DE BAR EM BAR - Picote
Eis um bar com um nome muito legal. Ainda que aparentemente nada tenha a ver com a atividade etílica (aos leitores que porventura vierem a me corrigir, por favor, sem agressões...). Mas isso, claro, não tem a menor importância. “Vamos ao Picote?” “Ontem dei uma passadinha rápida no Picote...” Pois bem, funcionando desde 1959 no coração do Flamengo, esse é o bar da semana.
Chego ao botequim naquele horário em que a estação do metrô, quase em frente, está fervilhando no lusco-fusco. Sento-me numa das mesinhas de alumínio na calçada. Peço o primeiro chope e fico feliz de constatar que veio na pressão ideal, sem ter sido necessária qualquer recomendação ao garçom. O que me faz crer que o letreiro “O melhor chope do bairro”, na pior das hipóteses, não é nenhuma heresia.
Com alguma fome, dou uma conferida no cardápio e, mais do que isso, reparo no movimento das bandejas. Escolho o campeão na preferência popular (pelo menos na ocasião): o bolinho de bacalhau. Estava tão gostoso que peço outro. Mas este segundo não vem tão bom, bem de acordo com a teoria dos petiscos que o escritor Dalton Trevisan expôs em seu livro Dinorá:
“– Já reparei, garçom: a segunda empadinha nunca é tão boa quanto a primeira.
– ...
– Hoje você me traga a segunda antes da primeira.”
Outros tira-gostos da casa: camarão empanado, quibe, bolinho de aipim, sardinha, polvo ou lula a vinagrete, pastéis, porções de provolone, filé mignon e lombinho. Tem também os pratos: milanesa com arroz e purê, polvo com arroz e brócolis, risotos de camarão, bacalhau ou frango, filé com arroz à grega e carré com arroz e fritas.
Olhando em volta, há uma mulher que faz palavras cruzadas como se não houvesse amanhã (fala sozinha, se irrita, comemora); perto dela, um senhor no celular se estressa tremendamente (“Eu não acredito em você, nem no seu advogado!” “Você não tem autoridade nem moral pra definir isso!”). Mas, felizmente, nem tudo são espinhos: a verdadeira boa figura do boteco, aquele que vale a pena descrever, estava numa mesa na parte interna.
Peço mais um chope, acompanhado de uma ótima sardinha frita, e o observo atentamente. Ele está de camiseta, bermuda, chinelos e vários colares no pescoço. Em geral, ninguém gosta de ser assemelhado com outra pessoa, é verdade, mas só para você entender, amigo leitor, ele é fisicamente um mix de Moacyr Luz e o compositor Paulo César Pinheiro. Com toda a serenidade de um Buda carioca, beberica seu chope e um drinque destilado.
Todos o cumprimentam. Mesmo os ambulantes param para tomar a benção. E ele apenas sorri. Até que se senta ao seu lado um senhor quase tão personagem quanto: cabelos longos, gravata vermelha, camisa social, calça e sapatos brancos. Pede uma caracu e duas empadas. Os dois ficam um tempão sem nenhum contato, mas o senhorzinho não se aguenta e puxa conversa. O Buda sambista, perfeito cavalheiro, retribui, mas parece aliviado quando volta a ficar sozinho. Sem dúvida, o cara é bacana – assim como esse bar de belo nome. Saúde e até a próxima.
Picote – Rua Marquês de Paraná, 128, Flamengo (2552-1799)
sexta-feira, 14 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
A história de cada um
“A arte, disse, é parte da história particular muito mais do que a história da arte propriamente dita. A arte, disse, é a história particular. É a única história particular possível. É a história particular e ao mesmo tempo a matriz da história particular. E o que é a matriz da história particular?, perguntei. Ato contínuo pensei que me responderia: a arte. Também pensei, e esse foi um pensamento afável, que já estávamos bêbados e que era hora de voltar para casa. Mas meu amigo falou: a matriz da história particular é a história secreta.”
(Roberto Bolaño, Dentista, in: Putas assassinas)
(Roberto Bolaño, Dentista, in: Putas assassinas)
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Um Brasil longínquo, logo ali
DE BAR EM BAR - Arataca
Se outro dia percorri um Nordeste que resiste aqui no Rio, na Feira de São Cristóvão, dessa vez fiz uma incursão por um Brasil mais longínquo. Visitei o simpático Arataca, de Copacabana, especializado em comidas típicas do Pará. (Lembro-me do tempo em que havia o restaurante, na Figueiredo Magalhães, e a lojinha, na Domingos Ferreira. Restou apenas esta.) Basicamente é um lugar para compra de produtos e refeições completas, mas o amigo leitor pode tranquilamente tomar sua cerveja e comer uns petiscos, acompanhando o vai-e-vem de uma das ruas mais agradáveis do bairro.
Sobre os produtos à venda, têm-se manteiga de garrafa, farinha amarela, tapioca, camarão seco, doce de buriti, pimenta malagueta. Para comer na hora, casquinhas de caranguejo, sururu e lagosta, tacacá, bolinho de pirarucu, carne de sol aperitivo e porção de acarajé. A casa oferece ainda os pratos: pato no tucupi, costela de tambaqui, carne-de-sol com feijão de corda, fritada de caranguejo sarapatel, maniçoba (farinha amarela com carne de porco), galinha cabidela.
Peço uma casquinha de caranguejo e uma cerveja grande Cerpa, de 600 ml, muito difícil de ser encontrada. Há também as bebidas típicas, como as batidas de cupuaçu, graviola, taperebá e maracujá e os licores de jenipapo e açaí. A cerveja vem geladíssima e a casquinha, uma delícia. Nesse momento estou sozinho nas mesinhas que ficam na calçada. Mas observo o movimento do pé-sujo ao lado, com os moradores da área ainda comentando o justo e sofrido triunfo do meu Botafogo no campeonato carioca. (Apenas sorrio.)
Eis que chegam ao Arataca um casal e duas jovens amigas. Devido à proximidade, fico sabendo que eles vieram do Parque da Catacumba, na Lagoa, onde foi montado um circuito de aventura, com arvorismo, rapel, tirolesa e muro de escalada. Uau. Peço então outra cerveja (mudo para Bohemia) e bolinhos de pirarucu. Rapidamente, fico sabendo também que as amigas são mais que amigas. A mais velha, a mais falante, discorre sobre seus projetos ecológicos: “Para de pensar que aquele é o todo e passa a olhar ao redor...”
Os bolinhos de pirarucu, peixe do rio Amazonas, vêm bons, porém, confesso que já comi melhores em outras vindas aqui. Enquanto os degusto, surgem novos frequentadores. Dois homens e duas mulheres. Uma delas, muito simpática, conta: “Tenho uma amiga que é a pessoa mais simpática que conheço. O ladrão veio dar o bote e ela: ‘Ai, que susto!, achei que você ia me assaltar...’, deixando-o sem graça. Depois bateu um papo com ele, no final, disse tchau, valeu e ainda deu um dinheiro para o ônibus.” Desconfio que a simpática era ela mesma. Como diria o bardo Aldir Blanc, um dos ídolos dessa coluna, simpatia é quase amor.
Fecho meus pedidos com o ponto alto da comilança: a sopa de caranguejo. Forte, bem-servida, uma beleza. Faltou só dizer que na mesa da simpática havia a mulher loura com olhos de fofoca. Praticamente virou sua cadeira para a mesa das namoradas. Que feio. Eu, como voyeur de botequim, asseguro: ser discreto é fundamental. Saúde e até a próxima.
Arataca – Rua Domingos Ferreira, 41 B, Copacabana (2549-2076)
Se outro dia percorri um Nordeste que resiste aqui no Rio, na Feira de São Cristóvão, dessa vez fiz uma incursão por um Brasil mais longínquo. Visitei o simpático Arataca, de Copacabana, especializado em comidas típicas do Pará. (Lembro-me do tempo em que havia o restaurante, na Figueiredo Magalhães, e a lojinha, na Domingos Ferreira. Restou apenas esta.) Basicamente é um lugar para compra de produtos e refeições completas, mas o amigo leitor pode tranquilamente tomar sua cerveja e comer uns petiscos, acompanhando o vai-e-vem de uma das ruas mais agradáveis do bairro.
Sobre os produtos à venda, têm-se manteiga de garrafa, farinha amarela, tapioca, camarão seco, doce de buriti, pimenta malagueta. Para comer na hora, casquinhas de caranguejo, sururu e lagosta, tacacá, bolinho de pirarucu, carne de sol aperitivo e porção de acarajé. A casa oferece ainda os pratos: pato no tucupi, costela de tambaqui, carne-de-sol com feijão de corda, fritada de caranguejo sarapatel, maniçoba (farinha amarela com carne de porco), galinha cabidela.
Peço uma casquinha de caranguejo e uma cerveja grande Cerpa, de 600 ml, muito difícil de ser encontrada. Há também as bebidas típicas, como as batidas de cupuaçu, graviola, taperebá e maracujá e os licores de jenipapo e açaí. A cerveja vem geladíssima e a casquinha, uma delícia. Nesse momento estou sozinho nas mesinhas que ficam na calçada. Mas observo o movimento do pé-sujo ao lado, com os moradores da área ainda comentando o justo e sofrido triunfo do meu Botafogo no campeonato carioca. (Apenas sorrio.)
Eis que chegam ao Arataca um casal e duas jovens amigas. Devido à proximidade, fico sabendo que eles vieram do Parque da Catacumba, na Lagoa, onde foi montado um circuito de aventura, com arvorismo, rapel, tirolesa e muro de escalada. Uau. Peço então outra cerveja (mudo para Bohemia) e bolinhos de pirarucu. Rapidamente, fico sabendo também que as amigas são mais que amigas. A mais velha, a mais falante, discorre sobre seus projetos ecológicos: “Para de pensar que aquele é o todo e passa a olhar ao redor...”
Os bolinhos de pirarucu, peixe do rio Amazonas, vêm bons, porém, confesso que já comi melhores em outras vindas aqui. Enquanto os degusto, surgem novos frequentadores. Dois homens e duas mulheres. Uma delas, muito simpática, conta: “Tenho uma amiga que é a pessoa mais simpática que conheço. O ladrão veio dar o bote e ela: ‘Ai, que susto!, achei que você ia me assaltar...’, deixando-o sem graça. Depois bateu um papo com ele, no final, disse tchau, valeu e ainda deu um dinheiro para o ônibus.” Desconfio que a simpática era ela mesma. Como diria o bardo Aldir Blanc, um dos ídolos dessa coluna, simpatia é quase amor.
Fecho meus pedidos com o ponto alto da comilança: a sopa de caranguejo. Forte, bem-servida, uma beleza. Faltou só dizer que na mesa da simpática havia a mulher loura com olhos de fofoca. Praticamente virou sua cadeira para a mesa das namoradas. Que feio. Eu, como voyeur de botequim, asseguro: ser discreto é fundamental. Saúde e até a próxima.
Arataca – Rua Domingos Ferreira, 41 B, Copacabana (2549-2076)
sexta-feira, 23 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Uma maratona com obstáculos
DE BAR EM BAR - Tropeço
Devo logo esclarecer que dessa vez foi praticamente uma maratona: seis horas de bar. A coluna, porém, quase não acontece. Combinei de ir ao botequim com um amigo que não mora no Rio. Era para termos nos encontrado na quarta-feira. Mas ele esqueceu, amigo leitor. Simplesmente esqueceu... Diante de tal tropeço, só me restou levá-lo, na sexta, ao novo bar do Leblon, cria do Degrau.
Fora o inacreditável esquecimento, Renato Salazar é um grande amigo. Tão amigo que somos compadres de mão dupla: eu sou padrinho de seu filho,Víni, e ele do meu Júlio. Estudamos juntos no Colégio Andrews. Somos de uma geração da tradicional escola de Botafogo que tem os músicos Roberto Frejat, Nilo Romero e Luce, o deputado Otávio Leite, o arquiteto João Uchoa, o ator Felipe Martins, o artista plástico Marcus André e outros menos conhecidos, mas não menos importantes na minha história pessoal.
Chegamos no Tropeço às seis da tarde. Conseguimos logo a melhor mesa, na beira da calçada. Uma frequentadora pagava sua conta e nos cedeu o lugar, não sem antes nos recomendar os pastéis da casa. Nem precisava tamanha delicadeza, pois os conheço bem – sou fã dos famosos pastéis do velho e bom Degrau. Mas, como já disse o compositor Aldir Blanc, o boteco “é o último reduto da gentileza.”
Pedimos o primeiro chope, enquanto meu amigo me fala de seu renovado amor à nossa cidade (submersa ou não). Surfista, biólogo e mestre em políticas públicas, Renato Salazar é daqueles cariocas com crachá e tudo, eternamente queimado de sol, mesmo tendo ido morar em Florianópolis, há 16 anos, em busca de uma vida mais pacata. Pergunto-lhe se ainda faz sentido a ideia de que Floripa seria um Rio de Janeiro da década de 1940. “Não, atualmente a distância diminuiu; seria como o Rio de 25 anos atrás.”
Lá pelo quinto chope, pedimos o Invocado (iscas de peixe com molho picante). Veio excelente a porção, saborosa e farta. Os outros petiscos do cardápio também levam títulos espirituosos, como Sirizinhos nada egoístas, Longe de casa, Vai dar samba e Camarões boêmios. Entre os pratos, pode-se degustar o risoto de tomate seco com camarões, nhoque de ricota, salmão ao molho de vinho, frango com catupiry e batata leonesa.
Lá pelo 10◦ chope, resolvo ir ao banheiro e é quando observo melhor a casa. São dois andares, com iluminação baixa, paredes amarelas com pôsteres de praia e fotos com situações como o “cofrinho” de fora, a saia presa na saída do banheiro e a alface no dente. Com tantas imagens sugestivas, pronto, eis que subindo os degraus para o reservado dou uma tropeçada, mas ainda bem que ninguém viu, ninguém soube.
Lá pelo 50◦ chope, chegam ao bar um amigo de Renato – Alfredo – e sua ex-namorada. Pedimos então os pastéis de camarão com shitake. Ótimos. A conversa toma outros rumos: falamos de astrologia e candidatos a presidente da República. Sinto que é a hora de tirar o time de campo. Quando já estou no táxi, Renato me liga para dizer que sua chave ficou na minha mochila. Ainda faltava o tropeço final. Saúde e até a próxima.
Tropeço – Avenida Ataulfo de Paiva, 517, lj A, Leblon (2239-3121)
Devo logo esclarecer que dessa vez foi praticamente uma maratona: seis horas de bar. A coluna, porém, quase não acontece. Combinei de ir ao botequim com um amigo que não mora no Rio. Era para termos nos encontrado na quarta-feira. Mas ele esqueceu, amigo leitor. Simplesmente esqueceu... Diante de tal tropeço, só me restou levá-lo, na sexta, ao novo bar do Leblon, cria do Degrau.
Fora o inacreditável esquecimento, Renato Salazar é um grande amigo. Tão amigo que somos compadres de mão dupla: eu sou padrinho de seu filho,Víni, e ele do meu Júlio. Estudamos juntos no Colégio Andrews. Somos de uma geração da tradicional escola de Botafogo que tem os músicos Roberto Frejat, Nilo Romero e Luce, o deputado Otávio Leite, o arquiteto João Uchoa, o ator Felipe Martins, o artista plástico Marcus André e outros menos conhecidos, mas não menos importantes na minha história pessoal.
Chegamos no Tropeço às seis da tarde. Conseguimos logo a melhor mesa, na beira da calçada. Uma frequentadora pagava sua conta e nos cedeu o lugar, não sem antes nos recomendar os pastéis da casa. Nem precisava tamanha delicadeza, pois os conheço bem – sou fã dos famosos pastéis do velho e bom Degrau. Mas, como já disse o compositor Aldir Blanc, o boteco “é o último reduto da gentileza.”
Pedimos o primeiro chope, enquanto meu amigo me fala de seu renovado amor à nossa cidade (submersa ou não). Surfista, biólogo e mestre em políticas públicas, Renato Salazar é daqueles cariocas com crachá e tudo, eternamente queimado de sol, mesmo tendo ido morar em Florianópolis, há 16 anos, em busca de uma vida mais pacata. Pergunto-lhe se ainda faz sentido a ideia de que Floripa seria um Rio de Janeiro da década de 1940. “Não, atualmente a distância diminuiu; seria como o Rio de 25 anos atrás.”
Lá pelo quinto chope, pedimos o Invocado (iscas de peixe com molho picante). Veio excelente a porção, saborosa e farta. Os outros petiscos do cardápio também levam títulos espirituosos, como Sirizinhos nada egoístas, Longe de casa, Vai dar samba e Camarões boêmios. Entre os pratos, pode-se degustar o risoto de tomate seco com camarões, nhoque de ricota, salmão ao molho de vinho, frango com catupiry e batata leonesa.
Lá pelo 10◦ chope, resolvo ir ao banheiro e é quando observo melhor a casa. São dois andares, com iluminação baixa, paredes amarelas com pôsteres de praia e fotos com situações como o “cofrinho” de fora, a saia presa na saída do banheiro e a alface no dente. Com tantas imagens sugestivas, pronto, eis que subindo os degraus para o reservado dou uma tropeçada, mas ainda bem que ninguém viu, ninguém soube.
Lá pelo 50◦ chope, chegam ao bar um amigo de Renato – Alfredo – e sua ex-namorada. Pedimos então os pastéis de camarão com shitake. Ótimos. A conversa toma outros rumos: falamos de astrologia e candidatos a presidente da República. Sinto que é a hora de tirar o time de campo. Quando já estou no táxi, Renato me liga para dizer que sua chave ficou na minha mochila. Ainda faltava o tropeço final. Saúde e até a próxima.
Tropeço – Avenida Ataulfo de Paiva, 517, lj A, Leblon (2239-3121)
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Quatro coisas sobre ela
O riso aberto de quem sabe tão cedo a sombra
metafísica e estética de um bar.
A pele morena dançando a urgência
da vida e do sexo.
A busca, essa eterna busca,
de algo que nunca virá.
O atalho temático de mar que estende
a curva até o céu.
metafísica e estética de um bar.
A pele morena dançando a urgência
da vida e do sexo.
A busca, essa eterna busca,
de algo que nunca virá.
O atalho temático de mar que estende
a curva até o céu.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Tem xinxim, acarajé e chope gelado
DE BAR EM BAR - Estação Baião de Dois
Dessa vez, amigo leitor, fui a um bar na sucursal do Nordeste que temos ali depois do túnel, no começo da Linha Vermelha, quebrando à direita. Cá estamos na tradicional feira de São Cristóvão. Filho de uma piauiense (com mineiro) que sou, sinto-me em casa entre zabumbas, sanfonas e chapéus de couro. Caruru, bobó, biju, xinxim de galhinha... Ó, xente!
Mas para falar a verdade, esse é um lugar tanto para emigrados que vieram trabalhar aqui (os nossos queridos paraíbas) quanto cariocas e turistas em geral – para quem tem intimidade ou não com a cultura nordestina. Poderia estar melhor cuidado o local? Poderia. Mas dá para se divertir.
Às seis da tarde de um sábado, faz um calor dos infernos por entre as vielas, cheias de pequenos bares, cada um com seu respectivo som a todo volume. (Fora o show que rola num palco no centro da feira.) É a maior balbúrdia, quase uma agressão sonora, mas não vi uma briga, uma confusão. Beleza.
Escolhi o Estação Baião de Dois para sentar pouso. Além do ar condicionado, é amplo e dá para observar bem o que se passa tanto no salão quanto na passarela que se forma lá fora. Me lembra até a rua das pedras de Búzios ambientada num sertão cinematográfico, se é que dá para me entender.
Peço logo um chope e uma porção de patinhas de caranguejo à vinagrete. Outras opções de petiscos: queijo coalho com melaço de cana, casquinha de siri, acarajé, bolinho de rã. Entre os pratos, a casa oferece galinha caipira ao molho pardo, sarapatel, buchada de bode, galo da feira e vaca atolada com pirão e arroz. As patinhas vieram ótimas. Só achei a porção um pouco pequena para o preço (R$ 35). Ainda mais se levando em conta que as porções dos pratos são bem fartas.
Mas (quase) tudo certo. Já que estamos aqui o melhor é curtir. Então vêm em série acarajé, caldinho e casquinha de siri. Cada um mais gostoso que o outro. Ah, sim, o chope, servido em caneca, é bem tirado e geladíssimo. Então peço mais um, enquanto observo a decoração da casa: o enorme salão, em branco e verde, possui quadros de praias nordestinas pelas paredes. Em volta delas, há cajueiros cenográficos com frutas de plástico pendurados. No centro do salão, abóboras e cana-de-açúcar.
Olho para o meu vizinho do lado. É um senhor careca, que parece o escritor inglês Nick Hornby (autor de Alta fidelidade e Um grande garoto que viraram filmes de sucesso). Ele está com a esposa. Bebem uma cachacinha, passam para o chope e depois arrematam com uma carne de sol e aipim frito. O verdadeiro, o inglês, além de ótimo escritor, é um cara que adora futebol e música. Grande Nick.
O Nick de São Cristóvão e sua esposa falam sobre o vestibular do filho e escolha de profissão. Fazer escolhas pode ser um drama. (Às vezes é difícil optar entre um caldinho de camarão e um de feijão-de-corda, o que dirá escolher uma profissão para a vida toda.) Mas, no meu caso, fiz bem vir em vir ao Estação Baião de Dois. Fica para uma outra oportunidade a visita a um boteco carioca do Nordeste mais profundo. Saúde e até a próxima.
Estação Baião de Dois – Av. Nordeste, lj 46, Feira de São Cristóvão (3860-3296)
Dessa vez, amigo leitor, fui a um bar na sucursal do Nordeste que temos ali depois do túnel, no começo da Linha Vermelha, quebrando à direita. Cá estamos na tradicional feira de São Cristóvão. Filho de uma piauiense (com mineiro) que sou, sinto-me em casa entre zabumbas, sanfonas e chapéus de couro. Caruru, bobó, biju, xinxim de galhinha... Ó, xente!
Mas para falar a verdade, esse é um lugar tanto para emigrados que vieram trabalhar aqui (os nossos queridos paraíbas) quanto cariocas e turistas em geral – para quem tem intimidade ou não com a cultura nordestina. Poderia estar melhor cuidado o local? Poderia. Mas dá para se divertir.
Às seis da tarde de um sábado, faz um calor dos infernos por entre as vielas, cheias de pequenos bares, cada um com seu respectivo som a todo volume. (Fora o show que rola num palco no centro da feira.) É a maior balbúrdia, quase uma agressão sonora, mas não vi uma briga, uma confusão. Beleza.
Escolhi o Estação Baião de Dois para sentar pouso. Além do ar condicionado, é amplo e dá para observar bem o que se passa tanto no salão quanto na passarela que se forma lá fora. Me lembra até a rua das pedras de Búzios ambientada num sertão cinematográfico, se é que dá para me entender.
Peço logo um chope e uma porção de patinhas de caranguejo à vinagrete. Outras opções de petiscos: queijo coalho com melaço de cana, casquinha de siri, acarajé, bolinho de rã. Entre os pratos, a casa oferece galinha caipira ao molho pardo, sarapatel, buchada de bode, galo da feira e vaca atolada com pirão e arroz. As patinhas vieram ótimas. Só achei a porção um pouco pequena para o preço (R$ 35). Ainda mais se levando em conta que as porções dos pratos são bem fartas.
Mas (quase) tudo certo. Já que estamos aqui o melhor é curtir. Então vêm em série acarajé, caldinho e casquinha de siri. Cada um mais gostoso que o outro. Ah, sim, o chope, servido em caneca, é bem tirado e geladíssimo. Então peço mais um, enquanto observo a decoração da casa: o enorme salão, em branco e verde, possui quadros de praias nordestinas pelas paredes. Em volta delas, há cajueiros cenográficos com frutas de plástico pendurados. No centro do salão, abóboras e cana-de-açúcar.
Olho para o meu vizinho do lado. É um senhor careca, que parece o escritor inglês Nick Hornby (autor de Alta fidelidade e Um grande garoto que viraram filmes de sucesso). Ele está com a esposa. Bebem uma cachacinha, passam para o chope e depois arrematam com uma carne de sol e aipim frito. O verdadeiro, o inglês, além de ótimo escritor, é um cara que adora futebol e música. Grande Nick.
O Nick de São Cristóvão e sua esposa falam sobre o vestibular do filho e escolha de profissão. Fazer escolhas pode ser um drama. (Às vezes é difícil optar entre um caldinho de camarão e um de feijão-de-corda, o que dirá escolher uma profissão para a vida toda.) Mas, no meu caso, fiz bem vir em vir ao Estação Baião de Dois. Fica para uma outra oportunidade a visita a um boteco carioca do Nordeste mais profundo. Saúde e até a próxima.
Estação Baião de Dois – Av. Nordeste, lj 46, Feira de São Cristóvão (3860-3296)
sábado, 27 de março de 2010
O passado
“Mesmo o passado se faz às vezes tão presente que já nem sei se fui ou se sou, tenho que buscar o espelho para encontrar o momento exato e, nele, a minha face: se tenho mesmo esta barba ou se a uso apenas como disfarce, como fazia em criança ou como faz a criança dentro de mim.”
(Campos de Carvalho, A chuva imóvel)
(Campos de Carvalho, A chuva imóvel)
sexta-feira, 19 de março de 2010
Perdão para essas pessoas ruins
DE BAR EM BAR - Estação Largo do Machado
Três amigos conversam no balcão. O papo ainda é aquele que tem movimentado a cidade nesses últimos dias:
– Ele vai casar com a loura. Só não sabe se é com a mulher ou com a cerveja.
– O cara não pode se entregar.
– Isso pra virar corno é rápido!
– Faz besteira e depois fica deprimido...
– Não é só bebida não.
– Eu ouvi dizer que é só manguaça.
– Eu acho que ele bota o nariz. Quando ele chega no morro é escoltado pelos vagabundos. Dois dias fora do ar.
– Dunga tá com muito medo.
– E o Ronaldinho Gaúcho?
– Pode jogar agora mais que Pelé. Dunga perdeu a confiança. Ele deu uma festa de três dias num hotel.
– Essa grana toda que rola é que prejudica esses caras. Olha só o professor universitário que estuda à beça e não ganha nada.
– Mas o futebol é uma espécie de arte.
– Tem jogador da seleção que na minha pelada não ia nem ser escolhido. Hoje tem só um ou outro craque, o resto é tudo igual. O próprio Adriano é bom jogador, mas não é craque.
– Ronaldinho Gaúcho é craque.
– O que ele faz é palhaçada com a bola. Craque era o Zico.
Fui ao Estação do Largo do Machado e o assunto em questão vai perdurar até a convocação, em maio, da seleção brasileira para a Copa. Quando cheguei, por volta das 19 horas, o bar estava cheio, havia apenas uma mesa livre, perto do balcão, esperando por mim.
Sento-me e peço o primeiro chope. O Estação fica numa das pontas do Largo do Machado. É um trecho em que se observam os carros e ônibus vindos da Lapa pela rua Bento Lisboa em direção ao bairro das Laranjeiras. Há muitas buzinas. Em frente, um resquício de calma no canto da praça, com aposentados jogando baralho. À minha direita, a igreja Nossa Senhora da Glória.
Nas outras mesas, casais, duplas de amigos e alguns solitários: além de mim, uma senhora falando no celular e uma mulher gorda jovem, de rosto bonito e fumando sem parar, repara em tudo à sua volta com olhos salientes. Peço uma porção de tremoços.
Além dos tremoços, que vieram sem muita emoção, há os seguintes aperitivos: salaminho, jiló, picanha suína fatiada, costelinha de porco com aipim frito, pastéis, bolinho de bacalhau. A casa oferece também pratos como: filé à piamontesa, medalhão de chester com arroz e purê e truta grelhada. Na parte interna, algumas pessoas jantam no salão refrigerado.
Peço ao eficiente e discreto garçom mais um chope e uma sugestão:
– Leão Veloso ou creme de palmito? (Para quem não sabe, sou fanático por palmito.)
– Leão Veloso é mais forte, senhor.
– Uma tigela de Leão Veloso então, por favor.
Volto-me novamente para o monotemático balcão e a língua maldita do boteco.
– Joga bola?
– Futebol hoje é esporte violento. Dou uma caminhada e quando estou me sentindo muito bem arrisco uma corridinha.
– Mas não com esse sol, né.
A tigelinha veio ok. Apesar da região movimentada e de passagem, o local do Estação Largo do Machado é um recuo no caos. E o bar é simples e honesto. Tem hora que não precisa mais do que isso. Saúde e até a próxima.
Estação Largo do Machado – Rua Bento Lisboa, 184, Largo do Machado (2508-7180)
Três amigos conversam no balcão. O papo ainda é aquele que tem movimentado a cidade nesses últimos dias:
– Ele vai casar com a loura. Só não sabe se é com a mulher ou com a cerveja.
– O cara não pode se entregar.
– Isso pra virar corno é rápido!
– Faz besteira e depois fica deprimido...
– Não é só bebida não.
– Eu ouvi dizer que é só manguaça.
– Eu acho que ele bota o nariz. Quando ele chega no morro é escoltado pelos vagabundos. Dois dias fora do ar.
– Dunga tá com muito medo.
– E o Ronaldinho Gaúcho?
– Pode jogar agora mais que Pelé. Dunga perdeu a confiança. Ele deu uma festa de três dias num hotel.
– Essa grana toda que rola é que prejudica esses caras. Olha só o professor universitário que estuda à beça e não ganha nada.
– Mas o futebol é uma espécie de arte.
– Tem jogador da seleção que na minha pelada não ia nem ser escolhido. Hoje tem só um ou outro craque, o resto é tudo igual. O próprio Adriano é bom jogador, mas não é craque.
– Ronaldinho Gaúcho é craque.
– O que ele faz é palhaçada com a bola. Craque era o Zico.
Fui ao Estação do Largo do Machado e o assunto em questão vai perdurar até a convocação, em maio, da seleção brasileira para a Copa. Quando cheguei, por volta das 19 horas, o bar estava cheio, havia apenas uma mesa livre, perto do balcão, esperando por mim.
Sento-me e peço o primeiro chope. O Estação fica numa das pontas do Largo do Machado. É um trecho em que se observam os carros e ônibus vindos da Lapa pela rua Bento Lisboa em direção ao bairro das Laranjeiras. Há muitas buzinas. Em frente, um resquício de calma no canto da praça, com aposentados jogando baralho. À minha direita, a igreja Nossa Senhora da Glória.
Nas outras mesas, casais, duplas de amigos e alguns solitários: além de mim, uma senhora falando no celular e uma mulher gorda jovem, de rosto bonito e fumando sem parar, repara em tudo à sua volta com olhos salientes. Peço uma porção de tremoços.
Além dos tremoços, que vieram sem muita emoção, há os seguintes aperitivos: salaminho, jiló, picanha suína fatiada, costelinha de porco com aipim frito, pastéis, bolinho de bacalhau. A casa oferece também pratos como: filé à piamontesa, medalhão de chester com arroz e purê e truta grelhada. Na parte interna, algumas pessoas jantam no salão refrigerado.
Peço ao eficiente e discreto garçom mais um chope e uma sugestão:
– Leão Veloso ou creme de palmito? (Para quem não sabe, sou fanático por palmito.)
– Leão Veloso é mais forte, senhor.
– Uma tigela de Leão Veloso então, por favor.
Volto-me novamente para o monotemático balcão e a língua maldita do boteco.
– Joga bola?
– Futebol hoje é esporte violento. Dou uma caminhada e quando estou me sentindo muito bem arrisco uma corridinha.
– Mas não com esse sol, né.
A tigelinha veio ok. Apesar da região movimentada e de passagem, o local do Estação Largo do Machado é um recuo no caos. E o bar é simples e honesto. Tem hora que não precisa mais do que isso. Saúde e até a próxima.
Estação Largo do Machado – Rua Bento Lisboa, 184, Largo do Machado (2508-7180)
segunda-feira, 15 de março de 2010
Mea culpa de Nick
Há poucas semanas expus aqui uma pequena teoria do escritor Nick Hornby que dizia respeito à superioridade da literatura, como numa luta de boxe, sobre qualquer outra forma de arte. Mas a ideia foi rapidinho desbancada pelo próprio autor:
“Mês passado falei bastante sobre como os livros eram melhores do que qualquer coisa – como um livro decente ganharia de qualquer coisa, qualquer filme, pintura ou música com que nos déssemos ao trabalho de comparar. (...). Li quatro livros muito bons este mês, só que, mesmo assim, meus destaques culturais das últimas quatro semanas não foram literários. Fui a duas exposições maravilhosas na Royal Academy; vi Reyes marcar seu primeiro gol pelo Arsenal contra o Chelsea; e alguém me enviou um drible da mais alta qualidade marcado pelo Springsteen, um show de 1975, e um cover de 'I want you'. Como eu disse, adorei os livros que li este mês, mas quando Reyes fez aquela bola tocar no fundo da rede, subi pelos ares. Bem, [o livro de] Patrick Hamilton não me fez sequer mover os pés. Fiquei sentado grande parte do tempo. Então voltemos às vacas frias. Livros: muito bom, mas não tão bom quanto as outras coisas, tipo gols ou dribles.”
(Nick Hornby, Frenesi Polissilábico, p. 69-70)
“Mês passado falei bastante sobre como os livros eram melhores do que qualquer coisa – como um livro decente ganharia de qualquer coisa, qualquer filme, pintura ou música com que nos déssemos ao trabalho de comparar. (...). Li quatro livros muito bons este mês, só que, mesmo assim, meus destaques culturais das últimas quatro semanas não foram literários. Fui a duas exposições maravilhosas na Royal Academy; vi Reyes marcar seu primeiro gol pelo Arsenal contra o Chelsea; e alguém me enviou um drible da mais alta qualidade marcado pelo Springsteen, um show de 1975, e um cover de 'I want you'. Como eu disse, adorei os livros que li este mês, mas quando Reyes fez aquela bola tocar no fundo da rede, subi pelos ares. Bem, [o livro de] Patrick Hamilton não me fez sequer mover os pés. Fiquei sentado grande parte do tempo. Então voltemos às vacas frias. Livros: muito bom, mas não tão bom quanto as outras coisas, tipo gols ou dribles.”
(Nick Hornby, Frenesi Polissilábico, p. 69-70)
sexta-feira, 5 de março de 2010
Com crédito, apesar de tudo
DE BAR EM BAR - Adega do Pimenta
Tenho sido um pouco relapso com alguns de meus bons amigos. Além da vida itinerante de bar em bar, ando mergulhado na criação de uma história para um segundo romance. Sei, claro, que a eterna falta de tempo não é uma condição exclusivamente minha. E por mais que a correria cotidiana seja um fenômeno identificado com a contemporaneidade, isso também não vem de hoje. Vejamos, por exemplo, o que dizia, há 150 anos, Tolstoi em sua monumental obra Guerra e Paz:
"À noite, ao chegar em casa, anotava as quatro ou cinco visitas ou encontros obrigatórios de hora marcada. O mecanismo da vida, a melhor maneira de dispor do tempo, absorviam a maior parte de sua energia. Não fazia nada, não pensava em nada e nunca tinha tempo."
Então, depois de ter furado vergonhosamente alguns encontros, fui dessa vez com meu amigo e consultor para bares no Centro e adjacências, Marcos André Góes, o vulgo Dudu, à Adega do Pimenta. Portanto numa terça-feira dessas pegamos o bondinho e subimos para Santa Teresa. Não é novidade para ninguém que o calor anda infernal. Mas me surpreendi com a temperatura de sauna às 19 horas, até no bucólico bairro.
A Adega estava vazia. Ou melhor, tinha apenas uma mesa ocupada com uma menina de óculos que tomava uma cerveja long neck. (Depois apareceu um gringo para jantar.) Ficamos numa mesa encostada na parede, perto da porta da rua. O pequeno bar é simpaticamente decorado com bricabraques e referências etílicas, como canecas, garrafas, matérias emolduradas sobre a casa, pôsteres e até notas de dinheiro de várias partes do mundo.
Como chegamos esfomeados, junto com o primeiro chope pedimos logo dois croquetes de carne. Vieram ótimos, tanto o bem tirado chope da Brahma quanto os petiscos. Embora o nome da casa possa sugerir uma procedência portuguesa, a especialidade aqui é a cozinha alemã (“Pimenta”, me ensina o Dudu, vem de Pfeffer, o primeiro dono, um alemão).
Outras opções do cardápio: língua com aspargos, truta com molho de mostarda, rollmops e filé de arenque. E também os pratos: kassler, eisben, goulash, pato ou coelho assado e joelho defumado. Aos finais de semana é servida uma feijoada alemã (com feijão branco, kassler, salsicha branca, lombo, batata, cenoura e arroz). Além do chope claro, tem ainda o escuro e bebidas diversas como o clássico steinhager.
Estava tudo bem (inclusive o som ambiente perfeito) até pedirmos um salsichão defumado. Veio saboroso, porém excessivamente apimentado. Só então descobrimos que o ar condicionado não estava ligado e, como apenas os ventiladores da casa não davam vazão aos calores internos e externo, tivemos de fazer o pedido óbvio. Francamente.
Em seguida, escolhi um steak tartar (carne crua temperada). Mais uma vez não demos sorte – estava muito salgado. Dudu suava em bicas. Decidimos pedir a conta. Com uma certa tristeza, digo que a Adega do Pimenta dessa vez não foi bem aquilo que esperava. Mas não há de ser nada. A casa tem crédito: já estivera aqui antes e tudo saíra às mil maravilhas. Saúde e até a próxima.
Adega do Pimenta – Rua Almirante Alexandrino, 296, Santa Teresa (2242-4530)
Tenho sido um pouco relapso com alguns de meus bons amigos. Além da vida itinerante de bar em bar, ando mergulhado na criação de uma história para um segundo romance. Sei, claro, que a eterna falta de tempo não é uma condição exclusivamente minha. E por mais que a correria cotidiana seja um fenômeno identificado com a contemporaneidade, isso também não vem de hoje. Vejamos, por exemplo, o que dizia, há 150 anos, Tolstoi em sua monumental obra Guerra e Paz:
"À noite, ao chegar em casa, anotava as quatro ou cinco visitas ou encontros obrigatórios de hora marcada. O mecanismo da vida, a melhor maneira de dispor do tempo, absorviam a maior parte de sua energia. Não fazia nada, não pensava em nada e nunca tinha tempo."
Então, depois de ter furado vergonhosamente alguns encontros, fui dessa vez com meu amigo e consultor para bares no Centro e adjacências, Marcos André Góes, o vulgo Dudu, à Adega do Pimenta. Portanto numa terça-feira dessas pegamos o bondinho e subimos para Santa Teresa. Não é novidade para ninguém que o calor anda infernal. Mas me surpreendi com a temperatura de sauna às 19 horas, até no bucólico bairro.
A Adega estava vazia. Ou melhor, tinha apenas uma mesa ocupada com uma menina de óculos que tomava uma cerveja long neck. (Depois apareceu um gringo para jantar.) Ficamos numa mesa encostada na parede, perto da porta da rua. O pequeno bar é simpaticamente decorado com bricabraques e referências etílicas, como canecas, garrafas, matérias emolduradas sobre a casa, pôsteres e até notas de dinheiro de várias partes do mundo.
Como chegamos esfomeados, junto com o primeiro chope pedimos logo dois croquetes de carne. Vieram ótimos, tanto o bem tirado chope da Brahma quanto os petiscos. Embora o nome da casa possa sugerir uma procedência portuguesa, a especialidade aqui é a cozinha alemã (“Pimenta”, me ensina o Dudu, vem de Pfeffer, o primeiro dono, um alemão).
Outras opções do cardápio: língua com aspargos, truta com molho de mostarda, rollmops e filé de arenque. E também os pratos: kassler, eisben, goulash, pato ou coelho assado e joelho defumado. Aos finais de semana é servida uma feijoada alemã (com feijão branco, kassler, salsicha branca, lombo, batata, cenoura e arroz). Além do chope claro, tem ainda o escuro e bebidas diversas como o clássico steinhager.
Estava tudo bem (inclusive o som ambiente perfeito) até pedirmos um salsichão defumado. Veio saboroso, porém excessivamente apimentado. Só então descobrimos que o ar condicionado não estava ligado e, como apenas os ventiladores da casa não davam vazão aos calores internos e externo, tivemos de fazer o pedido óbvio. Francamente.
Em seguida, escolhi um steak tartar (carne crua temperada). Mais uma vez não demos sorte – estava muito salgado. Dudu suava em bicas. Decidimos pedir a conta. Com uma certa tristeza, digo que a Adega do Pimenta dessa vez não foi bem aquilo que esperava. Mas não há de ser nada. A casa tem crédito: já estivera aqui antes e tudo saíra às mil maravilhas. Saúde e até a próxima.
Adega do Pimenta – Rua Almirante Alexandrino, 296, Santa Teresa (2242-4530)
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Uma pequena teoria sobre a verdade
(Perfeita para políticos que usam cuecas, meias e panetones para outros fins):
“A verdade pode encontrar uma maneira terrível de ser muito engraçada, especialmente quando se trata de ganância e hipocrisia.”
(Kurt Vonnegut, Hócus Pócus)
“A verdade pode encontrar uma maneira terrível de ser muito engraçada, especialmente quando se trata de ganância e hipocrisia.”
(Kurt Vonnegut, Hócus Pócus)
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Um mexicano sem dramalhão
DE BAR EM BAR - Rota 66
Dessa vez fui na sequência a um segundo bar e é sobre ele a coluna de hoje. Depois de voltar do Aconchego Carioca, na Praça da Bandeira, que já estava quase fechando (mas ainda deu para aproveitar algumas de suas delícias, como a moquequinha de camarão com uma Original geladíssima) – isso no mesmo dia em que o bar coirmão Petit Paulette, na mesma rua, do artista-cozinheiro Paulo Barbosa, foi assaltado (força, Paulette).
Cometerei aqui uma brutal inconfidência, amigo leitor. O motivo da esticada foi que eu e S. precisávamos continuar a fazer o inventário de nossos humildes bens. Em resumo – para não entediá-lo –, continuamos nosso casamento, mas agora em casas separadas. Deu para entender? Portanto, embora não fosse o caso de nenhum dramalhão mexicano, fomos para o Rota 66, bar mexicano (ou tex-mex).
Atravessando o túnel e chegando na filial do Leblon, no início da Conde Bernardotte, no trecho onde há aquela grande concentração de bares, o ambiente estava tranquilo, medianamente ocupado. Uma mesa de família e outra de amigos vendo o futebol na TV no salão interno; na parte de fora, uma mesa grande de cinco ou seis mulheres e outra de uma dupla de amigas. Ou ex-amigas, pois elas discutiam asperamente e acabaram indo cada uma para um canto antes que chegasse o meu primeiro chope. (Raro ver bate-boca feminino no boteco... mas por que só nós teríamos o privilégio do mico?)
O bar é todo revestido de madeira. Nas pilastras e paredes, quadros de motos, de carros, de marcas de cerveja e, obviamente, de uma certa estrada. Digno de nota: um quadro enorme de um pára-choque de carro antigo na parede principal, à direita de quem entra no bar. No fundo, um bonito balcão. Mas nos sentamos na parte externa, de frente para a calçada. Para acompanhar o chope, pedimos um combo mex, que vem a ser tortillas com os molhos: sour cream, guacamole, pico de galo (tomate e pimenta jalapeño) e chilli beans.
Outras pedidas do cardápio: super nachos, flauta (rolinhos de tortilla recheados), linguiça flambada na tequila. E os pratos enchilada, quesadillas e burritos. Para beber, claro, tequila, michelada (servida na caneca com sal na borda, cerveja, gelo e limão) e mais chope da Brahma, cervejas Bohemia, Stella Artois, Dos Equis, Sol e drinques variados. O tal combo mex veio ok, todos os molhos despertaram vivo interesse – e corresponderam.
Enquanto eu e S. conversávamos sobre certas medidas chatas mas necessárias – de forma amena, felizmente –, observei a mesa das cinco mulheres. “Arruma um namorado pra mim... eu vou achar maneiro!”, dizia uma delas, a mais jovem. Era, aliás, a que mais falava. Aparentemente a que teria maiores expectativas de encontros e de belas histórias com que sonhar. As outras, de longe (e talvez só de longe), mostravam-se práticas e decididas: “Ela me falou: ‘Muito apessoado...’ Que diabo é isso?!” Ah, o amor. Hoje o amor verdadeiro é produto em baixa no mercado das almas. Por isso, estamos aqui agora, nessa Rota 66 que, afinal de contas, cumpre o que promete. Ah, o amor... Saúde e até a próxima.
Rota 66 – Rua Conde Bernardotte, 26, lojas B e C, Leblon (2512-5961)
Dessa vez fui na sequência a um segundo bar e é sobre ele a coluna de hoje. Depois de voltar do Aconchego Carioca, na Praça da Bandeira, que já estava quase fechando (mas ainda deu para aproveitar algumas de suas delícias, como a moquequinha de camarão com uma Original geladíssima) – isso no mesmo dia em que o bar coirmão Petit Paulette, na mesma rua, do artista-cozinheiro Paulo Barbosa, foi assaltado (força, Paulette).
Cometerei aqui uma brutal inconfidência, amigo leitor. O motivo da esticada foi que eu e S. precisávamos continuar a fazer o inventário de nossos humildes bens. Em resumo – para não entediá-lo –, continuamos nosso casamento, mas agora em casas separadas. Deu para entender? Portanto, embora não fosse o caso de nenhum dramalhão mexicano, fomos para o Rota 66, bar mexicano (ou tex-mex).
Atravessando o túnel e chegando na filial do Leblon, no início da Conde Bernardotte, no trecho onde há aquela grande concentração de bares, o ambiente estava tranquilo, medianamente ocupado. Uma mesa de família e outra de amigos vendo o futebol na TV no salão interno; na parte de fora, uma mesa grande de cinco ou seis mulheres e outra de uma dupla de amigas. Ou ex-amigas, pois elas discutiam asperamente e acabaram indo cada uma para um canto antes que chegasse o meu primeiro chope. (Raro ver bate-boca feminino no boteco... mas por que só nós teríamos o privilégio do mico?)
O bar é todo revestido de madeira. Nas pilastras e paredes, quadros de motos, de carros, de marcas de cerveja e, obviamente, de uma certa estrada. Digno de nota: um quadro enorme de um pára-choque de carro antigo na parede principal, à direita de quem entra no bar. No fundo, um bonito balcão. Mas nos sentamos na parte externa, de frente para a calçada. Para acompanhar o chope, pedimos um combo mex, que vem a ser tortillas com os molhos: sour cream, guacamole, pico de galo (tomate e pimenta jalapeño) e chilli beans.
Outras pedidas do cardápio: super nachos, flauta (rolinhos de tortilla recheados), linguiça flambada na tequila. E os pratos enchilada, quesadillas e burritos. Para beber, claro, tequila, michelada (servida na caneca com sal na borda, cerveja, gelo e limão) e mais chope da Brahma, cervejas Bohemia, Stella Artois, Dos Equis, Sol e drinques variados. O tal combo mex veio ok, todos os molhos despertaram vivo interesse – e corresponderam.
Enquanto eu e S. conversávamos sobre certas medidas chatas mas necessárias – de forma amena, felizmente –, observei a mesa das cinco mulheres. “Arruma um namorado pra mim... eu vou achar maneiro!”, dizia uma delas, a mais jovem. Era, aliás, a que mais falava. Aparentemente a que teria maiores expectativas de encontros e de belas histórias com que sonhar. As outras, de longe (e talvez só de longe), mostravam-se práticas e decididas: “Ela me falou: ‘Muito apessoado...’ Que diabo é isso?!” Ah, o amor. Hoje o amor verdadeiro é produto em baixa no mercado das almas. Por isso, estamos aqui agora, nessa Rota 66 que, afinal de contas, cumpre o que promete. Ah, o amor... Saúde e até a próxima.
Rota 66 – Rua Conde Bernardotte, 26, lojas B e C, Leblon (2512-5961)
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Uma pequena teoria sobre livros
“Os livros são, sejamos realistas, melhores do que qualquer outra coisa. Se criássemos uma espécie de luta de boxe cultural e fizéssemos com que os livros disputassem 15 rounds no ringue contra o melhor que qualquer outra forma de arte tivesse para oferecer, então os livros não perderiam nenhuma partida. Pode verificar, se quiser. A flauta mágica versus Middlemarch: um estudo da vida provinciana? Middlemarch ganha de seis a zero. A última ceia versus Crime e castigo? Ponto para Dostoiévski. Está vendo aí? Não sei se isto é muito científico, mas parece que os romances estão ganhando disparado. É claro que há sempre algumas pequenas exceções – a canção Blonde on blonde pode dar um banho no livro A loja de antiguidades, por exemplo, e eu não apostaria muito em Fogo pálido contra Cidadão Kane. E volta e meia icaríamos chocados, pois isso acontece no mundo dos esportes, de forma que De volta para o futuro III poderia dar a sorte de acertar um soco bem na cara de Corre, coelho; mas, em 99 por cento dos casos, continuo torcendo para a literatura.”
(Nick Hornby, Frenesi Polissilábico)
(Nick Hornby, Frenesi Polissilábico)
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Três (ou mais) brindes a Juliana
DE BAR EM BAR - Bar Central da Ponte
Mal nos sentamos sob a marquise, o rapaz avisou:
- Tá gelada, mas só tem três.
Referia-se à pedida Brahma Extra. (Mas como assim? Eu e meu amigo por acaso temos escrito na testa: “Vou tomar todas!” ou “Pé-de-cana”?) De qualquer forma, o atendente, como se mostrou depois, foi atencioso com o freguês. E nós, a bem da verdade, passamos das três, fácil.
Fui ao bar dessa vez com o amigo Humberto Effe. Nós tínhamos combinado de tomar uma cerveja, após a gravação do seu programa na rádio Roquette Pinto, Sangue novo, do qual fui o convidado. Trata-se de um espaço valoroso numa rádio que vem se renovando. Levei os discos Canduras, de Qinho, um jovem talento carioca, e o recém-lançado Labirinto vertical, de Sérgio Serra, virtuoso guitarrista que tocou no Ultraje a Rigor e também com Lobão, Barão Vermelho e Cássia Eller. Serginho lançou um disco solo surpreendente, com boa poesia e ecos de MPB.
Inicialmente iríamos a um bar no Centro, perto da rádio. Mas como a sua filha Juliana estava prestes a nascer, Humberto pediu-me para irmos a um bar perto de sua casa – e perto de sua mulher Tininha, para estar pronto para qualquer eventualidade. Pedido que era, portanto, uma ordem inquestionável, das mais agradáveis de cumprir. Por isso, cá estamos no Bar Central da Ponte, na rua Jardim Botânico, quase em frente à vila onde ele mora.
Sobre o curioso nome do estabelecimento (“Central da Ponte”), como diria o jornalista e escritor Otto Lara Resende, cuja estátua fica num larguinho defronte ao bar (virando-se para a rua Pacheco Leão e o Jardim Botânico): “Sei alguns minutos de alguns assuntos. E não sei nada.” Confesso que não consigo ver a ligação do nome com o local. Mas isso não importa. O que vale é que o boteco é um pé-sujo dos melhores. (Ainda que tenha um banheiro igual ao da maioria.)
Sentamo-nos numa das mesinhas de madeira e toalha verde entre a estátua de Otto e os engradados na porta do bar. (Há bares temáticos, ou pé-limpos, que utilizam engradados como cenário; aqui é a vida real mesmo.) A cerveja veio geladíssima, fundamental no verão cada vez mais sufocante do nosso planetinha superaquecido. Além da Brahma Extra, a casa oferece Antarctica, Skol, Brahma, Itaipava e Bohemia. Para beliscar, há porções de pernil, queijo minas, salaminho e contrafilé. Pedimos a de queijo-de-minas, que veio excelente. Tanto que repetimos a dose, para acompanhar a cerveja, que passou a ser Bohemia. Entre os pratos, carne assada, rabada e mocotó.
Eu e Humberto conversamos sobre diversas coisas. O cantor e compositor do grupo Picassos Falsos é daqueles que têm a inteligência atenta aos detalhes. Falamos sobre a minissérie Dalva e Herivelto (“Herivelto não era aquele crápula que mostraram”), sobre o sambista Ismael Silva, sobre parceria (e o dia em que fomos à Vila Mimosa para conferir a verossimilhança de Vou à Vila, uma composição nossa, ainda inédita) e, claro, sobre filhos. Aliás, esta coluna publicada hoje quando Juliana já está bem aqui, neste mundo vasto mundo, é dedicada a ela. Saúde e até a próxima.
Bar Central da Ponte – Rua Jardim Botânico, 758, Jardim Botânico (2294-4295)
Mal nos sentamos sob a marquise, o rapaz avisou:
- Tá gelada, mas só tem três.
Referia-se à pedida Brahma Extra. (Mas como assim? Eu e meu amigo por acaso temos escrito na testa: “Vou tomar todas!” ou “Pé-de-cana”?) De qualquer forma, o atendente, como se mostrou depois, foi atencioso com o freguês. E nós, a bem da verdade, passamos das três, fácil.
Fui ao bar dessa vez com o amigo Humberto Effe. Nós tínhamos combinado de tomar uma cerveja, após a gravação do seu programa na rádio Roquette Pinto, Sangue novo, do qual fui o convidado. Trata-se de um espaço valoroso numa rádio que vem se renovando. Levei os discos Canduras, de Qinho, um jovem talento carioca, e o recém-lançado Labirinto vertical, de Sérgio Serra, virtuoso guitarrista que tocou no Ultraje a Rigor e também com Lobão, Barão Vermelho e Cássia Eller. Serginho lançou um disco solo surpreendente, com boa poesia e ecos de MPB.
Inicialmente iríamos a um bar no Centro, perto da rádio. Mas como a sua filha Juliana estava prestes a nascer, Humberto pediu-me para irmos a um bar perto de sua casa – e perto de sua mulher Tininha, para estar pronto para qualquer eventualidade. Pedido que era, portanto, uma ordem inquestionável, das mais agradáveis de cumprir. Por isso, cá estamos no Bar Central da Ponte, na rua Jardim Botânico, quase em frente à vila onde ele mora.
Sobre o curioso nome do estabelecimento (“Central da Ponte”), como diria o jornalista e escritor Otto Lara Resende, cuja estátua fica num larguinho defronte ao bar (virando-se para a rua Pacheco Leão e o Jardim Botânico): “Sei alguns minutos de alguns assuntos. E não sei nada.” Confesso que não consigo ver a ligação do nome com o local. Mas isso não importa. O que vale é que o boteco é um pé-sujo dos melhores. (Ainda que tenha um banheiro igual ao da maioria.)
Sentamo-nos numa das mesinhas de madeira e toalha verde entre a estátua de Otto e os engradados na porta do bar. (Há bares temáticos, ou pé-limpos, que utilizam engradados como cenário; aqui é a vida real mesmo.) A cerveja veio geladíssima, fundamental no verão cada vez mais sufocante do nosso planetinha superaquecido. Além da Brahma Extra, a casa oferece Antarctica, Skol, Brahma, Itaipava e Bohemia. Para beliscar, há porções de pernil, queijo minas, salaminho e contrafilé. Pedimos a de queijo-de-minas, que veio excelente. Tanto que repetimos a dose, para acompanhar a cerveja, que passou a ser Bohemia. Entre os pratos, carne assada, rabada e mocotó.
Eu e Humberto conversamos sobre diversas coisas. O cantor e compositor do grupo Picassos Falsos é daqueles que têm a inteligência atenta aos detalhes. Falamos sobre a minissérie Dalva e Herivelto (“Herivelto não era aquele crápula que mostraram”), sobre o sambista Ismael Silva, sobre parceria (e o dia em que fomos à Vila Mimosa para conferir a verossimilhança de Vou à Vila, uma composição nossa, ainda inédita) e, claro, sobre filhos. Aliás, esta coluna publicada hoje quando Juliana já está bem aqui, neste mundo vasto mundo, é dedicada a ela. Saúde e até a próxima.
Bar Central da Ponte – Rua Jardim Botânico, 758, Jardim Botânico (2294-4295)
sábado, 30 de janeiro de 2010
simples(mente)
O ser humano é tão ridículo
E bonito
Sendo só o que é
Sem amarras
Nem holofote algum.
A barba perto do olho.
E bonito
Sendo só o que é
Sem amarras
Nem holofote algum.
A barba perto do olho.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Argentino de fé, irmão camarada
DE BAR EM BAR - Popeye
Como já havia tempo que não aparecia por aqui um convidado, volto a fazer uma coluna com um amigo de fé, irmão camarada. Dessa vez fui ao bar com o meu mui amigo Federico Bardini, de férias no Rio. Pegamos o metrô ao anoitecer na Siqueira Campos e saltamos com o céu desabando na recém-inaugurada estação de Ipanema. Iríamos a um quiosque na praia e tivemos de mudar os planos. Fomos então ao Popeye, pé-sujo clássico na Visconde Pirajá. Posso garantir, amigo leitor, que não foi em vão.
A casa já estava cheia. Na frente, encostada no balcão, a velha guarda, a galera que bate o ponto; nos fundos, a turma do trabalho, sentada em banquinhos; e no meio, em pé, dois gringos, eu e Federico. Aliás, três. Federico é argentino. Ou melhor: dois gringos e meio. Pois o editor de cinema, TV e vídeo Federico é metade carioca. Morou aqui muitos anos (onde foi coordenador do curso de cinema da faculdade Estácio de Sá), é casado com a bela carioca Aline, e tem um filho igualmente belo e brasileirinho, Geovani, com dois anos. Tudo isso, claro, não impede que tenhamos a rivalidade à flor da pele e altos embates sobre futebol.
Pedimos um chope para começar. Encostados na parede azulejada em azul-escuro do corredor, nem sabemos mais do tempo lá fora. O que sei é que na parte de cima da parede, pintada de amarelo, vêem-se imagens dos personagens do universo de Popeye: o próprio, Olívia Palito, Brutus e o bebê irmão de Olívia. Ao pedirmos o segundo chope, bate a fome. Eis os petiscos oferecidos num cartaz: churrasquinho, fritas, linguiça, moela, feijão amigo e sardinha. Mas reparo num freguês comendo um bolinho de bacalhau com o maior gosto. Peço um e Federico escolhe uma sardinha frita. Bem feitos e sequinhos, os dois petiscos estavam ótimos. Assim como o chope tirado pelo simpático Francisco. Mais dois, Chico.
Na enorme TV atrás do balcão o assunto também é futebol. Primeiro, uma matéria com Loco Abreu, uruguaio contratado pelo meu Botafogo, e que já jogou pelo River Plate, de Federico. Ele faz elogios ao jogador (“tem presença de área, é artilheiro”), mas acha que deve ficar pouco tempo (“No River ficou só seis meses e depois foi atrás de mais grana no México”). Bem, vamos ver. Só espero que o alvinegro, de tantas glórias, não dê continuidade ao processo de se apequenar, contentando-se mais uma vez em apenas não ser rebaixado.
Em seguida, como se estivesse combinado, surge na TV o célebre gol de mão de Maradona contra a Inglaterra, em 1986. Federico diz que o Brasil está muito forte hoje. Eu retruco que a Argentina veio mal nas eliminatórias, mas na Copa é um perigo e com Maradona, agora técnico, tudo pode acontecer. Falamos depois do tempo em que fomos vizinhos e também da viagem que fizemos a Cuba com outro amigo, o Pequinho. Bons tempos. Para comemorar, enfileiramos pastéis, porções de fritas e de provolone e algumas saideiras. Grande pé-sujo, o Popeye. Ainda fumamos pela noite um autêntico charuto Cohiba e demos um mergulho no mar. Tudo certo. E que na Copa de 2010 vença o melhor – o Brasil, claro. Saúde e até a próxima.
Popeye – Rua Visconde Pirajá, 181, Ipanema
Como já havia tempo que não aparecia por aqui um convidado, volto a fazer uma coluna com um amigo de fé, irmão camarada. Dessa vez fui ao bar com o meu mui amigo Federico Bardini, de férias no Rio. Pegamos o metrô ao anoitecer na Siqueira Campos e saltamos com o céu desabando na recém-inaugurada estação de Ipanema. Iríamos a um quiosque na praia e tivemos de mudar os planos. Fomos então ao Popeye, pé-sujo clássico na Visconde Pirajá. Posso garantir, amigo leitor, que não foi em vão.
A casa já estava cheia. Na frente, encostada no balcão, a velha guarda, a galera que bate o ponto; nos fundos, a turma do trabalho, sentada em banquinhos; e no meio, em pé, dois gringos, eu e Federico. Aliás, três. Federico é argentino. Ou melhor: dois gringos e meio. Pois o editor de cinema, TV e vídeo Federico é metade carioca. Morou aqui muitos anos (onde foi coordenador do curso de cinema da faculdade Estácio de Sá), é casado com a bela carioca Aline, e tem um filho igualmente belo e brasileirinho, Geovani, com dois anos. Tudo isso, claro, não impede que tenhamos a rivalidade à flor da pele e altos embates sobre futebol.
Pedimos um chope para começar. Encostados na parede azulejada em azul-escuro do corredor, nem sabemos mais do tempo lá fora. O que sei é que na parte de cima da parede, pintada de amarelo, vêem-se imagens dos personagens do universo de Popeye: o próprio, Olívia Palito, Brutus e o bebê irmão de Olívia. Ao pedirmos o segundo chope, bate a fome. Eis os petiscos oferecidos num cartaz: churrasquinho, fritas, linguiça, moela, feijão amigo e sardinha. Mas reparo num freguês comendo um bolinho de bacalhau com o maior gosto. Peço um e Federico escolhe uma sardinha frita. Bem feitos e sequinhos, os dois petiscos estavam ótimos. Assim como o chope tirado pelo simpático Francisco. Mais dois, Chico.
Na enorme TV atrás do balcão o assunto também é futebol. Primeiro, uma matéria com Loco Abreu, uruguaio contratado pelo meu Botafogo, e que já jogou pelo River Plate, de Federico. Ele faz elogios ao jogador (“tem presença de área, é artilheiro”), mas acha que deve ficar pouco tempo (“No River ficou só seis meses e depois foi atrás de mais grana no México”). Bem, vamos ver. Só espero que o alvinegro, de tantas glórias, não dê continuidade ao processo de se apequenar, contentando-se mais uma vez em apenas não ser rebaixado.
Em seguida, como se estivesse combinado, surge na TV o célebre gol de mão de Maradona contra a Inglaterra, em 1986. Federico diz que o Brasil está muito forte hoje. Eu retruco que a Argentina veio mal nas eliminatórias, mas na Copa é um perigo e com Maradona, agora técnico, tudo pode acontecer. Falamos depois do tempo em que fomos vizinhos e também da viagem que fizemos a Cuba com outro amigo, o Pequinho. Bons tempos. Para comemorar, enfileiramos pastéis, porções de fritas e de provolone e algumas saideiras. Grande pé-sujo, o Popeye. Ainda fumamos pela noite um autêntico charuto Cohiba e demos um mergulho no mar. Tudo certo. E que na Copa de 2010 vença o melhor – o Brasil, claro. Saúde e até a próxima.
Popeye – Rua Visconde Pirajá, 181, Ipanema
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Garçom, uma 'champanhota'
DE BAR EM BAR - Boteco da Garrafa
Nesta primeira coluna do ano resolvi fazer completamente diferente. (Calma, amigo leitor: não deixei de ir ao botequim, nem, muito menos, saí nu por aí.) Ao invés dos sempiternos chope e cerveja, que fielmente me acompanham, fui dessa vez de champanhota – como diria o velho cronista social. Para brindar ao novo e, quem sabe, a dias melhores.
Para isso, fui com S. ao Boteco da Garrafa, em Copa, naquela confluência de bares nas esquinas de Domingos Ferreira com Bolívar e desta com Aires Saldanha. Não seria o lugar ideal para beber um espumante, pois a garrafa em questão, em que o bar se propõe a ser especialista, é outra, claro. Mas tudo bem. Faz calor nessa tarde ensolarada de domingo sem futebol. Vamos nessa.
O bar exibe em suas paredes fotos em montagem de artistas de cinema com marcas de cerveja. Tem também imagens do Rio antigo. Tudo em preto e branco. Em volta de um imponente balcão, no canto esquerdo de quem entra, há cadeiras altas, para solitários e bons observadores. No pequeno salão, eu e S. pegamos uma mesa na janela, de frente para a Bolívar, de um casal que acaba de sair.
Peço de cara uma cerveja Serra Malte e uma porção de polenta. A ótima cerveja Serra Malte poderia estar um pouco mais gelada. Outras marcas no cardápio: Bohemia, Quilmes, Stella Artois, Beck´s, Original, Leffe, Norteña, Franziskaner. Alguns outros acepipes: moela marinada, espetinhos (mix de frutos do mar, frango com gengibre), costelinha de porco com molho barbecue, pastéis (salmão defumado com brócolis, peito de peru com ricota, carne seca com catupiry). A polenta veio ok.
Mas eis que é chegada a hora de entrar no capítulo espumante. A casa oferece o drinque Kir Royal, com espumante e licor de cassis. A R$ 18 reais cada taça. S. resolve experimentar, mas veio quente. Pergunto ao garçom quanto seria logo a garrafa do espumante (que não consta do cardápio). Apesar do preço alto, ainda valeu a pena o negócio. Em alguns minutos, estava encostado na minha mesa um carrinho com um balde com muito gelo e uma garrafa de Chandon Reserve Brut (perdão, Lalas.)
Quando pensei que tudo seria romance, e eu, um rei de Copacabana, chega ao bar um trio espantosamente nuvem-negra para se aboletar próximo ao meu ex-futuro reino. Uma amiga e um casal de jovens sem noção. Arrogantes, falam alto, se acham, riem como hienas. “Faz um are-rê”, grita a esposa para o marido ao seu lado. Este levanta os dois braços e os agita para chamar o garçom. “Este copo está sujo de batom e, como você pode ver, aqui ninguém usa batom.” A amiga, enquanto isso, combina pelo celular um karaokê mais tarde com a galera. Haja animação.
Antes que ficasse totalmente descrente da raça humana, achei melhor pedir uma porção de lula grelhada com molho tártaro. Veio divina (atente para o fato de que é grelhada e não frita). O molho tártaro merece menção especial: veio delicado, saboroso, e não aquela bomba atômica de sempre. Voltou a esperança. Um brinde, um gole, um beijo. Deu até para sentir um breve clarão de felicidade. Saúde e até a próxima.
Boteco da Garrafa – Rua Bolívar, 27, Copacabana (2255-1680)
Nesta primeira coluna do ano resolvi fazer completamente diferente. (Calma, amigo leitor: não deixei de ir ao botequim, nem, muito menos, saí nu por aí.) Ao invés dos sempiternos chope e cerveja, que fielmente me acompanham, fui dessa vez de champanhota – como diria o velho cronista social. Para brindar ao novo e, quem sabe, a dias melhores.
Para isso, fui com S. ao Boteco da Garrafa, em Copa, naquela confluência de bares nas esquinas de Domingos Ferreira com Bolívar e desta com Aires Saldanha. Não seria o lugar ideal para beber um espumante, pois a garrafa em questão, em que o bar se propõe a ser especialista, é outra, claro. Mas tudo bem. Faz calor nessa tarde ensolarada de domingo sem futebol. Vamos nessa.
O bar exibe em suas paredes fotos em montagem de artistas de cinema com marcas de cerveja. Tem também imagens do Rio antigo. Tudo em preto e branco. Em volta de um imponente balcão, no canto esquerdo de quem entra, há cadeiras altas, para solitários e bons observadores. No pequeno salão, eu e S. pegamos uma mesa na janela, de frente para a Bolívar, de um casal que acaba de sair.
Peço de cara uma cerveja Serra Malte e uma porção de polenta. A ótima cerveja Serra Malte poderia estar um pouco mais gelada. Outras marcas no cardápio: Bohemia, Quilmes, Stella Artois, Beck´s, Original, Leffe, Norteña, Franziskaner. Alguns outros acepipes: moela marinada, espetinhos (mix de frutos do mar, frango com gengibre), costelinha de porco com molho barbecue, pastéis (salmão defumado com brócolis, peito de peru com ricota, carne seca com catupiry). A polenta veio ok.
Mas eis que é chegada a hora de entrar no capítulo espumante. A casa oferece o drinque Kir Royal, com espumante e licor de cassis. A R$ 18 reais cada taça. S. resolve experimentar, mas veio quente. Pergunto ao garçom quanto seria logo a garrafa do espumante (que não consta do cardápio). Apesar do preço alto, ainda valeu a pena o negócio. Em alguns minutos, estava encostado na minha mesa um carrinho com um balde com muito gelo e uma garrafa de Chandon Reserve Brut (perdão, Lalas.)
Quando pensei que tudo seria romance, e eu, um rei de Copacabana, chega ao bar um trio espantosamente nuvem-negra para se aboletar próximo ao meu ex-futuro reino. Uma amiga e um casal de jovens sem noção. Arrogantes, falam alto, se acham, riem como hienas. “Faz um are-rê”, grita a esposa para o marido ao seu lado. Este levanta os dois braços e os agita para chamar o garçom. “Este copo está sujo de batom e, como você pode ver, aqui ninguém usa batom.” A amiga, enquanto isso, combina pelo celular um karaokê mais tarde com a galera. Haja animação.
Antes que ficasse totalmente descrente da raça humana, achei melhor pedir uma porção de lula grelhada com molho tártaro. Veio divina (atente para o fato de que é grelhada e não frita). O molho tártaro merece menção especial: veio delicado, saboroso, e não aquela bomba atômica de sempre. Voltou a esperança. Um brinde, um gole, um beijo. Deu até para sentir um breve clarão de felicidade. Saúde e até a próxima.
Boteco da Garrafa – Rua Bolívar, 27, Copacabana (2255-1680)
sábado, 2 de janeiro de 2010
Arte o que é?
“Se querem realmente magoar seus pais e não têm coragem de se tornar gays, o mínimo que podem fazer é entrar para as artes. Não estou brincando. As artes não são uma maneira de ganhar a vida. São uma maneira muito humana de tornar a vida mais suportável. Praticar uma arte, não importa até que ponto bem ou mal, é uma maneira de fazer sua alma crescer, pelo amor de Deus. Cantem no chuveiro. Dancem ao som do rádio. Contem histórias. Escrevam um poema a um amigo, até mesmo um poema horrível. Façam isso da melhor maneira que puderem. Receberão uma enorme recompensa. Terão criado algo.”
(Kurt Vonnegut, Um homem sem pátria)
(Kurt Vonnegut, Um homem sem pátria)
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Tudo bem, aqui não é São Paulo
DE BAR EM BAR - Joaquina
Numa tarde de sábado de muito calor, resolvo ir ao bar cujo símbolo é uma escrava que cozinha de forma soberba. De longe, ao adentrar o lado menos esfuziante da Cobal do Humaitá (ou de Botafogo, como queira), já chama atenção a fachada da bela casa. São dois andares com salões bem iluminados, paredes na cor tijolo e com quadros e ilustrações que remetem ao período colonial. Há também uma varanda estratégica no andar de cima. Mas, ainda assim, e mesmo com o apelo do ar-condicionado, prefiro ficar no pátio a céu aberto. Estou falando do Botequim Joaquina.
O movimento a essa hora é bem tranquilo. No salão alguns grupos ainda almoçam. Na parte externa, onde me encontro, há poucas mesas ocupadas. Uma mesa com dois amigos ali, outra com duas amigas mais adiante, uma outra com uma família. Chamo o garçom e fico na dúvida cruel entre chope (da Brahma) ou cerveja (a casa tem Bohemia, Original e Brahma Extra). Numa sinceridade à toda prova, o garçom me recomenda a Brahma Extra: “Está geladíssima! Ela fica quietinha na geladeira, porque ninguém pede.” Pronto. Eis aí uma oportunidade de corrigir uma injustiça.
Enquanto examino o cardápio, reparo numa mulher loura, que chegou há pouco e está sentada lendo um livro, absorta do mundo. Depois ela irá traçar um prato e continuará sem desgrudar do livro vermelho de capa dura. Confesso que adoraria saber que tal livro era aquele – o que, porém, nunca vou descobrir. Tão logo acabou a refeição, pediu a conta e retirou-se. Sou despertado por um casal que se aboleta numa mesa colada na minha. Olho ao redor e ainda há muito espaço vazio. Para completar, o homem começa a fumar como louco. Levanto subitamente, não sem antes dar uma reclamada. Mas o senhor, com um sorriso franco, me desarma: “Não me deixaram ficar lá dentro no ar-condicionado; só pode ser a partir daqui, me perdoe.” Tudo bem, aqui não é São Paulo. De qualquer forma, mudei de mesa.
Volto ao cardápio. As opções são interessantes. Quer ver? Há petiscos como palitos de provolone à milanesa, camarão oriental, pastéis feitos de massa de angu (com recheios que vão de couve com torresmo a palmito com cheddar e tomate seco), espetos na chapa e lula à doré. Entre os pratos, pode-se degustar receitas como risoto de camarão com rúcula, picanha com arroz egípcio e filé de truta com crosta de gouda. Peço um petisco que a princípio não me interessaria, mas a boa fama me fez experimentá-lo: o bolinho de arroz com molho de tomate picante.
A maior vantagem de ter mudado de lugar foi que pude acompanhar de perto a comemoração de uma mesa florida só de meninas. Eram umas 15, entre brancas, pretas, mulatas; bonitas, feias, mais ou menos. Aparentemente eram colegas de trabalho, mas também poderiam ser da faculdade. Estavam trocando presentes de natal. Tiraram fotos. Falavam todas ao mesmo tempo. Apesar disso, o bolinho de arroz não ficou nada ofuscado. Ainda pedi um escondidinho de bacalhau, razoável, mas nem de longe como o outro, inesquecível. Ho, ho, ho. Saúde e até a próxima.
Joaquina – Rua Voluntários da Pátria, 448, lojas 3 e 4, Cobal, Botafogo (2527-1722)
Numa tarde de sábado de muito calor, resolvo ir ao bar cujo símbolo é uma escrava que cozinha de forma soberba. De longe, ao adentrar o lado menos esfuziante da Cobal do Humaitá (ou de Botafogo, como queira), já chama atenção a fachada da bela casa. São dois andares com salões bem iluminados, paredes na cor tijolo e com quadros e ilustrações que remetem ao período colonial. Há também uma varanda estratégica no andar de cima. Mas, ainda assim, e mesmo com o apelo do ar-condicionado, prefiro ficar no pátio a céu aberto. Estou falando do Botequim Joaquina.
O movimento a essa hora é bem tranquilo. No salão alguns grupos ainda almoçam. Na parte externa, onde me encontro, há poucas mesas ocupadas. Uma mesa com dois amigos ali, outra com duas amigas mais adiante, uma outra com uma família. Chamo o garçom e fico na dúvida cruel entre chope (da Brahma) ou cerveja (a casa tem Bohemia, Original e Brahma Extra). Numa sinceridade à toda prova, o garçom me recomenda a Brahma Extra: “Está geladíssima! Ela fica quietinha na geladeira, porque ninguém pede.” Pronto. Eis aí uma oportunidade de corrigir uma injustiça.
Enquanto examino o cardápio, reparo numa mulher loura, que chegou há pouco e está sentada lendo um livro, absorta do mundo. Depois ela irá traçar um prato e continuará sem desgrudar do livro vermelho de capa dura. Confesso que adoraria saber que tal livro era aquele – o que, porém, nunca vou descobrir. Tão logo acabou a refeição, pediu a conta e retirou-se. Sou despertado por um casal que se aboleta numa mesa colada na minha. Olho ao redor e ainda há muito espaço vazio. Para completar, o homem começa a fumar como louco. Levanto subitamente, não sem antes dar uma reclamada. Mas o senhor, com um sorriso franco, me desarma: “Não me deixaram ficar lá dentro no ar-condicionado; só pode ser a partir daqui, me perdoe.” Tudo bem, aqui não é São Paulo. De qualquer forma, mudei de mesa.
Volto ao cardápio. As opções são interessantes. Quer ver? Há petiscos como palitos de provolone à milanesa, camarão oriental, pastéis feitos de massa de angu (com recheios que vão de couve com torresmo a palmito com cheddar e tomate seco), espetos na chapa e lula à doré. Entre os pratos, pode-se degustar receitas como risoto de camarão com rúcula, picanha com arroz egípcio e filé de truta com crosta de gouda. Peço um petisco que a princípio não me interessaria, mas a boa fama me fez experimentá-lo: o bolinho de arroz com molho de tomate picante.
A maior vantagem de ter mudado de lugar foi que pude acompanhar de perto a comemoração de uma mesa florida só de meninas. Eram umas 15, entre brancas, pretas, mulatas; bonitas, feias, mais ou menos. Aparentemente eram colegas de trabalho, mas também poderiam ser da faculdade. Estavam trocando presentes de natal. Tiraram fotos. Falavam todas ao mesmo tempo. Apesar disso, o bolinho de arroz não ficou nada ofuscado. Ainda pedi um escondidinho de bacalhau, razoável, mas nem de longe como o outro, inesquecível. Ho, ho, ho. Saúde e até a próxima.
Joaquina – Rua Voluntários da Pátria, 448, lojas 3 e 4, Cobal, Botafogo (2527-1722)
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Nove perguntas essenciais
1) O que está errado?
2) O que é justo?
3) Quem se deve amar?
4) Quem odiar?
5) Por que viver?
6) O que sou eu?
7) O que é a vida?
8) O que é a morte?
9) Que força dirige tudo?
“... e a essas perguntas não encontrava resposta, salvo uma, ilógica, e que de forma nenhuma respondia a essas perguntas. Era: morrerás e tudo ficará liquidado. Morrerás e saberás tudo ou deixarás de perguntar. Mas morrer também é uma coisa terrível.”
(Leon Tolstoi, Guerra e Paz)
2) O que é justo?
3) Quem se deve amar?
4) Quem odiar?
5) Por que viver?
6) O que sou eu?
7) O que é a vida?
8) O que é a morte?
9) Que força dirige tudo?
“... e a essas perguntas não encontrava resposta, salvo uma, ilógica, e que de forma nenhuma respondia a essas perguntas. Era: morrerás e tudo ficará liquidado. Morrerás e saberás tudo ou deixarás de perguntar. Mas morrer também é uma coisa terrível.”
(Leon Tolstoi, Guerra e Paz)
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Obrigado pelo cheque alcançado
DE BAR EM BAR - Da Graça
Saio da reunião na editora da gravadora feliz da vida com um cheque. Um precioso cheque – ainda mais em tempos irreversíveis de downloads gratuitos e pirataria implacável – relativo aos meus direitos autorais. E pelo qual rezei fervorosamente para Santa Cecília, a santa do meu sobrenome e padroeira dos músicos, assim como para Santo Expedito, o santo dos desesperados. Vim comemorar a graça obtida justamente no bar... Da Graça. E posso dizer, amigo leitor, que não foi em vão.
De cara sou arrebatado pela beleza do lugar. A casa é cheia de mimos, artesanatos, bricabraques e penduricalhos do maior bom gosto. É chique e é simples tudo ao mesmo tempo. Como fica numa esquina, há mesinhas na calçada tanto para a rua Pacheco Leão quanto para a Abreu Fialho. A fachada é em branco e verde, em total harmonia com o Jardim Botânico, em frente, a poucos metros de onde estou agora sentado. No salão com janelas amplas e ambiente acolhedor, há delicados duendes aqui e ali pelas paredes e pequenas esculturas de pombas brancas pendentes do teto. Mas o grande destaque da área interna é o expressivo painel, acima da janela da cozinha, com pôsteres e imagens dos mais variados santos.
Uma das donas, a Lourdes Brandão, que já estava sentada na varanda numa mesa próxima à minha, e volta e meia se levanta para checar algum detalhe do lançamento de um livro que acontecerá mais tarde, me conta que já houve oportunidade (e pedidos) para abrir filiais em outros cantos, mas que o barato é aquele lugar ali. Com efeito, a todo instante ela cumprimenta alguém que passa. E não é só isso: para uma decoração criativa existe um cardápio à altura. Senão, vejamos. Para começar, peço uma Cidade Imperial long neck, cerveja não tão fácil de ser encontrada. Para beliscar, uma trouxinha de shimeji com molho de manteiga e limão.
Quer ver mais exemplos da cozinha criativa do Da Graça? Crepe de folha de arroz, linguiça com molho picante de menta, rolé de tapioca, kafta de cordeiro, quibe cru de salmão. E tem também pratos como: cabrito a capela (com arroz de ervas e farofa de cream-cracker), bobó de camarão na moranga, moqueca de cavaquinha, rocambole de cordeiro e bacalhau com grão de bico. Para beber, além das boas cervejas Bohemia, Cerpa, Cidade Imperial, Colorado e Devassa, há os drinques mojito, blood mary, margarita e sex on the beach. Peço, em seguida, um quibe cru de salmão e uma Devassa ruiva. U-la-lá.
O shimeji veio excelente. Já o quibe de salmão, no qual depositei minhas fichas, não me encantou tanto. Mas não faz mal. Gosto da ousadia. Dela e do improviso surgem criações inesquecíveis. Peço a conta e uma Bohemia. A noite cai e os convidados para o lançamento do livro de Paloma Vidal começam a chegar. Converso mais um pouco com a anfitriã Lourdes. Quando dou por mim estou tomando uma saideira, a ótima Colorado, com os poetas Masé Lemos, Evando Nascimento, Ramon Mello e Italo Moriconi. Saí sem me despedir da Lourdes, mas acho que ela vai entender. Se Deus está nos detalhes, o Da Graça é o lugar. Saúde e até a próxima.
Da Graça – Rua Pacheco Leão, 780, Horto (2249-5484)
Saio da reunião na editora da gravadora feliz da vida com um cheque. Um precioso cheque – ainda mais em tempos irreversíveis de downloads gratuitos e pirataria implacável – relativo aos meus direitos autorais. E pelo qual rezei fervorosamente para Santa Cecília, a santa do meu sobrenome e padroeira dos músicos, assim como para Santo Expedito, o santo dos desesperados. Vim comemorar a graça obtida justamente no bar... Da Graça. E posso dizer, amigo leitor, que não foi em vão.
De cara sou arrebatado pela beleza do lugar. A casa é cheia de mimos, artesanatos, bricabraques e penduricalhos do maior bom gosto. É chique e é simples tudo ao mesmo tempo. Como fica numa esquina, há mesinhas na calçada tanto para a rua Pacheco Leão quanto para a Abreu Fialho. A fachada é em branco e verde, em total harmonia com o Jardim Botânico, em frente, a poucos metros de onde estou agora sentado. No salão com janelas amplas e ambiente acolhedor, há delicados duendes aqui e ali pelas paredes e pequenas esculturas de pombas brancas pendentes do teto. Mas o grande destaque da área interna é o expressivo painel, acima da janela da cozinha, com pôsteres e imagens dos mais variados santos.
Uma das donas, a Lourdes Brandão, que já estava sentada na varanda numa mesa próxima à minha, e volta e meia se levanta para checar algum detalhe do lançamento de um livro que acontecerá mais tarde, me conta que já houve oportunidade (e pedidos) para abrir filiais em outros cantos, mas que o barato é aquele lugar ali. Com efeito, a todo instante ela cumprimenta alguém que passa. E não é só isso: para uma decoração criativa existe um cardápio à altura. Senão, vejamos. Para começar, peço uma Cidade Imperial long neck, cerveja não tão fácil de ser encontrada. Para beliscar, uma trouxinha de shimeji com molho de manteiga e limão.
Quer ver mais exemplos da cozinha criativa do Da Graça? Crepe de folha de arroz, linguiça com molho picante de menta, rolé de tapioca, kafta de cordeiro, quibe cru de salmão. E tem também pratos como: cabrito a capela (com arroz de ervas e farofa de cream-cracker), bobó de camarão na moranga, moqueca de cavaquinha, rocambole de cordeiro e bacalhau com grão de bico. Para beber, além das boas cervejas Bohemia, Cerpa, Cidade Imperial, Colorado e Devassa, há os drinques mojito, blood mary, margarita e sex on the beach. Peço, em seguida, um quibe cru de salmão e uma Devassa ruiva. U-la-lá.
O shimeji veio excelente. Já o quibe de salmão, no qual depositei minhas fichas, não me encantou tanto. Mas não faz mal. Gosto da ousadia. Dela e do improviso surgem criações inesquecíveis. Peço a conta e uma Bohemia. A noite cai e os convidados para o lançamento do livro de Paloma Vidal começam a chegar. Converso mais um pouco com a anfitriã Lourdes. Quando dou por mim estou tomando uma saideira, a ótima Colorado, com os poetas Masé Lemos, Evando Nascimento, Ramon Mello e Italo Moriconi. Saí sem me despedir da Lourdes, mas acho que ela vai entender. Se Deus está nos detalhes, o Da Graça é o lugar. Saúde e até a próxima.
Da Graça – Rua Pacheco Leão, 780, Horto (2249-5484)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
O nada idiota
"A meu ver às vezes ser absurdo não deixa de ser bom. Com efeito, é melhor até. Torna mais fácil nos perdoarmos uns aos outros, é mais fácil do que ser humilde. Não é possível a humanidade compreender tudo, imediatamente, não é possível começar logo com a perfeição! Para atingirmos a perfeição, devemos começar por uma grande ignorância bem difusa! Tudo que é compreendido depressa carece de compreensão eficiente. Digo-lhes isto porque por mais que se haja entendido e compreendido muita coisa, muitíssima outra ainda há a ser compreendida com eficiência essencial!”
(Dostoiévski, O Idiota)
(Dostoiévski, O Idiota)
domingo, 29 de novembro de 2009
De palmitos e lições de vida
DE BAR EM BAR - Otto
Sou daqueles que quando vai a uma churrascaria rodízio praticamente come mais palmito do que carne. Por isso, já fazia um tempo que estava para conhecer o bar e restaurante Otto. Lá é o verdadeiro paraíso do palmito. E justamente agora está rolando na casa o 5. Festival do Palmito Assado. Portanto, aqui estou na Tijuca. (Um amigo meu defende a tese de que todo carioca tem ou teve uma namorada tijucana. De fato, sou um carioca típico.)
Mas voltando ao palmito. Posso assegurar que o Otto não se esgota aí. Para começar, tem uma característica de que gosto muito: é um bar de esquina. E esquina poderosa: Conde de Bonfim com Uruguai. Pode-se sentar na varanda, pedir um chopinho e ver a vida passar em profusão. (A essa hora, meio da tarde, imperam os velhinhos. Mas há também crianças, passeadores de cachorro, marombeiros e meninas em flor.) A varanda é muito simpática. No trecho que dá para a rua Uruguai, que é onde fico, são duas fileiras de mesas de madeira com cadeiras com estofado preto. Há também uma parte interna, refrigerada e isolada com vidro fumê.
Perto de mim, há outras duas mesas ocupadas. Numa delas, um casal de seus 60 e poucos anos almoça costelinha com palmito e batata rostie. Para beber, chope. Na outra mesa, são duas meninas e um cara. Elas tomam mate e ele chope. Uma delas come um croquete do tipo alemão. As duas falam sem parar enquanto o rapaz apenas sorri, dá uns goles e, de vez em quando, atende o celular. Apesar do calor, bate um ventinho agradável.
- Quer passar um mês lá?... Quero! Passear, ir à praia, beleza. Mas prefiro essa área aqui. Queria sair do Grajaú e vir para essa região.
Se você acha que quem falou foi uma das meninas está muito enganado. Foi a senhora que está almoçando. Ela e seu companheiro são calmos e conversam articuladamente. Ela é morena, veste camiseta e saia jeans; ele, camisa pólo, calça de ginástica e sapato sem meia. Logo percebo que não formam um casal, mas que são muito amigos. Ao responder a algo que ele questiona, ela diz: “Cada um sabe daquilo que viveu.” Lembro-me de uma bela canção de Arnaldo Antunes, presente em seu novo disco, chamada Envelhecer: “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer.” Sensacional.
Bem, vamos ao palmito. Apesar de constarem no cardápio petiscos como esbein, bolo de carne e salsicha alemã, e também pratos como picanha de cordeiro, bacalhau fresco e picanha Wessel, todos acompanhados de palmito, hoje só quero saber da estrela da casa. Peço um palmito assado na casca com molho de manteiga e alcaparras. Vem magnífico. Tão bom que peço outro, agora com molho de mel (“receita primitiva dos índios guaranis”), junto com um chope preto. Ó, Deus.
Para comprovar que não basta ficar velho, mas que é preciso “dizer venha pra o que vai acontecer”, assim que os dois coroas se retiram, sentam-se outros dois, irmão e irmã, que só reclamam da vida. A prova cabal de que é preciso uma forcinha para bem viver. E também para ainda aproveitar, amigo leitor, esse festival que vai até o final do mês. Saúde e até a próxima.
Otto – Rua Uruguai, 380, Tijuca (2268-1579)
Sou daqueles que quando vai a uma churrascaria rodízio praticamente come mais palmito do que carne. Por isso, já fazia um tempo que estava para conhecer o bar e restaurante Otto. Lá é o verdadeiro paraíso do palmito. E justamente agora está rolando na casa o 5. Festival do Palmito Assado. Portanto, aqui estou na Tijuca. (Um amigo meu defende a tese de que todo carioca tem ou teve uma namorada tijucana. De fato, sou um carioca típico.)
Mas voltando ao palmito. Posso assegurar que o Otto não se esgota aí. Para começar, tem uma característica de que gosto muito: é um bar de esquina. E esquina poderosa: Conde de Bonfim com Uruguai. Pode-se sentar na varanda, pedir um chopinho e ver a vida passar em profusão. (A essa hora, meio da tarde, imperam os velhinhos. Mas há também crianças, passeadores de cachorro, marombeiros e meninas em flor.) A varanda é muito simpática. No trecho que dá para a rua Uruguai, que é onde fico, são duas fileiras de mesas de madeira com cadeiras com estofado preto. Há também uma parte interna, refrigerada e isolada com vidro fumê.
Perto de mim, há outras duas mesas ocupadas. Numa delas, um casal de seus 60 e poucos anos almoça costelinha com palmito e batata rostie. Para beber, chope. Na outra mesa, são duas meninas e um cara. Elas tomam mate e ele chope. Uma delas come um croquete do tipo alemão. As duas falam sem parar enquanto o rapaz apenas sorri, dá uns goles e, de vez em quando, atende o celular. Apesar do calor, bate um ventinho agradável.
- Quer passar um mês lá?... Quero! Passear, ir à praia, beleza. Mas prefiro essa área aqui. Queria sair do Grajaú e vir para essa região.
Se você acha que quem falou foi uma das meninas está muito enganado. Foi a senhora que está almoçando. Ela e seu companheiro são calmos e conversam articuladamente. Ela é morena, veste camiseta e saia jeans; ele, camisa pólo, calça de ginástica e sapato sem meia. Logo percebo que não formam um casal, mas que são muito amigos. Ao responder a algo que ele questiona, ela diz: “Cada um sabe daquilo que viveu.” Lembro-me de uma bela canção de Arnaldo Antunes, presente em seu novo disco, chamada Envelhecer: “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer.” Sensacional.
Bem, vamos ao palmito. Apesar de constarem no cardápio petiscos como esbein, bolo de carne e salsicha alemã, e também pratos como picanha de cordeiro, bacalhau fresco e picanha Wessel, todos acompanhados de palmito, hoje só quero saber da estrela da casa. Peço um palmito assado na casca com molho de manteiga e alcaparras. Vem magnífico. Tão bom que peço outro, agora com molho de mel (“receita primitiva dos índios guaranis”), junto com um chope preto. Ó, Deus.
Para comprovar que não basta ficar velho, mas que é preciso “dizer venha pra o que vai acontecer”, assim que os dois coroas se retiram, sentam-se outros dois, irmão e irmã, que só reclamam da vida. A prova cabal de que é preciso uma forcinha para bem viver. E também para ainda aproveitar, amigo leitor, esse festival que vai até o final do mês. Saúde e até a próxima.
Otto – Rua Uruguai, 380, Tijuca (2268-1579)
sábado, 21 de novembro de 2009
God´s praxis
1.
Os prazeres dos seres
humanos
são articulados por
memória e jogo.
2.
O esquecimento das regras
é fundamental de tempos
em tempos.
Os prazeres dos seres
humanos
são articulados por
memória e jogo.
2.
O esquecimento das regras
é fundamental de tempos
em tempos.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Sem beijos ousados, por favor
DE BAR EM BAR - Adega flor de Coimbra
Quarta-feira à tarde. Chove. Há, nesse momento, só uma pessoa almoçando, um negão rasta com pinta de músico. Ele bate o maior papo com o garçom. Termina de traçar seu peito de frango e de beber uma taça do vinho Pérola Gaúcho, engarrafado pela própria casa, e pede a conta. Mas, antes de sair, ao ouvirmos no rádio uma notícia relacionada ao assassinato do coordenador do Afroreggae, iniciamos um inevitável diálogo. Não há como não lamentar um fato desse, entre todos os absurdos de violência do cotidiano carioca.
O negão com pinta de músico é na verdade o contramestre Urubu, que dá aula de capoeira na Fundição Progresso – e que, por ofício e alma de artista, já desviou muitos adolescentes e jovens do crime. E o bar é a Adega Flor de Coimbra, pertinho de uma lateral da Sala Cecília Meireles. Sem dúvida, é muito agradável estar aqui, uma casa portuguesa, com certeza, fundada por seu José Lourenço, em 1938, no prédio onde morou Cândido Portinari. Inicialmente como uma mercearia que vendia laranjada, sopa caseira e bolinho de bacalhau – além do vinho, naturalmente. Daí nasceu a Adega Flor de Coimbra.
Peço um chope e o garçom me explica que agora estão apenas com cerveja (“o chope tem prazo de validade, aqui a saída não é tanta, estava dando problema...”). Peço então uma Original e um bolinho de bacalhau. A casa tem dois andares. No térreo são umas 12, 15 mesas com toalhas brancas e paninhos verdes, vermelhos e amarelos por cima. Há bandeiras da terrinha, dois barris, uma adega climatizada, vinhos expostos na horizontal, quadros do Rio antigo, um painel de Nilton Bravo, o “Michelangelo dos botequins”, uma Santa Ceia lá no alto, matérias emolduradas sobre a casa, e, ainda, em total destaque, uma plaquinha vermelha que diz: “Proibido beijo ousado”.
Pergunto ao garçom José Antônio o porquê do aviso, se já houve muitos exageros. Ele diz, com toda a calma e elegância do mundo, que não, “isso virou uma marca da casa mesmo.” Bem, há tradição para tudo. O bolinho de bacalhau, por exemplo, é campeão e também trunfo do bar; comprido e fino nas pontas, é impossível comer um só. Mas além dele há outros petiscos como cabrito aperitivo, lula à doré, iscas de peixe e sardinhas portuguesas. Entre os pratos, truta com molho de alcaparras, posta de namorado com pirão e arroz e feijoada portuguesa (com feijão manteiga e carnes nobres).
Tomo um caldinho desse feijão e converso com os garçons, o citado José Antônio e o Leandro, quando reparo que já há outros frequentadores: um casal, pelo visto, discutindo a relação. Sentados lado a lado, cada um olha para o seu infinito particular, através da janela em frente. Ela, loura de cabelo encaracolado, chora. Ele, de óculos e com a frieza de um cirurgião, bebe vinho. Parece o fim. Peço uma sardinha portuguesa grelhada e a saideira. A sardinha vem ótima e com um molho delicioso. Outros casais começam a chegar. Mas, antes de partir, observo uma reviravolta: o primeiro casal está agora aos beijos. Bem que mereciam um beijo ousado. Saúde e até a próxima.
Adega Flor de Coimbra – Rua Teotônio Regadas, 34, Lapa (2224-4582)
Quarta-feira à tarde. Chove. Há, nesse momento, só uma pessoa almoçando, um negão rasta com pinta de músico. Ele bate o maior papo com o garçom. Termina de traçar seu peito de frango e de beber uma taça do vinho Pérola Gaúcho, engarrafado pela própria casa, e pede a conta. Mas, antes de sair, ao ouvirmos no rádio uma notícia relacionada ao assassinato do coordenador do Afroreggae, iniciamos um inevitável diálogo. Não há como não lamentar um fato desse, entre todos os absurdos de violência do cotidiano carioca.
O negão com pinta de músico é na verdade o contramestre Urubu, que dá aula de capoeira na Fundição Progresso – e que, por ofício e alma de artista, já desviou muitos adolescentes e jovens do crime. E o bar é a Adega Flor de Coimbra, pertinho de uma lateral da Sala Cecília Meireles. Sem dúvida, é muito agradável estar aqui, uma casa portuguesa, com certeza, fundada por seu José Lourenço, em 1938, no prédio onde morou Cândido Portinari. Inicialmente como uma mercearia que vendia laranjada, sopa caseira e bolinho de bacalhau – além do vinho, naturalmente. Daí nasceu a Adega Flor de Coimbra.
Peço um chope e o garçom me explica que agora estão apenas com cerveja (“o chope tem prazo de validade, aqui a saída não é tanta, estava dando problema...”). Peço então uma Original e um bolinho de bacalhau. A casa tem dois andares. No térreo são umas 12, 15 mesas com toalhas brancas e paninhos verdes, vermelhos e amarelos por cima. Há bandeiras da terrinha, dois barris, uma adega climatizada, vinhos expostos na horizontal, quadros do Rio antigo, um painel de Nilton Bravo, o “Michelangelo dos botequins”, uma Santa Ceia lá no alto, matérias emolduradas sobre a casa, e, ainda, em total destaque, uma plaquinha vermelha que diz: “Proibido beijo ousado”.
Pergunto ao garçom José Antônio o porquê do aviso, se já houve muitos exageros. Ele diz, com toda a calma e elegância do mundo, que não, “isso virou uma marca da casa mesmo.” Bem, há tradição para tudo. O bolinho de bacalhau, por exemplo, é campeão e também trunfo do bar; comprido e fino nas pontas, é impossível comer um só. Mas além dele há outros petiscos como cabrito aperitivo, lula à doré, iscas de peixe e sardinhas portuguesas. Entre os pratos, truta com molho de alcaparras, posta de namorado com pirão e arroz e feijoada portuguesa (com feijão manteiga e carnes nobres).
Tomo um caldinho desse feijão e converso com os garçons, o citado José Antônio e o Leandro, quando reparo que já há outros frequentadores: um casal, pelo visto, discutindo a relação. Sentados lado a lado, cada um olha para o seu infinito particular, através da janela em frente. Ela, loura de cabelo encaracolado, chora. Ele, de óculos e com a frieza de um cirurgião, bebe vinho. Parece o fim. Peço uma sardinha portuguesa grelhada e a saideira. A sardinha vem ótima e com um molho delicioso. Outros casais começam a chegar. Mas, antes de partir, observo uma reviravolta: o primeiro casal está agora aos beijos. Bem que mereciam um beijo ousado. Saúde e até a próxima.
Adega Flor de Coimbra – Rua Teotônio Regadas, 34, Lapa (2224-4582)
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Balada da precária solidão
(para Sylvia)
Agora faltou luz
É como se caísse um braço
Ou se faltasse água.
Em casos como esse
Espera-se que sejam dez minutos
Mas já se vão duas horas e meia.
O computador estava ligado
O som, claro, permanecia ligado
(Escutava música clássica – Chopin
Por Nelson Freire. Sublime. Ideal para transcender)
A desconexão com as tomadas do mundo agora
É total
(Só não é total porque ainda há os
Telefones não elétricos).
Parece que o blecaute atingiu vários estados
E o Brasil não é tão moderno quanto parece.
Agora há vários solitários desesperados
Porque não podem ligar a TV.
As horas são baleadas
Sem que se possa fazer nada.
Escrevo à luz de velas.
Penso em minha mulher
Que agora mora noutra casa
E tenho achado melhor assim
- Agora nos amamos mais
Com a volta de algum mistério.
Essa falta de luz
(Já que não posso tê-la)
É dedicada a ela.
Agora faltou luz
É como se caísse um braço
Ou se faltasse água.
Em casos como esse
Espera-se que sejam dez minutos
Mas já se vão duas horas e meia.
O computador estava ligado
O som, claro, permanecia ligado
(Escutava música clássica – Chopin
Por Nelson Freire. Sublime. Ideal para transcender)
A desconexão com as tomadas do mundo agora
É total
(Só não é total porque ainda há os
Telefones não elétricos).
Parece que o blecaute atingiu vários estados
E o Brasil não é tão moderno quanto parece.
Agora há vários solitários desesperados
Porque não podem ligar a TV.
As horas são baleadas
Sem que se possa fazer nada.
Escrevo à luz de velas.
Penso em minha mulher
Que agora mora noutra casa
E tenho achado melhor assim
- Agora nos amamos mais
Com a volta de algum mistério.
Essa falta de luz
(Já que não posso tê-la)
É dedicada a ela.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
As meninas de bicicleta
(Um poema de Vinícius pra refrescar:)
BALADA DAS MENINAS DE BICICLETA
Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninadaA
os ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
VINÍCIUS DE MORAES
BALADA DAS MENINAS DE BICICLETA
Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninadaA
os ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
VINÍCIUS DE MORAES
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Xangô e o monstro marinho
DE BAR EM BAR - O Caranguejo
- Xangô é rei! – dispara a mulher sentada à mesa na minha frente.
Mal chegamos e algo já está rolando. Este é um bar tradicional, inaugurado em 1982, pelo qual sempre passo, mas, curiosamente, onde não vim muitas vezes (embora tenha até morado, por alguns meses, ali perto, na Xavier da Silveira). Para mim isso é um mistério. Porque aqui você pode tomar um chopinho na calçada, traçar uma empada no balcão, ou ainda comer um belo prato no salão interno – tudo na maior categoria e no clima de botequim. Estou me referindo a O Caranguejo, discreto baluarte no coração de Copa.
Decidimos, eu e S., fazer o circuito completo no salão: chope, empadinhas de entrada e mais tarde o prato. As paredes são azulejadas na cor bege, há samambaias por todo canto, vinhos nas prateleiras e alguns garçons antigos circulando pelas 10, 12 mesas. Do lado de fora, além das mesinhas de plástico com boa ocupação, junta gente em pé para ver o futebol de domingo na TV (até o distinto PM, que seguia de passagem mas agora parece estar ali ancorado, feliz com a volta do Imperador e a ressurreição de Pet).
No salão interno, há mais umas quatro mesas ocupadas além da nossa. O garçom traz as consagradas empadinhas de camarão – e, confiante, volta logo com um prato contendo quatro. As empadas fazem realmente jus à fama. São simples, leves, perfeitas. (O prato, obviamente, voltou vazio para a cozinha.)Vemos o mesmo garçom levar uma casquinha de siri, muito bem servida, para a mesa da mulher filha de Xangô. Deu vontade de pedir uma igual, mas permanecemos fiéis ao plano de comer um prato mais para a frente. Além das empadas e casquinhas, no quesito aperitivos, há outras tentações, como sopa de siri na caneca, sardinha portuguesa e anchova frita em postas.
- Ih, olha o monstro do fundo do mar!
Era um garotinho entrando com a mãe para ir ao banheiro. Só então notei – pois o meu ângulo de visão não era favorável – que há numa das paredes uma escultura de caranguejo, gigantesca, cinematográfica. Pedimos outro chope e o cardápio para escolher, enfim, a comida. Tarefa difícil. Quer ver? A preços, bem, um tanto oceânicos pode-se desfrutar de uma “sinfonia de frutos do mar”, mariscada, caldeirada, moquecas de lagosta, bacalhau ou cherne, entre outras opções. Ficamos com um proverbial mas incrível risoto de camarão. Os camarões eram graúdos, saborosos e substanciais – e ainda levamos parte numa quentinha. O caro às vezes sai barato.
Por fim, volto à mesa da mulher filha de Xangô. Antes gostaria de assinalar que havia outras possíveis personagens, como a chinesa que devorou um peixão, ou as duas velhinhas tomando chope e comendo pastel. Mas a mulher, orgulhosa de sua espiritualidade, chamava mais a atenção do que todos. Acompanhada de dois homens e duas crianças, ela discursava longamente. Porém se zangou quando se sentiu observada. Levantou-se para ir ao banheiro e fuzilou a senhora de um casal noutra mesa: “adoro quando ficam me olhando!” A senhora riu amarelo. Ainda bem que a coluna já estava pronta. Saúde e até a próxima.
O Caranguejo – Rua Barata Ribeiro 771, Copacabana (2235-1249)
- Xangô é rei! – dispara a mulher sentada à mesa na minha frente.
Mal chegamos e algo já está rolando. Este é um bar tradicional, inaugurado em 1982, pelo qual sempre passo, mas, curiosamente, onde não vim muitas vezes (embora tenha até morado, por alguns meses, ali perto, na Xavier da Silveira). Para mim isso é um mistério. Porque aqui você pode tomar um chopinho na calçada, traçar uma empada no balcão, ou ainda comer um belo prato no salão interno – tudo na maior categoria e no clima de botequim. Estou me referindo a O Caranguejo, discreto baluarte no coração de Copa.
Decidimos, eu e S., fazer o circuito completo no salão: chope, empadinhas de entrada e mais tarde o prato. As paredes são azulejadas na cor bege, há samambaias por todo canto, vinhos nas prateleiras e alguns garçons antigos circulando pelas 10, 12 mesas. Do lado de fora, além das mesinhas de plástico com boa ocupação, junta gente em pé para ver o futebol de domingo na TV (até o distinto PM, que seguia de passagem mas agora parece estar ali ancorado, feliz com a volta do Imperador e a ressurreição de Pet).
No salão interno, há mais umas quatro mesas ocupadas além da nossa. O garçom traz as consagradas empadinhas de camarão – e, confiante, volta logo com um prato contendo quatro. As empadas fazem realmente jus à fama. São simples, leves, perfeitas. (O prato, obviamente, voltou vazio para a cozinha.)Vemos o mesmo garçom levar uma casquinha de siri, muito bem servida, para a mesa da mulher filha de Xangô. Deu vontade de pedir uma igual, mas permanecemos fiéis ao plano de comer um prato mais para a frente. Além das empadas e casquinhas, no quesito aperitivos, há outras tentações, como sopa de siri na caneca, sardinha portuguesa e anchova frita em postas.
- Ih, olha o monstro do fundo do mar!
Era um garotinho entrando com a mãe para ir ao banheiro. Só então notei – pois o meu ângulo de visão não era favorável – que há numa das paredes uma escultura de caranguejo, gigantesca, cinematográfica. Pedimos outro chope e o cardápio para escolher, enfim, a comida. Tarefa difícil. Quer ver? A preços, bem, um tanto oceânicos pode-se desfrutar de uma “sinfonia de frutos do mar”, mariscada, caldeirada, moquecas de lagosta, bacalhau ou cherne, entre outras opções. Ficamos com um proverbial mas incrível risoto de camarão. Os camarões eram graúdos, saborosos e substanciais – e ainda levamos parte numa quentinha. O caro às vezes sai barato.
Por fim, volto à mesa da mulher filha de Xangô. Antes gostaria de assinalar que havia outras possíveis personagens, como a chinesa que devorou um peixão, ou as duas velhinhas tomando chope e comendo pastel. Mas a mulher, orgulhosa de sua espiritualidade, chamava mais a atenção do que todos. Acompanhada de dois homens e duas crianças, ela discursava longamente. Porém se zangou quando se sentiu observada. Levantou-se para ir ao banheiro e fuzilou a senhora de um casal noutra mesa: “adoro quando ficam me olhando!” A senhora riu amarelo. Ainda bem que a coluna já estava pronta. Saúde e até a próxima.
O Caranguejo – Rua Barata Ribeiro 771, Copacabana (2235-1249)
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Uma pequena teoria sobre a falta de tempo
“Deveria cortar minhas unhas dos pés. Meus pés estão me machucando há umas duas semanas. Sei que são as unhas dos pés, mas não consigo achar tempo para cortá-las. Estou sempre atrasado, não tenho tempo para nada. Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo.”
(Charles Bukowski, trecho de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio)
(Charles Bukowski, trecho de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio)
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Mureta, aqui me tens de regresso
DE BAR EM BAR - Bar Urca
Depois de um hiato de algumas semanas (e durante o qual, mesmo com toda a minha hipocondria, enfrentei uma estranha e potente gripe), volto, enfim, ao bar doce bar. Nada melhor para comemorar a recuperação da saúde do que um sábado de sol, uma vista deslumbrante e... uma cervejinha gelada com uns tira-gostos. Pois foi o que fiz, indo ao famoso Bar Urca.
Minha preocupação inicial era chegar lá e a mureta que separa a calçada do mar estar completamente lotada. Isto porque a “extensão” do bar, a mureta, dá de cara para o cenário cinematográfico da Baía de Guanabara e, mais ao longe, do Cristo Redentor. Então ir ao Bar Urca num fim de semana ensolarado é um programa legal, tipicamente carioca, e, por isso, inevitavelmente sujeito a uma superlotação à la Baixo Gávea. Mas dei sorte e consegui cavar meu espaço bem em frente ao estabelecimento, perto da laje onde meninos, numa algazarra total, mergulham na água como se não houvesse amanhã.
Peço logo uma cerveja Original e um pastel de camarão para abrir os trabalhos. Devo esclarecer que, se a grande cartada do bar é estar localizado num local paradisíaco e bastante seguro (pois fica colado no Forte São João), este não é seu único trunfo. Muito pelo contrário. A cozinha do Bar Urca é reconhecidamente de qualidade. Na loja, que fica no térreo, pode-se degustar acepipes fresquinhos como o pastel, a empadinha, bolinho de bacalhau, gurjão de peixe, casquinha e caldinho de frutos do mar. E, no segundo andar, há o restaurante com pratos como bobó de camarão e polvo com arroz de brocólis que fazem a felicidade do mais empedernido mortal.
O clima é de relaxamento até a chegada da polícia, que dá uma passada para dar um confere no cumprimento das posturas municipais. Até aí tudo certo. O problema é que uma certa teatralidade na execução do dever irrita os pacatos cidadãos curtindo o seu sábado à tarde. Ouve-se, à surdina, aqui e acolá: “Em vez de pegar bandido, estão aqui, cheios de marra!” “Cadê o alcaguete?” Bem, os policiais se retiram e peço meu passaporte para o êxtase gustativo: o caldinho de frutos do mar. Como que em transe, sou atiçado pela propaganda gratuita de uma bela menina que ao meu lado no balcão recomenda o quibe de peixe (“É ótimo. Quase ganhou um prêmio.”). Ainda bem que não resisti.
Eis que aparece o artista plástico Raul Mourão com o amigo Piu. Morador da área, Raul já foi mencionado numa das colunas, em Santa Teresa, como um “ilustre ausente”, e não sei por que ainda acho que ele mora lá. Falamos sobre seu atual bairro e também sobre Os Paralamas do Sucesso. Raul, que fez a capa do último CD da banda, é, como eu, um grande fã do trabalho de Herbert Vianna, Bi e Barone. Pergunto-lhe se já viu o filme sobre Herbert e ele diz que sim, e que é, de fato, comovente. Não tenho dúvida disso. Como também comove, amigo leitor, uma transcendente tarde de sol no Bar Urca.
PS: Agradeço aos que deram pela falta da coluna e informo a todos que agora ela será quinzenal. Continuará, claro, sendo um grande prazer. Saúde e até a próxima.
Bar Urca – Rua Cândido Gaffrée, 205, Urca (2295-8744)
Depois de um hiato de algumas semanas (e durante o qual, mesmo com toda a minha hipocondria, enfrentei uma estranha e potente gripe), volto, enfim, ao bar doce bar. Nada melhor para comemorar a recuperação da saúde do que um sábado de sol, uma vista deslumbrante e... uma cervejinha gelada com uns tira-gostos. Pois foi o que fiz, indo ao famoso Bar Urca.
Minha preocupação inicial era chegar lá e a mureta que separa a calçada do mar estar completamente lotada. Isto porque a “extensão” do bar, a mureta, dá de cara para o cenário cinematográfico da Baía de Guanabara e, mais ao longe, do Cristo Redentor. Então ir ao Bar Urca num fim de semana ensolarado é um programa legal, tipicamente carioca, e, por isso, inevitavelmente sujeito a uma superlotação à la Baixo Gávea. Mas dei sorte e consegui cavar meu espaço bem em frente ao estabelecimento, perto da laje onde meninos, numa algazarra total, mergulham na água como se não houvesse amanhã.
Peço logo uma cerveja Original e um pastel de camarão para abrir os trabalhos. Devo esclarecer que, se a grande cartada do bar é estar localizado num local paradisíaco e bastante seguro (pois fica colado no Forte São João), este não é seu único trunfo. Muito pelo contrário. A cozinha do Bar Urca é reconhecidamente de qualidade. Na loja, que fica no térreo, pode-se degustar acepipes fresquinhos como o pastel, a empadinha, bolinho de bacalhau, gurjão de peixe, casquinha e caldinho de frutos do mar. E, no segundo andar, há o restaurante com pratos como bobó de camarão e polvo com arroz de brocólis que fazem a felicidade do mais empedernido mortal.
O clima é de relaxamento até a chegada da polícia, que dá uma passada para dar um confere no cumprimento das posturas municipais. Até aí tudo certo. O problema é que uma certa teatralidade na execução do dever irrita os pacatos cidadãos curtindo o seu sábado à tarde. Ouve-se, à surdina, aqui e acolá: “Em vez de pegar bandido, estão aqui, cheios de marra!” “Cadê o alcaguete?” Bem, os policiais se retiram e peço meu passaporte para o êxtase gustativo: o caldinho de frutos do mar. Como que em transe, sou atiçado pela propaganda gratuita de uma bela menina que ao meu lado no balcão recomenda o quibe de peixe (“É ótimo. Quase ganhou um prêmio.”). Ainda bem que não resisti.
Eis que aparece o artista plástico Raul Mourão com o amigo Piu. Morador da área, Raul já foi mencionado numa das colunas, em Santa Teresa, como um “ilustre ausente”, e não sei por que ainda acho que ele mora lá. Falamos sobre seu atual bairro e também sobre Os Paralamas do Sucesso. Raul, que fez a capa do último CD da banda, é, como eu, um grande fã do trabalho de Herbert Vianna, Bi e Barone. Pergunto-lhe se já viu o filme sobre Herbert e ele diz que sim, e que é, de fato, comovente. Não tenho dúvida disso. Como também comove, amigo leitor, uma transcendente tarde de sol no Bar Urca.
PS: Agradeço aos que deram pela falta da coluna e informo a todos que agora ela será quinzenal. Continuará, claro, sendo um grande prazer. Saúde e até a próxima.
Bar Urca – Rua Cândido Gaffrée, 205, Urca (2295-8744)
terça-feira, 13 de outubro de 2009
A eterna falta de tempo
“Deveria cortar minhas unhas dos pés. Meus pés estão me machucando há umas duas semanas. Sei que são as unhas dos pés, mas não consigo achar tempo para cortá-las. Estou sempre atrasado, não tenho tempo para nada. Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada a mim mesmo.”
(Bukowski, trecho de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio)
(Bukowski, trecho de O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio)
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Ela e o passado
“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranquilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: ‘moça linda...’; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”
(Rubem Braga, trecho de A mulher e o seu passado)
(Rubem Braga, trecho de A mulher e o seu passado)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Uma pequena teoria do riso
"Manifesta-se no riso das pessoas, na maioria das vezes, qualquer coisa de grosseiro que humilha a quem ri, embora essa pessoa quase nunca saiba o efeito que o seu riso provoca. Tal como não sabe (ninguém sabe, aliás) a cara que faz quando dorme. Há quem mantenha no sono uma cara inteligente, mas outros há que, embora inteligentes, fazem uma cara tão estúpida a dormir que se torna ridícula. Não sei por que tal acontece, apenas quero salientar que a pessoa que ri, tal como a pessoa que dorme, não sabe a cara que faz. De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso caráter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos. Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas ser alegres? A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos o caráter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de caráter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as idéias mais nobres, olhai antes para ela quando ri. Ri bem – é boa pessoa. Observai depois todos os matizes: por exemplo, é preciso que o riso não pareça estúpido, por mais alegre e ingênuo que seja. Mal decteteis a mais pequena nota de estupidez num riso, ficai sabendo que a pessoa que assim ri é intelectualmente limitada, apesar de nos expor um sem fim de idéias. Mesmo que o riso não seja estúpido, se vos parecer ridículo, nem que seja um pouquinho, ficai sabendo que não há na pessoa que o ri uma verdadeira dignidade, pelo menos a dignidade suficiente. Por último, notai que, mesmo que um riso seja contagioso mas por qualquer razão vos pareça vulgar, também a natureza dessa pessoa é vulgar, que toda a nobreza e espírito sublime que tínheis visto nela ou são fingidos ou imitados inconscientemente, e que essa pessoa, no futuro, mudará inevitavelmente para pior, se dedicará ao ‘útil’, abandonando sem pena as idéias nobres como sendo erros da juventude.”
(Fiódor Dostoiévski - 1821-1881)
(Fiódor Dostoiévski - 1821-1881)
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
De volta ao pé-limpo original
DE BAR EM BAR - Belmonte
Fui outro dia ao Belmonte Flamengo, o original de série, com o amigo Luciano Cian. (Já há quem diga, caro leitor, que tenho um milhão de amigos. Nem tanto.) Bem, Luciano é multimídia. Ele é artista plástico, webdesigner, diretor de videoclipes e também um dos diretores do programa Fora de casa, que estreou recentemente no GNT. Ficamos de nos encontrar lá.
De longe, vejo que está cheio. Consigo pegar uma última mesa vazia, no fim do pequeno salão, à esquerda de quem entra. Há um grande movimento de pessoas, a maioria engravatada, tanto na parte interna, nas mesas, quanto em pé do lado de fora, tomando um chope depois do trabalho, às 19:30 de uma terça-feira. Peço o meu também e dou uma esquadrinhada no bar.
Parede verde-limão, quadros do Rio antigo, alguns pôsteres de cerveja, garrafas nas prateleiras, um balcão onde se pode beber ali encostado. Apesar da estética comum às filiais da rede, a matriz, menor e mais aconchegante, tem a verdadeira cara (e a alma) do Belmonte. Quando este bar foi comprado por Antonio Rodrigues, rapidamente se transformou numa febre. Isto aconteceu cinquenta anos depois da sua inauguração em 1952. Antes era um pé-sujo tradicional do bairro e depois virou aquele que é o protótipo do botequim pé-limpo.
Eis que aparece o Luciano Cian. Acaba de voltar de uma temporada de três meses viajando a trabalho pelo mundo todo. Sim, eu disse pelo mundo todo – ou quase. Para gravar os episódios do programa Fora de casa, Luciano foi a Nova Iorque, Cidade do México, Montreal, Paris, Barcelona, Johanesburgo, Windhoek, Nairóbi, Berlim, Estocolmo, Gotemburgo, Londres, Capadócia, Veneza, Cote D’Azur e Santiago. Só não foi a Moscou porque não tinha o visto. Como se não bastasse, só para nos humilhar, a mim e a você, amigo leitor, ele ainda tirou três dias de férias em Olimpus, na Turquia, com direito a volta a Paris.
- Paris é um Baixo Gávea. É lindo, mas é um zero a zero danado!
Enquanto me conta as suas impressões (“Barcelona é adolescente”; “Na cidade do México, todos usavam máscara”; “Em Nova Iorque, vi duas meninas de 12 anos sozinhas no metrô às quatro da manhã, segurança total”), pedimos pastéis de camarão e em seguida a casquinha de siri. Vieram ótimos. O único senão vem dos garçons. São muito ávidos em servir logo o próximo chope, antes mesmo que o anterior tenha acabado. Depois de umas três ou quatro vezes, com o copo ainda com três dedos, chamei o garçom jovem e moreno, mas ele, pressentindo uma bronca, escapuliu. Não tive dúvida: fui ao gerente. Tudo esclarecido, o tal garçom não mais nos serviu e o respeito ao final do chope foi observado.
Pedimos, então, uma porção de pernil acebolado com farofa. Veio excelente e bem servido. Penso no poder de uma ideia. Pois foi exatamente uma boa sacação (entrevistar brasileiras que moram pelo mundo) o que permitiu ao meu amigo Luciano Cian fazer a viagem de uma vida toda. E também com uma boa ideia, este bar matriz foi um dos que inaugurou o formato de botequim pé-limpo no Rio de Janeiro. Saúde e até a próxima.
Bar Belmonte – Praia do Flamengo, 300-D, Flamengo (2552-3349)
Fui outro dia ao Belmonte Flamengo, o original de série, com o amigo Luciano Cian. (Já há quem diga, caro leitor, que tenho um milhão de amigos. Nem tanto.) Bem, Luciano é multimídia. Ele é artista plástico, webdesigner, diretor de videoclipes e também um dos diretores do programa Fora de casa, que estreou recentemente no GNT. Ficamos de nos encontrar lá.
De longe, vejo que está cheio. Consigo pegar uma última mesa vazia, no fim do pequeno salão, à esquerda de quem entra. Há um grande movimento de pessoas, a maioria engravatada, tanto na parte interna, nas mesas, quanto em pé do lado de fora, tomando um chope depois do trabalho, às 19:30 de uma terça-feira. Peço o meu também e dou uma esquadrinhada no bar.
Parede verde-limão, quadros do Rio antigo, alguns pôsteres de cerveja, garrafas nas prateleiras, um balcão onde se pode beber ali encostado. Apesar da estética comum às filiais da rede, a matriz, menor e mais aconchegante, tem a verdadeira cara (e a alma) do Belmonte. Quando este bar foi comprado por Antonio Rodrigues, rapidamente se transformou numa febre. Isto aconteceu cinquenta anos depois da sua inauguração em 1952. Antes era um pé-sujo tradicional do bairro e depois virou aquele que é o protótipo do botequim pé-limpo.
Eis que aparece o Luciano Cian. Acaba de voltar de uma temporada de três meses viajando a trabalho pelo mundo todo. Sim, eu disse pelo mundo todo – ou quase. Para gravar os episódios do programa Fora de casa, Luciano foi a Nova Iorque, Cidade do México, Montreal, Paris, Barcelona, Johanesburgo, Windhoek, Nairóbi, Berlim, Estocolmo, Gotemburgo, Londres, Capadócia, Veneza, Cote D’Azur e Santiago. Só não foi a Moscou porque não tinha o visto. Como se não bastasse, só para nos humilhar, a mim e a você, amigo leitor, ele ainda tirou três dias de férias em Olimpus, na Turquia, com direito a volta a Paris.
- Paris é um Baixo Gávea. É lindo, mas é um zero a zero danado!
Enquanto me conta as suas impressões (“Barcelona é adolescente”; “Na cidade do México, todos usavam máscara”; “Em Nova Iorque, vi duas meninas de 12 anos sozinhas no metrô às quatro da manhã, segurança total”), pedimos pastéis de camarão e em seguida a casquinha de siri. Vieram ótimos. O único senão vem dos garçons. São muito ávidos em servir logo o próximo chope, antes mesmo que o anterior tenha acabado. Depois de umas três ou quatro vezes, com o copo ainda com três dedos, chamei o garçom jovem e moreno, mas ele, pressentindo uma bronca, escapuliu. Não tive dúvida: fui ao gerente. Tudo esclarecido, o tal garçom não mais nos serviu e o respeito ao final do chope foi observado.
Pedimos, então, uma porção de pernil acebolado com farofa. Veio excelente e bem servido. Penso no poder de uma ideia. Pois foi exatamente uma boa sacação (entrevistar brasileiras que moram pelo mundo) o que permitiu ao meu amigo Luciano Cian fazer a viagem de uma vida toda. E também com uma boa ideia, este bar matriz foi um dos que inaugurou o formato de botequim pé-limpo no Rio de Janeiro. Saúde e até a próxima.
Bar Belmonte – Praia do Flamengo, 300-D, Flamengo (2552-3349)
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Blues e amendoim às segundas
DE BAR EM BAR - Bar do B
Fui numa segunda-feira dessas ao Mercadinho São José, ali no começo de Laranjeiras. Às segundas os bares do lugar não costumam abrir, a não ser o botequim que toca blues. Fui lá dar uma checada, por sugestão do meu primo Sérgio. Estou falando do Bar do B. Convidei para ir comigo o baixista do Barão Vermelho e grande amigo Rodrigo Santos.
Ao chegar, sou recebido por Bebel e Bernard – e logo fico em dúvida quem é o “B” do nome da casa. Cheguei cedo, por volta de 19:30, e o show só começaria quase uma hora depois. Enquanto os músicos ainda dão uma passada no som, tomo uma cerveja Skol long neck (a única à disposição). Como explicarei o diminuto espaço, caro leitor? Bernard, o dono, me conta com grande orgulho que se trata da “menor casa de shows do planeta.” Bar lotado seriam não mais do que 30 pessoas. Ao lado de um minibalcão, encostados na parede azul, tocam os músicos. No lado oposto fica o público, entre mesas e cadeiras coladas na banda e cadeiras altas e mesinhas redondas encostadas na outra parede. Escolho este último local.
Chega então o Rodrigo Santos, animado como sempre, eletricamente concentrado na batalha de sua carreira solo. Acabou de lançar seu segundo CD, Diário do homem invisível. Como se sabe, o Barão Vermelho está de férias por tempo indeterminado, portanto todos da banda têm de se virar. E ele está conseguindo isso de forma muito bonita. Rodrigo Santos era aquele companheiro (quase) perfeito para uma esbórnia: para ele a noite nunca tinha fim (o que depois virava um problema). Até que num estalo parou com tudo. Nem mesmo um chope. Desde então, e já se vão quatro anos, Rodrigo tornou-se um artista mais completo. Neste seu novo trabalho, há muitas músicas próprias e também algumas parcerias com Leoni, Humberto Barros, Dado Villa-Lobos e ainda este colunista (na faixa Longe perto de você, com Fernando Magalhães). Entre as participações especiais, Ney Matogrosso, Cidade Negra e Autoramas.
Músico fominha que é, fico a matutar quanto tempo Rodrigo Santos levaria para combinar uma canja com o pessoal da banda. Não mais do que cinco minutos. Músicos que se conhecem, camaradagem estabelecida, escolhem a stoneana Jumpin´Jack Flash. Peço mais uma cerveja e pergunto a Bebel o que tem para comer. Como não há espaço para preparar alimentos, às segundas o bar só oferece amendoins ou sanduíche natural. Nos outros dias, os clientes pedem comida dos bares ao redor.
Eis que surge meu primo Sérgio. Não o encontrava fazia uns dez anos, quando nos esbarramos recentemente num desses bares da vida (e da coluna). Ele me conta que aqui acontece essa noite do blues desde novembro e que se formou um público fiel. Também pudera. Os músicos Claudio Bedran, baixo, e Pedro Strasser, bateria (a cozinha do Blues Etílicos) mais Maurício Saad, vocais e guitarra, são excelentes e tudo é tocado baixinho, meio cool – mas sem perder a intensidade. Certamente, agradaria platéias de qualquer lugar. O Bar do B, que apresenta outras atrações ao longo da semana, bem poderia ser B de Blues. Saúde e até a próxima.
Bar do B – Rua das Laranjeiras, 90, Laranjeiras
Fui numa segunda-feira dessas ao Mercadinho São José, ali no começo de Laranjeiras. Às segundas os bares do lugar não costumam abrir, a não ser o botequim que toca blues. Fui lá dar uma checada, por sugestão do meu primo Sérgio. Estou falando do Bar do B. Convidei para ir comigo o baixista do Barão Vermelho e grande amigo Rodrigo Santos.
Ao chegar, sou recebido por Bebel e Bernard – e logo fico em dúvida quem é o “B” do nome da casa. Cheguei cedo, por volta de 19:30, e o show só começaria quase uma hora depois. Enquanto os músicos ainda dão uma passada no som, tomo uma cerveja Skol long neck (a única à disposição). Como explicarei o diminuto espaço, caro leitor? Bernard, o dono, me conta com grande orgulho que se trata da “menor casa de shows do planeta.” Bar lotado seriam não mais do que 30 pessoas. Ao lado de um minibalcão, encostados na parede azul, tocam os músicos. No lado oposto fica o público, entre mesas e cadeiras coladas na banda e cadeiras altas e mesinhas redondas encostadas na outra parede. Escolho este último local.
Chega então o Rodrigo Santos, animado como sempre, eletricamente concentrado na batalha de sua carreira solo. Acabou de lançar seu segundo CD, Diário do homem invisível. Como se sabe, o Barão Vermelho está de férias por tempo indeterminado, portanto todos da banda têm de se virar. E ele está conseguindo isso de forma muito bonita. Rodrigo Santos era aquele companheiro (quase) perfeito para uma esbórnia: para ele a noite nunca tinha fim (o que depois virava um problema). Até que num estalo parou com tudo. Nem mesmo um chope. Desde então, e já se vão quatro anos, Rodrigo tornou-se um artista mais completo. Neste seu novo trabalho, há muitas músicas próprias e também algumas parcerias com Leoni, Humberto Barros, Dado Villa-Lobos e ainda este colunista (na faixa Longe perto de você, com Fernando Magalhães). Entre as participações especiais, Ney Matogrosso, Cidade Negra e Autoramas.
Músico fominha que é, fico a matutar quanto tempo Rodrigo Santos levaria para combinar uma canja com o pessoal da banda. Não mais do que cinco minutos. Músicos que se conhecem, camaradagem estabelecida, escolhem a stoneana Jumpin´Jack Flash. Peço mais uma cerveja e pergunto a Bebel o que tem para comer. Como não há espaço para preparar alimentos, às segundas o bar só oferece amendoins ou sanduíche natural. Nos outros dias, os clientes pedem comida dos bares ao redor.
Eis que surge meu primo Sérgio. Não o encontrava fazia uns dez anos, quando nos esbarramos recentemente num desses bares da vida (e da coluna). Ele me conta que aqui acontece essa noite do blues desde novembro e que se formou um público fiel. Também pudera. Os músicos Claudio Bedran, baixo, e Pedro Strasser, bateria (a cozinha do Blues Etílicos) mais Maurício Saad, vocais e guitarra, são excelentes e tudo é tocado baixinho, meio cool – mas sem perder a intensidade. Certamente, agradaria platéias de qualquer lugar. O Bar do B, que apresenta outras atrações ao longo da semana, bem poderia ser B de Blues. Saúde e até a próxima.
Bar do B – Rua das Laranjeiras, 90, Laranjeiras
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Fanfarrão faz valer a visita
DE BAR EM BAR - Choperia Vila Rica
De passagem para o centro, muitas vezes me chamou a atenção o enorme letreiro (que pode ser avistado da janela do carro ou do ônibus): “Choperia XYZ” e, principalmente, em letras menores, o desfecho da publicidade: “o melhor chope do bairro”. Pois bem. Fui lá conferir. Estou falando da Choperia Vila Rica, que fica na movimentadíssima esquina da rua da Glória com Cândido Mendes, portanto na subida para Santa Teresa.
A Choperia Vila Rica, além de bar, é também lanchonete, restaurante e pizzaria. Pelo menos é o que se promete. Na parte externa, há algumas mesinhas com cadeiras de plástico. No balcão pode-se comer um salgado ou doce. Na parte interna, tem-se o salão onde funciona o restaurante com certo clima de casa portuguesa (e, de fato, um senhor come um cozido e toma uma taça de vinho). Sento-me do lado de fora, para ver o vai e vem alucinado de transeuntes. Por enquanto, apenas uma outra mesa ocupada, ao meu lado esquerdo. São duas meninas com cortes de cabelo modernos, que tomam um mate e parecem entediadas na quinta-feira à tarde.
Peço um chope na meia pressão. O garçom grita lá para dentro: “Sai um na pressão!” E vem um chope absolutamente normal, com o colarinho ralo de sempre. Tomo mesmo assim. Para comer há porções de bolinhos de aipim com catupiry, pastéis, linguiça, picanha fatiada, carne de sol, mas prefiro não beliscar nada. Logo em seguida, chegam dois coroas e sentam-se ao meu lado. Sentam-se é modo de dizer. Eles simplesmente aterrissam no local, que não volta mais a ser o mesmo. Cada um senta numa mesa; os dois, como eu, de frente para o movimento da rua. Um, o vizinho mais próximo, pede um chope garotinho “sem colarinho” e o outro, na segunda mesa à minha direita, uma água de coco.
- Quando há uma queda de um lado, aumenta do outro, você sabe disso...
- Você não vale nada! (Pausa.) Viu o peitão?
- O teu gosto é completamente diferente do meu.
- Namorei mulher bonita, casei com mulher bonita e depois que enviuvei tudo continuou igual.
Este que falou agora é quem comanda o show. Ele, de camisa social e blazer azul, é, com todo o respeito, um velho feio, careca, e narigudo. Mas tira a maior onda. E é irritadiço. Não tive como não prestar atenção, uma vez que eles não demonstravam falsos pudores em comemorar a amizade xingando-se mutuamente em altos brados. O outro, todo de branco, faz “escada” para o velho sátiro arrematar a piada.
- Eu amo esse cara...! – diz o “escada” referindo-se com emoção ao amigo.
- Sai pra lá, bichona – corta o d. Juan. – Você tem é trauma de infância.
- Você hoje está inspirado!
- É que voltei às boas com o meu amor.
De certa forma, como acontece com a própria Choperia Vila Rica, até simpática, mas que apregoa mais do que apresenta (o nome “choperia” dá a ideia de uma especialização que não há), quem visse o tal senhor, no fundo um bom malandro, jamais associaria o seu discurso de sedutor irresistível à estampa – embora talvez ele consiga todas aquelas mulheres, nunca se sabe. Autoestima às vezes é tudo. Saúde e até a próxima.
Choperia Vila Rica – Rua Cândido Mendes, 16A, Glória (2221-2372)
De passagem para o centro, muitas vezes me chamou a atenção o enorme letreiro (que pode ser avistado da janela do carro ou do ônibus): “Choperia XYZ” e, principalmente, em letras menores, o desfecho da publicidade: “o melhor chope do bairro”. Pois bem. Fui lá conferir. Estou falando da Choperia Vila Rica, que fica na movimentadíssima esquina da rua da Glória com Cândido Mendes, portanto na subida para Santa Teresa.
A Choperia Vila Rica, além de bar, é também lanchonete, restaurante e pizzaria. Pelo menos é o que se promete. Na parte externa, há algumas mesinhas com cadeiras de plástico. No balcão pode-se comer um salgado ou doce. Na parte interna, tem-se o salão onde funciona o restaurante com certo clima de casa portuguesa (e, de fato, um senhor come um cozido e toma uma taça de vinho). Sento-me do lado de fora, para ver o vai e vem alucinado de transeuntes. Por enquanto, apenas uma outra mesa ocupada, ao meu lado esquerdo. São duas meninas com cortes de cabelo modernos, que tomam um mate e parecem entediadas na quinta-feira à tarde.
Peço um chope na meia pressão. O garçom grita lá para dentro: “Sai um na pressão!” E vem um chope absolutamente normal, com o colarinho ralo de sempre. Tomo mesmo assim. Para comer há porções de bolinhos de aipim com catupiry, pastéis, linguiça, picanha fatiada, carne de sol, mas prefiro não beliscar nada. Logo em seguida, chegam dois coroas e sentam-se ao meu lado. Sentam-se é modo de dizer. Eles simplesmente aterrissam no local, que não volta mais a ser o mesmo. Cada um senta numa mesa; os dois, como eu, de frente para o movimento da rua. Um, o vizinho mais próximo, pede um chope garotinho “sem colarinho” e o outro, na segunda mesa à minha direita, uma água de coco.
- Quando há uma queda de um lado, aumenta do outro, você sabe disso...
- Você não vale nada! (Pausa.) Viu o peitão?
- O teu gosto é completamente diferente do meu.
- Namorei mulher bonita, casei com mulher bonita e depois que enviuvei tudo continuou igual.
Este que falou agora é quem comanda o show. Ele, de camisa social e blazer azul, é, com todo o respeito, um velho feio, careca, e narigudo. Mas tira a maior onda. E é irritadiço. Não tive como não prestar atenção, uma vez que eles não demonstravam falsos pudores em comemorar a amizade xingando-se mutuamente em altos brados. O outro, todo de branco, faz “escada” para o velho sátiro arrematar a piada.
- Eu amo esse cara...! – diz o “escada” referindo-se com emoção ao amigo.
- Sai pra lá, bichona – corta o d. Juan. – Você tem é trauma de infância.
- Você hoje está inspirado!
- É que voltei às boas com o meu amor.
De certa forma, como acontece com a própria Choperia Vila Rica, até simpática, mas que apregoa mais do que apresenta (o nome “choperia” dá a ideia de uma especialização que não há), quem visse o tal senhor, no fundo um bom malandro, jamais associaria o seu discurso de sedutor irresistível à estampa – embora talvez ele consiga todas aquelas mulheres, nunca se sabe. Autoestima às vezes é tudo. Saúde e até a próxima.
Choperia Vila Rica – Rua Cândido Mendes, 16A, Glória (2221-2372)
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Aquela tarde soteropolitana
DE BAR EM BAR - Toca do Siri
Recentemente fui ao bar cujo “dono” é o cão Miojo, no Leme. Desta vez, fui à outra ponta de Copacabana, enfiar-me na Toca do Siri. Trata-se de um bar anexo ao Restaurante Siri Mole e Cia, no finzinho do bairro (“anexo” em termos, entre eles existe uma portaria de prédio: as pessoas praticamente moram no bar). A Toca do Siri tem, portanto, a grande vantagem de oferecer iguarias de um bom restaurante com algum clima de botequim – e a preços que não chegam a ser proibitivos.
A decoração é despojada ao extremo. Na varanda, são 21 lugares distribuídos em pequenas mesas redondas com tampo de alumínio, mesmo material das cadeiras (nada confortáveis). Mas pouco importa. Aqui você pode desfrutar de belas porções de acarajé, abará, casquinha de siri, biju, tapioca, polvo, caldinhos de peixe com camarão, siri ou sururu. Para abrir os trabalhos, peço uma porção de pastéis de camarão e uma Bohemia. A cerveja vem geladíssima e os pastéis, fumegantes, sequinhos e saborosos.
Sento-me a uma mesa colada no cercado que separa o bar da rua. O movimento de ônibus neste pálido trecho de Copa é enorme, mas o de transeuntes é meio fraco. Na Toca, a esta altura, há outras duas mesas ocupadas: ao meu lado uma mesa com três senhores, e atrás de mim, um jovem casal. Trouxe comigo o roteiro de um filme para o qual fui convidado a fazer a música-tema com o parceiro Frejat. Minha intenção é ler o texto, enquanto passo, digamos, uma tarde baiana no bar.
- Não gostei de Salvador! Aquela malemolência toda! Aquilo me irrita um pouco... – dispara a moça do casal. – Veja bem: nada contra os baianos; adoro Caetano, Gil, Bethânia, Carlinhos Brown... até a dona Canô, que eu acho linda! Mas tenha paciência!
Opa. Um olho no peixe, outro no gato, como se diz. Peço ao garçom para dar mais uma conferida no cardápio enxuto da casa. Além dos petiscos, a Toca oferece pratos como arrumadinho, bobó, vatapá e risoto de frutos do mar ou camarão. Dilema cruel... Escolho um acarajé da Toca. A porção vem com dois bolinhos, mais um recheio dos deuses à parte, para ser preenchido – em êxtase – pelo próprio freguês.
- Você acha que vale a pena fazer faculdade de cinema, tia?
- A minha experiência foi ótima. O problema é que não adianta só ter bons professores se o nível dos alunos for muito fraco. Mas é sempre legal estudar e ainda tem os contatos que você pode fazer.
Viro-me para ver o que pensei que fossem namorados. Para a minha surpresa é a amiga (e ex-cunhada) Malu Schroeder com um sobrinho. Para uma surpresa maior ainda, ela acaba de fazer a assistência de direção de Papai doidão, uma “comédia psicodélica”, que é exatamente o mesmo filme para o qual farei a música. O sobrinho se despede e Malu senta-se comigo para tomarmos um caldinho de peixe com camarão. Conta-me animada sobre o filme, feito com baixíssimo orçamento.
- Acho que vai dar o que falar – opina.
O caldinho veio excelente, como todo o resto – para confirmar que o pior do bar é, sem dúvida, a vista. Mas está tudo bem, meu rei. Saúde e até a próxima.
Toca do Siri – Rua Raul Pompéia, 6, Copacabana (2267-0894)
Recentemente fui ao bar cujo “dono” é o cão Miojo, no Leme. Desta vez, fui à outra ponta de Copacabana, enfiar-me na Toca do Siri. Trata-se de um bar anexo ao Restaurante Siri Mole e Cia, no finzinho do bairro (“anexo” em termos, entre eles existe uma portaria de prédio: as pessoas praticamente moram no bar). A Toca do Siri tem, portanto, a grande vantagem de oferecer iguarias de um bom restaurante com algum clima de botequim – e a preços que não chegam a ser proibitivos.
A decoração é despojada ao extremo. Na varanda, são 21 lugares distribuídos em pequenas mesas redondas com tampo de alumínio, mesmo material das cadeiras (nada confortáveis). Mas pouco importa. Aqui você pode desfrutar de belas porções de acarajé, abará, casquinha de siri, biju, tapioca, polvo, caldinhos de peixe com camarão, siri ou sururu. Para abrir os trabalhos, peço uma porção de pastéis de camarão e uma Bohemia. A cerveja vem geladíssima e os pastéis, fumegantes, sequinhos e saborosos.
Sento-me a uma mesa colada no cercado que separa o bar da rua. O movimento de ônibus neste pálido trecho de Copa é enorme, mas o de transeuntes é meio fraco. Na Toca, a esta altura, há outras duas mesas ocupadas: ao meu lado uma mesa com três senhores, e atrás de mim, um jovem casal. Trouxe comigo o roteiro de um filme para o qual fui convidado a fazer a música-tema com o parceiro Frejat. Minha intenção é ler o texto, enquanto passo, digamos, uma tarde baiana no bar.
- Não gostei de Salvador! Aquela malemolência toda! Aquilo me irrita um pouco... – dispara a moça do casal. – Veja bem: nada contra os baianos; adoro Caetano, Gil, Bethânia, Carlinhos Brown... até a dona Canô, que eu acho linda! Mas tenha paciência!
Opa. Um olho no peixe, outro no gato, como se diz. Peço ao garçom para dar mais uma conferida no cardápio enxuto da casa. Além dos petiscos, a Toca oferece pratos como arrumadinho, bobó, vatapá e risoto de frutos do mar ou camarão. Dilema cruel... Escolho um acarajé da Toca. A porção vem com dois bolinhos, mais um recheio dos deuses à parte, para ser preenchido – em êxtase – pelo próprio freguês.
- Você acha que vale a pena fazer faculdade de cinema, tia?
- A minha experiência foi ótima. O problema é que não adianta só ter bons professores se o nível dos alunos for muito fraco. Mas é sempre legal estudar e ainda tem os contatos que você pode fazer.
Viro-me para ver o que pensei que fossem namorados. Para a minha surpresa é a amiga (e ex-cunhada) Malu Schroeder com um sobrinho. Para uma surpresa maior ainda, ela acaba de fazer a assistência de direção de Papai doidão, uma “comédia psicodélica”, que é exatamente o mesmo filme para o qual farei a música. O sobrinho se despede e Malu senta-se comigo para tomarmos um caldinho de peixe com camarão. Conta-me animada sobre o filme, feito com baixíssimo orçamento.
- Acho que vai dar o que falar – opina.
O caldinho veio excelente, como todo o resto – para confirmar que o pior do bar é, sem dúvida, a vista. Mas está tudo bem, meu rei. Saúde e até a próxima.
Toca do Siri – Rua Raul Pompéia, 6, Copacabana (2267-0894)
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
É impossível tomar um só
DE BAR EM BAR - Bar Brasil
Parafraseando mestre Fernando Sabino, dei continuidade à eterna busca de errar à toa pelos bares certos, indo numa sexta-feira dessas a um local que não dá margem à dúvida. É daquele tipo de estabelecimento que se você, amigo leitor, fechar os olhos ao entrar e imaginar que está em 1997, tudo bem; se pensar 1986, ok, também. No caso, o bar tem mais de um século e passou apenas por quatro reformas. Ele é o mesmo desde que eu o conheço, e posso garantir que não foi ontem. Estou falando do célebre Bar Brasil, na Lapa.
Chego num horário em que ainda predominam as turmas de trabalho e os mais experientes (vejo dois colegas rindo muito, ao meu lado; noutra mesa, na diagonal, um senhor de suspensórios com pinta de velho lobo da arquitetura traça um kassler, acompanhado por um amigo; noutra, um casal cinqüentão namora e, ainda, à minha frente, observando tudo e a todos, há um velhinho empertigado de camisa social e bermuda, solitário). Por volta dez da noite começa a surgir a galera mais jovem, que veio agitar na Lapa fervilhante e passa antes aqui para tomar um chope, já que a casa fecha à meia-noite, sem choro nem vela.
O chope do Bar Brasil merece um parágrafo à parte. Porém o que dizer, quando sobre ele quase tudo já foi dito? O que sei é que é impossível tomar um só. Vem na temperatura e pressão ideais. Um primeiro gole é um bálsamo para as pupilas gustativas e logo me faz lembrar de Tom Jobim e sua expressão “o chope dourado da felicidade”. Para beliscar, peço um ótimo patê de fígado de vitela com pão francês.
Pelo salão em formato de bumerangue, de repente ecoa um espirro. Algum gaiato não perde tempo: “Olha a gripe suína...” As pessoas riem amarelo. O temor generalizado naturalmente já se evidencia nos bares. Por exemplo, um rapaz que chega numa mesa perto da porta, com quatro mulheres e um homem, abraça-as de mão fechada e não aperta a mão do outro homem, dá-lhe o braço; feito isso, vai ao banheiro lavar as mãos – que também foi a primeira coisa que fiz, hipocondríaco que sou, quando aqui cheguei. É ou não é o fim da picada?
Mas vamos falar do bar, que ele merece. Aqui você pode comer sem susto porções de bife à milanesa (por mais estranho que isso possa parecer), salsichas variadas, rosbife, kassler-rippen, ossobuco de vitela. Ou os pratos de kassler defumado com vários acompanhamentos, dobradinha, língua ao molho de páprica, salsichão suíço com chucrute. Peço mais um chope e o joelho de porco (eisben) frito e crocante, cortado para petisco. Bem... não penso mais nos problemas.
Antes de finalizar, gostaria de me referir ao casal de cinquentões em pleno namoro. Passo a observá-los, enquanto degusto a lentilha amiga para rebater a saideira. A senhora loura faz o tipo que malha, bracinhos fortes e ares de menina; ele é um senhor moreno, meio gordinho. Ela fala sem parar. Ele procura demonstrar interesse, mas por um instante desvia o olhar para a bandeja do garçom e a acompanha, ávido, até o destino final. Como bom gordinho. Ela nem notou que ele não a ouvia mais. Saúde e até a próxima.
Bar Brasil – Rua Mem de Sá, 90, Lapa (2509-5943)
Parafraseando mestre Fernando Sabino, dei continuidade à eterna busca de errar à toa pelos bares certos, indo numa sexta-feira dessas a um local que não dá margem à dúvida. É daquele tipo de estabelecimento que se você, amigo leitor, fechar os olhos ao entrar e imaginar que está em 1997, tudo bem; se pensar 1986, ok, também. No caso, o bar tem mais de um século e passou apenas por quatro reformas. Ele é o mesmo desde que eu o conheço, e posso garantir que não foi ontem. Estou falando do célebre Bar Brasil, na Lapa.
Chego num horário em que ainda predominam as turmas de trabalho e os mais experientes (vejo dois colegas rindo muito, ao meu lado; noutra mesa, na diagonal, um senhor de suspensórios com pinta de velho lobo da arquitetura traça um kassler, acompanhado por um amigo; noutra, um casal cinqüentão namora e, ainda, à minha frente, observando tudo e a todos, há um velhinho empertigado de camisa social e bermuda, solitário). Por volta dez da noite começa a surgir a galera mais jovem, que veio agitar na Lapa fervilhante e passa antes aqui para tomar um chope, já que a casa fecha à meia-noite, sem choro nem vela.
O chope do Bar Brasil merece um parágrafo à parte. Porém o que dizer, quando sobre ele quase tudo já foi dito? O que sei é que é impossível tomar um só. Vem na temperatura e pressão ideais. Um primeiro gole é um bálsamo para as pupilas gustativas e logo me faz lembrar de Tom Jobim e sua expressão “o chope dourado da felicidade”. Para beliscar, peço um ótimo patê de fígado de vitela com pão francês.
Pelo salão em formato de bumerangue, de repente ecoa um espirro. Algum gaiato não perde tempo: “Olha a gripe suína...” As pessoas riem amarelo. O temor generalizado naturalmente já se evidencia nos bares. Por exemplo, um rapaz que chega numa mesa perto da porta, com quatro mulheres e um homem, abraça-as de mão fechada e não aperta a mão do outro homem, dá-lhe o braço; feito isso, vai ao banheiro lavar as mãos – que também foi a primeira coisa que fiz, hipocondríaco que sou, quando aqui cheguei. É ou não é o fim da picada?
Mas vamos falar do bar, que ele merece. Aqui você pode comer sem susto porções de bife à milanesa (por mais estranho que isso possa parecer), salsichas variadas, rosbife, kassler-rippen, ossobuco de vitela. Ou os pratos de kassler defumado com vários acompanhamentos, dobradinha, língua ao molho de páprica, salsichão suíço com chucrute. Peço mais um chope e o joelho de porco (eisben) frito e crocante, cortado para petisco. Bem... não penso mais nos problemas.
Antes de finalizar, gostaria de me referir ao casal de cinquentões em pleno namoro. Passo a observá-los, enquanto degusto a lentilha amiga para rebater a saideira. A senhora loura faz o tipo que malha, bracinhos fortes e ares de menina; ele é um senhor moreno, meio gordinho. Ela fala sem parar. Ele procura demonstrar interesse, mas por um instante desvia o olhar para a bandeja do garçom e a acompanha, ávido, até o destino final. Como bom gordinho. Ela nem notou que ele não a ouvia mais. Saúde e até a próxima.
Bar Brasil – Rua Mem de Sá, 90, Lapa (2509-5943)
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Não tem Ted Boy, mas vale
DE BAR EM BAR - Xodó da Moça
Foi com muita alegria que, numa tarde modorrenta de segunda-feira, fui ao Leme encontrar um velho amigo. Combinamos de tomar uma cerveja e comer uma rabada no bar do Ted Boy Marino. Ted foi um ídolo para a molecada de algumas (muitas) décadas passadas. Ele era o mocinho do popular Telecatch Montilla, o louro com pinta de galã que ganhava todas as lutas (tinha também o Verdugo, a Múmia, o Fantomas...). E o meu amigo é o músico Luciano Maurício de Oliveira, o Luce.
Ousaria dizer, caro leitor, que Luce é um guitarrista incomum. Um dia ele poderá contar para seu filho Lui, de seis anos, e depois para os netos, que tocou, em momentos fundamentais, com três ícones do rock brasileiro – ou melhor, da música brasileira: Cazuza, Cássia Eller e Lobão. Não é pouca coisa. Como se não bastasse, Luce ainda tem um vozeirão black.
Depois dos cumprimentos emocionados, rumamos para o bar – e a conversa foi totalmente outra. Primeiro, erramos o botequim e fomos no do lado. Depois, já no pretenso local correto, segunda não era o dia de rabada. E, por fim, o tal bar, Xodó da Moça, não é mais do Ted Boy Marino, que o vendeu já faz um tempo. Que beleza... Sendo assim, o estabelecimento passaria a ser um pé-sujo normal. Bom, já que estávamos lá, melhor tomar uma cerveja. Mas qual não foi a minha surpresa ao constatar que tinha, além das marcas de praxe, Serra Malte e Therezópolis. Já ganhou ponto o Xodó da Moça.
Luce, que é da área, mas que, como se viu, não está atualizado quanto às atividades de compra e venda de botequins, me conta que nos finais de semana, o bar enche. Agora está quase vazio. A dona do Xodó da Moça coloca para nós umas cadeiras de plástico na calçada em frente ao balcão. Na impossibilidade de nos atracarmos com a rabada, perguntamos o que poderíamos comer. Angu à baiana? Não. Queijo prato? Não. Moela? Também não. Apesar de todas estas opções estarem apregoadas em cartazes espalhados pela casa, a dona nos explica que “quase tudo acabou”, inclusive o frango com quiabo e o prato do dia. As compras só serão feitas amanhã. Mas poderia sair um sanduíche de carne assada. Decidimos deixar para depois.
- Reparei que você deu uma envelhecida, hein, rapaz... – disse o meu querido amigo desde os tempos de Colégio Andrews.
Pois é. Intimidade dá nisso. Luce me conta que atualmente, além de estar tocando na banda de Arnaldo Brandão, prepara um show solo, chamado Gala Rara Guanabara. Já ouvi parte do trabalho no myspace e tem tudo para dar certo. Pedimos a carne assada aperitivo. Veio assim, assim. Mas considero que ter vindo ao Xodó foi uma experiência transcendente. Por dois motivos: também estava lá o Nelson Rodrigues Filho, com sua longa barba de profeta. Tive vontade de lhe dizer que sou fã incondicional de seu pai, mas fiquei tímido. O segundo: em frente ao balcão, reina deitado um cachorro vira-lata, o Miojo. No melhor lugar, há um colchãozinho, uma tigela com água e outra para comida. Saí de casa para conhecer o boteco do Ted Boy e conheci o bar do Miojo. Saúde e até a próxima.
Xodó da Moça – Rua Gustavo Sampaio 410, Leme (2295-0674)
Foi com muita alegria que, numa tarde modorrenta de segunda-feira, fui ao Leme encontrar um velho amigo. Combinamos de tomar uma cerveja e comer uma rabada no bar do Ted Boy Marino. Ted foi um ídolo para a molecada de algumas (muitas) décadas passadas. Ele era o mocinho do popular Telecatch Montilla, o louro com pinta de galã que ganhava todas as lutas (tinha também o Verdugo, a Múmia, o Fantomas...). E o meu amigo é o músico Luciano Maurício de Oliveira, o Luce.
Ousaria dizer, caro leitor, que Luce é um guitarrista incomum. Um dia ele poderá contar para seu filho Lui, de seis anos, e depois para os netos, que tocou, em momentos fundamentais, com três ícones do rock brasileiro – ou melhor, da música brasileira: Cazuza, Cássia Eller e Lobão. Não é pouca coisa. Como se não bastasse, Luce ainda tem um vozeirão black.
Depois dos cumprimentos emocionados, rumamos para o bar – e a conversa foi totalmente outra. Primeiro, erramos o botequim e fomos no do lado. Depois, já no pretenso local correto, segunda não era o dia de rabada. E, por fim, o tal bar, Xodó da Moça, não é mais do Ted Boy Marino, que o vendeu já faz um tempo. Que beleza... Sendo assim, o estabelecimento passaria a ser um pé-sujo normal. Bom, já que estávamos lá, melhor tomar uma cerveja. Mas qual não foi a minha surpresa ao constatar que tinha, além das marcas de praxe, Serra Malte e Therezópolis. Já ganhou ponto o Xodó da Moça.
Luce, que é da área, mas que, como se viu, não está atualizado quanto às atividades de compra e venda de botequins, me conta que nos finais de semana, o bar enche. Agora está quase vazio. A dona do Xodó da Moça coloca para nós umas cadeiras de plástico na calçada em frente ao balcão. Na impossibilidade de nos atracarmos com a rabada, perguntamos o que poderíamos comer. Angu à baiana? Não. Queijo prato? Não. Moela? Também não. Apesar de todas estas opções estarem apregoadas em cartazes espalhados pela casa, a dona nos explica que “quase tudo acabou”, inclusive o frango com quiabo e o prato do dia. As compras só serão feitas amanhã. Mas poderia sair um sanduíche de carne assada. Decidimos deixar para depois.
- Reparei que você deu uma envelhecida, hein, rapaz... – disse o meu querido amigo desde os tempos de Colégio Andrews.
Pois é. Intimidade dá nisso. Luce me conta que atualmente, além de estar tocando na banda de Arnaldo Brandão, prepara um show solo, chamado Gala Rara Guanabara. Já ouvi parte do trabalho no myspace e tem tudo para dar certo. Pedimos a carne assada aperitivo. Veio assim, assim. Mas considero que ter vindo ao Xodó foi uma experiência transcendente. Por dois motivos: também estava lá o Nelson Rodrigues Filho, com sua longa barba de profeta. Tive vontade de lhe dizer que sou fã incondicional de seu pai, mas fiquei tímido. O segundo: em frente ao balcão, reina deitado um cachorro vira-lata, o Miojo. No melhor lugar, há um colchãozinho, uma tigela com água e outra para comida. Saí de casa para conhecer o boteco do Ted Boy e conheci o bar do Miojo. Saúde e até a próxima.
Xodó da Moça – Rua Gustavo Sampaio 410, Leme (2295-0674)
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Onde estão os cariocas?
DE BAR EM BAR - Devassa
- Levando em conta que você é o azarado da turma, boa coisa não é! – disse o barbudo em tom de gozação.
- Mas eu não fiz nada!... – berrou o amigo.
Logo pude perceber, na primeira frase, que o tal amigo estava numa água daquelas. Era uma mesa com três homens e uma mulher. Embora fosse ainda cedo, já estavam no final da jornada etílica. Pedem a conta. São jovens paulistas, talvez ricos, de férias. Vem o garçom com a nota e todos sofrem:
- Duzentos e tantos contos!
Passa na rua um ambulante que vende camisas de futebol. O amigo azarado fala para o vendedor em linguagem enrolada: “Adrfiano... Adrwfjiano...”. O homem não entende (ainda há um toldo de plástico entre os dois), então ele corre para dar a volta e entra no bar, na dúvida, já com a camisa do Flamengo de prontidão. O engraçadinho se adianta: “Não quero comprar nada não, meu. Sou Curíntia...”. E cai na gargalhada com os amigos. Lamentável. Regra de ouro do bar: se quiser beber, beba; mas não encha o saco de ninguém. Mudo-me de lugar, já que eles decidiram recomeçar, e a coluna, enfim, ganha outros ares.
Fui para a varanda que dá para a Prudente de Morais. Estamos na esquina desta com a Farme de Amoedo, no Bar Devassa. Sexta-feira à tarde, chove e faz frio. Um dia ideal para beber um chope mais encorpado. Peço ao garçom uma Devassa Índia (índia pale ale, coloração escura, de teor alcoólico 6%). Excelente. Dá logo uma onda. Para acompanhar, peço uma porção de croquetes de carne apimentados. Na mesa à minha frente, agora está um grupo de cinco meninas e um rapaz gordinho de barbicha e piercing. Uma delas é alemã e se esforça para falar português.
A esta altura, umas seis da tarde, há ocupação apenas no entorno do bar, com os fregueses, como eu, encostados na varanda de vista preciosa. A parte interna está vazia – o que torna o salão, imponente e iluminado, muito bonito de se ver (passo os olhos por suas paredes de cor mostarda, mesas de madeira, piso em branco e preto formando mosaicos, um grande pôster de fábrica de cerveja e, em destaque, um balcão espelhado atrás). É, sem dúvida, um lugar que tem seus trunfos.
Mas o trunfo maior aqui é realmente o chope, criação da própria casa. A bebida vem nas espécimes loura, ruiva, negra, índia e mulata (que mistura loura, ruiva e negra). Há também as cervejas, com uma linha de produção que abrange diversos tipos. Hoje decido ficar apenas no chope. Vario entre as índias e uma negra (nada mal, hein.) Peço o cardápio para escolher outro petisco. Há opções como anéis de lula, queijo coalho, kassler, escondidinhos, camarões. Peço o creme de abóbora e gorgonzola. Vem absolutamente sensacional.
Na mesa das cinco meninas e do barbicha, o papo já começa a morrer. A mais bonita dá um bocejo. Daqui a pouco vão embora a fim de dar uma descansada para a night. Excetuando-se a gringa, são mineiros também de férias no Rio de Janeiro. Aliás, na mesa atrás de mim e em volta, noto a presença de mais turistas. Está certo que faz um dia pouco carioca, mas cadê os nativos? Saúde e até a próxima.
Devassa Bar – Rua Prudente de Moraes, 416, Ipanema (2522-0627)
- Levando em conta que você é o azarado da turma, boa coisa não é! – disse o barbudo em tom de gozação.
- Mas eu não fiz nada!... – berrou o amigo.
Logo pude perceber, na primeira frase, que o tal amigo estava numa água daquelas. Era uma mesa com três homens e uma mulher. Embora fosse ainda cedo, já estavam no final da jornada etílica. Pedem a conta. São jovens paulistas, talvez ricos, de férias. Vem o garçom com a nota e todos sofrem:
- Duzentos e tantos contos!
Passa na rua um ambulante que vende camisas de futebol. O amigo azarado fala para o vendedor em linguagem enrolada: “Adrfiano... Adrwfjiano...”. O homem não entende (ainda há um toldo de plástico entre os dois), então ele corre para dar a volta e entra no bar, na dúvida, já com a camisa do Flamengo de prontidão. O engraçadinho se adianta: “Não quero comprar nada não, meu. Sou Curíntia...”. E cai na gargalhada com os amigos. Lamentável. Regra de ouro do bar: se quiser beber, beba; mas não encha o saco de ninguém. Mudo-me de lugar, já que eles decidiram recomeçar, e a coluna, enfim, ganha outros ares.
Fui para a varanda que dá para a Prudente de Morais. Estamos na esquina desta com a Farme de Amoedo, no Bar Devassa. Sexta-feira à tarde, chove e faz frio. Um dia ideal para beber um chope mais encorpado. Peço ao garçom uma Devassa Índia (índia pale ale, coloração escura, de teor alcoólico 6%). Excelente. Dá logo uma onda. Para acompanhar, peço uma porção de croquetes de carne apimentados. Na mesa à minha frente, agora está um grupo de cinco meninas e um rapaz gordinho de barbicha e piercing. Uma delas é alemã e se esforça para falar português.
A esta altura, umas seis da tarde, há ocupação apenas no entorno do bar, com os fregueses, como eu, encostados na varanda de vista preciosa. A parte interna está vazia – o que torna o salão, imponente e iluminado, muito bonito de se ver (passo os olhos por suas paredes de cor mostarda, mesas de madeira, piso em branco e preto formando mosaicos, um grande pôster de fábrica de cerveja e, em destaque, um balcão espelhado atrás). É, sem dúvida, um lugar que tem seus trunfos.
Mas o trunfo maior aqui é realmente o chope, criação da própria casa. A bebida vem nas espécimes loura, ruiva, negra, índia e mulata (que mistura loura, ruiva e negra). Há também as cervejas, com uma linha de produção que abrange diversos tipos. Hoje decido ficar apenas no chope. Vario entre as índias e uma negra (nada mal, hein.) Peço o cardápio para escolher outro petisco. Há opções como anéis de lula, queijo coalho, kassler, escondidinhos, camarões. Peço o creme de abóbora e gorgonzola. Vem absolutamente sensacional.
Na mesa das cinco meninas e do barbicha, o papo já começa a morrer. A mais bonita dá um bocejo. Daqui a pouco vão embora a fim de dar uma descansada para a night. Excetuando-se a gringa, são mineiros também de férias no Rio de Janeiro. Aliás, na mesa atrás de mim e em volta, noto a presença de mais turistas. Está certo que faz um dia pouco carioca, mas cadê os nativos? Saúde e até a próxima.
Devassa Bar – Rua Prudente de Moraes, 416, Ipanema (2522-0627)
sexta-feira, 31 de julho de 2009
No pé limpo, suco de melão
DE BAR EM BAR - Odorico
“O mundo é recheado de queijo”, me revela a escritora Ana Paula Maia, lendo o cardápio. Combinamos outro dia de ir a um bar em Botafogo. Levei-a primeiro num pé-sujo disfarçado, perto da área dos cinemas. Ela reclamou: “Passei minha vida toda nessa, não preciso mais.” Note-se que ela tem só 31 anos, e é considerada uma revelação das letras nacionais. Alguém já disse que é uma mulher que escreve como homem. Uma bobagem. O que sei é que Ana Paula Maia saiu de Nova Iguaçu para inscrever seu nome na literatura brasileira. E que agora estamos aqui, no Odorico.
O bar, cujo símbolo é o desenho de um homem parecidíssimo com Barack Obama (quem será, meu Deus?), tem um salão e uma área externa com mesinhas e cadeiras dobráveis de madeira. Apesar do calor atípico para esta época, preferimos a parte interna, o salão iluminado, mesa na lateral, boa vista do bar. Chegamos um pouco antes do movimento de pessoas rumo à lotação da casa. Passo os olhos pelas caras, muitas delas saídas agora do trabalho, Mas, na verdade, hoje o que interessa é esse papo com a amiga escritora, minha personagem da vez. Como temos fome, pedimos logo uma porção de croquetes de carne do tipo alemão. Eu tomo um chope, Ana um Ice-T (ela só bebe saquê – e muito esporadicamente).
Além de falar de filmes e livros, conversamos também sobre outras coisas familiares, como a hipocondria nossa de cada dia, sustentada por uma farmácia em cada esquina, e os trajes quando se trabalha em casa – alguns bizarros (estes só meus; atualmente ela se veste como se fosse trabalhar fora). Ana Paula Maia tem cara de brasileira. Bocão, cabelo encaracolado, pele da cor tropical, magra – depois que parou de consumir leite e derivados por alergia tem pesado 51 quilos. Mas é uma voraz consumidora e crítica do mundo pop. Suas admirações passam por The Kills, Johnny Cash, Chingon (guitarrista mexicano), Quentin Tarantino, novela das oito, Lost, Law & Order, John Fante, Steinbeck e Campos de Carvalho. Acaba de lançar seu terceiro livro, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, por uma editora top. E trocou a noite de autógrafos por um trailer do livro no cinema, narrado pelo Peréio. Bravo, Ana!
Peço aos solícitos garçons de novo o cardápio, mais um chope e para ela um suco de melão. O Odorico faz a linha do pé-limpo ajeitado. Tem como especialidades pratos como a picanha nobre na chapa e “costeletas Primo Basílio”. Oferece também escondidinhos e caldinhos, moela, nachos mexicanos, chips de berinjela, carne seca com farofa, sanduíches e sopas. Pedimos iscas de filé mignon e uma porção de batatas fritas. Vieram corretas, assim como os croquetes, anteriormente. Se não chegaram a emocionar, também não fizeram feio.
Por falar nisso, ciente de sua condição, ao discorrer sobre uma adversária em potencial numa atitude bastante reprovável, ela dispara: “mulher feia é f...!” Mas o faz com absoluta graça e hilaridade. É uma menina desabusada. Ana Paula Maia não está para brincadeira. Ela sabe o que quer e vai chegar lá. Saúde e até a próxima.
Odorico Bar – Rua Voluntários da Pátria, 31C-D, Botafogo, (2266-3773)
“O mundo é recheado de queijo”, me revela a escritora Ana Paula Maia, lendo o cardápio. Combinamos outro dia de ir a um bar em Botafogo. Levei-a primeiro num pé-sujo disfarçado, perto da área dos cinemas. Ela reclamou: “Passei minha vida toda nessa, não preciso mais.” Note-se que ela tem só 31 anos, e é considerada uma revelação das letras nacionais. Alguém já disse que é uma mulher que escreve como homem. Uma bobagem. O que sei é que Ana Paula Maia saiu de Nova Iguaçu para inscrever seu nome na literatura brasileira. E que agora estamos aqui, no Odorico.
O bar, cujo símbolo é o desenho de um homem parecidíssimo com Barack Obama (quem será, meu Deus?), tem um salão e uma área externa com mesinhas e cadeiras dobráveis de madeira. Apesar do calor atípico para esta época, preferimos a parte interna, o salão iluminado, mesa na lateral, boa vista do bar. Chegamos um pouco antes do movimento de pessoas rumo à lotação da casa. Passo os olhos pelas caras, muitas delas saídas agora do trabalho, Mas, na verdade, hoje o que interessa é esse papo com a amiga escritora, minha personagem da vez. Como temos fome, pedimos logo uma porção de croquetes de carne do tipo alemão. Eu tomo um chope, Ana um Ice-T (ela só bebe saquê – e muito esporadicamente).
Além de falar de filmes e livros, conversamos também sobre outras coisas familiares, como a hipocondria nossa de cada dia, sustentada por uma farmácia em cada esquina, e os trajes quando se trabalha em casa – alguns bizarros (estes só meus; atualmente ela se veste como se fosse trabalhar fora). Ana Paula Maia tem cara de brasileira. Bocão, cabelo encaracolado, pele da cor tropical, magra – depois que parou de consumir leite e derivados por alergia tem pesado 51 quilos. Mas é uma voraz consumidora e crítica do mundo pop. Suas admirações passam por The Kills, Johnny Cash, Chingon (guitarrista mexicano), Quentin Tarantino, novela das oito, Lost, Law & Order, John Fante, Steinbeck e Campos de Carvalho. Acaba de lançar seu terceiro livro, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, por uma editora top. E trocou a noite de autógrafos por um trailer do livro no cinema, narrado pelo Peréio. Bravo, Ana!
Peço aos solícitos garçons de novo o cardápio, mais um chope e para ela um suco de melão. O Odorico faz a linha do pé-limpo ajeitado. Tem como especialidades pratos como a picanha nobre na chapa e “costeletas Primo Basílio”. Oferece também escondidinhos e caldinhos, moela, nachos mexicanos, chips de berinjela, carne seca com farofa, sanduíches e sopas. Pedimos iscas de filé mignon e uma porção de batatas fritas. Vieram corretas, assim como os croquetes, anteriormente. Se não chegaram a emocionar, também não fizeram feio.
Por falar nisso, ciente de sua condição, ao discorrer sobre uma adversária em potencial numa atitude bastante reprovável, ela dispara: “mulher feia é f...!” Mas o faz com absoluta graça e hilaridade. É uma menina desabusada. Ana Paula Maia não está para brincadeira. Ela sabe o que quer e vai chegar lá. Saúde e até a próxima.
Odorico Bar – Rua Voluntários da Pátria, 31C-D, Botafogo, (2266-3773)
sexta-feira, 24 de julho de 2009
A nissei, a gordinha e a mulata
DE BAR EM BAR - Antigamente
Fui tarde dessas ao Centro com a intenção de ver a exposição de arte russa do início do século passado e depois mergulhar no bar. Mas como me atrasei bastante, a exposição, que é imperdível, teve de ficar para uma outra ocasião. Rumei então, com alguma culpa, para o bar Antigamente, ali na rua do Ouvidor. Mas só até o primeiro chope. (Até porque não existe a menor possibilidade de eu perder novamente a visita às obras revolucionárias dos grandes pintores russos). É a tal história: não vi, mas recomendo sem medo de errar, com total fervor dostoievskiano.
Entro no boteco pé-limpo e ele ainda está meio vazio. Lá fora, as mesinhas de madeira começam a ser dispostas no trecho de pedestres da rua centenária, à espera dos fregueses que ao sair do trabalho irão lotar o bar a céu aberto. Aliás, faz um belo início de noite. Na parte interna do bar, sento-me no canto à esquerda, na mesa perto da enorme TV. Como estou quase abaixo do aparelho, apenas ouço o excelente sambista Arlindo Cruz. Peço o primeiro chope e um pastel de costela (iguaria que parece ser a bola da vez na chamada baixa gastronomia. Ainda bem. Uma costela tenra é coisa de outro planeta). Veio ótimo o pastel, sequinho, com recheio farto e carne macia.
O Antigamente tem pratos como o bom filé de linguado com batatas, o polvo à provençal e a carne assada com talharim. Mas a grande saída são os petiscos: pastéis, frango à passarinho, tortillas, carne-seca com aipim, gurjão de badejo. Como tenho fome, peço mais um acepipe: meia porção de bolinhos de bacalhau. Tudo ok. Chamam-me a atenção dois cidadãos em mesas separadas. Um dos homens toma cerveja e lê calmamente o Diário Oficial. O outro, também bebendo cerveja, fala sobriamente ao celular. Naquele exato momento, o clima mudou. O bar repentinamente começou a encher. Os dois solitários à minha frente, assim como eu, fomos rapidamente levados a um mundo de alegria (fim do expediente!) e muitas risadas em volta.
Eis que entram três amigas e sentam-se próximo à minha mesa. Uma delas era uma nissei de óculos e sorriso tímido, outra uma morena gorda e, por fim, uma escultural mulata. Trabalham na mesma empresa, ou firma, sei lá. A japeta de óculos toma um mate, a gordinha uma cerveja sem álcool e a mulata uma caipivodca de limão. Riem muito, a malícia rola solta sem homem reprimindo. Mulheres sozinhas riem muito – e dizem tudo aquilo que talvez não gostássemos de ouvir.
- Mas se eu falar isso, ele vai se achar importante... – contorceu-se a gordinha.
- E se acontecer um milagre?! – interrompeu toda esperançosa a japinha.
- Que situação... – disse a mulata.
- Safada! Filha da mãe! – Não se aguentou a gordinha.
- Você falou isso? Você está namorando quem? – resumiu com sabedoria a mulata cavala.
E o Arlindão no DVD: “Madureira lá lá lá iá...” A mulata era nota dez. Senti vontade de escrever na toalha de mesa uma letra de samba. Título: Mulata cavala. Que me perdoe mestre Aurélio. Que me perdoe Machado. Drummond... Mas a moça era realmente uma mulata cavala. Saúde e até a próxima.
Antigamente – Rua do Ouvidor, 43, Centro (2507-5040)
Fui tarde dessas ao Centro com a intenção de ver a exposição de arte russa do início do século passado e depois mergulhar no bar. Mas como me atrasei bastante, a exposição, que é imperdível, teve de ficar para uma outra ocasião. Rumei então, com alguma culpa, para o bar Antigamente, ali na rua do Ouvidor. Mas só até o primeiro chope. (Até porque não existe a menor possibilidade de eu perder novamente a visita às obras revolucionárias dos grandes pintores russos). É a tal história: não vi, mas recomendo sem medo de errar, com total fervor dostoievskiano.
Entro no boteco pé-limpo e ele ainda está meio vazio. Lá fora, as mesinhas de madeira começam a ser dispostas no trecho de pedestres da rua centenária, à espera dos fregueses que ao sair do trabalho irão lotar o bar a céu aberto. Aliás, faz um belo início de noite. Na parte interna do bar, sento-me no canto à esquerda, na mesa perto da enorme TV. Como estou quase abaixo do aparelho, apenas ouço o excelente sambista Arlindo Cruz. Peço o primeiro chope e um pastel de costela (iguaria que parece ser a bola da vez na chamada baixa gastronomia. Ainda bem. Uma costela tenra é coisa de outro planeta). Veio ótimo o pastel, sequinho, com recheio farto e carne macia.
O Antigamente tem pratos como o bom filé de linguado com batatas, o polvo à provençal e a carne assada com talharim. Mas a grande saída são os petiscos: pastéis, frango à passarinho, tortillas, carne-seca com aipim, gurjão de badejo. Como tenho fome, peço mais um acepipe: meia porção de bolinhos de bacalhau. Tudo ok. Chamam-me a atenção dois cidadãos em mesas separadas. Um dos homens toma cerveja e lê calmamente o Diário Oficial. O outro, também bebendo cerveja, fala sobriamente ao celular. Naquele exato momento, o clima mudou. O bar repentinamente começou a encher. Os dois solitários à minha frente, assim como eu, fomos rapidamente levados a um mundo de alegria (fim do expediente!) e muitas risadas em volta.
Eis que entram três amigas e sentam-se próximo à minha mesa. Uma delas era uma nissei de óculos e sorriso tímido, outra uma morena gorda e, por fim, uma escultural mulata. Trabalham na mesma empresa, ou firma, sei lá. A japeta de óculos toma um mate, a gordinha uma cerveja sem álcool e a mulata uma caipivodca de limão. Riem muito, a malícia rola solta sem homem reprimindo. Mulheres sozinhas riem muito – e dizem tudo aquilo que talvez não gostássemos de ouvir.
- Mas se eu falar isso, ele vai se achar importante... – contorceu-se a gordinha.
- E se acontecer um milagre?! – interrompeu toda esperançosa a japinha.
- Que situação... – disse a mulata.
- Safada! Filha da mãe! – Não se aguentou a gordinha.
- Você falou isso? Você está namorando quem? – resumiu com sabedoria a mulata cavala.
E o Arlindão no DVD: “Madureira lá lá lá iá...” A mulata era nota dez. Senti vontade de escrever na toalha de mesa uma letra de samba. Título: Mulata cavala. Que me perdoe mestre Aurélio. Que me perdoe Machado. Drummond... Mas a moça era realmente uma mulata cavala. Saúde e até a próxima.
Antigamente – Rua do Ouvidor, 43, Centro (2507-5040)
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Carnavalizaram o botequim
DE BAR EM BAR - Garrafeiro Informal
- Você tá maluco, rapaz?!
Virei-me de leve para olhar.
- Onde já se viu uma coisa dessas! – continuou em sua estupefação o homem pálido com cara de fuinha, de camisa e calça sociais e cabelo impecavelmente repartido do lado.
Uma trama eclodiu mal cheguei ao Garrafeiro Informal (naquela rua em que muitas vezes cruzara de passagem, vindo do ônibus, para ir ao Piraquê jogar voleibol. Bons tempos). Por indicação de meu amigo Humberto Effe, que mora ali perto, fui conferir o relativamente novo bar da rede Informal, cuja filial do Jardim Botânico que lá existia entrou em obras e pouco depois virou Garrafeiro Informal. Como o nome modificado propõe, um bar dedicado às cervejas de garrafa – são mais de 20 rótulos.
Logo ao adentrar o boteco se percebe a intenção em dar um ar diferente em relação ao formato da bem sucedida rede de bares (que muito já frequentei, aliás). Há trechos de dizeres na estética do Profeta Gentileza, engradados de cerveja cenograficamente dispostos no salão, canecas no teto, um imenso São Jorge. Nas paredes azulejadas em branco e azul, pôsteres de algumas cervejas e prateleiras com inúmeras garrafas expostas. Se me pedissem uma interpretação pseudointelectualizada, arriscaria afirmar que rolou certa carnavalização do botequim, mas já que a decoração é assinada justamente por um carnavalesco, Mario Boriello, diria, como Benito di Paula, que “tudo está no seu lugar, graças a Deus”.
Peço uma cerveja Serra Malte ao garçom, mas logo aparece o gerente, que educadamente me explica que ainda não está bem gelada. Peço então uma Original e um balde com gelo com outras duas garrafas da minha escolha inicial. Eis que vejo passando na rua justamente o cantor e compositor Humberto Effe. Tinha ido dar uma corrida na Lagoa. Ele, que é da minha geração e também parceiro em duas ou três canções de que gosto muito, corre invejáveis nove quilômetros como se estivesse a passeio. Quando me vê, relaxando na varanda e tomando uma cervejinha, diz que está “com inveja”. Já eu penso com um travo de melancolia que a época em que cheguei a correr uma maratona está no museu das minhas memórias.
Humberto se despede e vai para casa. Ele será pai pela segunda vez e a sua mulher Tininha está grávida de primeira viagem. Sinto fome e peço um miniescondidinho de camarão, que vem excelente. É um dos pratos exclusivos do cardápio Garrafeiro (assim como o arroz com camarão, o espaguete com carne assada e o picadinho de carne). Estava tão bom que pedi em seguida uma porção de camarões empanados. Também muito boa.
O leitor a esta altura deve estar se perguntando: e a história do começo da coluna? Não esqueci, não. Guardei-a para o final. Aconteceu o seguinte: o homem pálido ficou indignado com o amigo porque este não via problema nenhum na própria mulher viajar de férias com o ex-marido e o filho adolescente dos dois. E ele, o amigo, enquanto isso, ficará no apartamento do tal ex-marido. Entendeu? São as múltiplas configurações da família nos dias de hoje. Saúde e até a próxima.
Garrafeiro Informal – Rua Saturnino de Brito, 64, Jardim Botânico (3874-0016)
- Você tá maluco, rapaz?!
Virei-me de leve para olhar.
- Onde já se viu uma coisa dessas! – continuou em sua estupefação o homem pálido com cara de fuinha, de camisa e calça sociais e cabelo impecavelmente repartido do lado.
Uma trama eclodiu mal cheguei ao Garrafeiro Informal (naquela rua em que muitas vezes cruzara de passagem, vindo do ônibus, para ir ao Piraquê jogar voleibol. Bons tempos). Por indicação de meu amigo Humberto Effe, que mora ali perto, fui conferir o relativamente novo bar da rede Informal, cuja filial do Jardim Botânico que lá existia entrou em obras e pouco depois virou Garrafeiro Informal. Como o nome modificado propõe, um bar dedicado às cervejas de garrafa – são mais de 20 rótulos.
Logo ao adentrar o boteco se percebe a intenção em dar um ar diferente em relação ao formato da bem sucedida rede de bares (que muito já frequentei, aliás). Há trechos de dizeres na estética do Profeta Gentileza, engradados de cerveja cenograficamente dispostos no salão, canecas no teto, um imenso São Jorge. Nas paredes azulejadas em branco e azul, pôsteres de algumas cervejas e prateleiras com inúmeras garrafas expostas. Se me pedissem uma interpretação pseudointelectualizada, arriscaria afirmar que rolou certa carnavalização do botequim, mas já que a decoração é assinada justamente por um carnavalesco, Mario Boriello, diria, como Benito di Paula, que “tudo está no seu lugar, graças a Deus”.
Peço uma cerveja Serra Malte ao garçom, mas logo aparece o gerente, que educadamente me explica que ainda não está bem gelada. Peço então uma Original e um balde com gelo com outras duas garrafas da minha escolha inicial. Eis que vejo passando na rua justamente o cantor e compositor Humberto Effe. Tinha ido dar uma corrida na Lagoa. Ele, que é da minha geração e também parceiro em duas ou três canções de que gosto muito, corre invejáveis nove quilômetros como se estivesse a passeio. Quando me vê, relaxando na varanda e tomando uma cervejinha, diz que está “com inveja”. Já eu penso com um travo de melancolia que a época em que cheguei a correr uma maratona está no museu das minhas memórias.
Humberto se despede e vai para casa. Ele será pai pela segunda vez e a sua mulher Tininha está grávida de primeira viagem. Sinto fome e peço um miniescondidinho de camarão, que vem excelente. É um dos pratos exclusivos do cardápio Garrafeiro (assim como o arroz com camarão, o espaguete com carne assada e o picadinho de carne). Estava tão bom que pedi em seguida uma porção de camarões empanados. Também muito boa.
O leitor a esta altura deve estar se perguntando: e a história do começo da coluna? Não esqueci, não. Guardei-a para o final. Aconteceu o seguinte: o homem pálido ficou indignado com o amigo porque este não via problema nenhum na própria mulher viajar de férias com o ex-marido e o filho adolescente dos dois. E ele, o amigo, enquanto isso, ficará no apartamento do tal ex-marido. Entendeu? São as múltiplas configurações da família nos dias de hoje. Saúde e até a próxima.
Garrafeiro Informal – Rua Saturnino de Brito, 64, Jardim Botânico (3874-0016)
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