que já nem sei se fui ou se sou, tenho que buscar o espelho para encontrar o momento exato e, nele, a minha face: se tenho mesmo esta barba ou se a uso apenas como disfarce, como fazia em criança ou como faz a criança dentro de mim.”

(Campos de Carvalho, A chuva imóvel)

sexta-feira, 19 de março de 2010

Perdão para essas pessoas ruins

DE BAR EM BAR - Estação Largo do Machado


Três amigos conversam no balcão. O papo ainda é aquele que tem movimentado a cidade nesses últimos dias:

– Ele vai casar com a loura. Só não sabe se é com a mulher ou com a cerveja.
– O cara não pode se entregar.
– Isso pra virar corno é rápido!
– Faz besteira e depois fica deprimido...
– Não é só bebida não.
– Eu ouvi dizer que é só manguaça.
– Eu acho que ele bota o nariz. Quando ele chega no morro é escoltado pelos vagabundos. Dois dias fora do ar.
– Dunga tá com muito medo.
– E o Ronaldinho Gaúcho?
– Pode jogar agora mais que Pelé. Dunga perdeu a confiança. Ele deu uma festa de três dias num hotel.
– Essa grana toda que rola é que prejudica esses caras. Olha só o professor universitário que estuda à beça e não ganha nada.
– Mas o futebol é uma espécie de arte.
– Tem jogador da seleção que na minha pelada não ia nem ser escolhido. Hoje tem só um ou outro craque, o resto é tudo igual. O próprio Adriano é bom jogador, mas não é craque.
– Ronaldinho Gaúcho é craque.
– O que ele faz é palhaçada com a bola. Craque era o Zico.

Fui ao Estação do Largo do Machado e o assunto em questão vai perdurar até a convocação, em maio, da seleção brasileira para a Copa. Quando cheguei, por volta das 19 horas, o bar estava cheio, havia apenas uma mesa livre, perto do balcão, esperando por mim.

Sento-me e peço o primeiro chope. O Estação fica numa das pontas do Largo do Machado. É um trecho em que se observam os carros e ônibus vindos da Lapa pela rua Bento Lisboa em direção ao bairro das Laranjeiras. Há muitas buzinas. Em frente, um resquício de calma no canto da praça, com aposentados jogando baralho. À minha direita, a igreja Nossa Senhora da Glória.

Nas outras mesas, casais, duplas de amigos e alguns solitários: além de mim, uma senhora falando no celular e uma mulher gorda jovem, de rosto bonito e fumando sem parar, repara em tudo à sua volta com olhos salientes. Peço uma porção de tremoços.

Além dos tremoços, que vieram sem muita emoção, há os seguintes aperitivos: salaminho, jiló, picanha suína fatiada, costelinha de porco com aipim frito, pastéis, bolinho de bacalhau. A casa oferece também pratos como: filé à piamontesa, medalhão de chester com arroz e purê e truta grelhada. Na parte interna, algumas pessoas jantam no salão refrigerado.

Peço ao eficiente e discreto garçom mais um chope e uma sugestão:

– Leão Veloso ou creme de palmito? (Para quem não sabe, sou fanático por palmito.)
– Leão Veloso é mais forte, senhor.
– Uma tigela de Leão Veloso então, por favor.

Volto-me novamente para o monotemático balcão e a língua maldita do boteco.

– Joga bola?
– Futebol hoje é esporte violento. Dou uma caminhada e quando estou me sentindo muito bem arrisco uma corridinha.
– Mas não com esse sol, né.

A tigelinha veio ok. Apesar da região movimentada e de passagem, o local do Estação Largo do Machado é um recuo no caos. E o bar é simples e honesto. Tem hora que não precisa mais do que isso. Saúde e até a próxima.

Estação Largo do Machado – Rua Bento Lisboa, 184, Largo do Machado (2508-7180)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Mea culpa de Nick

Há poucas semanas expus aqui uma pequena teoria do escritor Nick Hornby que dizia respeito à superioridade da literatura, como numa luta de boxe, sobre qualquer outra forma de arte. Mas a ideia foi rapidinho desbancada pelo próprio autor:


“Mês passado falei bastante sobre como os livros eram melhores do que qualquer coisa – como um livro decente ganharia de qualquer coisa, qualquer filme, pintura ou música com que nos déssemos ao trabalho de comparar. (...). Li quatro livros muito bons este mês, só que, mesmo assim, meus destaques culturais das últimas quatro semanas não foram literários. Fui a duas exposições maravilhosas na Royal Academy; vi Reyes marcar seu primeiro gol pelo Arsenal contra o Chelsea; e alguém me enviou um drible da mais alta qualidade marcado pelo Springsteen, um show de 1975, e um cover de 'I want you'. Como eu disse, adorei os livros que li este mês, mas quando Reyes fez aquela bola tocar no fundo da rede, subi pelos ares. Bem, [o livro de] Patrick Hamilton não me fez sequer mover os pés. Fiquei sentado grande parte do tempo. Então voltemos às vacas frias. Livros: muito bom, mas não tão bom quanto as outras coisas, tipo gols ou dribles.”
(Nick Hornby, Frenesi Polissilábico, p. 69-70)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Com crédito, apesar de tudo

DE BAR EM BAR - Adega do Pimenta


Tenho sido um pouco relapso com alguns de meus bons amigos. Além da vida itinerante de bar em bar, ando mergulhado na criação de uma história para um segundo romance. Sei, claro, que a eterna falta de tempo não é uma condição exclusivamente minha. E por mais que a correria cotidiana seja um fenômeno identificado com a contemporaneidade, isso também não vem de hoje. Vejamos, por exemplo, o que dizia, há 150 anos, Tolstoi em sua monumental obra Guerra e Paz:

"À noite, ao chegar em casa, anotava as quatro ou cinco visitas ou encontros obrigatórios de hora marcada. O mecanismo da vida, a melhor maneira de dispor do tempo, absorviam a maior parte de sua energia. Não fazia nada, não pensava em nada e nunca tinha tempo."

Então, depois de ter furado vergonhosamente alguns encontros, fui dessa vez com meu amigo e consultor para bares no Centro e adjacências, Marcos André Góes, o vulgo Dudu, à Adega do Pimenta. Portanto numa terça-feira dessas pegamos o bondinho e subimos para Santa Teresa. Não é novidade para ninguém que o calor anda infernal. Mas me surpreendi com a temperatura de sauna às 19 horas, até no bucólico bairro.

A Adega estava vazia. Ou melhor, tinha apenas uma mesa ocupada com uma menina de óculos que tomava uma cerveja long neck. (Depois apareceu um gringo para jantar.) Ficamos numa mesa encostada na parede, perto da porta da rua. O pequeno bar é simpaticamente decorado com bricabraques e referências etílicas, como canecas, garrafas, matérias emolduradas sobre a casa, pôsteres e até notas de dinheiro de várias partes do mundo.

Como chegamos esfomeados, junto com o primeiro chope pedimos logo dois croquetes de carne. Vieram ótimos, tanto o bem tirado chope da Brahma quanto os petiscos. Embora o nome da casa possa sugerir uma procedência portuguesa, a especialidade aqui é a cozinha alemã (“Pimenta”, me ensina o Dudu, vem de Pfeffer, o primeiro dono, um alemão).

Outras opções do cardápio: língua com aspargos, truta com molho de mostarda, rollmops e filé de arenque. E também os pratos: kassler, eisben, goulash, pato ou coelho assado e joelho defumado. Aos finais de semana é servida uma feijoada alemã (com feijão branco, kassler, salsicha branca, lombo, batata, cenoura e arroz). Além do chope claro, tem ainda o escuro e bebidas diversas como o clássico steinhager.

Estava tudo bem (inclusive o som ambiente perfeito) até pedirmos um salsichão defumado. Veio saboroso, porém excessivamente apimentado. Só então descobrimos que o ar condicionado não estava ligado e, como apenas os ventiladores da casa não davam vazão aos calores internos e externo, tivemos de fazer o pedido óbvio. Francamente.

Em seguida, escolhi um steak tartar (carne crua temperada). Mais uma vez não demos sorte – estava muito salgado. Dudu suava em bicas. Decidimos pedir a conta. Com uma certa tristeza, digo que a Adega do Pimenta dessa vez não foi bem aquilo que esperava. Mas não há de ser nada. A casa tem crédito: já estivera aqui antes e tudo saíra às mil maravilhas. Saúde e até a próxima.

Adega do Pimenta – Rua Almirante Alexandrino, 296, Santa Teresa (2242-4530)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Uma pequena teoria sobre a verdade

(Perfeita para políticos que usam cuecas, meias e panetones para outros fins):

“A verdade pode encontrar uma maneira terrível de ser muito engraçada, especialmente quando se trata de ganância e hipocrisia.”
(Kurt Vonnegut, Hócus Pócus)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um mexicano sem dramalhão

DE BAR EM BAR - Rota 66


Dessa vez fui na sequência a um segundo bar e é sobre ele a coluna de hoje. Depois de voltar do Aconchego Carioca, na Praça da Bandeira, que já estava quase fechando (mas ainda deu para aproveitar algumas de suas delícias, como a moquequinha de camarão com uma Original geladíssima) – isso no mesmo dia em que o bar coirmão Petit Paulette, na mesma rua, do artista-cozinheiro Paulo Barbosa, foi assaltado (força, Paulette).

Cometerei aqui uma brutal inconfidência, amigo leitor. O motivo da esticada foi que eu e S. precisávamos continuar a fazer o inventário de nossos humildes bens. Em resumo – para não entediá-lo –, continuamos nosso casamento, mas agora em casas separadas. Deu para entender? Portanto, embora não fosse o caso de nenhum dramalhão mexicano, fomos para o Rota 66, bar mexicano (ou tex-mex).

Atravessando o túnel e chegando na filial do Leblon, no início da Conde Bernardotte, no trecho onde há aquela grande concentração de bares, o ambiente estava tranquilo, medianamente ocupado. Uma mesa de família e outra de amigos vendo o futebol na TV no salão interno; na parte de fora, uma mesa grande de cinco ou seis mulheres e outra de uma dupla de amigas. Ou ex-amigas, pois elas discutiam asperamente e acabaram indo cada uma para um canto antes que chegasse o meu primeiro chope. (Raro ver bate-boca feminino no boteco... mas por que só nós teríamos o privilégio do mico?)

O bar é todo revestido de madeira. Nas pilastras e paredes, quadros de motos, de carros, de marcas de cerveja e, obviamente, de uma certa estrada. Digno de nota: um quadro enorme de um pára-choque de carro antigo na parede principal, à direita de quem entra no bar. No fundo, um bonito balcão. Mas nos sentamos na parte externa, de frente para a calçada. Para acompanhar o chope, pedimos um combo mex, que vem a ser tortillas com os molhos: sour cream, guacamole, pico de galo (tomate e pimenta jalapeño) e chilli beans.

Outras pedidas do cardápio: super nachos, flauta (rolinhos de tortilla recheados), linguiça flambada na tequila. E os pratos enchilada, quesadillas e burritos. Para beber, claro, tequila, michelada (servida na caneca com sal na borda, cerveja, gelo e limão) e mais chope da Brahma, cervejas Bohemia, Stella Artois, Dos Equis, Sol e drinques variados. O tal combo mex veio ok, todos os molhos despertaram vivo interesse – e corresponderam.

Enquanto eu e S. conversávamos sobre certas medidas chatas mas necessárias – de forma amena, felizmente –, observei a mesa das cinco mulheres. “Arruma um namorado pra mim... eu vou achar maneiro!”, dizia uma delas, a mais jovem. Era, aliás, a que mais falava. Aparentemente a que teria maiores expectativas de encontros e de belas histórias com que sonhar. As outras, de longe (e talvez só de longe), mostravam-se práticas e decididas: “Ela me falou: ‘Muito apessoado...’ Que diabo é isso?!” Ah, o amor. Hoje o amor verdadeiro é produto em baixa no mercado das almas. Por isso, estamos aqui agora, nessa Rota 66 que, afinal de contas, cumpre o que promete. Ah, o amor... Saúde e até a próxima.

Rota 66 – Rua Conde Bernardotte, 26, lojas B e C, Leblon (2512-5961)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Uma pequena teoria sobre livros

“Os livros são, sejamos realistas, melhores do que qualquer outra coisa. Se criássemos uma espécie de luta de boxe cultural e fizéssemos com que os livros disputassem 15 rounds no ringue contra o melhor que qualquer outra forma de arte tivesse para oferecer, então os livros não perderiam nenhuma partida. Pode verificar, se quiser. A flauta mágica versus Middlemarch: um estudo da vida provinciana? Middlemarch ganha de seis a zero. A última ceia versus Crime e castigo? Ponto para Dostoiévski. Está vendo aí? Não sei se isto é muito científico, mas parece que os romances estão ganhando disparado. É claro que há sempre algumas pequenas exceções – a canção Blonde on blonde pode dar um banho no livro A loja de antiguidades, por exemplo, e eu não apostaria muito em Fogo pálido contra Cidadão Kane. E volta e meia icaríamos chocados, pois isso acontece no mundo dos esportes, de forma que De volta para o futuro III poderia dar a sorte de acertar um soco bem na cara de Corre, coelho; mas, em 99 por cento dos casos, continuo torcendo para a literatura.”
(Nick Hornby, Frenesi Polissilábico)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Três (ou mais) brindes a Juliana

DE BAR EM BAR - Bar Central da Ponte


Mal nos sentamos sob a marquise, o rapaz avisou:

- Tá gelada, mas só tem três.

Referia-se à pedida Brahma Extra. (Mas como assim? Eu e meu amigo por acaso temos escrito na testa: “Vou tomar todas!” ou “Pé-de-cana”?) De qualquer forma, o atendente, como se mostrou depois, foi atencioso com o freguês. E nós, a bem da verdade, passamos das três, fácil.

Fui ao bar dessa vez com o amigo Humberto Effe. Nós tínhamos combinado de tomar uma cerveja, após a gravação do seu programa na rádio Roquette Pinto, Sangue novo, do qual fui o convidado. Trata-se de um espaço valoroso numa rádio que vem se renovando. Levei os discos Canduras, de Qinho, um jovem talento carioca, e o recém-lançado Labirinto vertical, de Sérgio Serra, virtuoso guitarrista que tocou no Ultraje a Rigor e também com Lobão, Barão Vermelho e Cássia Eller. Serginho lançou um disco solo surpreendente, com boa poesia e ecos de MPB.

Inicialmente iríamos a um bar no Centro, perto da rádio. Mas como a sua filha Juliana estava prestes a nascer, Humberto pediu-me para irmos a um bar perto de sua casa – e perto de sua mulher Tininha, para estar pronto para qualquer eventualidade. Pedido que era, portanto, uma ordem inquestionável, das mais agradáveis de cumprir. Por isso, cá estamos no Bar Central da Ponte, na rua Jardim Botânico, quase em frente à vila onde ele mora.

Sobre o curioso nome do estabelecimento (“Central da Ponte”), como diria o jornalista e escritor Otto Lara Resende, cuja estátua fica num larguinho defronte ao bar (virando-se para a rua Pacheco Leão e o Jardim Botânico): “Sei alguns minutos de alguns assuntos. E não sei nada.” Confesso que não consigo ver a ligação do nome com o local. Mas isso não importa. O que vale é que o boteco é um pé-sujo dos melhores. (Ainda que tenha um banheiro igual ao da maioria.)

Sentamo-nos numa das mesinhas de madeira e toalha verde entre a estátua de Otto e os engradados na porta do bar. (Há bares temáticos, ou pé-limpos, que utilizam engradados como cenário; aqui é a vida real mesmo.) A cerveja veio geladíssima, fundamental no verão cada vez mais sufocante do nosso planetinha superaquecido. Além da Brahma Extra, a casa oferece Antarctica, Skol, Brahma, Itaipava e Bohemia. Para beliscar, há porções de pernil, queijo minas, salaminho e contrafilé. Pedimos a de queijo-de-minas, que veio excelente. Tanto que repetimos a dose, para acompanhar a cerveja, que passou a ser Bohemia. Entre os pratos, carne assada, rabada e mocotó.

Eu e Humberto conversamos sobre diversas coisas. O cantor e compositor do grupo Picassos Falsos é daqueles que têm a inteligência atenta aos detalhes. Falamos sobre a minissérie Dalva e Herivelto (“Herivelto não era aquele crápula que mostraram”), sobre o sambista Ismael Silva, sobre parceria (e o dia em que fomos à Vila Mimosa para conferir a verossimilhança de Vou à Vila, uma composição nossa, ainda inédita) e, claro, sobre filhos. Aliás, esta coluna publicada hoje quando Juliana já está bem aqui, neste mundo vasto mundo, é dedicada a ela. Saúde e até a próxima.

Bar Central da Ponte – Rua Jardim Botânico, 758, Jardim Botânico (2294-4295)

sábado, 30 de janeiro de 2010

simples(mente)

O ser humano é tão ridículo
E bonito
Sendo só o que é
Sem amarras
Nem holofote algum.

A barba perto do olho.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Argentino de fé, irmão camarada

DE BAR EM BAR - Popeye


Como já havia tempo que não aparecia por aqui um convidado, volto a fazer uma coluna com um amigo de fé, irmão camarada. Dessa vez fui ao bar com o meu mui amigo Federico Bardini, de férias no Rio. Pegamos o metrô ao anoitecer na Siqueira Campos e saltamos com o céu desabando na recém-inaugurada estação de Ipanema. Iríamos a um quiosque na praia e tivemos de mudar os planos. Fomos então ao Popeye, pé-sujo clássico na Visconde Pirajá. Posso garantir, amigo leitor, que não foi em vão.

A casa já estava cheia. Na frente, encostada no balcão, a velha guarda, a galera que bate o ponto; nos fundos, a turma do trabalho, sentada em banquinhos; e no meio, em pé, dois gringos, eu e Federico. Aliás, três. Federico é argentino. Ou melhor: dois gringos e meio. Pois o editor de cinema, TV e vídeo Federico é metade carioca. Morou aqui muitos anos (onde foi coordenador do curso de cinema da faculdade Estácio de Sá), é casado com a bela carioca Aline, e tem um filho igualmente belo e brasileirinho, Geovani, com dois anos. Tudo isso, claro, não impede que tenhamos a rivalidade à flor da pele e altos embates sobre futebol.

Pedimos um chope para começar. Encostados na parede azulejada em azul-escuro do corredor, nem sabemos mais do tempo lá fora. O que sei é que na parte de cima da parede, pintada de amarelo, vêem-se imagens dos personagens do universo de Popeye: o próprio, Olívia Palito, Brutus e o bebê irmão de Olívia. Ao pedirmos o segundo chope, bate a fome. Eis os petiscos oferecidos num cartaz: churrasquinho, fritas, linguiça, moela, feijão amigo e sardinha. Mas reparo num freguês comendo um bolinho de bacalhau com o maior gosto. Peço um e Federico escolhe uma sardinha frita. Bem feitos e sequinhos, os dois petiscos estavam ótimos. Assim como o chope tirado pelo simpático Francisco. Mais dois, Chico.

Na enorme TV atrás do balcão o assunto também é futebol. Primeiro, uma matéria com Loco Abreu, uruguaio contratado pelo meu Botafogo, e que já jogou pelo River Plate, de Federico. Ele faz elogios ao jogador (“tem presença de área, é artilheiro”), mas acha que deve ficar pouco tempo (“No River ficou só seis meses e depois foi atrás de mais grana no México”). Bem, vamos ver. Só espero que o alvinegro, de tantas glórias, não dê continuidade ao processo de se apequenar, contentando-se mais uma vez em apenas não ser rebaixado.

Em seguida, como se estivesse combinado, surge na TV o célebre gol de mão de Maradona contra a Inglaterra, em 1986. Federico diz que o Brasil está muito forte hoje. Eu retruco que a Argentina veio mal nas eliminatórias, mas na Copa é um perigo e com Maradona, agora técnico, tudo pode acontecer. Falamos depois do tempo em que fomos vizinhos e também da viagem que fizemos a Cuba com outro amigo, o Pequinho. Bons tempos. Para comemorar, enfileiramos pastéis, porções de fritas e de provolone e algumas saideiras. Grande pé-sujo, o Popeye. Ainda fumamos pela noite um autêntico charuto Cohiba e demos um mergulho no mar. Tudo certo. E que na Copa de 2010 vença o melhor – o Brasil, claro. Saúde e até a próxima.

Popeye – Rua Visconde Pirajá, 181, Ipanema

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

luxúria o que é?















(Chelsea Hotel, óleo de Antonio Berni, pintor argentino - 1905-1981)